(Carlos Russo Jr., in Diálogos do Sul, 13/01/2025)

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O Amor à sabedoria é a própria definição da filosofia. Sócrates tinha a vontade de conciliar as opiniões e isto não seria possível se cada um quisesse impor a sua como verdade aos demais; por isso ele colocava-se ao mesmo nível de todos.
Para Arendt deve-se distinguir a solidão do isolamento do “estar-se só”. Trata-se de afirmar o espaço da vontade diante do mecanismo do mundo. Este é o amor da vontade que emerge do amor à liberdade como condição. “A liberdade não pode ser desejada como um prêmio a ser alcançado somente no final de um processo histórico inevitável. ”
A liberdade é como uma instituição permanente para um novo começo de vida, assim como o amor ao próximo é intrínseco ao se pronunciar sobre a política. Arendt diz que estar só é fundamental para que a atividade do pensamento se realize; “aquele que pensa encontra-se em sua própria companhia e vive a dualidade do diálogo do “eu consigo mesmo”, o diálogo socrático do dois em um”.
Estar só é um intervalo no estar junto da existência. A existência já é uma pluralidade, pois cada um de nós somos plurais.
De tal forma que o pensar não é algo posterior ao agir, nem na forma da crítica, e nem anterior a ela, pois são os momentos de um mesmo gesto. E a ação guiada pelo amor ao mundo encontra seu fim em si mesma, de tal forma que a crítica não lhe tira o encantamento. Diz Arendt que, para Kant: “é belo o que agrada ao mero ato de julgar”.
O ato de julgar realiza-se como expressão do pensar e do querer, do conhecer criticamente e do encantar-se.
Todo o mundo precisa se reconciliar com um mundo em que nasceu como um estranho e no qual permanecerá para sempre um estranho, em sua distinta singularidade. É muito difícil se reconciliar com o horror.
Sócrates
A busca de um modelo, que pudesse ser representativo de todo o mundo, de um homem que não se conte nem entre os muitos nem entre os poucos; que não tenha ambicionado o governo e nem reivindicado aprender como melhorar a alma dos cidadãos; que tão pouco tenha acreditado que os homens pudessem ser sábios e que não tenha invejado a sabedoria dos deuses (se é que eles a possuem), e que, portanto jamais formulou uma doutrina que pudesse ser ensinada e apreendida: para Arendt, esse homem é Sócrates.
Ela o coloca como a origem do pensamento crítico, modesto, não dogmático ou doutrinário, que coloca em questão o próprio pensar. “Sócrates apostava na phylia entre indivíduos diferentes, a qual instauria a parceria de iguais ao nível da comunidade”. “Ele desejava criar um espaço em que as diferentes maneiras de compreender o mundo aflorassem; quando dizia “sei que nada sei”, estava dizendo que sabia não possuir uma verdade comum para todos, e por isso estimulava cada cidadão a expressar a sua doxa(opinião).
Sócrates era contra aquela que acreditava ser a pior forma de governo, a do demos, pois a democracia foi assim cunhada pelos que se negavam a reconhecer a isocracia, de tal forma que a organização política não diferenciasse governados de governantes.
Os gregos socráticos apreenderam a compreender- não um ao outro como pessoas individuais- mas a olhar o mundo da perspectiva do outro, a ver o mesmo em aspectos muito diferentes e frequentemente opostos. “Para o cidadão grego a palavra polis guarda o segredo da política como aprendizado espontâneo do espaço público-político. ”
Logo, a política, no senso de Arendt, nada tem a ver com a forma pervertida de ação comum por influência e pressão de pequenos grupos; depende, sim, da convivência humana, do acordo incerto e apenas temporário de grande número de vontades e intenções, onde a palavra e o ato não se divorciam, onde as palavras não são vazias e os atos brutais, onde aquelas não são usadas para ocultar intenções mas para revelar realidades e os atos não para violar e destruir, mas para estabelecer relações e criar novas realidades.
As experiências da atualidade apontam para o divórcio entre liberdade e política, soando com um velho truísmo a afirmação de que a liberdade é a razão de ser da política. As experiências de hoje revelam a falta de elos entre ética e política.
“Como, da noite para o dia, os indivíduos podem trocar um código de ética por outro? ” Interroga-se Arendt.
O ser livre, a tirania e Platão
O homem não nasceu livre, como acreditava Rousseau, mas nasceu para a liberdade.
Ser livre na Antiguidade era possuir a capacidade da novidade. Na polis, os chefes de família que haviam conquistado o domínio sobre suas necessidades, podiam realizar a travessia entre o obscuro espaço privado e o luminoso espaço público. Começar algo e ser livre é o mesmo.
Para Arendt, Platão buscou ordenar o mundo no sentido de eliminar a imprevisibilidade humana, separando o ato de começar do de realizar. O início seria do governante e a realização dos governados, inspirado na figura do tirano, um rei- filósofo. Tanto ele quanto Aristóteles admitiam a coerção como forma de governo e o despotismo dos dias de hoje bebem deles e não do autoritarismo romano.
Platão usa a autoridade para substituir a persuasão, que na polis era a base do convencimento político. Ele usa a sabedoria como base da coerção, uma cisão do saber- do governante- e do fazer- do governado. Foi Platão que ao introduzir este conceito para eliminar a desordem na polis, racionalizou o comando da maioria pela minoria, numa evidência de que o espaço público- político somente pode ser ordenado às custas da liberdade.
Ao contrário de Platão, Sócrates buscava através da atividade de pensar o significado e não a verdade.
Para o filósofo que ama o saber, as interrogações são mais importantes que as respostas. Para Arendt, o pensar representa um perigo se nasce do desejo de se encontrar resultados que tornem desnecessário qualquer pensamento, e crítica, posteriores.
Fonte aqui
“Uma das penalidades por se recusar a participar da política é acabar sendo governado por seus inferiores” – Platão
Não deixa de fazer sentido, seja qual for o pensador e o seu ponto de partida e a sua perspectiva enquanto “animal político”, que há algum fundo de verdade neste raciocínio de Platão. Diria até, um princípio platónico, ideal, que se traduz empiricamente na expressão popular “se queres bem feito, faz tu mesmo!”.
Porém, também é verdade que princípios deste género (que têm até algumas semelhanças com os princípios Confucionistas do extremo-oriente, na sua formulação idealista de Estado-Nação organizada segundo princípios hierarquizados ontologicamente e fenomenologicamente, e até a nível subconsciente, do domínio do mitológico, do mítico e do sagrado), têm o seu carácter antagónico, sectário e, por derivação, fascizante, de polarização extremada e segregacionista.
Nesse aspecto, sem dúvida que Sócrates se sobrepunha no sentido de não se deixar enredar em sectarismos, e sistemas exclusivistas ou peremptoriamente determinados de forma idealista, como se os arquétipos pudessem ser determinados a prioristicamente antes de devidamente confrontados com a dialéctica e a maiêutica socrática.
(…)
A pena de morte de Sócrates foi o meio de corte com a mundivisão socrática de questionamento para o aperfeiçoamento, e da cristalização dos dogmas idealistas (platónicos, aristotélicos, etc) como forma de conhecimento superior científico, onde a dialéctica é destruída pelos ditames de “entendidos” e “sábios”, que são “superiores” aos demais cidadãos políticos (da pólis), gerando castas políticas e sociais.
DE ACORDO:
Nova Iorque, 13 jan 2025 (Lusa) – O secretário-geral da ONU, António Guterres, realçou hoje durante a cerimónia anual de transferência da presidência do Grupo dos 77 (G77) que “as sombras do colonialismo e da escravatura” continuam presentes no sistema internacional atual.
“As longas sombras do colonialismo, da escravatura e da extração descontrolada de recursos ainda hoje se mantêm”, destacou o diplomata português, num discurso no salão do Conselho Económico e Social das Nações Unidas (ECOSOC), localizado em Nova Iorque.
Guterres elogiou ainda a liderança do Uganda na presidência de 2024 do grupo já conhecido como G77 e China, e felicitou o Iraque – membro fundador há mais de 60 anos – por ter assumido a liderança para este ano.
O G77 foi criado por 77 países em 1964 para promover os interesses económicos coletivos do chamado Sul Global.
O grupo tem atualmente 134 membros, incluindo a China, que não é considerada membro de pleno direito.
Após a adoção do Pacto para o Futuro, do Pacto Digital Global e da Declaração sobre as Gerações Futuras na última Semana de Alto Nível da ONU, em setembro, o secretário-geral continuou a sublinhar a necessidade de dar maior peso à visão dos países em desenvolvimento dentro do multilateralismo.
“Esta visão é essencial para o propósito e papel do vosso grupo (G77)”, frisou Guterres, que os definiu como os “defensores da igualdade, da erradicação da pobreza e dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável”.
O português acrescentou que “representam a promessa de que os países se podem unir para remodelar um sistema multilateral que sirva todas as pessoas e todos os países”.
E concluiu: “Simbolizam o reconhecimento global de que, durante muito tempo e de muitas maneiras, os países em desenvolvimento foram tratados injustamente.”
António Guterres aproveitou também a oportunidade para lembrar que o mundo vive “num período de conflitos e violência devastadores”, de catástrofes climáticas mortais e onde os avanços tecnológicos “estão à frente da capacidade de os gerir para o bem da humanidade”.
Entre as soluções que sugeriu para este ano, também dentro dos 77, apontou a necessidade de bancos multilaterais que permitam financiamentos mais acessíveis aos países em desenvolvimento, um compromisso mais forte com a ação climática preventiva e um modelo de comércio aberto que permita ao Sul Global tirar partido das cadeias de valor globais.