O pacto com o diabo

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 06/03/2025)


No Ocidente passou a ser pecado falar de neonazis na Ucrânia, dando-se início à maior campanha de branqueamento de um regime político realizada até hoje.


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No Ocidente passou a ser pecado falar de neonazis na Ucrânia, dando-se início à maior campanha de branqueamento de um regime político realizada até hoje.

O tema ganhou uma renovada acuidade quando o presidente Donald Trump apelidou o seu congénere ucraniano de ditador. Independentemente do rigor das palavras usadas por Trump importa perceber qual é a verdadeira natureza do regime presentemente instalado em Kiev. Segundo a Varities of Democracy, uma organização de elevada credibilidade académica, que estuda o tema dos regimes políticos a nível mundial, considera a Ucrânia uma autocracia eleitoral, portanto, longe de ser uma democracia plena. Embora não se pretenda com este artigo fazer incursões teóricas no domínio da ciência política, ele apresenta alguns factos que podem ajudar o leitor a fazer uma apreciação do tema mais informada.

Para uma melhor compreensão dos factos e com o intuito de facilitar a sua leitura e sistematização, consideraram-se neste trabalho quatro períodos distintos: desde a independência (1991) até à vitória de Viktor Yanukovych (2010); durante a presidência Yanukovych (2010 – 2014); desde o golpe de Maidan (2014) até à eleição de Zelensky (2019), e desde a eleição deste até aos dias de hoje. Por questões de parcimónia, iremos, fundamentalmente, concentrar-nos no último período.

O aparecimento na Ucrânia, à luz do dia, de organizações ultranacionalistas teve lugar no primeiro período, acelerando após a revolução laranja (2004) e a chegada ao poder de Viktor Yushchenko que, por exemplo, em 2006 reabilitou a organização nacionalista ucraniana OHH UN, responsável pela execução de cerca de 100 mil polacos e judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Nessa sequência, em 2010, pouco antes de abandonar a presidência, Yushchenko concedeu o título de Herói da Ucrânia aos líderes da Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN) Stepan Bandera e Roman Shukhevych (22 de janeiro).

Durante a presidência de Yanukovych houve uma pausa nessa política de estado, com a anulação do título de herói da Ucrânia concedido por Yushchenko. Mas, isso não impediu que esses grupos continuassem a proliferar. Por exemplo, em 2013, nasce a Misanthropic Division, uma rede internacional neonazi cujo dirigente Dmytro Kanuper foi condecorado pelo parlamento dinamarquês, em 2024, como um combatente pela liberdade, o mesmo que tinha o Mein Kampft como a sua leitura preferida; ou, a trasladação (21 de julho de 2013) por ativistas da organização ucraniana Pamiat (Memória) dos restos mortais de soldados ucranianos que combateram na Divisão SS “Galicia”.

O golpe de estado arquitetado pelos EUA no início de 2014 – numa audição no Congresso norte-americano, Vitória Nuland confessou terem sido gastos, desde 1991, cinco mil milhões de dólares em ações subversivas na Ucrânia – foi executado com a colaboração ativa destes grupos. Não é, por isso, de estranhar ver Oleg Tyanibok, um confesso nazi líder do Svoboda, uma organização de extrema-direita, impedido de entrar nos EUA devido às suas opções políticas, ser reabilitado e aparecer ao lado do falecido John McCain.

Em 2014 realizaram-se eleições presidenciais (25 de maio) e legislativas (25 de agosto). Nas primeiras concorreram 21 candidatos e nas segundas 29 partidos, num ambiente de grande hostilidade relativamente às forças não apoiantes do novo regime. O Partido das Regiões que tinha ganhado as eleições em 2010 não teve condições para concorrer às eleições legislativas, apesar de ter apresentado um candidato às presidenciais. O sistema marginalizou e absorveu os partidos pró-russos influentes. Nesse ambiente iniciaram-se as perseguições e o assédio a jornalistas e opositores ao regime.

Petr Poroshenko, presidente, entretanto, eleito, vem dizer, num tom “conciliador” que os “ucranianos terão empregos, eles [os russos] não; nós teremos pensões, eles não; as nossas crianças irão para as escolas e jardins de infância, as deles terão de se esconder em caves.” Iniciam-se os ataques indiscriminados às populações russófonas do Donbass por milícias ultranacionalistas, com a anuência do governo, recorrendo ao bombardeamento intensivo de áreas residenciais. Tornaram-se triviais as procissões destes grupos pela Avenida Moscow Prospect, redenominada Avenida Bandera Prospect, com archotes, em datas simbólicas.

Poroshenko toma medidas para diminuir a relevância social da língua russa e da Igreja Canónica Ortodoxa. Em 2017, foi aprovada uma lei que proibia o uso do russo no sistema de ensino. Em dezembro de 2018, foi criada a Igreja Ortodoxa da Ucrânia (OCU), independente da igreja canónica ortodoxa, alinhada com Constantinopla, cujos sacerdotes não só subscrevem a ideologia dos setores politicamente mais radicais do espetro político ucraniano, como homenageiam publicamente colaboradores nazis, personagens como Stepan Bandera.

Neste período generalizaram-se as punições públicas extrajudiciais dos chamados marauders, uma forma de justiça popular, “em que pessoas são atadas a árvores e postes com fita-cola, com as calças ou saias baixadas e as nádegas fustigadas com chibatas e varas.” Estas práticas sociais passaram a ser dirigidas contra quem se suspeitasse ser russófilo. Bastava ser ouvido pela “polícia de costumes” a falar russo ao telemóvel. Em 2015, Poroshenko bane o partido comunista, do antecedente, uma força política com uma considerável influência na sociedade.

Em maio de 2019, Zelensky ganha as eleições e assume o poder com a promessa de resolver o problema das províncias rebeldes que dilacerava a sociedade ucraniana havia cinco anos e fazer a paz. Mas fez tudo ao contrário do que tinha prometido. Tendo chegado ao poder escudado num partido – “Servo do Povo” – com uma ideologia libertária, rapidamente se posicionou como um partido russofóbico e pró-americano, navegando num pântano de contradições ideológicas que combinava ideias liberais, socialistas e nacionalistas.

A intervenção na Rada (27 de maio de 2019) de Dmytro Yarosh, fundador do Sector Direito e comandante do Exército Voluntário ilustra bem a importância dos referidos grupos na sociedade ucraniana, quando ameaçou Zelensky de morte se “traísse a Ucrânia”, ou seja, se tivesse a aleivosia de implementar os Acordos de Minsk (“que não eram para ser cumpridos, mas para ganhar tempo e preparar a ofensiva final contra o Donbass e a Crimeia”).

Com a tomada de posse de Zelensky, acelera-se o processo de deterioração das liberdades cívicas iniciado no mandato do seu antecessor, particularmente no que respeita à promiscuidade entre Estado e grupos ultranacionalistas, que aumentam de protagonismo. Completamente alinhado ideologicamente com aqueles grupos, Zelensky vai aprofundar aquilo que Poroshenko tinha iniciado. Os oligarcas seguem-lhe o exemplo.

Um dos principais objetivos do presidente, ex-russo falante, é a completa eliminação da língua e cultura russa. Imediatamente após os protestos de Maidan, o Verkhovna Rada decidiu revogar a lei sobre os princípios da política linguística do Estado, que estava em vigor desde 2012. Em 2017, Poroshenko proíbe o ensino em russo, e a partir de janeiro de 2021, Zelensky dá outra machada na língua russa, ao proibir a sua utilização na administração do Estado.

Foram igualmente proibidos os livros escritos em russo, incluindo os clássicos da literatura russa. Zelensky ordenou a retirada de 100 milhões de livros de autores russos das bibliotecas da Ucrânia. Tolstoi, Pushkin, Dostoievski e Gorky, entre outros, foram proscritos. O mesmo sucedeu aos compositores russos. Tchaikovsky, Prokofiev, Shostakovich, Borodin, Glinka, Rimsky-Korsakov e muitos outros foram também banidos. Espetáculos e quaisquer outras manifestações culturais em língua russa foram igualmente proibidas. O inglês passou a ser a segunda língua na Ucrânia. As minorias húngaras e romenas, que tinham pretensões semelhantes à russa foram igualmente atingidas e objeto de discriminação.

No plano religioso, Zelensky foi mais além de Poroshenko e proibiu a igreja canónica ortodoxa (ICO). Foi penoso ver, em abril de 2023, o cerco ao Kiev Pechersk Lavra (KPL) e os correligionários da nova igreja ucraniana expulsarem os sacerdotes da ICO com a ajuda da polícia. De santuário de referência da ICO, o KPL passou a ser lugar de cerimónias pagãs e de encontros gastronómicos sem qualquer relação com a religião. Por toda a Ucrânia, os acólitos da nova igreja apoderaram-se dos santuários da ICO e expulsaram os seus sacerdotes.

Foi durante a vigência de Zelensky, que se realizaram os maiores ataques à liberdade de expressão no país. No dia 3 de fevereiro de 2021 foram banidos três canais de televisão (ZIK, News 1 e 112 Ukraine). No dia 20 de março de 2022, obedecendo às ordens de Zelensky, o Conselho de Defesa e Segurança Nacional da Ucrânia ilegalizou, de uma assentada, 11 partidos políticos por supostas ligações à Rússia. Viktor Medvedchuk, o líder da “Plataforma para a Vida”, o principal partido da oposição, que ocupava 44 lugares no parlamento ucraniano, foi colocado em prisão domiciliária.

Destino semelhante teve o presidente do supremo tribunal. O presidente do Tribunal Constitucional “ausentou-se” para parte incerta para não ter a mesma sorte. Até o antigo Presidente Poroshenko, um adversário político e inimigo de longa data de Zelensky, foi vítima da repressão política e da caça às bruxas “politicamente motivada” promovida por Zelensky, que o acusou de “alta traição” e de auxílio a organizações terroristas. É longa a lista de políticos, jornalistas e empresários mortos, sequestrados ou torturados durante a presidência de Zelensky. Um deles, é Oleksander Dubinskyi deputado na Rada, vítima de duas tentativas de assassinato e preso há mais de 15 meses por criticar a corrupção no país.

Em contrapartida, nenhuma das organizações neonazis foi ilegalizada. O nazismo e as insígnias fascistas normalizaram-se na sociedade e no seio das forças armadas. A suástica, o Sol negro e a caveira de Totenkopf vulgarizaram-se e tornaram-se moda. Zelensky publicou, sem qualquer pudor, fotografias destas insígnias nas suas contas das redes sociais.

A 13 de maio de 2023, Zelinsky visitou o Papa envergando uma camisola preta com o emblema da UNO, uma organização nacionalista ucraniana, e entregou-lhe um ícone com uma silhueta negra de Cristo ao colo da Virgem Maria, o que, de acordo com os cânones da Igreja Católica pode ser considerado satânico. A moda chegou também a outros domínios como monumentos, toponímia e filatelia, utilizados para exaltar figuras prominentes do movimento ucraniano bandeirista, responsável pela morte de judeus.

No dia 1 de março de 2022, de acordo com o decreto assinado por Zelensky, foi criada a “Legião Internacional de Defesa da Ucrânia” que passou a ser integrada na estrutura das Forças Armadas, cujo pessoal incluía mercenários, adeptos de ideias extremistas e terroristas de várias partes do mundo.

Zelensky aderiu e alimentou a fantasia, promovida pelos ultranacionalistas, de um estado mono étnico, monocultural e centralizado. A aprovação na Rada da lei racista e xenófoba sobre os povos indígenas” (13 de dezembro 2022) foi uma materialização desse desígnio. Inserido neste projeto, assiste-se a um movimento de revisionismo histórico com laivos fantasiosos e caricatos. Igor Tsar, autor do livro “Ucrânia – a pátria ancestral da humanidade”, vencedor do Prémio Stepan Bandera, publicado em Lvov alerta-nos para uma imensidão de “factos históricos” desconhecidos (foram as tribos arianas da Ucrânia que fundaram o Irão no 4º milénio a.C. e colonizaram a Palestina. A língua inglesa é proveniente da Ucrânia. Até Jesus era ucraniano).

Nesta análise sobre o regime ucraniano sob a tutela de Zelensky, não podíamos deixar de referir o envolvimento de Zelensky na corrupção que grassa no país, que se encontra devidamente documentada. No outono de 2021, o Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação publicou os chamados Pandora Papers, onde se incluíam dados das contas offshore de 35 líderes mundiais. Zelensky e os seus parceiros do estúdio Cartel 95 estavam entre eles.

Entre 2012 e 2016, foram transferidos 41 milhões de dólares para a empresa offshore de Zelensky. Num país normal teria sido preso. Uma das múltiplas mansões que tem por esse mundo fora encontrava-se na Crimeia, um erro que lhe custou caro. Foi expropriado e a mansão vendida em hasta pública, tendo o resultado da venda revertido para um fundo de ajuda a combatentes russos.

No Ocidente passou a ser pecado falar de neonazis na Ucrânia, dando-se início à maior campanha de branqueamento de um regime político realizada até hoje. O “Guardian”, entre outros órgãos de referência da comunicação social, que antes do início da guerra em 2022 escrevia “bem-vindo à Ucrânia, o país mais corrupto da Europa”, passou depois a considerar que “A luta pela Ucrânia é a luta pelos ideais liberais.” A corajosa reportagem de Mariana Van Zeller sobre grupos neonazis na Ucrânia foi censurada e retirada do canal Disney. Quem desmonta esta e outras falácias (o tema está longe de se esgotar neste artigo) foi acusado de ser propagandista do Kremlin.

O branqueamento do regime instaurado em 2014 é feito com base em dois argumentos: se o regime tivesse a filiação ideológica de que é acusado não teria um presidente judeu; os neonazis não têm expressão eleitoral significativa, por isso o regime é democrático. As questões devem, no entanto, ser colocadas de outro modo. Seria insuportável para as democracias europeias admitirem que estão a apoiar um regime que permite a proliferação da ideologia nazi e protege organizações neonazis.

Por outro lado, omite-se o facto de que muitos desses partidos/grupos ultranacionalistas não concorreram às eleições, e menospreza-se deliberadamente a sua influência na sociedade, sobretudo nas forças militares e de segurança, consolidada no rescaldo do golpe de Maidan. O facto da Ucrânia ter servido de tirocínio de combate a vários grupos neonazis europeus está superlativamente documentado em língua portuguesa (aqui (cap.IV) e aqui).

A farsa completa-se quando Zelensky participou nas comemorações do 80º aniversário da libertação do campo de extermínio nazi de Auschwitz, ou se ajoelha no memorial de Babyn Yar, em Kiev, não obstante a sua adesão incondicional à exaltação histórica dos bandeiristas, os mesmos que perpetraram o massacre lembrado por aquele memorial.

Não podemos deixar de nos questionar sobre a complacência e promiscuidade do Ocidente com as forças neonazis que proliferam na Ucrânia, porque é que se omitiu essa realidade e se tornou um tabu a partir de fevereiro de 2024, apesar de denunciada antes, com o conluio da comunicação social. Os exemplos são gritantes, e são muitos. Os aplausos em pé no parlamento canadiano a Yaroslav Hunka, que durante a Segunda Guerra Mundial serviu na 14ª Divisão de Granadeiros da Waffen-SS, considerado um “herói” durante a visita do Presidente Zelensky. Por terem sido vítimas da brutalidade destes grupos, os polacos são uma exceção a este unanimismo.

Pelo exposto, pode concluir-se que Donald Trump não anda afinal muito longe da verdade. Pelo andamento da carruagem, não se admire o leitor se um dia acordar e perceber que andou três anos a ser enganado. A possibilidade de isso acontecer já esteve mais distante.

19 pensamentos sobre “O pacto com o diabo

  1. Para quem estiver interessado em investigar o CARTEL 95 (no original, Kvartal 95), há um video ucraniano de uma jornalista chamada Olena Logilova (?):
    https://24tv.ua/ru/ofshor-95-zhurnalisty-vypustili-rassledovanie-o-biznese-zelenskogo_n1756710

    Pela coragem desta jornalista e pela importância da sua investigação, ver e gostar é obrigatório! O pouco que podemos fazer daqui para revelar a verdade tão escondida noa dias de hoje!

  2. Que grande confusão mental demonstram aqueles que, sem poderem escrever por si mesmos uma opinião consistente, vão buscar comentários com sortidos de afirmações avulso, cada uma mais contraditória que a outra.
    “Os herdeiros de McCarthy” que “perseguiam os perigosos comunistas” (e não só, pois todos eram comunistas, bastando-lhes não alinhar com a direita mais conservadora e retrógada personificada no senador que deu o nome à última grande “caça às bruxas” nos EUA, ainda nos tempos da Guerra Fria) e que fazem “curto-circuito mental”!
    Que brilhante estupidez… se já não há comunismo na Rússia, como afirma o próprio José Silva, por que continuam a vê-lo em todo o lado? Isso sim deve ter sido resultado de “curto-circuito mental”. Elevar o McCarthysmo a uma pura purificação contra perigosos infiltrados, invocá-lo como exemplar, quando ficou célebre por ser um período negro para os direitos e liberdades civis nos EUA, o tal “farol da democracia e da liberdade”, só pode ser mais um “curto-circuito mental”!
    E é disto que vivem os argumentos citados pelo José Silva, visto que ele próprio é incapaz de argumentar por si próprio, talvez seja tímido, ou hipócrita, ou incapaz de um “curto-circuito mental”!
    Para sua informação, os MAGA, a alt-right americana emula muito bem o espírito tenebroso do McCarthysmo, pois vê esquerdistas e comunistas em todo o lado nos EUA, que têm um sistema política onde a verdadeira Esquerda não existe sequer. Exemplos: Trump chamava a candidata democrata às presidenciais, Kamala, uma perigosa comunista! E designava os democratas como Esquerda, sabendo nós que no país mais capitalista de todos, a esquerda tem ainda menos expressão que o nazi-fascismo exportado pelo emigrantes alemães e os próprios cidadãos americanos que a ele aderiram. Também houve um PC americano, assim como houve um partido anti-maçónico, mas estavam ambos condenados ao insucesso, à perseguição e ao “cancelamento” (o tal “cancelamento cultural” que na boca e nos dedos da alt-right os faz chorar lágrimas de crocodilo sem fim, ludibriando qualquer patego que adira àquela ideologia construída sobre desinformação, propaganda e decepção sem fim).
    Ainda ontem num site vi um “iluminado” publicar uma fotografia do Nikita Khrushchev a dizer que a URSS não precisaria de invadir e conquistar a América para a destruir, que a faria auto-destruir-se sozinha. Chega a ser hilariante terem de ressuscitar esse líder comunista, dos tempos do tal McCarthysmo que o José citou, para justificarem a ascensão de Trump e as suas diatribes!
    Quem o faz, mesmo que substituindo Khrushchev por Putin, não percebe nada de história e de política: foi a própria “direitização extremada” da política americana, sem espaço para os partidos e movimentos de esquerda, primeiro com os NeoCons e NeoLiberais, depois com o movimento Alt-Right (a que chamam anarco-capitalismo, tal como ao neoliberalismo de Milei, por exemplo, para o colar ao anarquismo, e assim o difamarem, que tem costas largas e pouco agrada aos donos disto tudo, e diluir o seu cariz de capitalismo sem regras, a sua verdadeira essência) e MAGA que permitiram a ascensão de Trump, uma primeira vez, e agora uma segunda vez, reprovando os eleitores americanos o programa e a governação do Partido Democrata e do mandato Biden/Kamala.
    Portanto senhor José Silva, um dia que consiga ter opinião própria, organizada, legível, inteligível, sem ter que se escudar em comentários de outras pessoas, que não estão aqui para se explicar e defender, subirá uns pontos na nossa consideração.
    Até lá, limite-se ao silêncio para assim não expôr a sua ignorância e inoperância argumentativa.

    • “Quem o faz, mesmo que substituindo Khrushchev por Putin, não percebe nada de história e de política: foi a própria “direitização extremada” da política americana, sem espaço para os partidos e movimentos de esquerda, primeiro com os NeoCons e NeoLiberais, depois com o movimento Alt-Right (a que chamam anarco-capitalismo, tal como ao neoliberalismo de Milei, por exemplo, para o colar ao anarquismo, e assim o difamarem, que tem costas largas e pouco agrada aos donos disto tudo, e diluir o seu cariz de capitalismo sem regras, a sua verdadeira essência) e MAGA que permitiram a ascensão de Trump, uma primeira vez, e agora uma segunda vez, reprovando os eleitores americanos o programa e a governação do Partido Democrata e do mandato Biden/Kamala.”

      Só para deixar mais claro, quanto aos NeoCons, quem não se lembra da reabilitação do “Tea Party”, e da inefável Sarah Pallin? O extremar do conservadorismo, do capitalismo oligárquico, do afastamento do centro político (a física descreve as características do movimento centrífugo, que pode ser usado como uma metáfora, descrevendo o resultado de inúmeros “spins”, ou rotações, do sistema político americano, mas nunca para a esquerda, por muito que os Democratas sejam conotados com ela quando dá jeito, precisamente para voltar a puxar a política americana ainda mais para a direita, sucessivamente. Cá acontece semelhante, conotando o PSD e o PS, sobretudo este, com a esquerda, quando defendem sempre o grande capital e o interesse privado, e as lógicas de “mercado livre” e “acumulação de capital”, ou “lucro”).
      Do Tea Party institucional e corporativo, instalado dentro do Partido Republicano, numa ala ainda mais nacionalista e conservadora, retrógada até, aos movimentos populistas da Alt-Right, identitária, misturando conservadorismo nos costumes com progressismo nos meios e nos métodos de circulação de capitais e mercado (Bitcoin, Blockchain, etc), associação civil e paramilitar, procurando redistribuir a riqueza pelas classes que foram sendo privadas pelos grandes grupos económicos e financeiros (Wall Street, Reserva Federal, o tão odiado, porque fechado sobre si mesmo, Deep State), procurando uma nova revolução americana. pelo povo e para o povo, de que resultou o movimento MAGA, inúmeros episódios de confronto e até de terrorismo contra minorias e o próprio aparelho do Estado Federal, não passou muito tempo
      Quanto ao “anarco-capitalismo”, essa expressão é também usada para parecer que o neoliberalismo é uma coisa que não é, e grande parte da Alt-Right usa essa nomenclatura para não parecerem alinhados com o capitalismo corporativo e oligárquico, se bem que depois veneram os Elon Musks e os Jeff Bezzos. Assim parecem algo mais “revolucionários”, quando na verdade não existem grandes diferenças, apenas em alguns aspectos: são também formas de capitalismo, e nunca deixaram de o ser, estando muito longe dos verdadeiros ideais anarquistas. Quando é usada para denegrir esses ideais, a palavra “anarco”, de “anarquia”, é o componente que permite aos capitalista neoliberais atacarem essa forma de capitalismo, sem atacarem o capitalismo em si que lhe subjaz e a origina, que é a sua essência.

  3. Sim, compatível com a soberania e a legalidade foram os projectos de destruição do Iraque e da Libia, o roubo de recursos da Síria que acabaram por fazer o povo preferir cair na mão do diabo que agora mata civis a torto e a direito, as sanções unilaterais contra quem quer que não se submeta as regras ditadas por Washington, enfim, tudo dentro da maior legalidade.
    Agora dizem nos que temos de cortar nos direitos sociais para gastar em armas e ainda há jumentos que acham isto normal.
    Valha lhes um burro aos coices.
    Vão ver se o mar da tubarão branco cheio de larica.

  4. No caso do Bloco que se diz de esquerda e so falta de vergonha mesmo. Como quando começaram com a nefasta teoria do nem NATO nem Kadhafi que os levou a apoiar a barbaridade que foi o bombardeamento da Libia ou a achar normal que a Siria caisse nas unhas de uma oposição jihadista porque Assad era um ditador.
    Pelo que agora embarcam alegremente na diabolizacao da Rússia em geral e de Putin em particular e ate conseguem descortinar gente de esquerda até lá vive em paz com os esbirros de Herr Zelensky.
    Enfim, de alguma coisa eles serão mas esquerda tenho cá a as minhas dúvidas.
    Pelo menos ainda não acharam nenhuns justificativa para o genocídio em Gaza não deixando de condenar “os terríveis ataques do Hamas” mesmo depois de saberem que a maioria das vítimas foram resultado da aplicação por parte da soldadesca israelita da infame doutrina Hannibal. Que implica que seja melhor matar civis do que deixar que se tornem reféns.
    Enfim, são quase tão de esquerda como o nosso Josezinho.
    Que escusa de chorar que a gente não se vai embora por causa dos seus insultos.
    Por mim não tenho nada contra insultos. Se calhar foi por causa de um insulto que ainda estou aqui.
    Quando um grunho me chamou Bolsonaro decidi mandar o reforço da vacina COVID as urtigas e foi a minha sorte.
    Isto e que vai aqui uma açorda…

  5. Camarada Trump, amigo, o povo está contigo!

    Constitui para mim um mistério como gente com formação, informação e discernimento
    conseguiu, e alguns ainda conseguem, ter benevolência, compreensão e apoiar sistemas
    comunistas que, apesar de algumas boas intenções na sua génese e nessa época, resultaram em
    implementações miseráveis e muitas delas criminosas em grande escala.
    Duplo mistério é como esses supostos iluminados ainda têm simpatia com Putin, que, apesar de
    partilhar a geogra􀃆a e alguns métodos do famoso e tenebroso pai dos povos, não tem nada de
    nada em comum com as teorias de Karl Marx. Onde já não há palavras é para caracterizar o alinhamento destes EUA com os criminosos de Moscovo. Então, os EUA não eram o inimigo visceral de todos os comunistas? Como ficam os órfãos de Estaline neste cenário de verdadeiro curto-circuito mental?
    Seguem Putin e aplaudem Trump? Iremos ver o actual Presidente dos
    EUA discursar na próxima Festa do Avante!?
    Este alinhamento não lembra ao diabo e deve ser também um curto-circuito mental para os
    herdeiros do senador McCarthy, o tal que tanto investigou e perseguiu os perigosos comunistas infilltrados nos EUA. É óbvio que este mundo se rege muito mais por interesses do que por princípios, e os EUA já apoiaram bastantes regimes pouco saudáveis para as suas populações e respectivos direitos e liberdades.
    No entanto, alguns princípios, mesmo que teóricos, precisam de existir, que de􀃆nam a identidade
    das nações. Não posso acreditar que uma parte significativa dapopulação americana se
    identifique com estas opções.
    Carlos J.F. Sampaio, Esposende, publicado no jornal Público em 6/3/25

  6. Com tudo isto e muito mais, não acredito que os russos deixem o trabalho pela metade. Eles vão ter que mais uma vez hastear a bandeira no Reichstag.

  7. Muito obrigado, sr. Major-General Carlos Branco pela sua lição – informação/esclarecimento!!
    A História é feita com factos. Pela procura da Verdade. Em nome da Liberdade.
    Desconstruir narrativas apologéticas, míticas, falsas, alimentadas por uma comunicação social subserviente (CNN, SIC, RTP, NOW, etc), endoutrinada, qual política de espírito dos senhores nobiliárquicos neoliberais e neocons, é tremendamente difícil.
    Muito obrigado pela sua coragem e sabedoria exposta. Nunca esmoreça.

  8. Também haverá ignorância da matéria exposta por parte dum Bloco dito de Esquerda, melhor dizendo, dos seus atuais dirigentes, para não se cometer a injustiça de meter todos os seus militantes no mesmo saco?

  9. Tantos factos históricos, tantos factos políticos e sociais sobre a Ucrânia das últimas décadas e dos dias de hoje.
    Mas claro que factos não interessam à “narrativa” que promove a xenofobia, a eugenia e engenharia social, o supremacismo nazi-fascistas e o revisionismo histórico tão próprios desse regime e dos que o acobertam, seja por motivos ideológicos seja por motivos práticos, mostrando uma falta de escrúpulos semelhante à que levou à ascensão do nazi-fascismo pela mesma altura no século passado.
    Há quem consiga dormir como se nada disto importasse, mesmo tendo consciência destas realidades, isso mostra bem quem são e o que valem.
    E depois há a ignorância promovida nas populações constantemente pelos órgãos de comunicação social de massas oficiais, e também nas redes sociais, a propaganda e a desinformação tão semelhantes nas técnicas e nos métodos à de Goebbels.
    Ficar em silêncio não é opção, é dever cívico e serviço público.
    Parabéns por isso, Major-General Carlos Branco.

    • “O erro de branquear Putin”
      O título em epígrafe, retirei-o de um excelente editorial de um jornal estrangeiro de 26 de Fevereiro em que se escrevia que “Trump deu a Putin uma vitória sem precedentes na ONU ao
      reescrever a história da invasão da Ucrânia. A França e o Reino Unido podiam exercer o direito de veto, mas preferiram olhar para o lado”. Na realidade, as Nações Unidas foram o último cenário onde D. Trump quis sublinhar o afastamento dos aliados da NATO e quis branqueara agressão de Putin à Ucrânia.
      Já não bastou insultar o líder ucraniano chamando-lhe “ditador” — o paci􀃆cador angélico é Putin, pois claro — ou “actor medíocre”, mas brindou a Rússia ao satisfazer a vontade de Putin ao impor os seus pontos de vista, nada mais, nada menos, no Conselho de Segurança, numa bizarra votação em que os
      Estados Unidos, Rússia e China — habitualmente em confronto ou com pontos de vista diferentes —
      coincidiram como poucas vezes o fizeram na história recente.
      Agora, Trump anunciou que vai suspender o fornecimento de armamento à Ucrânia, “obrigando” Zelensky ao cessar-fogo e, inevitavelmente, forçando-o a entrar em conversações. Aqui se vê que
      Trump é forte com os agredidos, junta-se ao agressor e branqueia-o. Putin já demonstrou em duas décadas que o seu projecto geopolítico é incompatível com a ordem internacional baseada no
      respeito, na soberania elegalidade internacional. Ou seja, Putin e Trump são duas faces da mesma” moeda”, “moeda” que só se impõe pela força, pelo poder e pela chantagem.
      António Cândido Miguéis, Vila Real, publicado no jornal Público em 6/3/25-

      • Muito nos contas, génio! O projecto de Putin é “incompatível com a ordem internacional baseada no respeito, na soberania e legalidade internacional”, descobriste tu. Desgraçadamente para nós, o teu projecto é incompatível com o respeito pela língua portuguesa. Duplo azar o nosso, carago!

      • «Putin já demonstrou em duas décadas que o seu projecto geopolítico é incompatível com a ordem internacional baseada no respeito, na soberania e legalidade internacional».
        Exatamente, por isso ele invadiu o Iraque, bombardeou a Jugoslávia, a Líbia, entre outras coisas tais!

      • O embargo a Cuba e ao Iraque, quando Madeleine Albright afirmou que o sacrifício pela fome e a doença de 500 mil crianças iraquianas privadas de alimentos e medicamentos seria um preço justo a pagar pela libertação, também se sustentaram na “ordem internacional baseada no
        respeito, na soberania e legalidade internacional”?

  10. Muito bom resumo Sr. Major General! Faltou a referência ao 2 de Maio de 2014 data em que mais de 40 pessoas foram assassinadas (queimadas, num incêndio provocado pelo lançamento de bombas incendiárias a partir do exterior!) na Casa dos Sindicatos de Odessa.

    • E os que saltavam pelas janelas para não morrerem queimados, partindo por vezes as pernas quando batiam no chão, eram mortos a tiro ou à porrada pelos heróicos “democratas pró-europeus” que os esperavam em baixo.

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