Portugal no limiar: o Chega, a Iniciativa Liberal e a falência política do liberalismo democrático

(Por Alberto Carvalho, in Facebook, 19/05/2025, Revisão da Estátua)


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Este texto dormia entre páginas dispersas, embrulhado num ficheiro sem nome, à espera de ocasião ou sentido. Foi escrito num tempo anterior, como quem prepara explicações sem saber ainda as perguntas. Hoje, depois das eleições legislativas de 18 de maio de 2025, torna-se, tragicamente, atual.

Nessas eleições, a Aliança Democrática (AD) – coligação entre PSD e CDS-PP – foi o partido mais votado, com 32,1% dos votos e 89 deputados, sem alcançar a maioria absoluta. O Partido Socialista, em queda histórica, obteve 23,4% e 58 deputados, o mesmo número de mandatos conquistados pelo Chega, que subiu para 22,6% e se tornou, na prática, a segunda ou a terceira força política nacional, empatada com o PS em assentos parlamentares. A Iniciativa Liberal, por sua vez, atingiu 5,5% dos votos, elegendo 9 deputados – o seu melhor resultado até hoje.

Estes números não são meros resultados eleitorais: são sintomas de uma fratura civilizacional em curso. O Chega e a IL são filhos diferentes de um mesmo vazio. Representam duas respostas antagónicas ao colapso do contrato social: uma pela raiva, outra pela fuga.

O Chega cresce nas franjas sociais da desesperança, nos bairros periféricos, nos concelhos desertificados, entre os desiludidos de tudo. Aponta os culpados com dedo firme – os imigrantes, os ciganos, os políticos, os juízes – e propõe castigos, exclusão, força. Cresce onde a liberdade se tornou apenas sobrevivência.

A Iniciativa Liberal cresce entre jovens urbanos e escolarizados, entre os que tentam competir no mercado global e sentem o Estado como obstáculo. Mas promete liberdade sem garantir equidade; autonomia sem solidariedade. Cresce onde o Estado já se ausentou – na habitação, na saúde, nos salários, na justiça fiscal.

A coincidência temporal é clara: ambos os partidos surgem em 2019 com um deputado cada no Parlamento, se não me falha a memória. Ambos crescem significativamente em 2022, e consolidam-se em 2025, num quadro de profunda erosão da democracia representativa. Ambos canalizam o descontentamento de segmentos distintos da sociedade portuguesa, mas nenhum oferece uma reconstrução do espaço comum. Cada um, à sua maneira, acelera o colapso do ideal democrático.

Entre as causas estruturais desta fragmentação, avultam os números:

  1. A habitação aumentou 70% em Lisboa na última década, tornando-se inacessível para a maioria (INE);
  2. O número de sem-abrigo duplicou entre 2018 e 2022 (ENIPSSA);
  3. O SNS perdeu milhares de profissionais, incapaz de competir com o privado;
  4. Os jovens altamente qualificados emigraram ou vivem em precariedade, sem esperança de habitação própria.

Neste cenário, o PS colapsa, vítima da sua incapacidade de construir respostas novas. A sua linguagem é conhecida, mas soa a desvio; as suas promessas, recicladas. E a AD vence, mas sem capacidade de formar maioria. O país não aclamou um vencedor: fragmentou-se.

O mais grave, porém, não é o que se vê, mas o que se adivinha. O discurso democrático tornou-se irrelevante para amplas camadas da população. O debate político foi colonizado pelo ressentimento ou pelo cálculo tecnocrático. E os partidos centrais, em vez de reconstruírem uma visão comum, disputam migalhas no meio dos escombros.

Este texto não defende regressos fáceis, nem procura bodes expiatórios. Apenas assinala: o liberalismo, em Portugal como noutros lugares, prometeu liberdade e entregou fragilidade. Fragilidade do Estado, da coesão, da esperança. A política transformou-se em administração de danos, e a sociedade em mercado de sobrevivência. E sobre essas ruínas surgem os extremos – diferentes na estética, sim, mas convergentes no efeito: destruição do comum.

O Chega cresce com a promessa de restaurar autoridade e castigo. A Iniciativa Liberal com a promessa de restaurar mérito e competição. Ambas prometem rutura, mas nenhuma constrói comunidade. Ambas prosperam sobre o cansaço – da espera, da promessa, do empobrecimento. São sintomas opostos do mesmo colapso: o da confiança.

Chegados aqui, impõe-se uma escolha – não apenas eleitoral, mas civilizacional. Ou a política resgata a ideia de bem comum, com coragem para proteger os frágeis, reequilibrar o mercado, refazer os laços sociais e devolver dignidade à palavra pública; ou aceitaremos a lenta corrosão das instituições, o abandono dos jovens, o medo dos velhos, a substituição do diálogo pela retórica bélica, e o triunfo de forças que não querem governar – querem vingar-se.

Não se trata de “virar à esquerda” ou “à direita”, mas de escolher entre reconstruir ou destruir. Portugal pode, ainda, escolher reconstruir. Mas essa reconstrução não será feita pelos partidos que cederam à lógica da contabilidade neoliberal, nem pelos que se limitaram a gerir expectativas enquanto se rompia o tecido social. Tampouco pelos que exploram a miséria e o ódio como capital político.

Será feita por quem tiver a coragem de dizer que a liberdade precisa de justiça, a democracia precisa de verdade, e a comunidade precisa de cuidar dos seus – antes que os seus deixem de acreditar nela.

16 pensamentos sobre “Portugal no limiar: o Chega, a Iniciativa Liberal e a falência política do liberalismo democrático

  1. E talvez pudesses tentar um exerciciozinho de racionalidade, como o Albarda-mos um pouco acima (Maio 20, 2025 às 1:22 pm).
    Fica bem… ou mal, que ultimamente parece ser o que preferes.

  2. Tu podes criticar e acusar toda a gente de tudo e mais um par de botas, estás no teu direito e contestarei ferozmente quem tal direito quiser limitar. Mas ficas “de saco cheio” quando o criticado ou acusado és tu! Ora toma que é democrático! Achas-te no direito de decretar, sem contraditório, que “os do Sul” são fascistas! Mas ninguém tem o direito de te colar a nazis e sionistas! Mais democrático ainda! “Os do Sul” contra “os do Norte” e vice-versa? Bárbaros a sul “contra” civilizados a norte? Porra, que puta de conversa é essa? Adoptaste a brilhante tese, parida pela cornadura senil do Josep Borrell, do “jardim” cercado pela “selva”?

    Não te acuso de nazi ou sionista, sei que os detestas tanto como eu. E compreendo o teu desgosto com o que aconteceu no domingo, que não é maior do que o meu. Tento é fazer-te entender que os raciocínios simplistas que cada vez mais aqui empregas obedecem à mesma lógica primária e demagógica de que nazis e sionistas abusam, com os resultados nefastos que conhecemos. Se te sentes ofendido e “de saco cheio” pelo exercício da minha liberdade de opinião e expressão, talvez pudesses gastar uns minutinhos a tentar perceber por que motivo muitas das afirmações que aqui tens feito ultimamente são extremamente ofensivas e injustas para muita gente que não o merece.

  3. Gente boa, está bem. Eu estou a ficar de saco cheio de te ter sempre a acusar me de tudo e mais alguma coisa.
    Porra, andamos nisto há anos onde e que me viste defender os ucranianos nazis ou os sionistas.
    Desculpa lá por não entender como e que gente boa vota num partido que esse sim diaboliza migrantes, ciganos e até mulheres.
    Defende as tuas ideais e deixa me em sossego, pode ser?
    Sei que és alentejano e te custa ver a tua gente virar fascista.
    A mim também, os motivos pelos quais achamos que se tornaram fascistas talvez sejam diferentes mas não é motivo de ate me tentares colar aos nazis e aos sionistas.
    Não defendo a morte de quem votou Chega mas ainda no sábado um votante no Chega ameaçou matar me.
    Um que e sem dúvida um bárbaro mas que até aqui eu pensava que era boa gente.
    Fascismo nunca mais, nem pelo força nem pelo voto dos que decidiram votar para destruir a vida de outros.
    E como a fabula, “a formiga por não gostar da barata votou no insecticida. Morreram todos até o grilo que se absteve”.
    E se não fosse a malta do Norte isto teria corrido pior ainda por culpa de muita “gente boa”.
    Fica bem.

  4. Uma das razões é que se fartam de trabalhar mas não saem do mesmo sítio, e até têm perdido poder de compra (vide habitação) com as políticas das “contas certas” instigadas pela von der Leyen e a UE, e o desinvestimento do Estado em saúde, segurança, infra-estruturas viárias e de transportes. Escolas primárias fecharam, existe uma concentração (até da riqueza) e não uma descentralização. Existe um empobrecimento e uma carência que os governos do PS e do PSD não resolveram com as cartilhas neoliberais, e há estrangeiros, sobretudo europeus, mas também agora com a vaga de norte-americanos, que vivem muito melhor, por vezes apenas parte do ano, e pouco contribuem para o país, não passaram 40 e muitos anos a trabalhar e a descontar e têm um poder de compra muito superior.
    A única convergência europeia foi a do crescimento da extrema-direita por toda a Europa, isso não pode ser por acaso, a UE é responsável pelas causas, por muito que os amantes do neoliberalismo em esteróides e da propaganda russófoba para entupir pategos recusem perceber. O culpado não é o Putin, não foi ele que decretou sanções a torto e a direito sobre a Europa, ou preferiu encarecer o preço da energia e aumentar a inflação. As políticas da UE têm empobrecido os europeus em detrimento dos americanos, comprando-lhes tudo mais caro, desde o gás do fracking, passando pelas armas, a indústria mediática e cinematográfica, tecnologia… Isto de transformar a Europa numa América com mais finesse custa muito caro, sobretudo aos europeus. Também as políticas adoptadas durante a pandemia ajudaram a que tudo ficasse pior a nível de equilíbrio e redestribuição socio-económica.
    Para a seita do Ventura, é fácil culpar os imigrantes de tudo isto, nunca culparam os “superiores” alemães, ingleses, franceses, americanos, etc… E agora está lá o Trump, a quem o Ventura lambe as botas, e faz o mesmo.

  5. “Mas o Norte cresceu em termos civilizacionais e o Sul regrediu.”

    “mas tenho de reconhecer que o Sul dos meus avós regrediu em termos civilizacionais e o Norte cresceu em termos civilizacionais.”

    “Mas e esta realidade que teremos de enfrentar nos próximos quatro anos.
    Norte mais civilizado contra Sul positivamente bárbaro.”

    Esqueceste-te da civilizada Praça de Londres contra o bárbaro Martim Moniz. Porra, pá, quem te viu e quem te vê, já pareces o Dr. Jekyll e Mr. Hyde, uma no cravo e outra na ferradura! É lamentável que não percebas que são raciocínios desse calibre que alimentam o Chega, e também os “europeus civilizados” da Ucrânia, em guerra com os orcs bárbaros da Moscóvia, já para não falar no Netanyahu e seus civilizadíssimos “eleitos”, há mais de 70 anos a lidar com os bárbaros de Gaza e da Cisjordânia. As gentes do meu Sul alentejano por via materna, bem como as gentes do Sul algarvio, onde também tenho amigos, são as mesmas de sempre e são gente boa! Devemos tentar compreender os motivos que as levaram a votar nos demagogos e aldrabões do Chega e não diabolizá-los com raciocínios e conclusões primárias e estúpidas, confundindo votantes com votados!

  6. Eu não penso que devam tirar as mesmas conclusões que nos. Sei que não vao tirar. Mas sinceramente não sei como lhes tiramos a caca da cabeça.
    Ou então começamos a dizer o que eles querem ouvir, sobre imigrantes e ciganos, o que também de certeza não vai resultar.
    Quanto as condições sociais e demográficas entre Norte e Sul elas sempre foram como agora.
    Mas o Norte cresceu em termos civilizacionais e o Sul regrediu.
    Esqueceram se do tempo em que tinham ainda mais miseria do que agora, muito mais, em que a GNR os matava como cães e a PIDE os fazia morrer de “tosse convulsa” em que os ciganos não recebiam apoio nenhum e nem o próprio Diabo para cá queria vir.
    Por isso tenho mesmo de concluir que o Norte se civilizou enquanto o Sul caiu na barbárie.
    E nos tempos que correm nenhum grunho como Ventura teria a benção do Papa mas talvez tivesse de alguma seita evangélica das que nos últimos anos teem crescido a Sul mas não a Norte.
    Sou um cruzamento entre gente do Centro Norte e do Sul mas tenho de reconhecer que o Sul dos meus avós regrediu em termos civilizacionais e o Norte cresceu em termos civilizacionais.
    E duro reconhecer isto mas foi mesmo assim que aconteceu.
    O que e que nos fez afundar no ódio ao outro, na barbaridade, a ponto de votar num partido que recusa apoios sociais quando muitos aliviam a sua miséria com eles desafia a minha compreensão.
    Mas e esta realidade que teremos de enfrentar nos próximos quatro anos.
    Norte mais civilizado contra Sul positivamente bárbaro.

  7. Se o André Ventura fosse um ex-cartilheiro de tablóide portista, se em vez de ungido pelo Vieira fosse pelo Pinto da Costa, talvez o mapa azul-laranja se invertesse, ou seria mais azul no norte. Parecendo que não, esse espécime faz uma grande diferença em toda aquela seita, é o guru que estimula a pategada! Agora imaginem um 4.º pastorinho sob a benção do Papa, e não do Orelhas!

  8. E se a malta do Norte funcionou de modo diferente da do Sul foi apenas porque as condições sociológicas e demográficas no Norte são diferentes das do Sul. Um nortista eventualmente radicado no Sul ou um sulista radicado no Norte mimetizariam inevitavelmente o comportamento de vizinhos e co-habitantes e a região de origem não teria no seu comportamento importância significativa.

  9. O que fizemos (e continuamos a fazer) de errado é pensar que os outros, com os dados que para nós são claros, têm obrigação de tirar as mesmas conclusões que nós. As coisas não funcionam assim e o 4° pastorinho e outros demagogos prosperam à conta da nossa teimosia em ignorar a realidade e continuar como se tudo funcionasse como nós achamos que, em termos puramente racionais, tudo devia funcionar.

  10. Bem, não me estou a recusar a tentar perceber porque e que isto aconteceu. Agora tentar perceber porque e que temos entre nós tanta gente ignorante e má envereda por um campo da psicologia e quem sabe da psiquiatria que obviamente não domino.
    Não consigo descortinar qual é a frustração, ódio ou maldade que leva alguém a votar num partido destes. Porque e que estão tal de mal com a sua própria vida que querem destruir as vidas de outros que na esmagadora maioria dos casos na realidade nunca os prejudicaram de maneira alguma?
    Se tenho o meu ordenado, se tenho a minha vida, porque raio me tenho de preocupar com quem recebe rendimento mínimo a ponto de votar num partido que também me pode virar a vida do avesso?
    Em vez de lutar para que o meu ordenado suba se achar que e baixo.
    Gente que diz que votou Chega “porque os ciganos são muitos e recebem subsídios”. Como raio se combate uma mentalidade tóxica destas?
    Como se combate uma mentalidade que não quer que a sua vida melhore mas que a dos outros piore ou deixe de existir?
    Haver gente normal que e francamente ma e arrepiante mas remete nos também para a ascensão do tal palhaço nazi.
    Quando falou da “banalização do mal” a filosofa Hannah Arendt falou justamente nisso. Em pessoas normais que fizeram coisas terríveis.
    Os nazis não eram monstros vindos de outra dimensão, eram da nossa dimensão, eram gente normal, como nos.
    O que e que a esquerda fizemos de errado. Se calhar não ter lutado mais para que, a luz da constituição, se matasse no ovo esta serpente no dia em que o bandalho apelou descaradamente a discriminação cruel de ciganos.
    Porque de resto apresentamos propostas de vida e de paz enquanto eles apresentam propostas de divisão e ódio.
    Porque e que o bom povo dos brandos costumes prefere as segundas prende se também com coisas que não controlamos.
    A comunicação social vendida e controlada por grandes grupos económicos que levou o Pastorinho ao colo desde a primeira hora e as redes sociais controladas pela mesma gente.
    Mas acima de tudo por um povo que já banalizou o mal e por isso aceita a desumanizacao do outro, sejam ciganos, imigrantes indostanicos ou mulheres.
    E quando um povo começa a banalizar o mal isto tem tudo para correr mal como correu na Alemanha nazi.
    De resto ao nosso palhaço que começou por ser comentador ao serviço do ódio por conta do Benfica nunca ninguém lhe deu pouca importância. Pelo contrário, sempre a comunicação social o levou ao colo com resultados que se pretendiam.
    E sim, e preciso muito mais que um bandalho como ele para matar o partido que noutros tempos foi muitas vezes a única força que se ergueu contra a longa noite fascista.
    Enfim, resta continuar no pouco espaço que nos dão, a apresentar propostas de paz e solidariedade contra a cultura da divisão e da guerra.
    Na esperança de que alguém acorde antes de termos prisões tipo Sdi Teimam para ciganos, migrantes ou qualquer desgraçado que, nem que seja por atropelar alguém, se veja um dia do lado errado da lei, violência doméstica descriminalizada, polícia a matar como cães dezenas de pessoas por ano em plena rua por crimes reais ou imaginarios ou outras barbaridades semelhantes.
    Temos um bom bico de obra a aviar.
    Mas se não tivesse sido a malta do Norte teria sido pior ainda.

  11. A imigração tem um impacto maior no sul e centro do país do que no norte, até pelas realidades populacionais, demográficas e culturais. A densidade populacional no norte é superior, há menos latifúndios que requerem mão de obra de agricultura extensiva. Lisboa, zona metropolitana e margem sul do Tejo atraem grande parte da imigração urbana do país, e também no Algarve isso acontece sobretudo no litoral, mas também no interior, com actividades agrícolas e relacionadas, tal como no Alentejo. Como no interior do país já existe uma demografia inferior, com a migração histórica para os grandes centros urbanos do litoral, existe um conflito maior com a imigração, sobretudo quando esta aumenta em contraste com a redução das populações locais. Já para não falar da diferença de rendimentos entre norte e sul, litoral e interior, com os últimos historicamente menos abastados, por várias razões e causas, e também fruto de décadas de políticas de sobre-investimento e benefício de uns em detrimento de outros. Até no futebol, por exemplo, isso se reflecte, na próxima época não haverá nenhum clube de futebol a sul do Tejo, e esta época só lá estava o Farense.
    Basta ver, por exemplo, através do Census ou outros dados estatísticos, quais são os concelhos e distritos que tem aumentos populacionais maiores, ou os que têm estagnação ou até retrocessos populacionais. E num país cada vez mais envelhecido, com menos nascimentos, são os imigrantes, e também os seus recém-nascidos, que contribuem para os maiores aumentos populacionais, mais do que os portugueses ou residentes de longa data. Isto quanto à parte do impacto das migrações.
    Se por um lado há mais imigrantes nas grandes cidades, em quantidade, que nas zonas agrícolas e no interior, por outro é no interior que há mais migração das populações locais para as cidades e o litoral, daí que se acentue a “inversão populacional”, chamemos-lhe assim.
    Agora o que é espantoso é nenhum dos anti-imigrantes se questione por que vêm eles para cá, como no tempo do Estado Novo e da troika milhões de portugueses tiveram que “dar o salto” para fora, tanto é assim que se estima que cerca de 5 milhões de portugueses são imigrantes, seja na Europa, Brasil, Canadá, etc… calhou de ser no tempo da outra senhora e no tempo dos que fizeram lembrar os tempos da outra senhora… e como não lhes basta a propaganda que consomem como alarves sobre “imigração descontrolada” para perceberem as raízes do problema, então nunca se lembram “da imigração descontrolada” quando são os portugueses a ter de imigrar, só quando têm de lidar com os imigrantes que os vêm substituir, paulatinamente, por questões de custos salariais, direitos sociais e laborais, etc. Então qual é a solução que arranjam e propõem estes patetas? Toca a votar e a pôr lá os verdadeiros saudosistas do tempo da outra senhora… aí é que vão ver o que fazemos à “imigração descontrolada”!
    Agora deixo a pergunta para o senhor que bolça responder, ou tentar pensar nela, se quiser começar por aí: se expulsarem os imigrantes e colapsar o sistema produtivo que resta e o qual fazem funcionar (atenção que a maioria deles não trabalha para o Estado português, é mesmo para os privados, que tanto se queixam de falta de mão de obra no turismo, na construção, na agricultura, etc,algumas até multinacionais e corporações estrangeiras, por isso é que os libelinhas não batem tanto na mesma tecla que os pategos), e os portugueses continuarem a sair, quem os vai substituir, começando no interior, cada vez mais envelhecido e desertificado, e depois nas grandes cidades, etc? Os “nómadas digitais” americanos, e da Europa do centro e do Norte? Para o turismo, a restauração, as lojas de luxo, o alojamento local e as imobiliárias é um sonho, mas esses não vergam a mola nos campos e nas oficinas e no turismo e nos biscates. Depois logo se verá como o 4.º pastorinho, mais o Luís que só quer trabalhar e o Rui Libelinha, com a ajuda do Nuno Melodramático resolvem o problema do colapso produtivo e social. Deve ser com o “milagre das fronteiras fechadas” que vão alimentar o sistema da segurança social, e programas de apoio à natalidade, ou talvez de reprodução em cativeiro como se faz com os linces… só falta sugerirem a construção dum muro ao longo da fronteira da Andaluzia e da Extremadura para os ciganos e os marroquinos não passarem para o lado de cá e os portugueses para o de lá, como na altura do “maior português de todos os tempos”, e um sistema de fortificações na costa sul e vicentina, igual ao dos nazis na Normandia, para abater “os invasores muçulmanos da grande substituição” assim que eles desembarcarem!
    Ser patego ou não ser, eis a questão.

    • O Rui Libelinha não é o Rui Tavares, embora a identidade citadina e o carácter urbano dos dois partidos (IL e L) seja semelhante, e em alguns pontos, como nos costumes, idênticos. É mesmo o senhor que bebe imperiais como quem bebe água com os caloiros universitários nas campanhas eleitorais, para parecer que é jovial e descontraído como eles, tal como o antecessor fazia.
      Se preferirem, os senhores que bolçam, substituam os “invasores muçulmanos da grande substituição” pelos hindustânicos, que vêm por aí fora desde o oceano Índico fazer a viagem de Vasco da Gama ao contrário, e à boleia os russos, para compor a coisa! Um patega não diferencia quando é para discriminar!

  12. Apesar do tsunami de merda que tenta submergir-nos, porém, em verdade vos digo, caros amigos e amigas, camaradas, companheiros, palhaços, que o coreógrafo exofágico da linguinha hiperactiva sonha acordado quando guincha: “Matámos o partido de Álvaro Cunhal!” Qualquer coprólito sobrevivente da associação de escuteiros da António Maria Cardoso poderá explicar-lhe isso, no curto intervalo de uma mudança de fraldas. E isto digo eu, que nunca pertenci ao partido.

  13. “Mas não me vou deitar a adivinhar o que tornou esta geração de gente do Sul tão ignorante e tão má.”

    Subscrevo-te a 99%, excepto na parte acima transcrita. Se nos recusarmos a tentar perceber porque aconteceu o que aconteceu, corrigindo o que fizemos de errado, o que nos espera é o que aconteceu à Alemanha com a ascensão do inicialmente irrelevante Adolfo, o palhaço a quem ninguém dava importância.

  14. Uma coisa e certa, se em todo o país se tivessem replicado os resultados devastadores registados a Sul teríamos hoje todos um belo bico de obra a aviar.
    Entregues a uma maioria absoluta de um partido saudosista de um tempo de fome e de guerra, de um tempo onde muitos dos que ontem votaram Chega não durariam nem seis meses.
    Um partido que já apresentou propostas como a pena de morte, o arrancar de ovários a mulheres que abortam, a castração química, um confinamento especial para a população cigana a pretexto de que não cumpriam as regras de distanciamento do COVID, a impunidade a brasileira das forças policiais. Um partido que transformaria todas as nossas vidas num Inferno.
    Nos anos negros do fascismo, foi esse mesmo Sul o grande impulsionador das lutas anti fascistas enquanto o norte dormia num conformismo alicerçado numa religiosidade entranhada quase desconhecida a Sul.
    Nos primeiros anos da democracia, era essa Norte que garantia maiorias a direita sendo que no Interior muita gente votava onde o senhor padre mandava: na setinha que aponta para o céu.
    Hoje e o Sul que vota esmagadoramente numa direita que propõe crueldade intolerável como modo de vida.
    So posso concluir uma coisa, o Norte cresceu em civilização, em apreço pela democracia e pela liberdade, enquanto o Sul que tanto sofreu nas garras do fascismo regrediu em termos civilizacionais.
    Pode acontecer numa sociedade em situações de guerra esse regresso a barbárie mas aconteceu agora no Sul.
    Há que dar os parabéns e agradecer ao povo do Norte por isto não nos ter corrido a todos muito pior.
    Quando a quem votou Chega e Iniciativa Liberal, os tais fascistas que teem em Milei o seu ídolo e apoiam o genocídio em Gaza, eles não estão num vazio.
    Eles estão cheios. Cheios de ódio ao outro, frustrações, desejo de destruir vidas alheias, maldade.
    Nas últimas eleições não me perdi a tentar justificar o voto chegano com considerações psicológicas sobre os coitadinhos que ate não são mas pessoas mas ninguém responde aos seus anseios.
    Também não o farei agora.
    Agradeço ao povo do Norte por nos ter poupado a consequências ainda piores da nossa maldade e estupidez.
    Arrepia me pensar que muitos dos que agora votaram Chega tiveram noutros tempos familiares perseguidos, espancados, torturados ou mortos pela polícia regular e pela PIDE. Arrepia me que cuspam na memória de toda essa gente que com coragem e determinação enfrentou a besta fascista tendo alguns pago com a própria vida.
    Mas não me vou deitar a adivinhar o que tornou esta geração de gente do Sul tão ignorante e tão má.
    A vida de muitos e difícil mas muito mais difícil seria sob o domínio dos saudosistas de gente que condenou os seus pais e avós a miseria negra e a guerra.
    Mais uma vez obrigado ao povo do Norte.

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