A grande descoberta de Merz

(António Gil, in Substack.com, 16/01/2026)

Imagem: ‘Caminhante acima do mar de nevoeiro’, óleo sobre tela por Caspar David Friedrich

(Isto é ironia, claro).


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Aventureiros de todo o Mundo, alegrem-se, ainda há algo para desvendar na geografia do nosso planeta. Merz, o chanceler alemão acaba de fazer uma descoberta espantosa: a Rússia é um país europeu.

Provavelmente Hitler julgou estar a invadir a África sub-sahariana quando da Operação Barbarossa em busca de um vasto Lebensraum ou espaço vital. Ou então ele já sabia coisas que o pau de virar tripas entretanto esqueceu.

Claro que o conceito de Europa é mais cultural que territorial e também por isso os iluministas dos séculos XVII e XVIII não se lembrariam de questionar a Rússia enquanto membro de pleno direito da ‘grande família europeia’. Ninguém estranhava então que cazrina russa (de origem alemã) Catarina II , dita a Grande), trocasse correspondência regular com Diderot, Voltaire e Montesquieu.

E por falar nisso, as famílias reais europeias casavam seus príncipes e princesas com suas congéneres russas. Isso incluíu a Rainha (imperatriz, na verdade) Vitória. Será que o fariam com nobres da Ásia ou África? Ou dar-se-ia o caso de estarem equivocadas nessa convicção da Rússia ser uma nação europeia?

Também no capítulo cultural, a Europa desde há séculos consagrava escritores, músicos, bailarinos e pintores nascidos no vasto Império russo. Nem vou citar todos esses nomes porque correria o risco de me esquecer de alguns de suma importâncias porque, como dizia o nosso (português) Fernando Pessoa, enumerar é esquecer.

Na verdade muitos deles tinham mais leitores e público na Europa que no seu país natal. Então de onde veio essa súbita amnésia – agora corrigida por Merz, como se ele tivesse acabado de descobrir a pólvora – da Rússia como nação europeia?

Nós sabemos quem durante estes últimos anos, mais de uma década, baniu escritores russos, renomeou o Lago dos Cisnes como ballet ucraniano e retitulou pinturas russas de modo a sugerir outras origens de seus autores e temas. E também sabemos por quê.

Infelizmente essas manobras de pura manipulação encontraram muita compreensão em praticamente todos os países da Europa, sobretudo por parte de jornalistas francamente ignorantes. E outros que sendo melhor informados, recearam por seus empregos.

Mas bom, pode ser que a loucura tenha começado a reverter e esperemos que não seja tarde demais para que as evidências sejam restabelecidas. Desejavelmente teríamos então uma Europa de Lisboa a Vladivostock, como Putin chegou a propor.

Os anões políticos da Europa devem ter ficado estarrecidos com essa vastidão porque nada assusta mais a gente limitada do que saber que há mundo para lá do que sua obstruída visão abarca. Porque, como também Fernando Pessoa escreveu: ‘somos do tamanho de tudo aquilo que vemos’ e curiosamente, neste caso, ele considera que os citadinos são mais limitados do que os aldeãos.É uma boa forma de terminar esta peça, citar esse seu poema:

Eu Sou do Tamanho do que Vejo

Da minha aldeia veio quanto da terra se pode ver no Universo…

Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer

Porque eu sou do tamanho do que vejo

E não, do tamanho da minha altura…

Nas cidades a vida é mais pequena

Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.

Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,

Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,

Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,

E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.


Alberto Caeiro, in “O Guardador de Rebanhos – Poema VII”. Heterónimo de Fernando Pessoa.

Fonte aqui

7 pensamentos sobre “A grande descoberta de Merz

  1. Há uma gralha na transcrição do poema. Onde está VEIO, o correcto é VEJO.

    “Da minha aldeia VEJO quanto da terra se pode ver no Universo…”

  2. Os obedientes colaboradores do novo século americano (ou América-Amo) estão agora assustados por serem confrontados com o rosto despótico do Grande Irmão. Colaboram com ele na Ucrânia, no Médio Oriente, na América Latina, em África… o pior é quando ele quer deitar as gânfias à Europa. O sionismo e o atlantismo deixam de ser causas válidas com objectivos comuns aos do “projecto europeu” e passam a ser ameaças ao status quo e à própria emancipação dos europeus.
    Quem os mandou ser sabujos e subservientes colaboradores? Quem os mandou ser pategos como um beija-CU (candidato único) amestrado pelo dono de obra da Casa Branca?
    Só agora perceberam que o plano deles para a Europa é o velho “dividir para reinar”? Só agora o funcionário da BlackRock descobriu que os EUA sempre fomentam a discórdia, a guerra e o conflito onde quer que interfiram?
    Ainda estou à espera que algum iluminado, uma Sollérias ou uma Ferra Aveia, acuse o Merz de ser um putinista ou um agente russo.
    Estas carolas direitolas não páram, até se atolam.
    Nada como um poema no Alberto Caeiro, o meu heterónimo preferido de Fernando Pessoa, para o evidenciar.

  3. O que estes bandalhos todos estão e cagadinhos de medo do Trampas.
    Nunca estes bandalhos pensaram na possibilidade de um demente sanguinario se sentar na cadeira do poder nos Estados Unidos.
    Meninos tenrinhos que nunca tiveram de emigrar nem de servirem canalha dessa a mesa na casa do c*ralho mais velho.
    Se o tivessem feito talvez não se espantassem com o facto de terem votado num demente que lhes prometeu que sob o seu comando dominariam o mundo.
    Saberiam qual e a mentalidade deles.
    Crueldade, uma crueldade extrema.
    Gente que lia simpatia e consideração como medo. E atacava. Eram como cães de raça perigosa. Porque para lá foi o refugo de todo o mundo. Incluindo o avô alemão do Trampas, um reles explorador de casas de putas.
    Por isso votaram num animal destes.
    Que já disse que quer acabar com o que resta de democracia na Europa e amputar territórios. Hoje a Groenlândia, amanhã os Açores e depois sabe Deus o que.
    Se bem que a Europa tem feito um bom trabalho em acabar com a democracia.
    Restrições de movimentos a pretexto de uma doença, transformação do povo em cobaias, censura de canais russos, apoio a um estado genocida, repressão sobre o apoio ao povo chacinado por esse estado, complacência ante a extrema direita mesmo em países, como o nosso, em que a Constituição permite ilegalizar gente dessa.
    E só o que de repente me lembro.
    Estamos a fazer um óptimo trabalho mas o que e certo e que o Trampas lhes mete medo.
    Representantes da Dinamarca foram a sede do império, não conseguiram demover as bestas e mesmo assim vieram dizendo que podia ter sido muitíssimo pior.
    Seria bom que tivesse tomates para dizer o que realmente aconteceu e que tipo de ameaça receberam.
    Para que todos saibamos com o que estamos a lidar porque temos esse direito.
    Porque eu palpita me que se viram em vias de serem enfiados em celas ao lado de Maduro.
    Ou acusados de imigração ilegal e enfiados na Alcatraz dos Jacarés.
    Não deixaria de ser divertido que depois de tantos atestados em psiquiatria passados a Putin estejam agora a termos com um demente do outro lado do mar.
    Mas não e divertido pois que significa que estamos todos metidos numa grande patranha e num grande sarilho.
    Vão ver se o mar da Kraken.

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