Ronaldo na Casa Branca

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 21/11/2025)

Gostos não se discutem e, pensando bem, há muitas coisas a unir Ronaldo e Trump.


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Há pouco mais de uma semana, Cristiano Ronaldo tinha dito que gostava muito de poder conhecer pessoalmente Donald Trump, pois “é uma das pessoas de que gosto mesmo, porque acho que consegue fazer as coisas acontecerem, e eu gosto de pessoas assim. É uma daquelas pessoas que podem ajudar a mudar o mundo”. Gostos não se discutem e, pensando bem, há muitas coisas a unir Ronaldo e Trump: ambos sofrem de alguma, digamos, falta de humildade, a qual levou Trump a autocandidatar-se ao Nobel da Paz e Ronaldo a erguer um museu a si mesmo no Funchal; ambos são multimilionários (mais de mil milhões de euros de fortuna) — no caso de Trump já com quase mil milhões mais acrescentados desde que há 10 meses tomou posse, graças aos negócios que fez usando o cargo e o poder presidencial em seu favor, e no caso de Ronaldo trata-se de um estatuto recente mas que o deixou “muito orgulhoso”; nenhum dos dois é conhecido por ter inclinações filantrópicas como forma de se aliviar do peso de alguns desses milhões; e, finalmente, ambos têm ou querem vir a ter negócios das Arábias, nessa mesma Arábia. De facto, Trump, como qualquer Presidente da nação mais poderosa entre as nações, pode fazer “acontecer coisas” e até tem o poder de ajudar a mudar o mundo. Infelizmente, tem usado esse poder não para melhorar mas para piorar o mundo. O fim que decretou à USAID, a agência norte-americana de ajuda ao Terceiro Mundo, condenou friamente milhões de pessoas à fome, assim como o fim do Obamacare, que persegue, condenará milhões de americanos a ficarem desprovidos de quaisquer cuidados de saúde. Justamente, entre as muitas coisas de que Trump é acusado, talvez a principal seja a absoluta insensibilidade para com os pobres, os fracos, os desprotegidos — como os imigrantes que procuram nos Estados Unidos uma hipótese de sobrevivência digna.

Ronaldo na Casa Branca
Ilustração Hugo Pinto

Mas, como disse, gostos não se discutem. Cristiano Ronaldo queria muito, então, conhecer o seu ídolo Trump, e as circunstâncias fizeram-lhe a vontade. A oportunidade surgiu a propósito da visita de Estado a Washington do príncipe regente saudita Mohammed bin Salman, conhecido por M.B.S. ou por “o esquartejador”, depois de, conforme confirmado pela CIA, ter mandado matar e cortar às postas o jornalista saudita-americano Jamal Khashoggi, um crítico da Casa Real de Saud, que inadvertidamente se atreveu a entrar no consulado saudita de Istambul. Deduziu-se que Ronaldo terá integrado a comitiva a título de adoçante de boca de Trump e viajado no avião do príncipe, algumas 15 ou 16 horas desde Riade, só para poder apertar a mão do seu admirado Trump. Mas também se compreende o sacrifício do português, movido por dever de gratidão a recompensar o Reino Saudita e o Public Investment Fund, o fundo de Riade para o desporto, presidido por MBS, pelos cerca de um milhão de euros que dele recebe a cada 10 dias — coisa que enche de orgulho não só o próprio Ronaldo como também o povo português das redes sociais e do Chega, o mesmo que se indigna por um deputado levar para casa, ao fim do mês, cerca de 3000 euros ou um ministro 4500. Mas adiante, que cada um é livre de admirar quem quer e indignar-se só com o que quer.

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Temos, pois, que CR7, como gosta de ser tratado, cumpriu um dos seus sonhos de vida, inteiramente legítimo, mesmo que longe de ser consensual. Tudo estaria bem e ninguém teria nada a ver com isso se não fosse um pequeno detalhe: Cristiano Ronaldo é, por decisão própria, o capitão vitalício da selecção nacional de futebol, que se prepara para disputar o Mundial no próximo Verão, justamente nos Estados Unidos, além de México e Canadá. Perguntarão os alheados dos meandros da coisa: e isso é um cargo importante? A resposta é sim, ou não fosse ele o capitão há 15 anos e comportando-se como o primeiro entre pares e mesmo, segundo algumas opiniões, como o dono da selecção. E, então, voltarão a perguntar: há incompatibilidade entre uma e outra coisa, entre ser o capitão da selecção portuguesa e ocasionalmente uma espécie de embaixador itinerante da Arábia Saudita? Não, não há nenhuma, mas ser capitão de uma equipa, qualquer que ela seja e qualquer que seja a sua área de actividade, envolve direitos e deveres; não é só estatuto e honra­rias, também há obrigações. E sucede que o mesmo CR7 que na quarta-feira visitou o Presidente dos Estados Unidos, ao serviço da Arábia Saudita e no cumprimento de um desejo pessoal, três dias antes faltou a uma cerimónia oficial em que o Presidente de Portugal condecorou todos os jogadores portugueses que venceram recentemente a Liga das Nações. E fê-lo no final de um jogo em que se decidia a qualificação de Portugal para o Mundial e em que Cristiano Ronaldo não podia jogar por ter sido suspenso, após a sua primeira expulsão ao serviço da selecção, no jogo anterior. Não podia jogar, mas podia e devia estar no lugar onde devia estar o capitão da equipa: ao lado dos seus companheiros num momento decisivo, em lugar de voltar a correr para casa, na Arábia, após o jogo anterior e de lá limitar-se a en­viar incentivos pelo FB: “Vamos com tudo!”, uma frase hoje repetida à exaustão pelos jogadores de futebol, na ausência de outra mais inspirada. E isto acontecendo quando ainda estava bem presente na memória de todos idêntica ausência do capitão Ronaldo no funeral do seu colega de selecção Diogo Jota, morto num acidente de carro no Verão passado. Aí, enquanto se via o seleccionador Roberto Martínez, vindo dos Estados Unidos, onde estava de férias, ou Van Dijk, o capitão do Liverpool, a equipa onde jogava Diogo Jota, vindo de algures, também de fé­rias, a Cristiano Ronaldo ninguém o viu: continuou algures de férias. Ou, como muito depois explicou, não apareceu porque não quis, com a sua presença, roubar as atenções ao funeral do companheiro de equipa. Uma questão de modéstia, portanto.

Entendam-me, patriotas: eu detesto a ingratidão, sei muito bem e não esqueço tudo o que Cristiano Ronaldo deu ao futebol português e à selecção portuguesa. Mas isso não faz dele uma divindade intocável, como o trata a nossa dócil imprensa desportiva. Não creio que tenha sido o melhor futebolista de sempre, porque esse, para mim, foi e é Messi, nem mesmo julgo que tenha sido o melhor português de sempre, porque ainda me lembro de Eusébio. Mas foi, creio, o melhor atleta que o futebol já viu, talvez o mais sério profissional de sempre deste desporto e seguramente o maior contribuinte para os êxitos da nossa selecção. Infelizmente para Ronaldo, hoje, quando ele não joga, a selecção farta-se de marcar os golos que, com ele em campo, não consegue marcar, jogando obsessivamente para ajudar o capitão a chegar à tão ansiada marca de mil golos em jogos oficiais. E, no último jogo, dois livres marcados por outros na sua ausência resultaram em golos, enquanto com ele a jogar e com o seu monopólio da cobrança de livres já perdi a memória de quando terá sido o último que resultou em golo de Portugal. Mas isso são detalhes, que apenas acentuam a sensação de que, depois de tantos anos a dar muito à selecção, Ronaldo entenderá, hoje em dia, que é de justiça que seja a selecção a estar ao seu serviço. E quando, na função de capitão, ele quer fazer passar aquela imagem de patriotismo feroz, a cantar o hino e tudo o mais, como que querendo confundir a sua pessoa com o próprio país, não pode evitar que essa imagem perdure depois para o bem e para o mal. De facto, já li um jornalista (e mais vou ler, certamente) derreter-se de orgulho por Ronaldo ter “representado Portugal” na Casa Branca. Como convidado de um Presidente que nesse mesmo dia tratou duas jornalistas por “terrible person” e “piggy”, porque não gostou de perguntas delas, e de um príncipe regente que mandou matar e esquartejar outro jornalista, porque não gostava do que ele escrevia — detalhes. Detalhes que, então, não podem ofuscar o orgulho de ver CR7 e Georgina na Casa Branca de Donald Trump. E depois de ter visto tal, mais o saltitante ministro da Reforma Administrativa a anunciar o país como um dos futuros líderes mundiais de IA na Web Summit, só possa juntar-me ao coro dos patriotas: viva, viva Portugal!

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Nunca sirvas quem serviu

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 31/10/2025)

O que mais me impressionou pelo ridículo foi a ideia, passada por toda a direita, de que adquirir a nacionalidade portuguesa é um privilégio raro, como se fôssemos um país de excelência e de referência.


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André Ventura é novo demais para ter conhecido na pele o que foi, no seu sufocante dia-a-dia, o Estado Novo, de Oliveira Salazar. Mas isso não é desculpa que sirva: eu também não vivi o nazismo mas não finjo não saber o que foi. André Ventura não ignora — apenas mente, omitindo os factos — que o regime anterior era corrupto até à medula, era corrupto por natureza e da forma mais amoral possível. A corrupção não se pagava habitualmente em dinheiro, pagava-se com empregos ou oportunidades de negócio, de um lado, e com lealdade política, do outro. A “cunha”, o “empenho”, a “palavrinha”, era aquilo que o corruptor de baixo buscava, dando em troca juras de fidelidade a Salazar. Era assim, por exemplo, que a PIDE recrutava muitos dos seus, que lhe chegavam pelo empenho do primo do ministro, do chefe local da Legião ou do partido único, ou mesmo do padre da aldeia. Vir para Lisboa trabalhar na PIDE era mais do que um emprego: era uma forma de promoção pessoal e social e um lugar de poder e intimidação. Em troca, os novos recrutas começavam o “estágio” por participarem “voluntariamente” nas sessões de espancamento dos presos políticos, subindo depois na escala da lealdade e das patifarias (e por isso é que em 25 de Abril de 74 não havia pides inocentes). Mas também havia a alta corrupção, aquela reservada exclusivamente aos fiéis do regime, não apenas aos lugares superiores da Administração Pública (onde só se acedia mediante uma jura de fidelidade), como igualmente aos grandes negócios, no continente e nas colónias, depois de demonstrada suficientemente a obediência inquestionável a Salazar. António Champalimaud atreveu-se a discordar e pagou isso com anos de exílio. Salazar, um homem intelectualmente cobarde, incapaz de enfrentar a discordância e mesmo o debate, foi o grande corruptor da nação, um corruptor de almas e de consciências, a pior das modalidades de corrupção (“O velho abutre é sábio e alisa as suas penas/a podridão lhe agrada e os seus discursos/têm o dom de tornar as almas mais pequenas.”)

Ventura não é ignorante, como finge para melhor cativar a legião de ignorantes que votam no Chega, nem é, menos ainda, estúpido, como outros que o rodeiam. Duvido muito que seja até saudoso do salazarismo ou de um regime como foi o do Estado Novo. O que ele é, sim, é um oportunista e um demagogo sem freio nem vergonha. Para corromper almas e conquistar votos entre a turbamulta dos alienados que o seguem, ele não tem escrúpulos em dizer-lhes tudo o que eles querem ouvir, seja o elogio de Salazar ou o de Estaline, se vier a propósito.

Sim, já oiço os “chegados”dizerem: este é um texto elitista de quem despreza o povo que vota no Chega e que se acha superior só porque leu uns livros e viu uns filmes (e não tem redes sociais). Pois bem, lamento desarmá-los logo: este é mesmo um texto elitista e, sim, eu tenho um profundo desprezo pelo povo do Chega. Mais, não acredito no futuro feliz de uma nação em que o “povo” — ou os políticos como Salazar ou Trump — se empenha numa batalha mortal pelo silenciamento das suas elites. São elas que fazem progredir os países, são elas que lançam as discussões que interessam para o futuro dos povos e para um mundo fundado na liberdade e na justiça. O povo, esse, está mais interessado e mobilizado em votar nas eleições no Benfica do que em votar para defender a democracia nas eleições políticas. E quando o povo ou os políticos obtêm êxito no silenciamento e afastamento das elites, triunfa a mediocridade, o oportunismo e a obediência de rebanho.

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De facto, eu não tenho grande admiração pelos portugueses, fui deixando de a ter à medida que eles próprios se foram achando cada vez melhores. Claro que conheci e conheço alguns portugueses notáveis, na sua profissão ou nos seus princípios, mas raramente vi serem-lhes reconhecidos e aproveitados os seus méritos. Ser pensionista, ser sindicalista da Função Pública ou ser influencer das redes sociais é mais reconhecido e mais gratificante. É por isso que eu jamais seria capaz de fazer política, de andar por aí, de aldeia em aldeia, a escutar respeitosamente o estimado povo, gritando que bons que eles são e que horrendos que são os políticos “corruptos” — o discurso de André Ventura. Não, definitivamente não enxergo a superioridade patriótica da ignorância militante ou a vantagem do saudosismo ditatorial.

Neste recente debate parlamentar sobre a nova lei da nacionalidade — feito sob bullying do Chega e cagaço do PSD — o que mais me impressionou pelo ridículo foi a ideia passada por toda a direita de que adquirir a nacionalidade portuguesa é um privilégio raro, como se fôssemos um país de excelência e de referência onde toda a gente quer viver e de que toda a gente gostaria de ser nacional — não podendo, infelizmente para eles, sentirem “o mesmo sangue português a correr nas veias”, na imortal declaração da deputada Cristina Rodrigues, do Chega. Como país de excelência, convém recordar que, a despeito da imensa carga fiscal a que o Estado recorre todos os anos para sustentar o seu sempre maior desvario despesista e a clientela eleitoral dos Governos, nada do que é importante e que o Estado deveria assegurar funciona: a saúde, a educação, a habitação, o investimento público, a justiça, o combate aos incên­dios, as fronteiras dos aeroportos, o que quer que seja. Apostamos tudo na monoindústria do turismo de massas, mas nem sequer somos capazes de montar um sistema decente para que os turistas não precisem de horas para passar a fronteira. Não estamos particularmente motivados para fazer filhos ou trabalhar, preferindo antes depender de mão-de-obra importada e mal paga, mas ainda nos damos ao luxo de tratar os imigrantes como indesejáveis e de afixar cartazes a avisá-los de que “Isto não é o Bangladesh” (querendo sugerir o quê? Que se vão embora e deixem avançar para as suas tarefas o povo trabalhador do Chega?). Passaremos a exigir agora aos candidatos “à honra e responsabilidade” de se tornarem cidadãos portugueses (Luís Montenegro dixit), além de saberem falar a língua e estarem cá há 10 anos, conhecimentos da cultura portuguesa, da organização política e valores democráticos da sociedade portuguesa e uma declaração escrita de “adesão aos princípios da República” — coisas que raros votantes e poucos deputados do Chega seriam capazes de ultrapassar sem batota.

Na verdade, os portugueses não têm assim tantas razões de queixa: acreditam que os dinheiros europeus, que nos sustentam há 50 anos, nunca terão fim; acreditam que nunca terão de ser eles a lavar as ruas, tratar dos velhos, apanhar frutos vermelhos ao sol de Verão, andar a pôr tijolos nas casas de que os nossos filhos têm necessidade; acreditam que podem tratar do alto da burra quem veio para cá fazer tudo isso, porque eles, felizes por estarem a viver num país tão extraordinário como Portugal, tudo encaixarão sem se irem embora, e acreditam ainda que, apesar de se trabalhar cada vez menos e pior, a situação deles vai ter obrigatoriamente de melhorar — nem que para isso seja preciso recorrer ao fantasma de Oliveira Salazar ou ao espantalho de André Ventura. Tudo visto, só se arrisca a democracia, que não é assim tão importante. Mas numa coisa somos bons: a fazer ditados para as ocasiões. Como este: nunca sirvas quem serviu.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Voando sobre uma terra de cucos

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 10/10/2025)

Tudo visto e apurado, o Governo limitou-se a dar seguimento a uma tradição imutável da nossa política externa — a subserviência perante os Estados Unidos, Israel e Angola, por esta ordem.


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Então, recapitulemos: é verdade que o primeiro-ministro garantiu que Portugal não aceitaria a passagem de armas para Israel, mas caças F-35 não são armas, esclareceu ele, são brinquedos, daqueles que um ex-embaixador americano em Lisboa dizia que os nossos chefes militares tanto gostam e com os quais nos preparamos para ir gastar — segurem-se — 5 mil milhões de euros. É verdade que, por denúncia unilateral dos Estados Unidos, as Lajes deixaram de estar concessionadas a uma base aérea americana permanente, mas isso não impede que possa ser livremente utilizada por eles, sem contrapartidas e sempre que lhes convier — como para ajudar o amigo israelita, tal como em 1967 ou em 1973. Também é verdade que, apenas por uma questão de manter as aparências sobre a nossa soberania, os americanos estão vinculados a pedir autorização de sobrevoo e aterragem previamente, mas, como se viu no caso, nem é necessário que recebam uma resposta formal: basta que não haja resposta breve e está concedida a autorização por “deferimento tácito”, como sucede com um banal acto administrativo. É ainda verdade que estes factos, revelados por um jornal espanhol, ocasionaram uma imensa trapalhada no Governo, com a Defesa e os Negócios Estrangeiros a empurrarem culpas um para o outro e o PM a desabafar que não percebia tanta histeria sobre o assunto. De facto, tudo visto e apurado, o Governo limitou-se a dar cumprimento a uma tradição imutável da nossa política externa — a subserviência perante os Estados Unidos, Israel e Angola, por esta ordem —, especialmente marcante quando está em funções um Governo de direita (lembrem-se da Cimeira das Lajes e de Durão Barroso a dizer que tinha visto provas indesmentíveis da existência de armas de destruição maciça no Iraque).

2 Como toda a gente percebeu, o CDS já não existe: estava morto e não sabia, como escreveu Cesare Pavese no “Ofício de Viver”. Aquilo que Luís Montenegro generosamente fez nem foi a impossível ressurreição de um cadáver, mas apenas dar uma oportunidade de emprego a Nuno Melo e a três amigos seus, depois de anos sem fim no bem-bom de Bruxelas. Mas, volta e meia, Nuno Melo empertiga-se, Paulo Núncio estrebucha na sua inconsciência gravatal e a gente do CDS que resta nas televisões lança umas atordoadas para cima da mesa, para ver se os distinguem do Chega. Ultimamente, o tema é quase sempre Israel, de cujos crimes o CDS e a nossa extrema-direita são acérrimos defensores, em nome, pasme-se, da civilização e dos valores cristãos. Com a história da flotilha para Gaza, Nuno Melo derreteu-se de prazer, esquecendo-se de que é membro menor de um Governo, que não lhe cabe a política externa desse Governo e que nele se representa apenas a si mesmo e não a um partido inexistente. Resultado: um chorrilho de disparates. Dizer que os integrantes da missão eram apoiantes dos terroristas do Hamas, como se os 2,2 milhões de palestinianos de Gaza fossem todos do Hamas, é típico do discurso propagandístico de Israel. E dizer que eles iam em direcção a um “território ocupado por terroristas” até está certo, embora seja o oposto do que quis dizer: Gaza é, de facto, um território ocupado, e ocupado por quem já matou 67 mil dos seus habitantes, ao serviço do Governo terrorista de Benjamin Netanyahu. Porque é que ele não se informa?

3 No ano passado, o SNS gastou 627 milhões de euros em cirurgias feitas em horas extraordinárias e pagas como tal. O esquema — porque é disso que se trata — permitiu a dermatologistas, ortopedistas e cirurgiões de outras especialidades (curiosamente, não urgentes) acumular súbitas fortunas não justificáveis e explica porque é que o SNS dobrou practicamente os seus custos em menos de cinco anos. Só não explica como é que os administradores hospitalares, os chefes de serviço, o Ministério assistem, conformados, a uma situação em que metade das cirurgias, em média, é feita fora do horário normal (no Porto, são só 20%). O que farão estes cirurgiões durante as horas de expediente?

4 São coisas destas que levam o Conselho das Finanças Públicas (CFP), na esteira de outros organismos, a prever que Portugal regressará já aos défices este ano, a menos que o Governo recorra a alguns truques de contabilidade bem conhecidos. Mas, a partir de 2026, não escaparemos nem com contabilidade criativa. A situação é tão transparente de ver que chega a ser irritante: o Governo da AD recebeu as contas públicas com um superavit de 1,2%, correspondente a 2,3 mil milhões de euros em caixa — a herança socialista. Dois anos e duas eleições depois, após ter satisfeito todas as reivindicações do funcionalismo público e de ter atirado sucessivos pacotes de dinheiro aos pensionistas, prepara-se para ver as contas públicas regressarem ao vermelho. Digam os ministros o que disserem, vai ser difícil justificar isto. Pelo que, segundo ainda o CFP, é de esperar que o Governo lance mão da arma mais a jeito: abandonar ou adiar até possível os investimentos a serem feitos com financiamento bonificado do BCE, mas que contam para o défice. Esgotamos, se o conseguirmos, os investimentos financiados a fundo perdido e, quando for necessário entrar com dinheiro para aproveitar juros baratos e uma oportunidade de apostar no desenvolvimento, passamos. Traduzindo: o Governo abdica de investir na economia para poder gastar dinheiro em despesa corrente e permanente. Para ganhar eleições.

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5 Quando não se esgota na exigência de aumentos dos salários e pensões ou na acusação ao PS de estar ao serviço da direita — um mantra que eu imagino que seja de cumprimento semanal obrigatório para um secretário-geral do PCP —, Paulo Raimundo gosta de produzir frases que imagina de efeito instantâneo, tipo quizz, e em estilo irónico-evidente, como se acabasse de descobrir a pólvora. A última destas foi a afirmação de que “o povo não come PIB”. Mas está enganado: come, sim. Eu explico: o PIB representa toda a riqueza produzida num país, seja na indústria, na agricultura, nas pescas, nas minas, nas exportações, e é o resultado do esforço de todos — trabalhadores, empresários, investidores, Estado. O PIB português foi de 290 mil milhões de euros no ano passado, mas se por azar vivêssemos num país africano mediano seria, talvez, de 29 mil milhões, 10 vezes menos. Haveria portugueses a passar fome a sério, muito mais deficiências na Saúde pública, nos transportes, na qualidade de vida em geral, porque quanto mais rico é um país melhor vivem os seus. Isto, que é do senso comum, ainda não entrou na cabeça dos comunistas portugueses, amarrados a mandamentos pré-históricos do marxismo-leninismo, para o qual quanto mais pobre e desigual for um país mais hipóteses de sucesso terá a revolução comunista. A História, porém, tem-se encarregado de mostrar que, quando podem escolher, os povos preferem o primeiro cenário, preferem o PIB. Porque é que Paulo Raimundo também não se informa melhor?

6 A procuradora-geral da República, que passou à História como aquela que conseguiu derrubar um Governo de maio­ria absoluta com um simples parágrafo em que lançava para o ar suspeitas sobre a idoneidade do primeiro-ministro, foi sucedida por um PGR que acha absolutamente normal que, dois anos volvidos, o Ministério Público (MP) a que preside continue a investigar se esse PM foi ou não corrompido. E que acaba agora de declarar que também acha absolutamente “regular” que o MP ande três anos a investigar, seguir e devassar a vida de um juiz de instrução de quem não gosta, abrindo-lhe quatro diferentes inquéritos, escudado numa denúncia de corrupção supostamente anónima e fundada em supostos factos facilmente desmentíveis. Naquela casa confundem autonomia com arrogância e roda livre, e nem o apelo a uma reflexão por parte do Presidente da República os faz pensar. Pior para eles: não querem reflectir a bem, talvez tenham de o fazer a mal, quando o Estado de Direito, que assim vão descredibilizando, conduzir ao poder os populistas que se alimentam desse descrédito. E a autonomia do MP for uma das primeiras coisas a ser sacrificada.



P.S. 1 — Brilhante, corajoso e inteligente o programa de Filomena Cautela sobre as redes sociais, na RTP1, esta semana. Devia passar em todas as aulas de cidadania, em todas as escolas do país.

P.S. 2 — Este artigo foi escrito antes de ser anunciado que estava fechado um acordo de paz para o Médio Oriente.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia