Os natais de boa memória

(Por José Gabriel, in Facebook, 18/12/2024)


Quando eu era garoto, não se falava no Pai Natal nem outras figuras da mitologia comercial do Natal – sim, eu sei da lenda do bondoso e generoso Nicolau de Mira, ou S. Nicolau, curiosamente padroeiro da Rússia, mas essa figura e seus méritos foi apagada da História pelo gorducho vestido pela Coca-Cola. Tudo andava em volta do Menino Jesus, da sua mitologia popular e do presépio que, lá em casa, era levado muito a sério, como obra de arte e engenharia, com uma estrutura de base em cortiça virgem, todos os competentes figurantes e mais alguns que a nossa imaginação criasse. A cena ia muito para lá da gruta de Belém e das figuras sagradas. Havia personagens – humanos e animais – de toda a espécie, eram representadas profissões, atividades mais próximas da nossa realidade popular que dos lugares longínquos onde teriam ocorrido os eventos essenciais do Natal.

Os meus avós encarregavam-se das lendas e mitos, dos cânticos – nada das americanices de agora, cânticos do povo, “acordai ó homens todos/acordai mulheres também/venham ver Jesus menino/no presépio em Belém” –, da explicação de que era o menino Jesus que nos proporcionava todos os presentes que recebêssemos. Quando, mais espigadotes, nos surgiram dúvidas sobre a origem das prendas, foram eles que justificaram o embuste garantido que se devia ao menino Jesus o facto de os nossos pais terem recursos para nos poder oferecer tudo aquilo. E nós participávamos naquela cena, nas suas histórias, nos cânticos, sem pensar muito no facto de, lá em casa, ninguém, excepto os avós, ser dado à religião e – o que me motivou as minhas primeiras dúvidas…teológicas – ser pouco compreensível que alguns dos nossos amiguinhos e vizinhos não tivessem prendas, nem sequer um par de sapatos, posto que alguns andavam descalços. 

E havia os detalhes. E, até, a discriminação animal, que decorria dos papéis atribuídos à vaquinha – tinha direito a diminutivo carinhoso – e ao burro. Uma, aquecia o menino com o seu bafo. O outro, comia a palha da manjedoura sem respeito pelo seu santo ocupante. Quando hoje vemos o interesse e cuidados dedicados aos burricos e à sobrevivência da espécie – ao ponto de até já concorrem com os gatos nos vídeos das redes sociais – justo é considerar que há uma merecida recuperação dos jumentos, nossos velhos companheiros dos trabalhos e dos dias.

A mitologia do Natal era, pois, marcada pela tradição popular, pelas memórias dos mais velhos, depositários das memórias dos povos. Claro que poderíamos fazer aqui uma incursão sobre o facto de muitas divindades de muitas culturas comemorarem o seu aniversário nesta data, de ser o tempo do solstício de Inverno, ou falar da proximidade de atributos de divindades do Médio Oriente com as das figuras centrais do presépio – Maria e Jesus.

Que a pomba da paz sobrevoe o coração dos belicistas

Mas não é hora de tergiversar. É hora de enviar um abraço aos nossos amigos, desejar-lhes um feliz Natal e um novo ano de paz e felicidade. Porque, seja qual for a razão, a hora é sempre boa para festejar a vida, a paz, o encontro com os outros. Os homens de boa vontade de que falavam os meus avós e as histórias de Natal.

3 pensamentos sobre “Os natais de boa memória

  1. NAQUELE TEMPO NAO HAVIA PAI NATAL
    A noite estava horrível. Quem se importava com o estado da noite! Naquele tempo não se sabia de antemão como ia estar o tempo. Eram tempos em que a tecnologia só nos tinha dado o Telefone e a Rádio. Ainda recordo o primeiro telefone público na minha terra. Estava afixado na Padaria Mendes. Alguns iam ali efectuar chamadas telefónicas ou recebê-las. Os mais humildes até tinham receio de enfrentar o telefone. E quando ali eram chamados para receber uma chamada mais medo tinham. Sabiam que não iam ser boas notícias. Uma desgraça ou a morte de qualquer familiar que vivia fora da terra. Eram estas notícias que vinham pelo telefone. Se outra fosse era mandada por recado.
    O rádio era diferente. Transmitia relatos de futebol e música. Mas também era raro nas casas dos mais pobres. Não era só pelo seu custo. Também era porque a maioria das casas não eram possuidoras de electricidade. Assim só restava ir para um café ou taberna ouvir a rádio. De ouvidos bem atentos ouviam o relato do Benfica do Sporting ou Porto. Música era o que mais dava. Convinha ter o povo distraído com este tipo de emissões. Assim não pensavam na política. Não reclamavam da miséria que lhes ia porta adentro.
    A noite continuava horrível. A chuva e a trovoada fazia-se ouvir. Que interessava. Se naquela noite não ia sair de casa. Só pensava nisso porque estava para chegar a casa uma filha que era criada de servir no Porto. A camioneta da carreira já devia estar a chegar. Como precaução mandou o seu filho mais velho esperar a irmã. Mas estava aflito porque a noite estava horrível. Raramente vinha a casa. Mas neste dia que já entrava na noite, vinha.
    Vinha três vezes no ano. Pela Páscoa, festas da Vila e Natal. Era o que acontecia nesta noite. A hora do jantar aproximava-se e eles não chegavam. Já não era só pela noite horrível. Era também pelos presentes que tinha pedido a sua filha para comprar no Porto. Não era que não houvesse em Freamunde casas com tais quinquilharias. Haver havia. Mas o dinheiro era tão pouco. Como a sua filha ia receber a mensalidade comprava no Porto. Por que ele só recebia a semanada no sábado, último dia, de trabalho semanal. E como a véspera de Natal tinha calhado numa quarta-feira não havia dinheiro de sobra para esse efeito. E como pai gostava de dar algo aos filhos. Fosse a coisa mais insignificante. Mas que gostava de dar gostava.
    No seu tempo de criança era raro receber. Também não tinha um par de sapatos para pôr ao pé da lareira. Tempos horríveis. E a noite continuava horrível. E não havia maneira de chegar. Teria perdido a camioneta! Oxalá que não. Estava entretido neste pensamento e nem deu pela chegada dos dois. Também quem podia ver com uma noite horrível. Não havia luz pública no lugar em que habitava.
    Ainda recorda uma noite em que uma sua filha adoeceu e teve que a levar a casa do médico. Ele com a filha ao colo a mulher com um candeeiro a petróleo para os alumiar. Mesmo assim era topada atrás de topada. O que interessava era não deixar cair a menina. Já bastava o estar doente.
    Cogitava nisto quando a sua filha chegou junto dele e lhe deu um beijo. Estás mais gorda e bonita, disse para sua filha. Mas deixemo-nos destas formalidades porque está na hora de jantar. Está bem mas primeiro vou desfazer a mala, disse a filha. Não quer ver os presentes para os meninos? É melhor não. Eles podem-se aperceber e depois não crêem no menino Jesus. Sim! Naquele tempo não havia Pai Natal. Era o Menino Jesus que trazia as prendas.
    Por Manuel Pacheco, no Natal de 2021.

  2. segunda-feira, 22 de dezembro de 2014
    Estamos na quadra de Natal:

    Já não há alegria como antigamente. Recordo o meu tempo de criança e como desejava o Natal. É que naquele tempo o Natal era a porta que se abria para a vinda de um par de calças, um vestido, um par de sapatos, ou outro qualquer artigo, dependendo do sexo. Isto para o mais velho ou mais velha. Os subsequentes recebiam as sobras do outro ou outra que lhe deixara de servir. Era como se diz hoje: austeridade. Era proibido viver acima das possibilidades. E o mais importante era que o povo, neste caso, o mais pobre, não era piegas. Era obedecer e calar.
    Hoje não se precisa da vinda do Natal para se estrear um par de calças, um vestido, um par de sapatos, ou outro qualquer artigo. Os mais novos não precisam de estar à espera das peças que deixaram de servir aos mais velhos. Há quem se sinta mal por esta melhoria de vida. Não suportam ser iguais. Querem o estatuto da diferença. Por isso a luta de classes.
    Não tenho saudades daquele tempo. Mas não o esqueço e gosto de lembrar as minhas origens. Sei as dificuldades pelo que os meus pais passavam e não se podiam dar ao luxo de pôr nos nossos sapatinhos, nos que os tinham, a prenda do Menino Jesus. Era-se tão pobre que nem havia Pai Natal. Era o Menino Jesus.
    De qualquer maneira era o tempo e modo de vida que tinha a maioria dos portugueses. Mas havia alegria pelas prendas recebidas. De manhã cedo lá nos ponhamos a pé para ver as surpresas, depois de uma noite mal dormida, pelo pensamento do que nos ia calhar em sorte. Mas era uma alegria. Depois no dia de Natal lá íamos à missa dar um beijinho ao Menino Jesus em sinal de agradecimento.
    Hoje recebe-se melhores prendas e muitas crianças não vão agradecer ao Menino Jesus. Acabou-se com a tradição de ser o Menino Jesus a ofertar e criou-se a imagem do Pai Natal. Tempos modernos e de consumismo. Oxalá que assim continue. Mas julgo que não. E daqui faço um apelo ao Pai Natal que em lugar de prendas valiosas que nos dê um governo amigo do povo e das crianças. Que acabe com a miséria de haver crianças que só comem uma refeição quente uma vez ao dia. Que não seja preciso as cantinas, no período de férias da escola, serem abertas para matar a fome às crianças e seus familiares.
    Se assim fosse podem crer que a minha quadra de Natal era a mais feliz. Então podia em nome de todas as crianças ficar obrigado ao Pai Natal.

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