O gourmet da vichyssoise e o país que já não tem paciência para sopas frias

(Luís Rocha, in Facebook, 12/02/2026, Revisão da Estátua)

Ana Abrunhosa, Presidente da Càmara de Coimbra

(A Estátua não resiste a sublinhar a assertividade política e a qualidade literária deste texto. Parabéns ao autor.

Estátua de Sal, 12/02/2026)


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Há políticos que governam. Há políticos que trabalham. E depois há os que degustam. Marcelo Rebelo de Sousa pertence a esta última categoria. O gourmet da vichyssoise institucional, o homem que passou dez anos a provar a temperatura da sopa da República, soprando dramaticamente para as câmaras, comentando a textura democrática do caldo e explicando, com aquele ar de professor que já corrigiu mil testes, que talvez faltasse um pouco mais de sal narcisista.

Durante anos, foi o chef mediático de Belém. Selfies como amuse-bouche, abraços como entrada, comentários omnipresentes como prato principal. De sobremesa um afecto servido morno, sempre fotogénico, sempre pronto a ser partilhado nas redes sociais como quem publica a fotografia de uma sopa artesanal com hashtag # Instituições.

E no entanto, eis que chegamos ao fim do serviço e o crítico gastronómico chamado “opinião pública” decidiu deixar a crítica no Tripadvisor democrático e a popularidade caiu para níveis que já não lembram estrela Michelin, mas antes cantina de repartição pública às quatro da tarde. As sondagens do segundo mandato mostraram uma descida clara, avaliações negativas a crescer, a aura consensual a evaporar como vapor na panela esquecida no fogão. O chef continuava a explicar a receita, mas o público já tinha perdido o apetite.

Recordemos aquele momento sublime em que, qual sommelier da execução orçamental, decidiu repreender publicamente Ana Abrunhosa, então Ministra da Coesão Territorial, com a delicadeza de quem prova um creme e anuncia em voz alta: “Se isto não estiver à altura, não lhe perdoo”. A frase ecoou com aquele tempero clássico de vaidade televisiva. Não bastava alertar, era preciso fazê-lo em direto, com pose, colher na mão e sobrancelha arqueada. Um toque de pimenta mediática para reforçar o sabor da autoridade.

Ora o destino tem sentido de humor. Anos depois, quem termina o mandato com o travo amargo não é a ministra, agora autarca, mas o próprio chef presidencial. A dona da cozinha municipal revelou-se sólida, pragmática, menos interessada em filtros e mais em obra concreta. Já o gourmet de Belém ficou preso à mise-en-scène.

Entretanto, o país ofereceu-nos outro momento de alta cozinha política durante as cheias do Mondego. O rio subia, a autarca evacuava populações, a lama avançava como molho demasiado espesso. E no meio do cenário quase bíblico, o Primeiro-ministro resolveu brindar a nação com uma intervenção que parecia saída de um turista americano do Alabama, deixando no ar a sensação de que a geografia nacional é uma disciplina opcional para governantes. Foi como assistir a um cozinheiro confundir coentros com hortelã em plena final de concurso televisivo. Tecnicamente um pequeno detalhe, simbolicamente devastador. É que o Mondego é um rio nacional e discutir o seu caudal com os espanhóis é o mesmo que consultar os australianos sobre a seca na planície alentejana.

O problema não é apenas o erro, é o padrão. Um governo que, por vezes, se apresenta como elenco de gala num espetáculo de variedades, muita luz, muito discurso, pouca substância. Portugal, república com quase nove séculos, merece mais do que um casting permanente para espetáculos de revista institucionais.

Com ministras desaparecidas em combate, ministros a fazerem filminhos da sua vaidade e um Primeiro-ministro rusticamente ignorante e pomposamente aldrabão.

E assim chegamos ao fim do banquete. Marcelo sai de cena não como estadista trágico nem como herói épico, mas como aquele gourmet que passou demasiado tempo a falar da sopa e pouco a perceber que a clientela estava cansada de explicações sobre a consistência. O afeto em doses industriais perdeu eficácia. As selfies à beira-mar deixaram de comover. O país, saturado de comentário permanente, começou a desejar silêncio produtivo.

É curioso que a vichyssoise se serve fria. Talvez tenha sido esse o equívoco central, presidir a um país em ebulição com receitas concebidas para serem degustadas a temperatura controlada, em ambiente de salão, longe da turbulência real das cozinhas onde se queima, se corta e se improvisa para alimentar gente concreta.

No fim, não há aplauso de pé. Há um suspiro coletivo, como quem empurra o prato para o lado e pede a conta. A República não precisa de críticos gastronómicos em horário nobre. Precisa de cozinheiros discretos que saibam que o essencial não é explicar a sopa, é garantir que ela alimenta.

E quando o gourmet sai pela porta dos fundos, não é vaiado nem ovacionado. É simplesmente esquecido na lista de sugestões para o dia seguinte. Porque o país, ao contrário da vichyssoise, não pode ser servido frio durante uma década inteira.

A autarca, essa, segue firme e altaneira na sua função.

Beijinhos e até à próxima…


Referências consultadas:

https://www.rtp.pt/…/sondagem-da-universidade-catolica…

https://www.diariocoimbra.pt/…/marcelo-apela-ao-voto…

https://www.reuters.com/…/rain-further-batters-storm…

https://www.dn.pt/…/popularidade-de-marcelo-esta-no…

https://www.reuters.com/..

Há anos que o «consenso neoliberal» bloqueia a obra hidroagrícola do Baixo Mondego

(In AbrilAbril, 12/02/2026)


Sucessivos projectos para concluir a obra hidroagrícola do Baixo Mondego, apresentados no Parlamento, foram sendo chumbados pelos votos do PS, PSD/CDS, IL, PAN com abstenções do Livre e CH. Dique voltou ontem a romper.


(A Estátua regista a responsabildade do “centrão” político por muitas das desgraças que estão a acontecer na zona de Coimbra e que este texto elucida. Sim, são opções de política que vetam o investimento em infraestruturas – que as catástrofes revelam como imprescindíveis para a segurança das populações -, em benefício dos 5% para a guerra, NATO, e os muitos milhões para o corrupto de Kiev. Espero que a intempérie, ao menos, tenha a utilidade de colocar na agenda mediática e política a necessidade de rever e discutir essas opções de armamentismo inútil e sanha belicista. Mas estou a ver tudo ainda muito calado…

Estátua de Sal, 13/02/2026)


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Há várias décadas que se trava uma batalha pela conclusão da obra hidroagrícola do Baixo Mondego. A intervenção está num limbo – sucessivos Governos PS e PSD/CDS-PP alternam entre si, ora apoiando a intervenção na oposição, ora bloqueando-a assim que assumem a pasta.

Os avanços (sem aplicação na prática) e os recuos do PSD/CDS

O mais recente caso é o do executivo liderado por Luís Montenegro, que horas depois de uma nova rotura no dique do Mondego (que provocou também o colapso de uma secção da A1), anunciou a necessidade de rever e readaptar a muito esperada «obra hidrográfica do Mondego».

As afirmações de Montenegro são um verdadeiro volteface. Há apenas três meses, no âmbito da discussão do Orçamento do Estado para 2026, PSD, CDS-PP, Iniciativa Liberal e PAN juntaram-se para chumbar uma proposta do PCP para a conclusão da obra hidroagrícola, contando ainda com a abstenção do PS, Chega e Livre.

O Governo PSD/CDS-PP sofre, há vários anos, desta indefinição no que toca ao Baixo Mondego. Em 2013, a ministra Assunção Cristas chegou a anunciar a conclusão desta obra, que estaria pronta no ano 2020. Dez anos depois, em 2023, o PSD (já liderado por Luís Montenegro) recomendava ao Governo PS «urgência para a conclusão» da obra hidroagrícola do baixo Mondego. Urgência essa que aparenta ter perdido a sua razão de ser em 2024, quando o recém-empossado Governo PSD/CDS-PP (ao lado da IL e com abstenção de PS e Chega), chumbou uma proposta do PCP que propunha o financiamento da conclusão desta obra.

Os recuos e os avanços (sem aplicação na prática) do PS

A abstenção do PS em 2023, a proposta do PSD que contou com o apoio de todos os restantes partidos, não pode ser também despida do seu contexto. Em 2008, Jaime Silva, ministro da Agricultura do Governo PS de José Sócrates, prometia a conclusão desta empreitada, à boleia do Quadro Comunitário de Apoio, para daí a cinco anos (mostrando-se mais ambicioso do que Cristas, que prometia fazer a obra em sete). Catorze anos depois, nem obra, nem vontade política: a proposta apresentada pelo PCP para inclusão de uma verba para a conclusão da obra no Orçamento do Estado para 2023 foi chumbada pela maioria absoluta do PS, com abstenções do Livre, PAN e PSD.

Na proposta, os deputados comunistas recordavam o «episódio de grave destruição» que se registara no final do ano de 2019, quando rupturas em dois diques na margem direita do Mondego, para além do colapso de outras estruturas, resultaram na destruição de milhares de hectares de culturas agrícolas na região.

Concluir sem demora a obra hidroagrícola do Baixo Mondego

Na altura, o PCP avisou que a falta de intervenção de manutenção nas infraestruturas acentuava «a necessidade de conclusão das obras, que se arrastam há mais de 30 anos», da obra hidroagrícola do Baixo Mondego, a que «os sucessivos governos do PS, PSD e CDS, apesar de reiteradas promessas, não têm dado concretização».

Seis anos depois dessas cheias, e pouco mais de um ano depois de nova proposta do PCP ser chumbada no Parlamento, as águas do Mondego voltam agora a galgar as margens e a romper diques, forçando à evacuação de milhares de pessoas nos concelhos de Soure, Montemor-o-Velho e Coimbra. 

A conclusão da obra hidroagrícola do Baixo Mondego compreende a realização de intervenções como a regularização dos rios Ceira e Mondego, a colocação das bombas em falta na central de bombagem do Foja e a execução das obras previstas para os vales secundários, com destaque para o Vale do Pranto, Vale do Arunca e Vale do Ega, assim como o Emparcelamento Agrícola no Bloco 17-A, em Campos de São Facundo/Ança.

Por lapso, o AbrilAbril verificou um guião de votações desactualizado em relação à proposta relativa ao Orçamento do Estado para 2023. O Livre votou, inicialmente, contra a proposta 1040ºC, tendo posteriormente alterado o seu voto para Abstenção. O artigo foi corrigido

A1 cortada em Coimbra – ressuscitem o Marquês de Pombal

(João Gomes, in Facebook, 12/02/2026)


Há desastres naturais. E há desastres cuidadosamente preparados pela inércia humana. O que aconteceu junto ao Mondego, com o colapso do dique e a subsequente ferida aberta na Autoestrada 1, não surgiu de surpresa, como um capricho súbito das águas. Não foi um relâmpago em céu limpo. Foi, antes, um acontecimento anunciado – repetido, descrito, antecipado durante dias por técnicos, autarcas e pela própria evidência do rio a subir lentamente, como quem avisa antes de entrar.

Durante duas semanas soube-se que os diques estavam sob pressão. Soube-se que o caudal aumentava. Soube-se que o risco existia. E, sobretudo, soube-se que havia um ponto sensível: a zona onde o dique protegia o talude que sustenta uma das infraestruturas rodoviárias mais importantes do país. Nada disto pertence ao domínio do imprevisível. Pertence ao domínio da decisão. Mas a engenharia não chegou a acontecer. Em proteção hidráulica, há uma regra simples: quando o risco cresce todos os dias, intervém-se antes do pico, não depois do colapso.

As soluções não exigiam milagres tecnológicos nem ciência futurista. Pediam apenas aquilo que a engenharia conhece há séculos:

– reforço do dique com enrocamento pesado;

– estabilização do talude com cascalho, geotêxteis e drenagens;

– proteção dos pilares contra erosão regressiva;

– obras de emergência capazes, pelo menos, de ganhar tempo.

Ganhar tempo é, muitas vezes, salvar infraestruturas. E salvar infraestruturas é poupar milhões, meses de interrupção e o caos logístico que agora se anuncia. Nada disso aconteceu a tempo. E quando a água finalmente fez o que sempre faz – procurar o ponto mais fraco – já não havia engenharia possível, apenas gestão de danos.

A política do “vamos ver”

Portugal desenvolveu uma especialização curiosa: a arte de monitorizar.

– Monitoriza-se o risco.

– Monitoriza-se a subida do rio.

– Monitoriza-se a previsão meteorológica.

– Monitoriza-se tudo… exceto a decisão.

Entre o alarme técnico e a ação política existe frequentemente um vazio administrativo onde o tempo passa com notável eficiência.

E a natureza, menos paciente, aproveita. Depois chega o momento solene das declarações: “Era impossível prever.” “Foi um evento excecional.” “As estruturas estavam a ser acompanhadas.” Acompanhar, neste caso, revelou-se uma forma elegante de assistir.

O custo da inação

Agora, a A1 ficará cortada durante meses. Virão desvios, prejuízos económicos, transtornos diários e obras de emergência muito mais caras do que qualquer prevenção teria sido. É a velha matemática portuguesa: adiar é barato – até deixar de ser. Quando finalmente se intervém, já não se protege. Reconstrói-se. E reconstruir custa sempre mais do que prevenir. Em dinheiro, em tempo e em credibilidade.

Se o Marquês de Pombal estivesse vivo

Depois do terramoto de 1755, Lisboa não ficou à espera de relatórios intermináveis nem de consensos burocráticos. Reconstruiu-se com rapidez, método e autoridade técnica. Pode discutir-se tudo sobre o Marquês de Pombal – menos a capacidade de decidir quando o país ardia, ruía ou inundava.

Hoje, perante um dique a ceder lentamente durante duas semanas, talvez perguntasse apenas: “Já reforçaram?” E perante a resposta negativa, provavelmente não convocaria uma conferência de imprensa. Convocaria pedra, terra, homens e urgência.

O verdadeiro problema

O problema não é apenas hidráulico. É estrutural – mas no Estado. Não falta conhecimento técnico. Não faltam avisos. Não falta experiência histórica. Falta, demasiadas vezes, o momento exato em que alguém decide agir antes da catástrofe, e não apenas explicá-la depois. Porque há uma diferença fundamental entre fatalidade e falha: a fatalidade não avisa durante duas semanas.

A incompetência – essa – vão agora pagando os portugueses, cujo arrependimento de terem optado pela AD, nas últimas eleições legislativas, deve ser agora tremendo.

Bom dia!

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