Avé, Rendeiro!

(Carlos Coutinho, 03/10/2021)

Pensem o que quiserem de mim, mas eu tenho de confessar que ando há quase uma semana muito incomodado, a sentir uma enorme admiração por João Rendeiro.

É certo que pode estar agora a passar por um momento especialmente mau, como banqueiro ou ex-banqueiro, mas ser banqueiro o que é?

E, num país com milhares de milhares de vigaristas de meia tigela, quem consegue como ele chegar ao estrelato e aparecer tantas vezes na televisão, em todos os canais e telejornais, ao lado de vedetas como o seu advogado e dos seus ‘off shores’, além de comentador televisivo, o insigne Dr. José Miguel Júdice que é dono da Quinta das Lágrimas, em Coimbra, e foi um dos fundadores do extinto MDLP, ao serviço de Spínola e de um comandante de jagunços chamado Alpoim Calvão?

Quantos portugueses já conseguiram rivalizar em notoriedade com os Salgados, o Duarte Lima, o Sócrates e o Vale e Azevedo que até derrotou o Benfica?

Porque é que um fulano se torna extraordinário, além de objeto de muitas homenagens e condecorações, só porque meteu não sei quantos golos ou venceu uma prova olímpica, se tal façanha já é vulgar?

E porque será que eu não posso admirar um banqueiro rasteirinho que nunca traiu a sua classe e até engendra fraudes astronómicas, caça euros a embaixadores e, no momento certo, sabe fugir de Londres para um país tão pequenino como o Belize que só tem metade de meio milhão de habitantes, além de florestas impenetráveis, pirâmides maias e um paraíso fiscal inviolável, apesar de alinhado com todos os outros, incluindo os europeus?

Não será genial um indivíduo que saiu do nada e consegue banquetear-se na capital britânica e passar férias na Costa Rica, enquanto se mantém incumpridor das três penas de prisão que já acumula e das que ainda vêm a caminho?

Como é que eu posso não admirar este pequeno atleta dopado das pistas financeiras, se até há quem admire genocidas como Bush, Blair, Aznar e Durão, bem como um outro mais antigo e ainda mais divertido como foi caso do João Brandão?

Este banqueiro ortodoxo pode ter falhado num momento difícil da sua carreira, mas, ao menos, ainda não matou ninguém. Que se saiba.

Aproveito para enviar os meus sentidos pêsames aos devotos de Francisco de Assis, não o de Amarante, mas aquele italiano que é o maior de todos os santos católicos e que morreu hoje, há 795 anos, deixando-nos para sempre irmanados a todos os bichos, porque eram igualmente filhos de Deus.

Avé, Rendeiro!


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Raízes

(Carlos Coutinho, 22/09/2021)

“NÃO há machado que corte /a raiz ao pensamento. / Não há morte para o vento, / não há morte.” Isto é o que Carlos de Oliveira pensava e Fernando Lopes Graça musicou. Manuel Freire e muitos milhares de portugueses ainda não desistiram de o cantar.

Todos tinham razão e eu – às vezes, reticente – dei esta manhã o braço a torcer quando saí de casa para ir comprar o jornal.

O vento, de facto, consegue derrubar uma árvore, como fez esta noite a 200 metros da minha porta, mas, por mais que o tenha tentado, foi-lhe impossível cortar a raiz a um aloendro – se é que é mesmo um aloendro – que não conseguiu resistir à fúria salazarista do mítico Bóreas.

Também é verdade que não há pensamento sem raízes e que só por isso é que não morre, como se viu numa certa madrugada de 1974. Só que as raízes podem morrer, se não as nutrirmos com os fertilizantes de que o pensamento dispõe.

Acontece que bastaram algumas horas para que o Equinócio de Inverno desse esta noite um primeiro sinal do que traz no alforge, ao deitar por terra um ser vegetal que também é mais de quebrar que de torcer e, assim, não logrou manter-se inseparável da sua raiz, como alguns humanos que eu conheci.

A verdade que em 1943, um mês depois do meu nascimento, era institucionalizada a República Social Italiana, os seja, o fascismo, tal como Salazar o apreciava, a pontos de ter uma fotografia autografada de Mussolini na sua mesa de trabalho. Uma imagem arrogante a preto e branco que todos os dias contemplava e reverenciava.

Mas nem tudo é feio neste dia, porque hoje o genial saxofonista e compositor Jonh Coltrane, se não tivesse morrido em 1967, faria 94 anos e um seu grande amigo – que nos deixou em 2004 e era também músico de excelência, o cantor e pianista Ray Charles, apesar de invisual – também não deixaria de celebrar, comigo e com o resto do mundo, o seu 91.º aniversário. E talvez até cantasse qualquer coisa que confirmasse a fortíssima ideia de que “não há machado que corte a raiz ao pensamento.”


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