A reserva salazarista do PSD

(Tiago Franco, in Maio, 25/10/2025)

Cartoom de Salazar de João Abel Manta

Na “ânsia de ultrapassar o discurso de ódio de Ventura, a direita deixou-se enredar numa teia de saudosistas de Salazar”.


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Nos anos de maior pujança socialista, o PSD agarrava-se à reserva moral de Cavaco Silva, o algarvio apreciador de bolos que, durante 30 anos, ocupou os maiores cargos públicos da nação, mas insistia que não era um político profissional, antes um professor de economia.

O homem das maiorias e dos rios de fundos comunitários, despejados em estradas, era o D. Sebastião laranja nos anos de Sócrates e no período áureo da geringonça. 

O país mudou, um pouco a reboque da Europa, e o Aníbal, já mais mumificado, deixou de servir como referência. Deu o seu lugar a Pedro Passos Coelho, o homem providencial que foi apeado do poder por uma geringonça, apesar de ter vencido as eleições. 

Nos anos seguintes passou pela oposição até se afastar, definitivamente, depois de perder copiosamente as autárquicas de 2017, dando início ao reinado de Rui Rio. 

Passos Coelho foi o pior primeiro-ministro de que me lembro na idade adulta e aquele que, provavelmente, mais impacto teve na minha geração. Não negando a fase difícil em que pegou no país (numas eleições forçadas pelo PSD, convém lembrar), mais do que gerir as exigências da troika, Passos Coelho destacou-se por ir além das exigências de bancos e seguradoras, numa constante tentativa de se mostrar um bom aluno aos olhos de Angela Merkel.

Fez o que ninguém lhe exigiu e, nesse caminho, congelou as carreiras públicas, condenando professores e demais trabalhadores a um empobrecimento garantido durante uma década. Disse, em altura de plena convulsão social, que os trabalhadores não podiam ser piegas e que as fronteiras da UE estavam abertas. A emigração como consequência do governo de Passos Coelho só tem comparação com a que aconteceu na década de 60, na fuga à guerra colonial.

Passos Coelho era um jotinha com um currículo absolutamente miserável que, perto dos 40 anos, resolveu concluir um curso numa privada qualquer, para não andar nos bastidores da política com o 12.º ano e uma vida a abanar bandeirinhas. Fez o percurso clássico desde as jotas: parlamento, oposição, liderança do partido e acesso ao poder. Um percurso sem estudo ou entrevistas de trabalho, mas carregado de bastidores e amizades nos sítios certos.

Quando a geringonça de António Costa deixou Passos Coelho fora da cadeira do poder, ainda ali existia um político moderado de direita que, mesmo depois de abandonar a política ativa e ir dar aulas, não sei bem de quê, parecia estar em paz com a vida. Admito, de antemão, que a forma como a geringonça o atropelou possa ter causado um trauma que, à primeira vista não era óbvio. Pelo menos para mim.


Montenegro tratou de acabar com as linhas vermelhas e dedicou estes primeiros meses do mandato às políticas do Chega.

Rui Rio pegou no PSD e viu o crescimento da extrema-direita, traçando e respeitando sempre as linhas vermelhas no contacto com o partido fascista. Montenegro, quando sucedeu a Rio, ainda manteve o discurso do cordão sanitário ao Chega, numa altura em que vozes no PSD já defendiam o contrário. 

Foi aqui que Passos Coelho começou a escolher os momentos para aparecer e deixar linhas orientadoras para o futuro, transformando-se no novo D. Sebastião laranja. Lembram-se, nos governos de António Costa, de que ex-vergonha laranja, entretanto recuperado pela CNN como senador, ia defendendo que o cordão sanitário não fazia sentido e que era necessário falar com o Chega? Miguel Relvas, o companheiro de Passos Coelho, mestre das equivalências e camarada da Tecnoforma.

O próprio Passos Coelho, nas raras aparições, reforçava essa ideia, dando a entender que o futuro, como ele o via, não incluía o combate ao fascismo, mas sim um abraço de consensos. Embora tenha achado Passos Coelho um péssimo primeiro-ministro, em 2017, quando ele se afastou, não era esta a ideia que tinha dele. De um pequeno ditador escondido no armário. 

Não sei se o azedume da geringonça durante estes anos ou, eventualmente, a morte da mulher, transformaram o homem e, por arrasto, o político, mas o que vejo, sempre que Passos aparece nos dias de hoje, é um parceiro de jogo perfeito para Ventura.

A reserva moral do PSD, que já foi um partido com gente decente, é alguém que diz que por este andar, qualquer dia os Portugueses sentem-se imigrantes no seu próprio país. Ele, logo ele, que nos incentivou a fazer as malas e aliviar o erário público. É preciso ter uma lata fenomenal ou estar a dormir, todas as noites, com pijamas banhados a ódio e formol.

Montenegro, que apesar de rural (como diz o nosso Marcelo), não é propriamente estúpido, tratou de acabar com as linhas vermelhas e dedicou estes primeiros meses do mandato às políticas do Chega. O objetivo, assumo, é esvaziar, em simultâneo, o saco de Ventura e Passos Coelho.

De repente, é curioso constatar, nesta ânsia de ultrapassar o discurso de ódio de Ventura, a direita deixou-se enredar numa teia de saudosistas de Salazar. E é indiferente o alcance da nossa observação. Chega, IL, CDS e PSD estão embrulhados num discurso que, além da naftalina, já não é original. E se algo falhar, ficamos todos com a sensação de que Passos está ao virar da esquina para ajustar contas com o passado e partir o pouco que estes ainda não conseguiram. 

Nunca a esquerda foi tão necessária e, ao mesmo tempo, quase inexistente. Tem de ser o povo, novamente, a ir para a rua.

Fonte aqui

6 pensamentos sobre “A reserva salazarista do PSD

  1. Uma dúvida que me assola e ainda não vi nenhum desses politólogos de pacotilha nas TV nacionais abordarem, e já que se fala no assunto: quando o PS governou com acordos parlamentares com BE e CDU, entendimento designado por todos eles de “geringonça” a reboque do autor da designação, o irrevogável Paulo Portas (olha quem!), era um sarilho por causa das políticas esquerdistas que trariam miséria incalculável a Portugal (ou seja, redução dos lucros dos patrões, das corporações e das multinacionais)…

    …agora que o PSD desenvolve políticas copiadas ou semelhantes às propostas pelo Chega, em alguns casos chegando a entendimentos com a extrema-direita arruaceira e virulenta, está tudo na paz do senhor, não há “geringonças” nem “engenhocas” a declarar…

    …se dúvidas houvesse da tendência fascizóide que perpassa a comunicação social portuguesa em geral, nos canais e jornais mais influentes e dirigidos às massas, estas seriam desfeitas pelo simples facto que as designações de Paulo Portas, eterno pendura e fazedor de “engenhocas” governativas de direita populista e retrógada, rapidamente passam a títulos divulgados e difundidos pelos respectivos papagaios e propagandistas de serviços, tornando-se expressões vulgares. Um populista direitolas tem sempre câmaras de ressonância e amplificadores ao seu dispor, e agora anda aí um CU (candidato único) que inventa mais que os anteriores todos juntos. Veremos o que sairá daqui…

  2. Se não és democrata tens bom remédio. O que não falta por aí são ditaduras muitas das quais de índole fascista.
    Os Estados Unidos vão no bom caminho mas não te aconselho porque estão a deportar toda a gente.
    A Argentina de Milei e uma boa possibilidade até porque como há muita gente a emigrar deve ser mais fácil.
    A Ucrânia e também uma possibilidade pois um país que ilegaliza quase todos os partidos e cujo presidente já devia ter ido a votos há quase dois anos e não vai deve ser o sonho molhado de quem no ano de 2025 tem a pouca vergonha de dizer que não e democrata.
    Aqui é que não fazes de certeza falta nenhuma.
    Com que então limitar o poder dos partidos.
    E qual que o iluminado que lá punhas?
    Não sendo possível ressuscitar o Salazar punhas lá o Quarto Pastorinho, o Almirante que nos quer mandar morrer onde for preciso ou candidatavaste tu?
    Mas sendo que não és democrata não podias ir a votos.
    Quanto ao facto de haver muitos saudosistas de Salazar no PSD não deve surpreender ninguém pois que a sua génese e na União Nacional e na chamada Ala Liberal.
    Que queria dar umas liberdades económicas e nada mais que isso.
    Que nunca pôs em causa os fundamentos do regime, da polícia política a guerra.
    E que acabou por romper com o regime por causa dessa falta de liberdades económicas e não por qualquer critica ao resto.
    O PSD votou contra a criação do Serviço Nacional de Saúde.A partir daí não vale a pena acrescentar muito mais.
    Deputados do PSD asseguravam a grunharia hoje assegurada pelos deputados do Chega daí a diatribe do pai do Miguel contra o Jerónimo de Sousa.
    Daí que não admira que hoje o presidente da Assembleia da República, do PSD não ponha ordem no galinheiro.
    O Chega e um filho desse PSD fascista, revanchista e saudosista.
    Com um estilo de taberna que cola em muita gente frustrada, vencida da vida e muitas vezes com baixo nível de escolaridade.
    Fruto de um sistema de ensino onde teve de se fazer tudo pois que nada havia do tempo do Salazar a não ser ensinar a ler, escrever e contar, a não ser para uma elite escolhida e de uma falta de interesse por muitos partidos dominantes, e aí andaram todos mal, em explicar as novas gerações o Inferno de crueldade que era a vida nesse tempo.
    Explicar por exemplo que com 12 anos já quase todos estariam a trabalhar nos campos ou em fábrica comendo uma sardinha as vezes dividida por três.
    E que o pai poderia malha los a eles e as mães conforme lhes desse na gana e que e pela herança desse tempo que permeia ainda muito do nosso sistema de justiça que muitas dessas coisas ainda acontecem.
    E que se fosse decente e não fizesse nada dessas coisas podia ser preso por dizer que a vida estava cara ou a mãe ser morta por dizer que queria pão para lhes dar.
    Se calhar é por isso que temos gente a gabar se que não e democrata esquecendo se de que e graças a democracia que pode dizer que prefere outro regime.
    Porque se num regime sem democracia dissesses que eras democrata ias imediatamente preso e ninguém te livrava da tortura.
    E essa e a fragilidade da democracia que por vezes acarreta a sua destruição pelos tais que não são democratas.
    A nossa democracia até tem plasmados na Constituição mecanismos para ilegalizar saudosistas do fascismo.
    Não quiseram seguir por aí e deixaram crescer o monstro.
    Por isso ou o povo acorda ou isto tem tudo para correr muito mal.
    Porque poucos sobreviveriam a um regresso ao passado.
    Em resumo, se não queres ou não podes emigrar para um país não democrático ou governado por alguém que não e democrata vai vê se o mar da tubarão branco cheio de larica.
    Aqui é que já temos demais como tu.
    Fascismo nunca mais.

  3. “Quando a geringonça de António Costa deixou Passos Coelho fora da cadeira do poder, ainda ali existia um político moderado de direita que, mesmo depois de abandonar a política ativa e ir dar aulas, não sei bem de quê, parecia estar em paz com a vida.”

    Político “moderado” de direita, tipo as “rendas moderadas” do programa do Governo do Montenegro?

    🚩🚩🚩

    Nos dias de hoje, quem não tiver um pé atrás e a pulga atrás da orelha quando ouve ou lê a palavra “moderado” associada a “políticos de direita”, desconfiando do “embrulho”, arrisca-se a levar gato por lebre.
    Basta ver a aproximação e apropriação à extrema-direita dos auto-proclamados “moderados” que nos governam, seus aliados e similares…

    Quanto ao Passos Coelho, percebo a alusão à sua vida pessoal, à tragédia conjugal, numa visão biográfica abrangente, mas convém focar a figura pública e política. Ele não se transformou em “para-lá-de-moderado”, a única coisa que mudou exteriormente foi o penteado (ou a ausência de), ele sempre foi aquilo que as circunstâncias partidárias e políticas pediram dele, tal como o delfim André Ventura.

    Quem dizia que este último era um instrumento de António Costa e que o Chega era uma criação do PS, deve ter pensado que todos somos pategos e ninguém sabe a história e o trajecto político e ideológico destas criaturas simbióticas e macabras, quase mórbidas. E podemos formar um triuvirato e incluir Miguel Relvas, que foi reabilitado na televisão com lugar cativo precisamente para fins político-partidários, quem sabe um dia saltando linhas vermelhas e roxas com Passos Coelho e Ventura. O PS pode ter muitas culpas no cartório, mas quem lançou esta gente para a ribalta foi o partido dos laranjinhas. O tal das “direitas moderadas” que já meteu, tal como o PS fez ao “socialismo”, a “social-democracia” na gaveta, muito antes sequer do início do século XXI.

    Portanto, é bom desconfiar sempre (e muito) da linguagem “politicamente correcta” (cheia de manipulações rectóricas e polvilhada de aldrabices e truques de ilusionismo) apresentada pelos políticos suposta e pretensamente “moderados” nos dias que correm. E também das promessas que fazem. Ainda por cima seguem guiões de agências de comunicação e são orientados por consultores (de marketing, de imagem e popularidade, políticos), e além disso ainda têm as cartilhas e directrizes das instituições e organizações internacionais, além dos agrupamentos políticos europeus, etc. O que sobra de autêntico e honesto, de sincero e válido, é muito pouco, porque as políticas não são criadas e realizadas em prol das pessoas comuns, e sim baseadas em think tanks, organizações supranacionais e até nas ordens maçónicas de que o nosso Primeiro Ministro é um afiliado, hoje ainda mais “discretamente” que noutros tempos, pois já lhe bastam os imbróglios com avenças, não precisa de empecilhos com aventais. E não deve ser o único com “causas profundas” e “valores obscuros”.

  4. As discussões tem revelado o equívoco sem esclarecer o problema. Já nem se sabe o que há-de entender-se por democracia. Salazar.
    Se Povo é o soberano por atribuição dos que vão obedecer- súbditos- então ele é o autor da autoridade.
    O amigo estava preocupado sem saber o que eu era? Eu também não sei.
    Não sou democrata pela mesma razão que não sou fisiatra
    Enquanto não limitarem o poder dos partidos – não acordam maiorias não governam – podendo os governos ser formados pelo P R não se vai a lado nenhum.
    Não existe Supremo Tribunal de Justiça. Uma fraude não é supremo.

  5. Sim, Passos Coelho foi de certeza o pior primeiro ministro que tivemos em democracia.
    Mais do que as suas políticas que mataram gente, era a insensibilidade do homem que me dava volta aos fígados.
    O homem até podia estar a ser literalmente obrigado a fazer muitas dessas atrocidades por imposição da troika mas fez gala de dizer que iria além da troika e disse coisas simplesmente imponderáveis.
    A troika não o mandou de certeza insultar as suas vítimas com a história do “não sejam piegas” ou o dizer que quem estivesse mal que emigrasse.
    Este homem de olhos frios e que dizia coisas imponderáveis vai estar sempre nos meus pesadelos.
    Porque sofri nesses anos uma perda irreparável dado o estado miserável em que a saúde pública estava nesse tempo.
    Montenegro parece a essa respeito querer acabar o que o outro começou.
    Mas o sujeito podia ter feito tudo isso sem insultar as suas vítimas.
    Se fosse ver se o mar da tubarão branco faminto e encontrasse um não se perdia nada.

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