Passos Coelho já não se ri

(Bernardo Ferrão, in Expresso Diário, 24/03/2016)

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                                 Bernardo Ferrão

No dia em que Mário Centeno se estreou no Parlamento, já lá vão três meses, foram notícia as gargalhadas de Passos Coelho. Sentando no seu novo lugar, na primeira fila da oposição, enquanto ouvia o ministro, o ex-PM ria-se muito. E com gosto. Na semana passada, quando o Orçamento do Estado foi aprovado, Passos já não se riu, bem pelo contrário, esteve sisudo, esfíngico mesmo – pudera! António Costa tinha superado mais uma etapa.

Toda a gente reconhece, incluindo o próprio primeiro-ministro, que, apesar dos obstáculos que têm sido ultrapassados, a tarefa para o Governo não é fácil. O equilíbrio entre Bruxelas e as esquerdas exige engenho político diário e grandes doses de jogo de cintura – mas Costa já mostrou ser exímio nessas artes. Mas se para o PM o caminho é de pedras, Passos sabe que, também no seu caso, o contador está em marcha. Por cada dia a mais de “geringonça”, é um dia a menos para Passos Coelho.

O PSD não costuma ser muito paciente com as lideranças, sobretudo com as que perdem o poder e ainda para mais se se mostram pouco empolgantes. Não quero com isto dizer que a liderança está em causa. Não, não está, até porque o partido não se soube renovar e não existe (ainda) um sucessor à altura – Moreira da Silva não empolga, Luís Montenegro ainda tem muito para andar e Maria Luís está queimada. No congresso de abril vão notar-se sinais e discursos menos alinhados, mas nada de transcendente. Nada que o perturbe. Para já.

O problema está no caminho que o líder social-democrata tem vindo a trilhar. Ao contrário do CDS, que percebeu que tinha de virar a página – e aposta em fazer diferente do PSD -, Passos quis permanecer. E fez bem. Mas fê-lo com uma agenda do contra. Não aprova nada. Parece amuado. E permite que Costa o remeta todos os dias para o casulo político. Ao apelar aos consensos, com a ajuda de Cristas e do aliado Marcelo, o chefe de Governo sabe que vai isolando o adversário.

Ao pôr as fichas todas na desgraça da “geringonça”, Passos Coelho não só contribui para unir as esquerdas, como sabe que está a apostar alto, e pela negativa. E caminha para um beco político de difícil saída. Se a imagem do político que só sabe governar com austeridade já lhe assenta que nem uma luva, com esta estratégia Passos autolimita-se, e está a permitir que o vejam apenas e só como o político dos resgates.

Estar na oposição não é fácil, ainda para mais depois de ter ganho as eleições. Mas a forma como o PSD de Passos tem assumido esse papel está a ser percecionada como demasiado desfasada. Não só no tempo, como na atitude – sobretudo neste novo ciclo político dos “afetos”. Passos, que ganhou eleições com a agenda da austeridade, acredita que realidade virá ao seu encontro, e está no seu direito. Não é ele que tem de mudar, é o país que acabará por lhe dar razão. O problema é que entanto isso não acontece, não só se desgasta a ele como arrasta o PSD.

Não se prevendo uma crise política nos tempos mais próximos, e com as autárquicas ainda distantes, quanto tempo resistirá Passos nesta amarga liderança? Agora quem se ri é Costa. E Marcelo também.

Vou pagar, senhor jornalista

(Bernardo Ferrão, in Expresso Diário, 02/03/2015)

Bernardo Ferrão

Bernardo Ferrão

Outubro de 2012. Debate quinzenal no Parlamento. Passos Coelho: “Eu pertenço a uma raça de homens que gosta, mesmo quando não é o próprio a causa do endividamento, de honrar os compromissos do país, de pagar aquilo que deve, mesmo que por essa razão tenha de solicitar aos portugueses um sacrifício ainda maior.”

Esta frase do primeiro-ministro não podia ser mais ajustada ao momento. Porque, de facto, Passos Coelho pagou o que devia à Segurança Social. O problema é que só o fez, como já reconheceu, depois de ter sido pressionado por um “senhor jornalista”. Ou seja, tarde e a más horas. E ainda por cima porque foi descoberto.

Percebe-se agora que, desde 2012, o primeiro-ministro já sabia que tinha um montante para pagar mas decidiu adiar esse ajuste de contas. Talvez para quando saísse de São Bento. É verdade que a dívida já estava prescrita, mas porque é que não a pagou logo naquela altura? Será que não lhe era politicamente conveniente? Nesse ano, Passos cortou o subsídio de férias, os salários e as pensões. Alargou a contribuição extraordinária de solidariedade e manteve a sobretaxa de IRS.

O que também se estranha é como é que durante esses 5 anos a recibos verdes nunca lhe tenha ocorrido que tinha de descontar para a Segurança Social. É verdade que alega que o Estado não o notificou, mas será que o Estado sabia que Passos estava nessas condições? Nesses anos em que não pagou (1999-2004), alguma vez foi à procura de saber se estava numa situação regular? Não é isso que o Estado exige a todos os cidadãos?

Dizer que “não tinha consciência que essa obrigação era devida”, ou que “estava convencido que era uma opção”, é fraco argumento quando se sabe que o desconhecimento da lei não serve de desculpa para ninguém. Muito menos para um primeiro-ministro. Para este primeiro-ministro e para a sua governação feita de sacrifícios e de lições de moral. E isto num país onde quem deve ao Fisco e à Segurança Social é penhorado na hora, sem apelo nem agravo.

Que moral tem agora o primeiro-ministro para falar das contas deficitárias da Segurança Social? A oposição não parece disposta a largar o assunto. E se a isto somarmos as dúvidas que ficaram da Tecnoforma e CPPC, o líder do PSD parte ainda mais intoxicado para a campanha eleitoral.

O primeiro-ministro, que tanto gosta de usar a linguagem popular nas suas intervenções, já devia saber que, nos dias que correm, a célebre passagem de Frei Tomas está desatualizada. Agora já não se olha apenas para o que se diz. Também se olha para o que se faz. E, neste caso, Passos fez mal e disse ainda pior.

Há um Cavaco dentro do Presidente

(Bernardo Ferrão, in Expresso Diário, 12/02/2015)

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Passos Coelho já tinha estado mal com o seu “conto de crianças”. Mas Cavaco Silva, seguindo a mesma linha, conseguiu estar pior ao dizer que já saíram para Grécia muitos milhões de euros da bolsa dos contribuintes portugueses. Como se Portugal não tivesse passado por uma intervenção externa. E se, durante o aperto do nosso programa, outros chefes de Estado ou de Governo dissessem o mesmo de nós? Como reagiria Cavaco?

Quem falou não foi o Presidente de todos os portugueses. Não pode ter sido. O sentido de Estado não é aquilo. Não pode ser. Hoje quem falou foi sobretudo o cidadão Cavaco Silva, o mesmo que se queixou da sua magra reforma a um Portugal sacrificado pela troika. O mesmo que se mostrou incomodado quando foi confrontado com o que tinha dito sobre o GES/BES, depois das reuniões com Ricardo Salgado. O mesmo que nunca se engana e raramente tem dúvidas. Serão só problemas de expressão?

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Ao falar da “bolsa” dos portugueses, Cavaco Silva seguiu, uma vez mais, a narrativa do Governo. Mais colado era impossível. Mas quis também mostrar-se alinhado com os grandes da Europa. Quis ser alemão, finlandês, holandês. Optou ficar no lado dos que mandam. E logo no dia em que o EuroGrupo decidia a Grécia de Tsipras e Varoufakis. Que fraca… coincidência

Nos relatos dos jornais internacionais, Portugal aparece como um dos mais duros na mesa das negociações, claramente receando que no fim do dia a Grécia consiga alguma coisa. Se assim for, os portugueses vão querer saber porque é que o Governo (e também Cavaco Silva) não fez o mesmo, em vez de assumir que só havia a cartilha da troika. Com que cara aparecerá o país dos cumpridores a reclamar o seu quinhão?

A União Europeia vive um momento único e as propostas gregas levantam muitas interrogações. É legítimo que o PR manifeste as suas dúvidas. Mas não desta forma, agitando uns contra outros. Portugueses de um lado, gregos do outro. Os que cumprem e os que vivem do bolso dos outros. É esta a Europa de Cavaco Silva? São estes os valores que Belém defende para o projeto europeu?

Cavaco Silva é o Presidente que registou os mais baixos índices de popularidade juntos dos portugueses. Não é difícil perceber porquê.