Do vermelho para o cinzento-escuro

(Viriato Soromenho Marques, in O Setubalense, 20/05/2025)

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Os resultados eleitorais no concelho e na península de Setúbal revelam a verdadeira chave de leitura destas eleições. Uma leitura que tem de ir para além do imediato. Tem de compreender e integrar as tendências de fundo. Deve articular-se com a mudança das placas tectónicas eleitorais nos países ocidentais. Dos EUA, ao resto da União Europeia.

Se a nível nacional foi a AD que ganhou as eleições, a vitória do Chega na região de Setúbal diz-nos muito mais sobre o que poderá suceder no país a médio prazo. Tal como sucedeu nas regiões industriais dos EUA, onde a esquerda do partido Democrata preponderava e agora campeia o trumpismo, ou nas áreas mais industrializadas de Itália, França e Espanha, onde os partidos comunistas e socialistas clássicos eram preponderantes, e agora são as forças de extrema-direita que se tornaram hegemónicas, parece ter chegado a vez de Portugal colocar a extrema-direita à frente em distritos que, tradicionalmente, estavam pintados a vermelho, ou vermelho e rosa. A pior coisa que se pode fazer, por ser intelectualmente arrogante e um total erro de análise, é culpar os eleitores. O crescimento do Chega em Portugal, como o do Vox em Espanha, o do Reagrupamento Nacional em França, o da AfD na Alemanha, ou o dos Irmãos de Itália da primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, são, na sua essência, uma consequência e não uma causa.

Em todo o Ocidente, começando como sempre nos EUA, o debate político foi sendo transformado num espetáculo. As ideias foram substituídas por slogans publicitários. Os conselheiros políticos deram lugar a agências de comunicação que mudam a maneira de vestir e de falar dos candidatos. Os próprios partidos deixaram de ser os sujeitos do jogo político, para serem apenas os meros promotores de “candidatos a primeiro-ministro”, transformando as eleições para os parlamentos em castings de bem-parecer e charme. Veja-se como a AD fez destas eleições uma batalha para referendar em eleições as falhas éticas de Luís Montenegro, numa total falácia entre justiça e popularidade eleitoral. Não admira que à frente dos partidos se tenham posicionado, não os mais experientes e competentes, mas os mais aliciantes, fotogénicos e empáticos.

A substância das eleições perdeu a sua componente semântica, para se transformar num debate entre personalidades, com uma componente emocional cada vez mais fundamental. Não foi o Chega sozinho que esvaziou a campanha de temas essenciais para o futuro de Portugal: o alinhamento de Portugal e da União Europa numa guerra perdida, que pode escalar para o apocalipse nuclear; a loucura de pensar que o futuro da UE se encontrará numa corrida aos armamentos, aumentando as dívidas públicas, a desigualdade e a degradação dos serviços de saúde, educação e transportes, assim como da própria segurança social. Em 2014 e 2019 escrevi dois livros onde demonstrei que, sem uma reforma profunda da zona euro, Portugal e outros países seriam esmagados e condenados a uma austeridade perpétua. O que aconteceu desde aí? O PS, a AD e o resto dos partidos “responsáveis” continuam a tratar a UE como uma “vaca sagrada”, ao ponto de António Costa ter trocado a sua maioria absoluta de 2022 por um lugar à frente do, cada vez mais patético, Conselho Europeu.

O Chega cavalgou com maestria esta tendência. André Ventura – um génio na gestão das imagens, das emoções e do carisma – transformou a política portuguesa num grande Reality Show, num Big Brother a tempo inteiro. Quanto mais os problemas de degradação da qualidade básica de vida dos portugueses aumentavam, devido aos desastres acumulados pelo PS e AD na promoção de crises – apresentadas por esses partidos como sucessos – na habitação, na saúde, na educação na precarização do emprego, mais Ventura não só referia esses temas como procurava apresentar uma causa fácil de identificar para eles, à altura de um Big-Brother. Para Ventura e o Chega, a culpa da degradação da qualidade de vida e da crescente desigualdade no nosso país, não reside na submissão da UE aos EUA e ao grande capital financeiro, numa união monetária construída sobre bases injustas, transformando uns países em filhos e outros em enteados, numa guerra contra a Rússia que está a autodestruir a economia europeia e as bases do seu futuro. Não, para Ventura e o Chega, a causa é próxima e tem rostos concretos: são os ciganos, são os imigrantes, são aqueles cuja existência é considerada como um insulto a preconceitos sinistros e desumanos, que são apresentados como se fossem valores.

Ao fazer essa grotesca fulanização das causas do mal-estar social de muitos milhões de portugueses, Ventura e o Chega sabem que estão a arrastar para o seu lado, as forças viscerais da agressividade e do ódio. Estão a fazer um pacto com o diabo. Tudo indica que essa via rápida para a terra prometida do poder político, não lhes causa quaisquer problemas de consciência.

Em 1933, quando Hitler chegou ao poder por via eleitoral, para destruir a República de Weimar e instaurar a ditadura nazi, também a política já havia sido transformada num processo de escolha emocional e encenada com talento dramático e artístico de um chefe providencial. O povo alemão, “povo de poetas, músicos e filósofos”, corroído pela fome e desemprego do colapso do capitalismo financeiro iniciado em 1929, também deixou de discutir a luta de classes e as culpas do capitalismo, para se concentrar na minoria judaica como bode expiatório. O “império de mil anos”, prometido por Hitler, terminou doze anos depois, num inferno de sangue e fogo.

Ainda vamos a tempo de evitar sequelas desses tempos sinistros em Portugal e na Europa. Mas, para isso, importa reinventar a política como um assunto sério, fundado no conhecimento racional e na competência. Orientada pela resolução dos problemas das pessoas, numa perspetiva de justiça e do primado do bem comum. Visando também o longo prazo, para que as decisões de hoje não deixem um mundo em ruínas e desertificado como casa hostil das gerações futuras.

Fonte aqui

25 pensamentos sobre “Do vermelho para o cinzento-escuro

  1. “Tricas”? Continuas a fazer o pino enquanto vês o filme! O que temos aqui são divergências e legítima expressão das ditas. Nada de mal! “Tricas” é coisa de outro campeonato, 4ª Divisão ou menos ainda, não é a minha praia.

  2. Eu não tenho problemas com isso. Chamarem nos nomes faz parte da vida e desde que me xingaram d Bolsonaro por não querer meter mais veneno no bucho já nao me espanto com nada.
    Mas as vezes não há pachorra quando nos chamam infiltrado de direita ou nos comparam com os defensores do sionismo genocida ou da Ucrânia nazi.
    Mas enfim, continuamos por aqui.
    O que e preciso e não entrarmos em tricas que nos dividam iremediavelmente. A direita normalmente não discute entre si porque vergonha no focinho não teem nenhuma e desde que cheguem ao poder não lhes interessa mais nada e para lá chegar são capazes de engolir um elefante.
    Mas, claro, também teem as suas purgas e no caso deles partem logo para a eliminação física dos desafectos.
    Por alguma coisa o Chega chegou a debater a possibilidade de pena de morte.
    Enfim, temos um grande bico de obra a aviar porque muita gente prefere ceder aos seus ódios do que conseguir vida decente.
    Não serve de nada um partido ter como slogan “a tua vida importa” se as pessoas estiverem mais interessadas em destruir a vida dos outros que melhorar a delas.
    Quer gostemos ou não, por muito frustrados que nos sintamos com gente que conhecemos e nos parecia decente foi isso que aconteceu faz amanhã uma semana
    Demasiada gente mais interessada em destruir outras vidas que em melhorar a deles.

  3. — “E se achas que as pessoas são muito boazinhas em geral dá uma volta pelo que acontece em cenários de guerra ou catástrofe, pelo menos no tal Ocidente alargado. Porque era desse ponto do globo que eu estava a falar.”

    Onde é que eu disse que as pessoas são todas boazinhas, pá? As pessoas são o que as circunstâncias (pessoais, sociais, históricas, ambientais e outras) fazem delas. Em situações extremas, como a de Gaza, há gente tida como má a cometer actos de altruísmo de que nem elas próprias se julgariam capazes e há gente boa a acobardar-se e a ficar com vergonha de si própria. É, foi e será assim em todo o lado, embora as circunstâncias extremas de Gaza tenham trazido ao de cima o que de melhor têm os seres humanos. E os humanos são os mesmos em Gaza, Rússia, Ucrânia, Almodôvar ou Alcabideche. Afirmar que as pessoas do Ocidente são piores do que as outras é tão xenófobo como dizer que piores do que os outros são os ciganos, como faz o Ventura.

    — “Tu já conseguiste afugentar daqui outros acusando os de radicalismo e outras coisas porque acabam por se fartar de bater boca contigo.”

    Que “outros” foram esses que eu consegui “afugentar daqui acusando-os de radicalismo”, pazinho? Estás a referir-te ao provocador que apelava a subscrições públicas para comprar armas aos houtis e que tu, “inteligentemente”, disseste que apoiavas a 100%? Não o acusei de radicalismo, mas sim de provocação, obviamente ao serviço daqueles que dizes combater. E nunca bati boca com ele, até porque o tipo nunca respondeu à acusação, limitou-se a recuar para detrás do muro, de onde, obviamente, continua a espreitar. O gajo foi-se embora por ter sido desmascarado, não pela injustiça da acusação. Os posts da Estátua e as discussões que aqui acontecem incomodam a sacanagem e eles não dormem em serviço, isso te garanto. Será boa ideia, porém, não lhes dar uma ajudinha, penso eu de que…

  4. O grande problema é que os pategos se unem em torno de encantadores de pategos, como já ficou demonstrado em vários países, não é exclusivo nosso, e o 4.º pastorinho até mete constantemente os pés pelas mãos, tal como a propaganda que o seu partido divulga é cheia de aldrabices e falsos moralismos.
    Já os inteligentes são perspicazes, têm tendência a ter opinião própria sobre tudo e a dividir-se por vezes em tricas, intrigas e questiúnculas menores, ou melhor, insignificantes…
    De qualquer modo é sempre salutar haver alguma discussão e troca de argumentos. Nas seitas dos pategos acríticos que abundam por aí, todos repetem as palavras do seu “supremo líder” e o reverenciam como um farol e guia referencial… isso traz união e força ao princípio à pategada, mas depois com tempo traz repressão, cisão interna, purgas, mais tarde convulsões, colapsos e revoluções. E muita tragédia ao longo do processo.

  5. Vivo em Setúbal e ando na rua, ouvindo este e aquele, num táxi (sempre eles, a fina flor do facho que pede um Salazar em cada esquina) num estabelecimento, numa paragem de autocarro e o assunto de conversa chega a ser obsessivo. São os ciganos e os imigrantes. E é mesmo por isso que quase todos eles e elas, já agora, berram que quem resolvia o problema era o Ventura. Não me espantou, por conseguinte o voto de Setúbal. Doeu-me mas não me surpreendeu.
    Quanto à diatribe do senhor Camacho visando o Wale, considero-a no mínimo deselegante

    • E quanto à substância, tem alguma coisa a dizer? Também acha que os do Sul (alentejanos e algarvios) são uns fascistas incivilizados, más pessoas, e que civilizados são os do Norte? É que é isso que o Whale diz. Também acha que não pode haver gente boa que, por excesso de credulidade, ignorância, alienação ou estupidez, vota em demagogos, aldrabões e vigaristas?

    • E, já agora, de 1 a 10, quantos pontos dá às diatribes do Whale visando o Viriato Soromenho Marques, a Alexandra Lucas Coelho ou outros infiéis que atentam (vade retro!) contra a sua (dele) imaculada pureza política e ideológica? Respeitosos cumprimentos do diatribeiro Joaquim Camacho.

    • E porque, mesmo sem a conhecer, já gosto de si, até (sem ironia) pelo modo como defendeu o Whale, aqui lhe deixo um poema de outro setubalense, o genial poeta Barbosa du Bocage. Sabe, Isabel, há coisas que levo a sério e outras que nem tanto. Há uma coisa, porém, que levo muito a sério, que é o não me levar a mim próprio muito a sério!

      https://youtu.be/wLNJ–fRxtY?si=TpIbmjAo2157wLcb

  6. Whale, onde é que eu disse “que há gente muito boazinha entre os cheganos”, pá? De estúpido não tens nada, pelo que não acredito que não percebas a distinção entre cheganos e os que, iludidos, alienados, zangados com problemas para os quais não vêem solução, votam nos demagogos, aldrabões e vigaristas cheganos na esperança parva de que alguma solução, por obra e graça do 4° pastorinho, finalmente apareça. O aldrabão e demagogo Ventura, com o seu umbigo merdoso do tamanho da galáxia, quer mandar, ser adorado e ser considerado o maior génio da história da Tugalândia, escolhido pelo Altíssimo para conduzir a nação à redenção. Se milhares de criaturas crédulas, fartas de problemas para os quais não lhes dão solução, acreditam nos aldrabões e demagogos que tudo prometem sem a mínima intenção de cumprir, não é por serem más pessoas. Podemos chamar-lhes crédulas, estúpidas, ignorantes, mal informadas, alienadas, mas não fascistas. É claro que todos os fascistas deste país foram votar no Chega, e fascistas por cá sempre houve com fartura, ou o Botas não se teria aguentado no poder quase 50 anos, mas os alentejanos e outros sulistas, ou nortistas, que acreditaram nos demagogos votaram por credulidade, estupidez, alienação ou ignorância, não por maldade ou saudades do fascismo ou da PIDE. É isso que o Viriato tenta perceber e pôr outros a fazê-lo. E é isso que, no meu minicanteiro, eu tento também. Estás a tornar-te um perito em distorcer o que outros dizem ou escrevem. É método que recuso usado e abusado pelos cheganos.

  7. Camacho, se achas que há gente muito boazinha entre os cheganos convida os para umas chouriças.
    E se achas que as pessoas são muito boazinhas em geral da uma volta pelo que acontece em cenários de guerra ou catástrofe, pelo menos no tal Ocidente alargado.
    Porque era desse ponto do globo que eu estava a falar.
    O que e que achas que tinha acontecido se em qualquer país europeu os nos States tivesse acontecido o que aconteceu no sudoeste asiático em 2004?
    Ou o que está a acontecer em Gaza?
    No Ocidente há muita gente ruim e se eu me achasse iluminado estava te agora a explicar porque e a
    Que e assim.
    Foi o Ocidente que pariu o nazismo e o fascismo e os exportou para todo o lado.
    Bolsonaro, Trump, Milei são filhos da Europa.
    E por termos espírito de pilhagem que estamos em guerra com a Rússia há quase quatro anos, em risco de vermos cogumelos cor de laranja e sem fim a isto.
    Já agora, algum chegano de deu um motivo decente para votarem em tais bichos?
    E que nunca o deram nem a mim nem a ninguém que eu conheça. Gente que e de esquerda, sempre foi e partilha a minha opinião. Porque ouve as asneiras que vomitam.
    Tu já conseguiste afugentar daqui outros acusando os de radicalismo e outras coisas porque acabam por se fartar de bater boca contigo.
    Não como ir me embora mas nunca mais vou ler nada teu pelo que podes voltar a comentar os artigos em ver de comentares os meus comentários a chamar me tudo quanto te apetece.
    Fica bem.

  8. Querem saber a minha opinião sobre quem vota no Chega?
    Gente que sempre quis vingar o 25 de Abril e que não votava ou, quando votava e à falta de melhor, votava em partidos como o CDS e o PSD;
    Gente, politicamente, inculta e facilmente manipulada, frustrada com promessas que lhe foram feitas e não cumpridas pelos sucessivos detentores do poder;
    Gente, igualmente, frustrada, mas não tão inculta politicamente assim, querendo – ainda que arriscadamente – abanar, apenas, o sistema existente, na expectativa de que uma regeneração sua possa ocorrer.
    Gente, tão só, má, vendo no chega um veículo para expressar toda a sua maldade, seja contra ciganos, imigrantes, comunistas, etc.
    Qual a percentagem de cada grupo? Já não sei dizer…
    Análise minha, demasiado simplista? Talvez…

  9. Ainda bem que não votaste. Continua assim porque a última coisa que precisamos é de mais humildes trabalhadores a votar no Chega.
    De resto estou me nas tintas para o que e que o assassinado andava a vender. Se achas normal que a polícia possa aplicar a pena de morte em plena rua merecias um pano encharcado em merda no focinho e que um dos carros incendiados fosse o teu.
    Há anos que a polícia mata impunemente, um dia alguma coisa tinha de explodir.
    Eu não quero matar os cheganos, quero os e longe de mim. Não vou de certeza convidar nenhum para uns copos ou uma bela chouriça de porco preto assada. Quero que os cheganos se f*dam.
    Já agora, na te esqueças que quando a formiga votou no insecticida por não gostar da barata morreu também o grilo que se absteve.
    Percebeste ou precisas que eu te faça um desenho do rio cheio de piranhas onde devias ir nadar?

  10. Matá-los a todos sempre foi a ambição dos ditadores e puristas, mas a história tem mostrado que mesmo esses iluminatti nunca conseguiram matar os suficientes. Ficam sempre muitos que, tarde ou cedo, darão a volta. Quanto ao tadinho do trabalhador humilde que regressava do trabalho e foi abatido por um bófia, temos que reconhecer que o dito era sim um perigoso traficante do pó branco, o mais famoso do bairro. Era trabalhador? Era. estava todos os dias à mesa da tasca a vender o produto e a receber as dívidas dos desgraçados viciados. Não certamente por acaso, por mais entrevistas e conversas de esquina que fossem transmitidas, nem uma única alminha questionou qual a profissão do dito. E isso obviamente porque todos esses hipócritas sempre souberam da digníssima ocupação daquela vítima inocente caída devido à ferocidade da repressão policial. Também nenhuma alminha perguntou de quem eram aqueles carros incendiados. Eu não sei de quem eram, mas tenho a certeza absoluta de quem não eram.
    Quanto ao marasmo e ao pântano eleiçoeiro em que as elites nos mergulharam mais uma vez e que V.S.M tão bem descreveu, só posso concordar. Quando me perguntavam porque não fui lá colocar a cruzinha, eu respondi naturalmente que se nenhuma força política nem nenhum daqueles caramelos dirigentes me oferece confiança, por que razões iria eu confiar em quem manifestamente não está à altura? Se não tenho em quem votar, então não voto mesmo. Farsas? Estou fartíssimo.

  11. “E continua a cantiga dos eleitores coitadinhos. Se esses fenómenos se repetem por todo o lado e porque a natureza humana e igual em todo o lado.
    É gente triste, raivosa, tão de mal com a vida que sente que tem de destruir outras vidas, com ódio ao outro sempre houve desde que o mundo é mundo. (…) São má gente, votam por mal. Se um dia 80 por cento da população votar neles tenho de reconhecer que temos 80 por cento de más pessoas. (…) Não tenho obrigação nenhuma de os tentar entender.”

    Tenho uma novidade para ti: a tese de que a “natureza humana”, sendo igual em todo o lado, é “triste, raivosa, tão de mal com a vida que sente que tem de destruir outras vidas”, é tese de direita. Estás certamente convencido de que és de esquerda, confesso que até há pouco tempo também pensei que o eras, mas parece que estávamos os dois enganados. A convicção de que as pessoas só são boas quando as coisas correm bem é de direita. Quando correm mal, pimba, revelam-se de acordo com o que a sua “natureza humana” obriga: “má gente”, uma cambada de cabrões! Vê bem aqueles energúmenos em Gaza, tudo más pessoas! É essa a base da procura de um caudilho, um chefe, um führer, um iluminado entre a massa informe de bestas, cavalgaduras, ceguetas, más pessoas, que o iluminado, o mais melhor bom de todos “nós” (cruzes canhoto!), conduzirá no caminho do bem, do progresso, da justiça e do sucesso colectivo. Porque só o iluminado saberá que caminho é esse. Eu se fosse a ti candidatava-me. Porque é claro que não tens “obrigação nenhuma de os tentar entender”. Basta apontares o caminho às massas ignaras e más pessoas! Ou então matá-las todas!

  12. E continua a cantiga dos eleitores coitadinhos. Se esses fenómenos se repetem por todo o lado e porque a natureza humana e igual em todo o lado.
    E gente triste, raivosa, tão de mal com a vida que sente que tem de destruir outras vidas, com ódio ao outro sempre houve desde que o mundo e mundo.
    Essas pessoas eram solidárias e acreditavam na entreajuda quando a vida lhes ia correndo bem.
    Na realidade não acreditavam verdadeiramente ou nunca engoliriam atoardas como as de Trump ou Ventura.
    E fácil ser solidário quando não nos falta nada, difícil é ter só um pão e ter de o compartilhar. Ai e que a porca torce o rabo.
    São boas pessoas. Como pode ser realmente boa pessoa alguém que vota num partido que celebrou a morte de um homem como um cão quando vinha do trabalho?
    Como pode ser bom alguém que vota num partido em que o líder, na sequência de uma intervenção policial no Martim Moniz perfeitamente abusiva gritou em pleno Parlamento “encostem nos a parede”?
    Como pode ser boa pessoa alguém que vota num partido em que um dos seus membros diz que o pais seria mais seguro se a polícia atirasse mais a matar? Atenção, não se trata sequer de meter na prisão e deitar fora a chave, tratasse de matar.
    Como pode gente boa votar em quem defende prisão perpétua, impunidade policial, a expulsão sem do nem piedade dos migrantes indostanicos, negros ou muçulmanos?
    Que debita todos os dias coisas sobre minorias como os ciganos e os seus supostos privilégios que mais tarde se prova ser rematada mentira.
    Muitos dos que votaram em Trump votaram por acreditar que saíram do atoleiro da Ucrânia. Foram enganados.
    Mas estes bandalhos sabem que serão ainda mais enterrados nele num Governo em que entre o Chega.
    Quando perguntamos a um votante no Chega porque razão lá votou, respondem, “para esses cabrões dos ciganos deixarem de mamar”, “Para correr com aqueles gajos do turbante”,” porque estou na merda e esses gajos a mamar”.
    Nunca e porque pensam que a vida deles pode melhorar, e para destruir a vida a alguém.
    E querem que eu acredite que são só uns coitadinhos que se sentem órfãos e por isso votam Chega?
    São ma gente, votam por mal. Se um dia 80 por cento da população votar neles tenho de reconhecer que temos 80 por cento de mas pessoas.
    Não, não há razao nenhuma para se votar num partido que prega a destruição de vidas.
    Não tenho obrigação nenhuma de os tentar entender.
    Deixo isso para políticos que tenham estômago.
    Nem pela força, nem pelo voto das mas pessoas. Fascismo nunca mais!

Leave a Reply to Whale projectCancel reply

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.