As gajas são pessoas muito nervosas

(Luís Rocha, in Facebook, 25/02/2026, Revisão da Estátua)


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O nosso ministro da Agricultura, José Manuel Fernandes, deve ter deixado a máquina de sulfatar no meio do campo para ir até Coimbra explicar àquela mulher de galochas como se faz governação moderna. Primeiro fala-se para as câmaras, depois, se ainda restar tempo entre um direto e duas selfies institucionais, ouvem-se os autarcas. A agricultura contemporânea cultiva a imagem. E a colheita faz-se ao fim da tarde no telejornal.

Mas, no meio do arrozal mediático, surgiu o imprevisto. A autarca Ana Abrunhosa, criatura estranha que anda por ali a dar ordens, a pôr diques na linha e a falar de obras como se aquilo fosse competência dela. Com a mania que é gajo. Teve o desplante de interromper o ritual e perguntar se o senhor ministro vinha ouvir os autarcas ou inaugurar uma conferência de imprensa ambulante.

Um ultraje. Um atentado à fotossíntese governativa.

E aí, então, o país aprendeu uma lição já milenar. As gajas são pessoas muito nervosas.

Depois de cheias, temporais e populações aflitas, explicou o ministro com paternal serenidade, é natural que os sentimentos falem mais alto. Tradução rural: coitada, está emocionalmente alterada. Não é que tenha razão quanto ao protocolo institucional. É o stress. A água mexe com os nervos femininos.

Nada de novo debaixo do sol.

Desde Aristóteles que há homens sérios a garantir que a mulher é uma versão húmida da racionalidade, sempre à beira da histeria, invenção médica que durante séculos serviu para explicar qualquer manifestação feminina que não fosse silêncio decorativo. Se ela levanta a voz, é descontrolo.

 Se ele levanta a voz, é liderança. Se ela exige prioridade institucional, é nervosismo. Se ele ignora os autarcas para falar aos microfones, é estratégia.

E repare-se na elegância da técnica. Não se rebate o argumento. Diagnostica-se o temperamento. É uma forma suave de deslegitimação, quase poética. A crítica deixa de ser política para passar a ser clínica. Não se discute o mérito, prescreve-se camomila.

Simone de Beauvoir explicou há décadas que a mulher foi construída como “o Outro”, um apêndice emocional da razão masculina. Mas aqui estamos, no Baixo Mondego, a confirmar que a tradição continua fértil. O dique pode rebentar, as culturas podem afogar-se, mas o verdadeiro perigo é uma mulher falar antes da conferência de imprensa.

Não esquecendo aquele detalhe quase pitoresco de que este ministro que recebe subsídio de alojamento, apesar de possuir residência em Lisboa – tudo legal, claro, tudo publicado no Diário da República -, vem ensinar contenção emocional a quem anda de galochas a gerir prejuízos reais. É um contraste delicioso. Uns tratam da lama, outros tratam da narrativa.

O mais notável é que a crítica da autarca era objetiva e simples. Numa visita institucional, os eleitos locais devem ser ouvidos antes da encenação televisiva. Não é um ataque de nervos. É protocolo básico. Mas admitir isso implicaria reconhecer que uma mulher corrigiu um ministro em público, e isso, na velha agricultura simbólica do poder, é uma infestação grave.

Historicamente, sempre que uma mulher ocupou o espaço da autoridade, surgiram diagnósticos estratosféricos. Margaret Thatcher era demasiado dura. Hillary Clinton era demasiado fria ou demasiado emocional, conforme o dia. O padrão é estável como um terreno argiloso: se ela é firme, é agressiva, se é empática, é fraca.

E assim continuamos a cultivar espantalhos retóricos enquanto fingimos que o campo é neutro. O país assiste, entre enxurradas e diretos televisivos, à eterna pedagogia do paternalismo: quando uma mulher exige respeito institucional, é porque os nervos falaram mais alto. Quando um ministro sugere isso, é apenas sensatez meteorológica.

Depois deste episódio resta-nos agradecer a lição agrária. As cheias passam. As obras fazem-se. Os subsídios publicam-se. Mas a velha ideia de que as gajas são pessoas muito nervosas continua perene, como erva daninha que resiste a qualquer modernização.

E talvez o verdadeiro incómodo não seja o nervosismo feminino. Talvez seja o facto de, no meio da lama, alguém ter tido a ousadia de lembrar que governar não é posar para as câmaras.

Beijinhos e até à próxima…


Referências consultadas

Diário de Notícias – “Vem fazer conferência de imprensa ou ouvir os autarcas?”

https://www.dn.pt/…/vem-fazer-conferencia-de-imprensa…

Rádio Renascença -Tensão entre autarca e ministro em Coimbra

https://rr.pt/…/em-coimbra-nao-volta-a-fazer…/460699

Jornal de Notícias – Repreensão pública ao ministro

https://www.jn.pt/…/ana-abrunhosa-repreende…/18055556

Diário da República – Despacho relativo ao subsídio de alojamento

https://diariodarepublica.pt/…/des…/12113-2024-890820723

6 pensamentos sobre “As gajas são pessoas muito nervosas

  1. Tinha de vir um velho saudosista do tempo em que as senhoras ficavam em casa e podiam ser espancadas sem que dai viesse mal ao mundo.
    A vergonha na cara foi coisa que vocês nunca tiveram e o que não se teve em novo também não chega em velho.
    Mas habitua te que não vais conseguir fazer metade da população voltar a meter se em casa por muito que fascistas como vocês parecam estar agora a crescer.
    Pode ser que as eleições intercalares na terra do Tio Sam vos deem o primeiro banho de realidade.
    Vai ver se o mar da choco.

    • o senhor deve ser rouge e sentiu necessidade de descarregar de alguma maneira. foi melhor publicar aquele comentário do que espancar a respetiva, mas parece-me triste que existam pessoas que se sintam tranquilas e felizes em presumir do seu machismo/racismo/xenofobia/homofobia, etc.

  2. Parece que os 1% tem uma certa preferência em colocar gajas ao seu serviço. É vê-las no seguimento das revoluções coloridas. Agora tudo usa calças: os gajos em geral e as gajas que comandam usam-nas largas e as gajas em geral e alguns gajos (por enquanto uma minoria) usam-nas apertadas e coladas à pele. Destes últimos os mais machos até trajavam com roupas brilhantes e meias cor de rosa. Para esses os tempos parecem estar cada vez mais difíceis.
    Existe uma anedota russa assim:
    Qual a diferença entre uma senhora e um diplomata?
    Se um diplomata disser sim pode ser talvez, se disser talvez pode ser não e se disser não, não é diplomata.
    Se uma senhora disser não pode ser talvez, se disser talvez pode ser sim, se disser sim, não é uma senhora.

  3. Este Governo parece querer ir além do Governo da troika em expressoes infelizes e que revelam total falta de vergonha no focinho.
    O mínimo que o ministro podia fazer era apresentar um pedido de desculpas por por o carro a frente dos bois fazendo a conferência de imprensa antes de falar com os autarcas.
    Em vez disso tratou de recorrer a misoginia.
    A senhora não teve uma reação emocional. Teve a única reação que poderia ter alguém que sente que um ministro está ali para se promover e não para o ouvir ou se interessar pelos problemas de quem lá vive.
    Simplesmente quem não tem vergonha nenhuma fica espantado quando alguém a tem.
    Se fosse homem talvez tivesse sido incapaz de conter o berro de umas peixeiradas a nortenha que certamente iam também na alma da autarca.
    Será que o ministro também iria dizer que o senhor estava muito nervoso?
    Realmente esta gente não tem vergonha nenhuma.
    Haja paciência para tão pouca inteligência.

  4. “a velha ideia de que as gajas são pessoas muito nervosas continua perene, como erva daninha que resiste a qualquer modernização.”

    Esta expressão ilustra bem como o machismo está dentro de nós, não só dos homens, mas também das mulheres; importa reconhecê-lo, e importa, a partir desse reconhecimento, fazer um esforço para lhe arrancar as raízes, não apenas as manifestações epidérmicas.

    Este texto é um passo neste sentido e, por isso, não posso deixar de agradecer o seu contributo. O silêncio com que está a ser recebido faz supor uma voz clamando no deserto, mas talvez no deserto os sons se propaguem com mais rapidez. Esperança vã? Pensamento voluntarista?

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