Isto ainda é só o início

(Manuel Loff, in Público, 11/02/2025)

Não há dúvida: Gaza, além de se ter tornado um barómetro moral de validade universal, tornou-se um laboratório da nova ordem mundial.


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Há dias, durante a visita a Washington de um Netanyahu sob mandado de captura do TPI por crimes contra a humanidade, Trump divagou sobre o seu plano para construir uma “Riviera do Médio Oriente” sobre as ruínas e as dezenas de milhares de palestinianos mortos pelas tropas israelitas em Gaza. Para lá do desplante (que Netanyahu achou ser um “pensamento fora da caixa”), típico do presidente-empresário narcísico (réplica em muito mais perigosa do Berlusconi de há 30 anos), o mais sinistro foi a forma como somou Gaza à lista de territórios que passaram a estar sob ameaça de ocupação (Gronelândia, Canadá, Canal do Panamá). A frase usada foi que os EUA vão “ocupar” (“take over”) e “ser donos” (“own”) da Faixa de Gaza para “criar desenvolvimento económico”. Com um detalhe. Os 2,3 milhões de palestinianos que resistem em Gaza devem transferir-se para “países vizinhos” que, espera ele, tenham “um coração humanitário” e “grande riqueza”, pensando em países (Jordânia, Egito) cujos governos estão há muito na dependência dos EUA.

Não há dúvida: Gaza, além de se ter tornado um barómetro moral de validade universal, tornou-se um laboratório da nova ordem mundial. A começar pela desfaçatez do novo Presidente racista que iniciou o mandato com a caça aos imigrantes e refugiados nos EUA e que recomenda agora aos outros (que há quase 80 anos acolhem milhões de refugiados palestinianos) que façam o contrário do que ele faz no seu próprio país. Pelo desprezo mais absoluto pelo direito internacional: depois de apoiar, por via militar, económica e diplomática, uma operação categorizada como genocida por parte dos procuradores do TPI, e suficientemente documentada como tal por várias agências da ONU, o Governo dos EUA encarrega Israel de proceder à limpeza étnica de Gaza e pressiona os seus “aliados” árabes a abrir as portas para a deslocação forçada da população. No fim, e recuperando a mais colonial das tradições do imperialismo, avisa que procede à ocupação de um território à revelia de todas as regras de direito, e em nome do… “desenvolvimento económico”!

No mesmo dia, Trump, que, à moda de Hitler em 1933, já anunciou a saída dos EUA da OMS e do Conselho de Direitos Humanos da ONU, decretou sanções contra todos os funcionários do TPI responsáveis pelos mandados de captura de Netanyahu e do seu ex-ministro da Defesa. “Qualquer pessoa ligada à investigação dos crimes cometidos em Gaza que ‘auxilie, patrocine, dê apoio financeiro, material ou tecnológico’” ao TPI poderá ser sancionada, o que representa uma ameaça às ONG, escritórios de advogados e “funcionários dos Estados-membros do TPI”, como Portugal, “que estão obrigados a cooperar com este”. Recordemos que aquele que os nossos governos têm descrito como o nosso “principal aliado” aprovou em 2002 uma lei que “dá ao Presidente americano plenos poderes para libertar uma pessoa detida na prisão do TPI em Scheveningen”, sede do Tribunal, que foi apelidada pelas ONG como “Lei de Invasão da Haia”!

O direito internacional, as organizações que resultam da sua institucionalização, os tratados e convenções em que se sustenta, os procedimentos para a verificação do seu cumprimento, são o que são: limitados. É em momentos históricos como este que percebemos bem como pairam algures sobre a ilusão de que são capazes de dar segurança jurídica a um sistema internacional profundamente desigual.

A sua genealogia é tipicamente ocidental: os mesmos que o começaram a codificar impunham uma pata imperial sobre continentes inteiros e imaginaram que as normas funcionariam sempre a seu favor. O direito internacional devia servir para disciplinar os outros. Direitos humanos e autodeterminação dos povos, os outros que respeitassem. Já vimos este filme. Tratados e convenções convivem com as guerras. No dia em que as organizações internacionais encarregadas de os fazer cumprir são desmanteladas, é só mais simples fazer a guerra.

O autor é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico


Um pensamento sobre “Isto ainda é só o início

  1. Digamos que do outro lado do mar os loucos tomaram conta do manicómio.
    Muitas vezes a Europa foi cúmplice dos Estados Unidos na destruição de países sob o pretexto de que os seus dirigentes eram loucos. Foi assim no Iraque e foi assim na Libia. Se no Iraque ainda houve países com vergonha na cara até se recusaram a participar na campanha de latrocínio, na Libia foram todos de carreirinha.
    Durante décadas as elites europeias viveram a sombra do poderio militar norte americano não se importando com as vidas destruídas dos povos sancionados e atacados pelo “Grande Irmão”.
    Nunca lhes passou pela cabeça que isto poderia acontecer.
    A tendência da população americana para exercer violência sobre outros povos dava lhes jeito. Sempre sobrava alguma coisa nos potes da pilhagem.
    Nunca pensaram, apesar de muitos avisos, que uma população violenta e ignorante (21 por cento são analfabetos e mais de metade tem níveis de escolaridade inferiores ao sexto ano) poderia um dia dar o seu voto a alguém como Trump.
    Alguém mais variado que um grande xalavar de caranguejos, psicopata e que não respeita nem os vassalos.
    Mas depois de participarem na destruição de países a pretexto de que os seus dirigentes eram loucos da me gozo ve los que nem baratas tontas sem saber se não se vão contar entre os alvos do louco.
    Depois de tantos atestados em psiquiatria passados, por exemplo, ao Putin, agora e que vão saber mesmo o que e andar as voltas com alguém que está farto de provar que é mesmo clinicamente louco.
    Isto elas cá se fazem cá se pagam.
    Agora e aguentar porque, como bem diz o articulista, isto ainda agora começou.

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