Arraia-miúda

(Raquel Varela, in raquelcardeiravarela.wordpress.com, 14/06/2022)

Em pleno dia 10 de Junho a sequência das notícias fala por si. Marcelo vai a Inglaterra, elogiar a “arraia miúda” , fala da aliança Portugal-Inglaterra (uma dependência, nunca foi “aliança”), a seguir condecora um enfermeiro imigrado, que obviamente fugiu dos baixos salários e más condições de carreira, e logo a seguir – na mesma sequência de noticiário – temos as urgências de obstetrícia fechadas, numa semana em que se suspeita da morte de um bebé, por eventual ausência de cuidados de saúde.

Um país a saque. Em que a burguesia sente orgulho do desastre, vendem o país, expulsam trabalhadores, condecoram-nos e ainda, da casa-mãe Inglesa, se chama ao povo “querida petinga”, com um ar de complacência com o povo. Só perderam de facto esse ar em 74-75, esta burguesia dependente e súbdita, quando tiveram medo e o povo deixou de ser um emblema na lapela e ganhou direitos.

No ano em que as misericórdias foram expropriadas, e os médicos ocuparam (literalmente) hospitais, os colocaram sob gestão democrática, e ergueram as carreiras médicas, que permitiram construir um SNS. Esse passado assustador para as elites que têm médicos privados 24 horas por dia, passado que convém embrulhar na noção de “caos”, e oferecer um eterno presente de discursos extravagantes e elogios ao 25 de Novembro. Nem um pingo de noção histórica, e nem um pingo de decoro sobra.


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O Nazismo e a Ucrânia

(Raquel Varela, in Blog raquelcardeiravarela.wordpress.com, 28/04/2022)

Uma nota rápida inicial: sobre a cruz de ferro ser ou não um símbolo nazi, que alguns jornalistas, em vários media, concluíram que não é. Em história trabalhamos com factos, indispensáveis, mas não trabalhamos só com factos, trabalhamos com contextos, estruturas, dinâmicas, processos, teorias, a história é um filme, não é uma fotografia; e em jornalismo também não deveria ser assim. Caso contrário bastaria alguém – até um computador hoje – coleccionar factos, colocá-los numa linha do tempo, e podíamos dispensar o trabalho dos historiadores. Toda a automação e pressão algorítmica vai aliás nesse sentido para o jornalismo…Muitos jornalistas, infelizmente, acreditam que a sua profissão está resumida a elencar factos.

Aquilo que é a Ucrânia é um país nascido no século XX do colapso dos impérios na I Guerra, passou por várias disputas entre elas movimentos anarquistas contra os exércitos anti bolcheviques brancos, que depois se rebelaram contra os bolcheviques também; mais tarde a Ucrânia – essencial às tropas nazis pela sua capacidade produtiva de trigo e milho, a base de qualquer alimentação – , foi o palco de recrutamento de aliados pró-nazis (descritos magistralmente em As Benevolentes), porque Estaline tinha feito aí a brutal colectivização forçada. Hitler foi recebido bem na Ucrânia, por isso. Até começar a pilhar os camponeses locais e estes terem feito um aliança para derrotar os nazis, mas sempre assente num nacionalismo radical. Um dos líderes pró nazi, que se tornou herói nacional, é Bandera, que é o inspirador do Batalhão Azov, um dos batalhões que até há pouco tempo toda a imprensa internacional classificava de “milícia neonazi” ( e as ONGs ainda classificam) e agora são “resistentes nacionalistas”. Este símbolo passou a ser usado, com outros, pelos neonazis ucranianos, e pelos nacionalistas ucranianos. O Chega foi ouvir Zellensky à AR no dia 25 de Abril ostentando, como sempre, a bandeira de Portugal na lapela, e o braço ao peito. Neste contexto a bandeira de Portugal é evidentemente um símbolo de extrema-direita como o é a cruz de ferro.

O mais importante é isto. Toda a história desta guerra, supostamente para “desnazificar a Ucrânia” tem tido o efeito contrário. Essa é uma das grandes consequências desta guerra. A Ucrânia é hoje o palco de uma nazificação acelerada, que a invasão russa (e a resposta bélica da NATO) só veio acentuar.

A normalização na UE e no mundo ocidental da extrema direita, sob a capa de resistência do povo ucraniano tem permitido a incorporação destas milícias no exército, o seu treinamento pela NATO, a abolição de partidos políticos, jornalistas, perseguições a gente de esquerda e imposição da censura nos media ucranianos – um clima explosivo feito sob a lei marcial em nome de salvar “o povo ucraniano”.

A guerra da Ucrânia criou mais nazis do que toda a extrema-direita junta nos últimos anos em qualquer país, armou-os, preparou-os militarmente, e sobretudo, o mais perigoso, naturalizou-os. Hoje, estes nazis, ontem banidos e proibidos, são legais, foram reintegrados pelo Facebook e por outras redes sociais, e nos jornais aparecem como “nacionalistas”.

Não tenho dúvidas que a maioria do povo ucraniano não é nazi, como não tenho dúvidas do peso que hoje têm os nazis na direcção do Estado ucraniano, na direcção militar, política do país. Zellensky ostenta a cruz de ferro porque tem uma alienação objectiva, em guerra, com neonazis e nacionalistas. Isso não torna a invasão russa legítima, mas tão pouco torna Zellensky o líder que povo ucraniano mereceria para resistir.

A outra grande questão interessante é tentar perceber que tipo de país é a Ucrânia para ter sido tão facilmente transformado num Estado que permite milícias nazis (portanto o Estado, pelo menos desde 2012/14, tinha perdido o monopólio da violência), e como foi transformado, também com relativa facilidade, num palco de uma guerra entre os EUA e a China, e seus aliados, UE e Rússia. A hipótese da Ucrânia como um Estado falhado é uma hipótese real. Um Estado corrupto, que perde o monopólio da violência, e mais de 15% da população activa a fugir dos baixos salários, é um Estado inviável – como a UE vai descalçar a bota da adesão é o que vamos ver nos próximos anos.

Entretanto o país está destruído, conquistado a leste pela Rússia, e a ocidente, onde os camponeses nacionalistas têm força (a Ucrânia tem uma das maioires populações europeias na agricultura porque até Zellensky era proibido vender as terras herdadas das leis pós queda do Muro, e agora estas terras vão passar a estar concentradas e sob a égide de multinacionais da UE). Portanto, uma nova vaga de migrantes do Oeste, fugidos à expropriação de terras (“venda” de terras em economês liberal), outros à guerra no Leste, espera-se nos próximos anos. Ou seja, um Estado a desaparecer, a Oeste e a Leste. Que deu entretanto à UE mão de obra barata, à Rússia domínio geopolítico, à NATO/UE venda de armas, e à China/Rússia e aos EUA um campo de disputa onde se medem forças pelo domínio do mundo, e não só da Ucrânia.

Um protetorado russo de um lado, uma semi colónia da NATO do outro, e claro, um ninho de neonazis, que voltarão aos nossos países, com treinamento e armas, para fazer o que sabem – perseguir gente de esquerda, sindicalistas, intelectuais de esquerda e democratas. Tudo apoiado pela UE para “salvar a Ucrânia”. Uma cruz, de ferro.


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De que matéria se faz uma guerra?

(Raquel Varela, in Ionline, 05/04/2022)

A grande maioria dos historiadores é suficientemente virtuoso para esquecer os motivos frívolos que os fautores das guerras apresentam. Discursos dramáticos, propaganda de valores morais auto atribuídos, tudo com os anos se enche de pó em caixas que acabam, quando muito, num livro de curiosidades à venda num aeroporto. O assassinato do arquiduque Francisco Fernando é o facto menos relevante da Primeira Grande Guerra, ninguém ensina que é a causa da guerra. Mas afinal qual é a razão da guerra em curso?

Durante a Primeira Guerra Mundial, o jornalista John Reed, convidado a discursar num clube das classes dirigentes dos EUA, deu uma resposta contundente à pergunta que os seus anfitriões lhe fizeram: “Quais as motivações desta guerra?” “Profits”, respondeu ele. Lucros. A grande motivação dessa como de outras guerras.

Nem todos os metais raros têm a mesma importância. Esta é definida por três razões: a sua disponibilidade (a sua raridade), localização e importância na cadeia de produção. Metais raros são um grupo de cerca de 60 (segundo dados de 2010 e 2014).

Devido às suas propriedades óticas, químicas e magnéticas, eles são fundamentais para baterias de carros, eólicas, indústria aeroespacial, medicina, robótica, automação, segurança cibernética, biotecnologias, nanotecnologia, iluminação, catalisadores, indústria militar.

Entre eles há 17, os mais estratégicos, considerados como “terras raras”, 15 mais o ítrio e o escândio. Em geral, estes materiais são produzidos em muito pequena quantidade (por vezes escassas toneladas), muito longe da produção de cobre, por exemplo – produzem-se 15 milhões de toneladas de cobre anualmente. Para se ter uma ideia do que falamos, algumas das matérias raras atingem um preço superior ao do ouro (50 mil ou mais euros por quilo).

Parte destes materiais são considerados críticos para a UE devido à “vulnerabilidade do abastecimento”, ou seja, veem de países onde há conflitos e guerras, há monopólios, ou por fatores ambientais. O grau de vulnerabilidade é ainda definido pelo grau de necessidade nas indústrias mais lucrativas. É o caso das terras raras, do crómio, tungsténio, antimónio, índio, nióbio, gálio, silício, grafite, magnesite, antimónio, entre outros. A produção destas matérias-primas está muito concentrada em poucos países, com a China à cabeça, a Rússia (grupo das platinas) África do Sul, Brasil, Turquia, Congo, Estados Unidos e Cazaquistão.

As terras raras (o conjunto de 17 materiais) não são raras pela quantidade em que ocorrem, apenas pelas necessidades mundiais e concentração em poucos países. São aplicadas nos ímanes das eólicas, painéis solares, lâmpadas de baixo consumo, baterias dos carros elétricos, catalisadores, lasers, mísseis, óculos de visão noturna, indústria aeronáutica, aparelhos médicos de diagnóstico, submarinos. Sem eles não há “transição energética”. As reservas mundiais estimam-se em 124 milhões de toneladas, das quais 44 milhões estão na China, 22 milhões no Vietname, 22 milhões no Brasil, 12 milhões na Rússia e 6 milhões na Índia. Recordo que destes cinco países, quatro abstiveram-se de condenar a invasão russa, só o Brasil votou a favor. A China detém não só as maiores reservas, como produz atualmente 90% das terras raras do mundo.

A Rússia e a Ucrânia produzem 25% do trigo mundial e, em alguns, casos a Rússia metade dos adubos, essenciais para a produção de soja no Brasil, carne na Argentina, por exemplo. A UE é dependente do gás e petróleo russos. A substituição do gás da Rússia pelo gás dos EUA tem custos materiais e ecológicos insuportáveis (na produção, porque parte em fracking; na liquefacção, gaseificação, transfer, transporte). Para liquefazer o gás norte-americano e transportá-lo é necessário arrefecê-lo a 162 graus Celsius, com um brutal gasto de energia e poluição. Os gasodutos estão construídos de leste para oeste e ramificam-se quando entram dentro de cada país, inverter isto tem custos astronómicos. É como uma barragem para um regadio e não o contrário. A anunciada venda dos EUA à UE que fez reluzir Biden não cobre nem 10% do que a EU importa este ano da Rússia. Além disso, a imaculada Noruega, com o parque automóvel mais eletrificado do mundo, tem como contraponto a cidade de Antofagasta, no Chile, que exporta minérios para as limpas “economias verdes” e que tem uma das taxas de cancro respiratório mais altas do mundo (10%).

Os seis metais industriais mais produzidos no mundo são o ferro, alumínio, crómio, cobre, manganés e zinco e são fundamentalmente produzidos na China, Rússia, Índia, Brasil, EUA, Canadá, Austrália, África do Sul, Cazaquistão e Turquia. Nenhum país europeu. O urânio, essencial para a energia nuclear, que a UE defende como alternativa, tem no Cazaquistão 43% das reservas mundiais.

Uma curiosidade: cada telemóvel contém 65 a 70 materiais diferentes, parte deles raros, entre os quais oito “terras raras”; cada carro elétrico tem entre nove e 11 quilos de “terras raras”; cada um dos grandes aero geradores precisa de uma tonelada de metais raros.

 O Médio Oriente está devastado por ser alvo da disputa pelo petróleo, o Norte de África, do gás, a Nigéria, do petróleo, a guerra de Cabo Delgado é por estes recursos, a do Iémen e do Ruanda também foi. Há no mundo 82 milhões de refugiados, a fugir das guerras desta disputa mundial. Hoje, tudo indica que a Ucrânia é o palco de guerra por uma redefinição dos blocos económicos e militares, em que a disputa destas matérias-primas à escala mundial é essencial para uma economia baseada no lucro e não nas necessidades da vida.

 A única economia verde sustentável seria a redução do horário de trabalho sem redução salarial, encerramento de fábricas à noite, melhores relações cidade/campo, fim da especulação imobiliária, melhores transportes públicos, tempo de lazer, fim da obsolescência programada. Em vez disso, fábricas laboram noite adentro, retirando o último sopro de força anímica aos milhões de trabalhadores que na UE, sem qualquer necessidade, trabalham de noite. O modelo de acumulação esgota os trabalhadores e esgota os recursos, e leva o mundo para a guerra. É anti-ecológico, com ou sem baterias de lítio. A militarização da UE seria atirar gasolina para este fogo. E, ao contrário do que se pensa, faltam bombeiros na UE.

A União Europeia assegura-nos que a paz duradoura e a estabilidade política no continente e no mundo têm como elo fulcral de mediação a UE, que seria o reduto da democracia e dos direitos humanos, salvaguardando os princípios de um livre mercado regulado enquanto última instância de toda e qualquer liberdade. As suas regras, a um só tempo, “firmes e flexíveis.” Os seus leitmotifs combinariam a solidariedade e a eficiência. Durante 30 anos a fio – de 1992 a 2022 – venderam o peixe da chamada “Cultura de Paz” como produto fresco das águas europeias. Mas há algo de podre neste reino arquetípico: as disputas por matérias-primas, e os maiores conflitos armados do mundo na história contemporânea, tiveram a mão de “oligarcas” e Estados europeus.

A prazo, creio, que iremos olhar esta guerra – que porventura irá parar em breve, mas pode tornar-se mundial dentro de poucos anos – como uma tentativa dos Governos ocidentais de socorrerem as suas empresas para tentarem sair da crise estrutural de acumulação. Crise provocada pela intensificação da concorrência na globalização, avançando para a exploração direta, sem intermediários, de matérias-primas da Rússia, e para a disputa com a China destas matérias e mercados.

Sem estas matérias-primas não haverá reconversão industrial 4.0 e acordo “verde”, o “milagre europeu” será impossível (o custo da reconversão verde sem mudar de modelo económico seria a destruição do Estado social pela canalização de recursos da saúde, educação e reformas para a restruturação “verde” e a economia de guerra). Do outro lado são o capitalismo russo e o capitalismo de Estado chinês e – quem sabe? – o indiano que disputam à escala mundial os lugares no pódio da acumulação. É o capitalismo, de todos os lados, que está à beira do precipício e dá um passo em frente. Os motivos apresentados são a defesa do “mundo livre” de um lado, da “segurança” do outro. A Ucrânia é hoje o palco regional de uma disputa mundial. Quem no terreno morre são os filhos das classes trabalhadoras e médias, quem paga a guerra somos nós, contribuintes, com a degradação da qualidade de vida, saúde, educação. Bem-vindos à barbárie!

Fonte aqui


Raquel Varela, Historiadora, autora de Breve História da Europa (Bertrand, 2018).

Fontes: Atlas Mondial des Matières Premieres

Bernadette Mérenne-Schoumaker e edição da National Geographic de Março de 222 sobre Terras Raras.


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