Os exemplos que vêm de cima

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 05/09/2025)

Indiferentes ao que se passa do outro lado do mundo, incapazes de entenderem que nada será igual ou previsível enquanto Trump estiver na Casa Branca, os dirigentes europeus prosseguiram nos seus monólogos de Guerra Fria e verdades tidas como inquestionáveis.


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Durante uma dúzia de anos, pelo menos, dez bancos a actuar em Portugal — ou seja, todo o sistema bancário nacio­nal, incluindo o banco público — trocaram entre si, e numa base habitual, informação classificada sobre spreads, taxas de juro e política de empréstimos a particulares e empresas. Aquilo que imaginaría­mos ser um segredo concorrencial fechado a sete chaves era afinal uma descarada concertação entre supostos concorrentes, tendo como objectivo final o prejuízo dos seus clientes, impossibilitados de poderem escolher livremente o banco que melhores condições lhes desse. Esta história deveria encher de vergonha todos os banqueiros que temos e que tanto gostam de nos olhar do alto: eis aqui um sector determinante para a economia de um país, que, quando atravessa dificuldades, já várias vezes teve de ser socorrido com o dinheiro dos contribuintes, mas que, quando prospera, não dispensa a batota e a supressão ilegal do risco. Apurados os factos, o “cartel da banca”, como justamente ficou conhecido, foi condenado em quase simbólicos 225 milhões de multa pelo Tribunal do Comércio de Santarém, decisão revertida pelo Tribunal da Relação de Lisboa e depois confirmada pelo Constitucional, com fundamento no habitual manto diáfano da prescrição, que entre nós se confunde com absolvição, assim como acusação se confunde com condenação.

O mesmo destino justiceiro parece estar reservado ao “cartel da distribuição”, também condenado em 1ª instância a 700 milhões de multa, por idênticas e nobres actividades de concertação contra os consumidores. E depois pregam as virtudes da iniciativa privada, da livre concorrência e da necessidade de deixar o Estado de fora da economia! Mas quando dois dos sectores mais destacados e louvados da economia privada perderam a vergonha de fazer o contrário do que apregoam, o que há a esperar dos outros, do país?

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2 Em Tianjin, Xi Jinping reuniu o Grupo de Xangai — China, Rússia, Índia, Turquia e mais 16 nações, quase metade da população mundial, para, dizem, esboçar o princípio de uma ordem alternativa, ou de uma qualquer ordem — no comércio, no direito internacional, nas relações entre Estados — face à desordem instalada no mundo pelo fora da lei Donald Trump. Porém, indiferentes ao que se passa do outro lado do mundo, incapazes de entenderem que nada será igual ou previsível enquanto Trump estiver na Casa Branca, os dirigentes europeus prosseguiram nos seus monólogos de Guerra Fria e verdades tidas como inquestionáveis. Se o avião em que viajava Von der Leyen, no seu périplo de inspecção pela linha da frente da anunciada guerra com a Rússia, perdeu o GPS, como tem sucedido com outros na zona do Mar Negro, a Comissão Europeia fala imedia­tamente em “ataque russo” e a sua presidente, miraculosamente salva, ganha o estatuto de heroína de guerra. O ataque aéreo russo — esse sim, verdadeiro — que atingiu lateralmente o edifício da UE em Kiev e que, em toda a cidade, causou 17 mortes, foi classificado por Kaja Kallas, a chefe da diplomacia europeia como “um crime de guerra”. Mas Kallas, representando um minúsculo país de 1,3 milhões de habitantes, a Estónia, e escolhida para o cargo por ter uma biografia pessoal e familiar de ódio à Rússia, jamais viu motivos para se indignar com aquilo que hoje é reconhecido oficialmente como o genocídio em curso em Gaza. Segundo ela, “a Europa quer a paz, a América quer a paz, a Ucrânia quer a paz; a única que não quer a paz é a Rússia”. Não sei onde é que ela terá descoberto que a Ucrânia quer a paz, pois ainda não ouvi Zelensky declarar-se pronto a qualquer concessão, antes pelo contrário — e dizer que se quer a paz traduzida na retirada total dos russos e nenhuma concessão do outro lado não é uma demonstração séria de vontade de paz. Já quanto à Europa, nunca lhe vi a menor preocupação, o menor gesto ou tentativa de ajudar a um acordo de paz, apenas e só a mesma política inalterável: mais armas para a Ucrânia compradas aos americanos, mais sanções para a Rússia, mais despesas dos europeus para a guerra iminente.

Os exemplos que vêm de cima
Ilustração Hugo Pinto

Entretanto, o mais próximo inimigo da Europa, Donald Trump, goza nos corredores de Bruxelas de uma condescendência, expressa num discurso unanimista do qual só destoam três ou quatro países. Até o nosso António Costa, outrora um socialista do sul da Europa e aparentemente capaz de pensar pela própria cabeça, não tardou nada a alinhar pelo discurso imperativo da maioria e da sua chefe. Se fosse repetida a cena de Istambul, desta vez não seria Costa que deixaria Von der Leyen de pé, mas esta a ele. E, quando tão a despropósito se fala de Munique a pretexto de não poder ceder nada a Putin, o mais parecido que eu vi com Munique foi a cena do clube de golfe de Trump, na Escócia, quando Von der Leyen ajoelhou e capitulou em toda a linha aos pés de Trump para, disseram-nos, “terminar com a imprevisibilidade” da guerra das tarifas. António Costa tinha dito, depois da cimeira da NATO, que obrigou os europeus a comprometerem-se com gastos em segurança e defesa equivalentes a 5% do PIB e na compra maciça de armas aos Estados Unidos, que eles seriam compensados depois quando se regulassem as tarifas entre ambos os lados. Sucedeu pior do que o oposto, o que não impediu António Costa agora de vir dizer que o “acordo” feito sob chantagem foi a “decisão mais inteligente e responsável” por parte da Europa.

Mas tudo isto faz sentido, à luz do que tem sido o desempenho da liderança europeia. Bruxelas assiste, absolutamente alheia e temerosa de desagradar a Trump, às tentativas — por parte de países asiáticos liderados pela China, mas também de desalinhados como o Brasil, o Canadá, a África do Sul — de criar uma alternativa capaz de enfrentar um Presidente americano que acha que pode dar ordens a qualquer nação estrangeira. Aliás, nas vésperas da humilhação escocesa, Von der Leyen e António Costa foram em via­gem oficial a Pequim. Procurar um esboço de parceira estratégica, pelo menos no comércio bilateral? Tentar sintonizar as respectivas economias para enfrentar os novos desafios, comprometerem-se mutuamente na continuidade do combate às alterações climáticas, à revelia de Trump? Não, nada disso, foram falar de alto a Xi, como não se atrevem a falar nem a Trump nem a Netanyahu, e como se representassem alguma coisa mais do que os serventuários voluntários desse “aliado fundamental”, como diz António Costa, referindo-se ao amigo americano.

3 A deputada do Chega Rita Matias (já habitual nestas coisas) acolheu, divulgou e ampliou um post de um militante do partido que sustentava que, enquanto que os imigrantes chegados a Portugal só por esse facto beneficiam logo de apoios do Estado, os bombeiros voluntários combatem os fogos sem nada receber em troca. Ambas as coisas são falsas: os imigrantes não beneficiam de quaisquer apoios por o serem e os bombeiros voluntários, apesar do nome, recebem 75 euros por dia de combate ao fogo (mesmo para “voluntários” é bem pouco, mas há países, porventura mais inteligentes, onde os bombeiros, voluntários ou profissionais, não recebem por cada dia a combater fogos, mas o contrário: por cada dia em que não houve fogos, sinal de que antes investiram na prevenção e na vigilância). Irá a senhora deputada repor a verdade ou dá mais jeito deixar correr a mentira?

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

3 pensamentos sobre “Os exemplos que vêm de cima

  1. Não sei onde o Miguel vai buscar estas coisas.
    Isto faz lembrar o tal ditado, “todos os pássaros comem trigo mas quem paga é o pardal”.
    O que lixa esta cambada com Trump e o facto deste nem a Europa respeitar.
    Se e para roubar e para roubar em todo o lado e a toda a gente e a Europa não é mais do que Líbia, Síria, Iraque e outros países invadidos e pilhados por sucessivos presidentes americanos.
    Não e preciso e bombardear nos pois que os nossos supostos dirigentes são bons na nobre arte de lamber cus gordos.
    Obama foi um assassino sanguinário que pos as crianças afegas a rezar por dias nublados. Porque nesses dias os drones assassinos que matavam tudo e todos a pretexto de caçar um qualquer terrorista não voavam ou acertavam muito menos.
    A destruição da Libia foi total, como reconheceu um arquitecto que para lá foi ganhar algum a custa dos trabalhos de reconstrução. “As cidades foram varridas, ninguém faz ideia”.
    Eu posso fazer. Aviões de 17 países a bombardear durante seis meses um país de seis milhões de habitantes na esmagadora maioria concentrados em cidades ao longo de uma estreita faixa costeira.
    Mas até cidades no meio do deserto sofreram essas visitas de morte, uma das quais apenas porque ai vivia o que diziam ser o cla beduíno de Kadhafi.
    Sim, porque Kadhafi foi tudo o que estes cerdos lhe quiseram chamar, incluindo clinicamente louco como chegou a dizer o Miguelito, mas criou casas no meio do deserto para impedir que houvesse na Líbia outros desgraçados como ele que só entrou debaixo de telha quando foi para a tropa.
    Killary Clinton riu a bandeiras despregadas ante o seu linchamento bárbaro e certamente encomendado para que outros vissem o que podia acontecer a quem desafia nações indispensáveis. Em especial se for muçulmano ou árabe.
    Essa mulher tresloucada poderia ter sido presidente dos States em 2016 e seria certamente muito pior do que foi Trump 1.0.
    O bêbado cristão renascido não deixou os seus créditos por maos alheias no Afeganistão e Iraque a pretexto no primeiro caso de caçar o Bin Laden e no segundo a pretexto de armas químicas.
    Ambos os pretextos falsos, Bin Laden nem sequer estava no Afeganistão e as armas químicas do Iraque só existiam nas mentiras desses trastes neo conservadores.
    A Palestina foi massacrada por Israel nos reinados de toda essa gente e o homem do saxofone e do sexo oral na casa oval estendeu uma armadilha a Arafat.
    O resultado foi o homem passar o resto dos seus dias cercado por Israel em Ramallhah terminando morto atrás do sol posto com uma doença definhante muito mal explicada.
    Nenhum deles disse o obvio. Que Israel e um estado cliente, terrorista e genocida, entretendo se a acusar os seus críticos do costumado antissemitismo e fornecendo sempre todas as armas necessárias.
    O genocidio em curso em Gaza começou com Biden e não com Trump. A Kamalla foi logo dizendo que se fosse presidente nada mudaria no direito de Israel a defender se.
    A única diferença foi que nenhum deles falou num projecto de resort para Gaza.
    Já deve o Miguel pelo menos ter percebido que uma guerra contra a Rússia não pode ser ganha ou também engoliria a treta da Van der Pfizer e do ataque russo ao seu avião. Como se a Rússia tivesse interesse em livrar nos dessa bisca.
    Ela está a fazer um belo trabalho em dar cabo da economia em nome do combate contra a Rússia e da submisso ao grande irmão americano porque raio e que os russos haviam de nos querer livrar dela?
    E talvez por isso nunca mais falou na crueldade russa embora nunca se tenha atrevido falar na crueldade bíblica israelita, essa com muitas provas dadas.
    Em resumo, pode o Miguel ir ver se o mar da choco. Do grande, que e bom para grelhar.

  2. Essa da “desordem instalada no mundo pelo fora da lei Donald Trump” é bué da gira! Ou gira pra caralho, falando em americano erudito! No tempo do corrupto senil Joseph Robinette Biden, do droner-in-chief Barack Obama, do bêbado reciclado em born-again-christian George W. Bush, do Never-Had-Sex-With-That-Woman William Jefferson Clinton e sua sócia, a harpia Killary Klingon, ou do resto dos gangsters que se revezam a esfregar a peida na Sala Oral, no tempo de todos esses anjos imaculados, dizia eu, era tudo uma bela duma ordem! Ou, exprimindo-me de novo em americano erudito, uma ordem do caralho! Até lhe chamavam “ordem internacional baseada em regras”, mas isso era em francês. Ou em mandarim, confesso que não me lembro bem. Ou seria esperanto? Phoda-se, maldita baronesa Brunilde von Alzheimer que não me larga as meninges!

    • Estás 100% certo, e eu pensei exatamente nisso quando li essa frase que citaste. Mas, sabes, se o MST escrever em simultâneo contra ambas as facções imperialistas naZionistas genocidas, depois fica sem estrebaria (MainStreamMedia = FakeNews) onde se instalar e cortam-lhe o pio…

      Toda a gente sabe que o genocídio na Palestina ilegitimamente colonizada foi acelerado sob o comando do imperador Biden (ou melhor, dos agentes do DeepState que lhe limpavam as fraldas aos dias pares, e iam levantar os cheques da AIPAC aos dias ímpares…), mas assim que Trump chegou ao poder, toda a máquina de propaganda e Fake News da faccção Facho-Liberal-Woke fez de conta que as “maldades” em Gaza são da exclusiva responsabilidade da facção Facho-Nacionalista-Conservadora.

      Pois bem, o MST não é excepção a essa turba de idiotas e intelectualmente desonestos.
      Cada vez que MST consegue cag*r dentro do penico, depois passa o resto do texto a borrar-se todo.
      Ou, dito com mais elegância, é como os relógios avariados. Duas vezes ao dia, lá acertam nas horas, mas passam as restantes horas todas errados. Mas para quê elegância, se é de bicharada selvagem que estamos a falar?

      Portanto o MST, como bem apontas, não viu nenhuma desordem quando se invadiu o Iraque e o Afeganistão, quando se treinou e financiou e armou o Bin Laden e os seus Talibã, quando se bombardeou a Sérvia e a Líbia, quando se prolonga a invasão do Kosovo e da Srpska pelas tropas da NATO, quando se tenta o N-ésimo golpe fascista contra a Venezuela e Cuba e outros, ou quando se aplicam sanções a 1 terço do Mundo, ou quando se mantêm os Montes Golã invadidos, ou quando se enviam armas de destruição em massa para os separatistas em Taiwan, etc.

      Tudo isso é “ordem”. A tal de “ordem internacional baseada em regras”, como bem referes. Uma “ordem” onde um país quer deixar de passar fome e derrotar o terrorismo islâmico (financiado e treinado e armado por CIA e Mossad e Mi6), passa uma década em guerra “civil” e onde o cessar-fogo só serviu para os terroristas proxies do Ocidente se rearmarem e finalmente chegarem a Damasco!
      Aí sim, a Síria já passa a estar “ordenada”, e o put*do e put*ria da Europa até faz fila para abraçar o “bin Laden” de Idlib, antes chamado al-Julani e vestindo turbante e barba longa, agora chamado al-Sharaa e vestindo fato Armani e de barba aparada, a postos para a photo-op da BBC, da CNN, e da Euronews, com títulos para para atrasado mental ocidental (+90% da populaça) comer com a testa: “jihadismo inclusivo”.

      Não, a desordem, dizem-nos os idiotas e escribas bem corrompidinhos, só chegou com Trump…

      Olha, meu queriducho MST, que a avença que te pagam via Expresso/Impresa te sirva para comprar muita coisa. E que sejas feliz assim, ao lado dos teus pares “intelectuais” a fazer oinc oinc e a rebolarem-se todos na mesma estrumeira.

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