O fascismo está de regresso

(Major-General Raúl Cunha, in Facebook, 13/10/2025, Revisão da Estátua)


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O fascismo está aí de regresso aos corredores do poder, pela mão sobretudo da aliança que está no governo e dos liberais e cheganos que lhe dão o seu apoio e que infetaram a nossa democracia para a destruir, quais bactérias oportunistas.

 Vemos que os órgãos de comunicação social portugueses já estão quase completamente controlados pelos mafiosos e proto nazis e, por exemplo, na RTP, os últimos resquícios de independência estão a ser escovados pelos fascistas que agora a dirigem.

O chamado serviço público, pago por todos nós contribuintes, está agora subserviente a todo o espectro da direita, desde o centro até à extrema-direita, enquanto só o centro-esquerda ainda é marginalmente tolerado. E assim, estão a ser afastadas as raríssimas vozes independentes que ainda têm presença na comunicação social, e Raquel Varela era uma das últimas,

É o triunfo dos porcos, anunciado por Orwell, a que todos os portugueses decentes, na sua pluralidade e diversidade, têm que se opor firmemente.

Estes afastamentos são uma evidência da crescente censura que as direitas, sem precisar do lápis azul, estão a exercer sem qualquer pudor em consonância com o populismo fascista.

Populismo esse que está a inundar o dito “Ocidente alargado“, estimulado pela inevitável crise económica das “democracias liberais”, para as quais as palavras democracia e liberal são exclusivamente uma fachada, para permitir uma ainda mais despudorada exploração dos povos, pelos grandes grupos económicos.

Caramba!

(Joseph Praetorius, in Facebook, 12/10/2025, Revisão da Estátua)


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A salvação de Carneiro com o regresso do PS à ribalta política não é uma boa notícia.

A subsistência do avençado do casino de Espinho é a salvação da alternância de péssima gente. Péssima notícia, também.

A continuação da existência política do arguido natural no crime do elevador da Glória deixa-me pasmado. E não é um detalhe.

A sobrevivência autárquica do execrando Melo é coisa sinistra.

A emasculação autárquica do Chega não me parece nem mal nem bem. Mas sempre me parecerá que um antigo aluno de seminário de crianças não deve dirigir seja o que for, por estar necessariamente marcado por concepções e práticas de poder – inoculadas do modo mais profundo possível – a produzirem gente imprestável para qualquer existência normal. É pior que o fascismo, aquilo.  No fascismo não há directores de consciência, nem confessionários, nem abusos sexuais nos confessionários. Não esquecendo os mil outros abusos em mil outros lugares, bem entendido.

E aquela espécie de Zita Seabra em Setúbal não é coisa de que possa gostar-se. Detesto “arrependidos”.

A subsistência da corrupção no sistema político está assegurada, sendo o poder autárquico o seu principal assento, como tem sido.

As características fundamentais do regime encontraram aval popular, outra vez e para meu espanto. O sistema é a corrupção, por definição originária, aliás. Embora se não possa esquecer  a vasta abstenção a traduzir, parece-me, verdadeira reserva de decência e espada de Dâmocles apontada à jugular da besta.

O regime cairá portanto e apenas quando mudar radicalmente a conjuntura internacional e isso, aparentemente, não virá longe. Sempre assim foi nesta terra e assim continuará a ser. Os regimes caiem quando muda a conjuntura externa.

Nessa altura a estupidez das maiorias do eleitorado inclinar-se-á para o que de mais estúpido houver, claro. Mas parte da abstenção tornar-se-á plausivelmente activa. E talvez isso assegure outras maiorias e a desparasitação possível.

Assim Deus o consinta.

Voando sobre uma terra de cucos

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 10/10/2025)

Tudo visto e apurado, o Governo limitou-se a dar seguimento a uma tradição imutável da nossa política externa — a subserviência perante os Estados Unidos, Israel e Angola, por esta ordem.


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Então, recapitulemos: é verdade que o primeiro-ministro garantiu que Portugal não aceitaria a passagem de armas para Israel, mas caças F-35 não são armas, esclareceu ele, são brinquedos, daqueles que um ex-embaixador americano em Lisboa dizia que os nossos chefes militares tanto gostam e com os quais nos preparamos para ir gastar — segurem-se — 5 mil milhões de euros. É verdade que, por denúncia unilateral dos Estados Unidos, as Lajes deixaram de estar concessionadas a uma base aérea americana permanente, mas isso não impede que possa ser livremente utilizada por eles, sem contrapartidas e sempre que lhes convier — como para ajudar o amigo israelita, tal como em 1967 ou em 1973. Também é verdade que, apenas por uma questão de manter as aparências sobre a nossa soberania, os americanos estão vinculados a pedir autorização de sobrevoo e aterragem previamente, mas, como se viu no caso, nem é necessário que recebam uma resposta formal: basta que não haja resposta breve e está concedida a autorização por “deferimento tácito”, como sucede com um banal acto administrativo. É ainda verdade que estes factos, revelados por um jornal espanhol, ocasionaram uma imensa trapalhada no Governo, com a Defesa e os Negócios Estrangeiros a empurrarem culpas um para o outro e o PM a desabafar que não percebia tanta histeria sobre o assunto. De facto, tudo visto e apurado, o Governo limitou-se a dar cumprimento a uma tradição imutável da nossa política externa — a subserviência perante os Estados Unidos, Israel e Angola, por esta ordem —, especialmente marcante quando está em funções um Governo de direita (lembrem-se da Cimeira das Lajes e de Durão Barroso a dizer que tinha visto provas indesmentíveis da existência de armas de destruição maciça no Iraque).

2 Como toda a gente percebeu, o CDS já não existe: estava morto e não sabia, como escreveu Cesare Pavese no “Ofício de Viver”. Aquilo que Luís Montenegro generosamente fez nem foi a impossível ressurreição de um cadáver, mas apenas dar uma oportunidade de emprego a Nuno Melo e a três amigos seus, depois de anos sem fim no bem-bom de Bruxelas. Mas, volta e meia, Nuno Melo empertiga-se, Paulo Núncio estrebucha na sua inconsciência gravatal e a gente do CDS que resta nas televisões lança umas atordoadas para cima da mesa, para ver se os distinguem do Chega. Ultimamente, o tema é quase sempre Israel, de cujos crimes o CDS e a nossa extrema-direita são acérrimos defensores, em nome, pasme-se, da civilização e dos valores cristãos. Com a história da flotilha para Gaza, Nuno Melo derreteu-se de prazer, esquecendo-se de que é membro menor de um Governo, que não lhe cabe a política externa desse Governo e que nele se representa apenas a si mesmo e não a um partido inexistente. Resultado: um chorrilho de disparates. Dizer que os integrantes da missão eram apoiantes dos terroristas do Hamas, como se os 2,2 milhões de palestinianos de Gaza fossem todos do Hamas, é típico do discurso propagandístico de Israel. E dizer que eles iam em direcção a um “território ocupado por terroristas” até está certo, embora seja o oposto do que quis dizer: Gaza é, de facto, um território ocupado, e ocupado por quem já matou 67 mil dos seus habitantes, ao serviço do Governo terrorista de Benjamin Netanyahu. Porque é que ele não se informa?

3 No ano passado, o SNS gastou 627 milhões de euros em cirurgias feitas em horas extraordinárias e pagas como tal. O esquema — porque é disso que se trata — permitiu a dermatologistas, ortopedistas e cirurgiões de outras especialidades (curiosamente, não urgentes) acumular súbitas fortunas não justificáveis e explica porque é que o SNS dobrou practicamente os seus custos em menos de cinco anos. Só não explica como é que os administradores hospitalares, os chefes de serviço, o Ministério assistem, conformados, a uma situação em que metade das cirurgias, em média, é feita fora do horário normal (no Porto, são só 20%). O que farão estes cirurgiões durante as horas de expediente?

4 São coisas destas que levam o Conselho das Finanças Públicas (CFP), na esteira de outros organismos, a prever que Portugal regressará já aos défices este ano, a menos que o Governo recorra a alguns truques de contabilidade bem conhecidos. Mas, a partir de 2026, não escaparemos nem com contabilidade criativa. A situação é tão transparente de ver que chega a ser irritante: o Governo da AD recebeu as contas públicas com um superavit de 1,2%, correspondente a 2,3 mil milhões de euros em caixa — a herança socialista. Dois anos e duas eleições depois, após ter satisfeito todas as reivindicações do funcionalismo público e de ter atirado sucessivos pacotes de dinheiro aos pensionistas, prepara-se para ver as contas públicas regressarem ao vermelho. Digam os ministros o que disserem, vai ser difícil justificar isto. Pelo que, segundo ainda o CFP, é de esperar que o Governo lance mão da arma mais a jeito: abandonar ou adiar até possível os investimentos a serem feitos com financiamento bonificado do BCE, mas que contam para o défice. Esgotamos, se o conseguirmos, os investimentos financiados a fundo perdido e, quando for necessário entrar com dinheiro para aproveitar juros baratos e uma oportunidade de apostar no desenvolvimento, passamos. Traduzindo: o Governo abdica de investir na economia para poder gastar dinheiro em despesa corrente e permanente. Para ganhar eleições.

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5 Quando não se esgota na exigência de aumentos dos salários e pensões ou na acusação ao PS de estar ao serviço da direita — um mantra que eu imagino que seja de cumprimento semanal obrigatório para um secretário-geral do PCP —, Paulo Raimundo gosta de produzir frases que imagina de efeito instantâneo, tipo quizz, e em estilo irónico-evidente, como se acabasse de descobrir a pólvora. A última destas foi a afirmação de que “o povo não come PIB”. Mas está enganado: come, sim. Eu explico: o PIB representa toda a riqueza produzida num país, seja na indústria, na agricultura, nas pescas, nas minas, nas exportações, e é o resultado do esforço de todos — trabalhadores, empresários, investidores, Estado. O PIB português foi de 290 mil milhões de euros no ano passado, mas se por azar vivêssemos num país africano mediano seria, talvez, de 29 mil milhões, 10 vezes menos. Haveria portugueses a passar fome a sério, muito mais deficiências na Saúde pública, nos transportes, na qualidade de vida em geral, porque quanto mais rico é um país melhor vivem os seus. Isto, que é do senso comum, ainda não entrou na cabeça dos comunistas portugueses, amarrados a mandamentos pré-históricos do marxismo-leninismo, para o qual quanto mais pobre e desigual for um país mais hipóteses de sucesso terá a revolução comunista. A História, porém, tem-se encarregado de mostrar que, quando podem escolher, os povos preferem o primeiro cenário, preferem o PIB. Porque é que Paulo Raimundo também não se informa melhor?

6 A procuradora-geral da República, que passou à História como aquela que conseguiu derrubar um Governo de maio­ria absoluta com um simples parágrafo em que lançava para o ar suspeitas sobre a idoneidade do primeiro-ministro, foi sucedida por um PGR que acha absolutamente normal que, dois anos volvidos, o Ministério Público (MP) a que preside continue a investigar se esse PM foi ou não corrompido. E que acaba agora de declarar que também acha absolutamente “regular” que o MP ande três anos a investigar, seguir e devassar a vida de um juiz de instrução de quem não gosta, abrindo-lhe quatro diferentes inquéritos, escudado numa denúncia de corrupção supostamente anónima e fundada em supostos factos facilmente desmentíveis. Naquela casa confundem autonomia com arrogância e roda livre, e nem o apelo a uma reflexão por parte do Presidente da República os faz pensar. Pior para eles: não querem reflectir a bem, talvez tenham de o fazer a mal, quando o Estado de Direito, que assim vão descredibilizando, conduzir ao poder os populistas que se alimentam desse descrédito. E a autonomia do MP for uma das primeiras coisas a ser sacrificada.



P.S. 1 — Brilhante, corajoso e inteligente o programa de Filomena Cautela sobre as redes sociais, na RTP1, esta semana. Devia passar em todas as aulas de cidadania, em todas as escolas do país.

P.S. 2 — Este artigo foi escrito antes de ser anunciado que estava fechado um acordo de paz para o Médio Oriente.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia