“Vai para a tua terra”. O racismo no Parlamento agora é aceite.

(Ana Sá Lopes, in newsletter do Público, 30/10/2025)


Caro leitor, cara leitora:

A História acelerou de tal forma em Portugal que coisas que há nem meia dúzia de anos seriam impensáveis hoje são moeda corrente.

Portugal foi sempre um país racista, mas era um racismo envergonhado, negado e escondido. As leis não eram racistas, ainda que a prática o fosse. Agora, esse país racista que os partidos democráticos tiveram tanto trabalho em negar e até a combater está posto a nu.

O grito de “vai para a tua terra” que o deputado do Chega Filipe Melo dirigiu à deputada do PS Eva Cruzeiro limitou-se a confirmar quão verdadeira era a intervenção da socialista, que acusava o Chega de ser um partido racista. A frase de Melo justifica a intervenção de Cruzeiro.

A lição do grito “vai para a tua terra” consolida o Chega como partido racista, como já se via no discurso sobre a comunidade cigana; nos comentários de alguns membros sobre a morte de Odair Moniz, assassinado por um polícia; no cartaz e nos discursos de Ventura que nos manda a todos (sabemos que não é a todos, é dirigido aos imigrantes asiáticos) “para o Bangladesh”.

Se, há 20 anos, alguém se dirigisse ao deputado Narana Coissoró, antigo líder parlamentar do CDS nascido em Goa, com uma frase igual – “Vai para a tua terra” – caía o Carmo e a Trindade. O Presidente da Assembleia da República, fosse ele Barbosa de Melo, Vítor Crespo ou Almeida Santos, ter-se-ia imediatamente insurgido. Agora, não aconteceu nada.

Podem-se fazer ataques racistas na Assembleia da República que José Pedro Aguiar Branco não vai perder uma hora de sono. O pior é que já ninguém liga. Pedro Delgado Alves protestou, mas a caravana passa. Isto é a institucionalização do racismo no segundo órgão de soberania, perante o alheamento sórdido da comunidade política.

O que Filipe Melo fez na Assembleia da República fazem-no muitos portugueses brancos contra negros nas ruas das cidades. Mas fazem-no contra a lei, porque as leis em Portugal não permitem a discriminação em função da raça. Agora, no Parlamento, a lei também pode ser ultrapassada à vontadinha.

O racismo que sempre existiu em Portugal deixou de ser envergonhado. No fundo, já não é só o Chega, com os seus discursos, a torná-lo aceitável.

Nos últimos dias, o ministro António Leitão Amaro fez bastante para conseguir que o ódio ao imigrante, que neste momento já é “mainstream”, se torne um acto banal.

A França não queria que a Itália integrasse a então Comunidade Económica Europeia para evitar que os italianos viessem “roubar” os empregos dos franceses e fazer diminuir os salários. Em Portugal, é visível que o ódio ao imigrante não cresce pelo facto de os imigrantes virem “roubar empregos”. Cresce mais pelo sentimento anti-cosmopolita (para não lhe chamar outra coisa) que Pedro Passos Coelho verbalizou numa das últimas sessões públicas onde esteve: “Se tudo se mantiver como está com o reagrupamento familiar e por aí fora, qualquer dia as pessoas (…) sentem-se estrangeiras na sua própria terra”.

zeitgeist europeu está com este tipo de discursos. Não há muito tempo o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, um advogado de direitos humanos, fez um discurso semelhante – que foi mais polémico no Reino Unido do que aqui foram as palavras de Passos Coelho. Aliás, Starmer acabou por dizer à BBC que estava “profundamente arrependido” de ter dito que as ilhas britânicas corriam o risco de se transformar “numa terra de estranhos”.

Em Portugal ninguém pede desculpa, porque não existe – dentro e fora dos partidos – uma sociedade civil tão forte como no Reino Unido, que também tem os seus problemas: o partido de Nigel Farage, o Reform UK, irmão do Chega, lidera as sondagens.

Sendo assim, Leitão Amaro sente-se à vontade para acusar os governos socialistas de terem promovido uma “reengenharia demográfica e política do país” com a manifestação de interesses. A expressão é nova, o Chega usa outras para bramar contra “a mistura”.

Uma parte do PSD acha que é hasteando as bandeiras do Chega que o vai esvaziar. Leitão Amaro, depois da aprovação da Lei da Nacionalidade, declarou que, doravante, “Portugal é mais Portugal”, uma expressão com o único objectivo de empunhar o discurso nacionalista, colando a lei da nacionalidade às regras para a imigração, tal como fez Montenegro, que voltou a atacar as “portas escancaradas” que alegadamente o PS abriu.

A normalização do discurso anti-imigrante, genericamente baseado em percepções, nunca discute o que acontecerá a Portugal se os imigrantes deixassem de contribuir para a economia portuguesa e para a demografia nacional. É como se fossem dois mundos à parte: como se o crescimento do país não estivesse ligado à mão-de-obra imigrante, para a qual agora se passou a dificultar a integração.

Quanto à sustentabilidade da Segurança Social, num país em que os habitantes não querem ter filhos (aliás, tal como André Ventura e muitos votantes do Chega não querem) quem vai financiar a reforma do líder do Chega e dos outros milhares de portugueses quando chegar a altura? Ou a ideia é mesmo acabar com as pensões? Se for, assumam. Pelo menos, os eleitores ficam esclarecidos.

Salazar, que Ventura quer ver regressar em triplicado, defendia o “Portugal multirracial”. Não é que seja grande consolo tendo em conta todo o panorama, mas o discurso oficial nos últimos tempos da ditadura pelo menos não era racista.

“Ó Portugal, se fosses só três sílabas/de plástico, que era mais barato!” Ninguém nos descreveu como o O’Neill.

Até para a semana.

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

13 pensamentos sobre ““Vai para a tua terra”. O racismo no Parlamento agora é aceite.

  1. Pois, quando o palhaço do presstituto Rodrigues dos Prantos se levou todo o tempo da entrevista a perguntar ao homem o que pensava da invasão da Ucrânia num país atascado em problemas graves, da degradação dos serviços de saúde que e cada vez mais letal ao facto de mais quase um quarto da população ser desesperadamente pobre e não fossem os apoios sociais seriam um em cada quatro e a quatro mil quilómetros da Ucrânia.
    Era um bom motivo para o homem devolver perguntas e perguntar o que acha do negacionismo do nazismo ucraniano e o que achava que faria o presidente dos Estados Unidos se o presidente mexicano prometesse reaver a Califórnia, o Texas e outros territórios roubados e ter armas nucleares no Verão seguinte.
    E já que queria falar da Ucrânia era perguntar o que achava de Herr Zelensky se ter recusado a convocar eleições e de perguntar se gostaria de ter o fim de Gonzalo Lira e outros jornalistas assassinados pela Ucrânia.
    E dizer que só responderia a perguntas sobre a realidade do nosso país pois que com a da Ucrânia já há muita gente a fingir que se preocupa.
    E que a única coisa que nos deve interessar e as consequências do desvio de recursos nacionais para alimentar a guerra da Ucrânia contra a Rússia. Um desvio que tem de acabar.
    E as consequências das sanções europeias a Rússia que só nos lixam a nos também nos devem interessar.
    Mas e bom que sejam enxovalhados pelo Quarto Pastorinho já que lhes fazem os fretes todos.
    Vão ver se o mar da choco.

  2. E mais uma vez esqueceu se do que está gravado e disse que era mentira.
    Como quando ficou registado em câmara o beijo que mandou a outra deputada bem como a grunhice que disse.
    Essa gente ainda por cima e mentirosa compulsiva, sem honra e sem vergonha nenhuma nas trombas.
    Mas enquanto essa falta de vergonha no focinho der votos e quem de direito não ilegalizar essas trastes que renegam a democracia expulsando os da casa da democracia e das nossas vidas essa grunhice vai continuar e até crescer.
    Que grande patranha e que grande sarilho em que estamos metidos.

    • E não é que ontem o Quarto Pastorinho fez a sua birra mesmo no fim da entrevista, indignado pela pergunta final sair repetida, e já ter sido feita? Imagine-se o que faria se estivesse no lugar do Paulo Raimundo naquela entrevista de disco riscado do José Rodrigues dos Prantos, antes das últmias eleições legislativas… a pergunta em causa questionava as razões para o ex-candidato a Primeiro Ministro querer ser agora Presidente da República, ou seja, a razão de ser o CU (candidato único) da política nacional. E o encantador de pategos só quase no fim se lembrou de amuar e abandonar o estúdio, porque um dos entrevistadores lhe disse que a pergunta final que faria seria outra, por que é que ele berrava tanto… é uma pobre vítima de perguntas repetidas e blasfemas…

  3. O grunho do Chega que de pé, na escadaria, como que na praça de touros invectivando o elemento taurino, se dirigiu à deputada socialista Eva Cruzeiro, é o mesmo que na tribuna da Presidência da Assembleia da República fez beicinhos e simulou beijinhos para outra deputada socialista, a Isabel Moreira. Tudo isto sempre na maior das descontracções, como um debochado direitolas que se julga acima de todas as normas e regulamentos, sem qualquer autocontrolo ou laivos de boa educação. Fê-lo à vista de todos, sem se acabrunhar ou dissimular, reflectindo o sentimento de impunidade que os atropelos à Constituição da República Portuguesa por parte dos diversos representantes dos Órgãos de Soberania demonstram sem pruridos, sem a mínima contenção e sem qualquer auto-(responsabilização).
    Bem vindos à Pategónia Selvagem, onde pragas de lambe-CUs abundam, e irresponsáveis laranjinhas e centristas rivalizam com pategos e libelinhas para ver quem é que beija melhor o cu ao hiPOpoTamUS cor-de-laranja e à Ursa von der Layen, sua squaw europeia, e melhor obedece aos seus desígnios fascizantes…

  4. Lá tinha de vir o nosso novo chegano de estimação.
    E sabes porque e que nunca viste um cigano trolha? Porque ninguém lhes dá trabalho. Sim, ninguém lhes dá trabalho.
    Há bandalhos que teem sapos a porta dos estabelecimentos para não entrar lá cigano nenhum, se entrasse lá um a pedir trabalho achas que lhe dava?
    O cerco sanitário aos ciganos e forte.
    Queres ouvir uma história de Páscoa, querido chegano?
    Uma quinta feira santa foi a mim que tocou a fava de ir comprar meio borrego. Numa grande superfície onde o bicho estava em promoção se fosse comprado inteiro ou em metades.
    Estavam muitos e muitas ao mesmo e a procura de outras coisas de última hora.
    Depois de mais de uma hora na fila do borrego havia bichas quilométricas em todas as caixas menos numa.
    E porque? Porque a moça que
    estava a caixa era cigana. E a moça até me disse “passe aqui a esta caixa”. Claro que era isso que eu iria fazer pois que de racismo não sofro e assim me livrei de pelo menos mais meia hora numa fila para pagar.
    E toda aquela gente talvez fosse depois a igreja bater com a mão no peito e lembrar o sacrifício de um judeu que renegou a crueldade da religião em que foi criado, que segundo a religião cristã morreu por nós, por todos nós e não por todos excepto os ciganos.
    Passou te pela cabeça que se calhar e esse o motivo pelo qual o cigano não tinha empregadas ciganas?
    E que estamos habituados a comprar aos ciganos nas bancas da feira. Agora um cigano com uma loja e com ciganada de empregadas? E capaz de ser demasiada areia para uma gente que deu votos a um animal não porque ele aparece com ideias para melhorar a nossa vida mas porque promete destruir a vida dos ciganos. Que va para a puta selvagem de Babilônia que o pariu. Ele e todos os que por esse motivo sórdido nele votam.
    Também conheci uma gente cigana que teve casa mas comprada por eles e até duas lojas onde tinha pelo menos uma empregada cigana.
    Tiveram de vender tudo para tratar em Cuba o primeiro neto. O moço nasceu praticamente sem pele o que o tornaria praticamente indefeso contra infeções e hipotermia.
    No hospital disseram logo que a criança iria morrer e uma enfermeira teve a pouca vergonha de dizer a mãe da criança “ainda e nova, pode ter outros”. Assim de seco como quem fala de parir um cão.
    O moco sobreviveu e já tem um filho próprio que nasceu com a pele toda.
    E sabes porque e que a família não acreditou no diagnóstico e não se entregou?
    Porque eles sabem bem que no caso de ciganos a possibilidade de sair num fato de madeira do hospital se multiplica por menos cinco.
    Quanto as famílias ciganas se se dão bem ou não, também conheci muitas famílias de portugueses de bem que se os elementos se encontram as esquinas não sobra nada.
    E até gente nas próprias famílias que não sobra nada, irmãos, país e filhos que se odeiam de morte e por vezes se matam.
    E outra mentira redonda. As casas de habitação social não são de borla. Podes não gostar de rendas baratas mas uma coisa e renda barata outra coisa é a casa ser de graça.
    Já agora talvez gostasses de levar o teu querido CU sem gorilas tentar explicar as suas teorias ao pai do moço que teve uma sentença de morte no hospital por conta de ser cigano pois não acredito que em Cuba tivessem recursos para tratar aquele problema que não havia aqui.
    E se era questão de dinheiro quem foi a Cuba também o gastaria aqui se tivessem essa chance.
    E quando digo isso e porque o homem trabalha que nem um camelo e sempre foi uma baleia grande conhecido por forca bruta naquelas barbatanas.
    Que nunca usou no focinho de ninguém mas certamente abriria uma excepção e faria o CU virar a tromba para onde tem o cu.
    Depois já se poderia vitimizar, depois de ter um motivo a sério para ir ao hospital, a dizer que tinha sido agredido por um cigano.
    Enfim, lá teremos de levar contigo até que leves uma corrida em osso como levou o JgMenos.
    Também porque és mais esperto. Insultas tudo e todos, defendes o fascismo mas ainda não chamas nomes aos outros comentadeiros.
    Mas lá vira o dia.
    Vai ver se o mar da tubarão branco faminto.

  5. O traste tinha de ter sido ilegalizado quando defendeu espaços de confinamento especiais para ciganos.
    De resto a bojarda do “vai para a tua terra” sempre se disse.
    Mas efectivamente o racismo era mais envergonhado.
    Lembro me de num autocarro, há uns 20 anos atrás, alguem ter dito uma dessas a um negro de bom tamanho. O outro respondeu com todo o sossego “cuidadinho com o vai para a tua terra, cuidadinho com o vai para a tua terra”.
    O outro fechou o bico porque sabia que ninguém o defenderia se o negro lhe enfiasse uma bela barbatana de baleia no focinho. Mesmo que houvesse outros a pensar o mesmo teriam vergonha de o repetir ou tentar defender alguém a quem fosse aplicado um correctivo por o ter dito.
    Mas hoje talvez três ou quatro grunhos o secundassem.
    O racismo sempre existiu mas agora e mais escancarado, como se se tivessem aberto as comportas da barbárie.
    Dizer hoje a maior parte das pessoas de ascendência africana que por da vivem ainda por cima e só estúpido.
    Já nasceram cá, por muito que custe a certos trastes a sua terra e aqui.
    Vão ver se o mar da Kraken.

    • Um tipo que defende espaços para ciganos, além do mais, é ignorante. Onde é que se vê famílias ciganas misturadas com as outras. As tribos formaram-se a partir dos clãs e as nações a partir das tribos. A existência de um mundo menos imundo só será possível a partir de nações soberanas através de parcerias e partilha das suas metafísicas de costumes – direitos consuetudinários.
      Houve um cigano que teve um grande sucesso na feira de Carcavelos. Abriu loja na orla da feira para vender roupa também nos restantes dias da semana. Tinha a mulher a fiscalizar. As quatro empregadas nenhuma era cigana. Todos querem uma casa à borla. Já viram um trolha cigano. Sem partilha não há convivio possível. Basta olhar a Palestina. E depois vem sempre o discurso falso. Todos dizem que existem dois lados. Falso. Há sitiante e sitiado. O sitiado tem o direito de fazer surtidas e espalhar o terror pois o cerco, com a ameaça até de morte pela fome já é um acto de terror.

    • Sim senhor. Isso é que é democracia cracia. Tanta conversa só para ofender, e os do CHEGA é que são grunhos? Que falta lhe faz um espelho. 😡

  6. Paradoxo da Tolerância (Popper): Se uma sociedade é ilimitadamente tolerante, sua capacidade de ser tolerante pode ser destruída por intolerantes. Devemos, então, ser intolerantes com a intolerância?🥸

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.