(Francisco Seixas da Costa, in Blog Duas ou Três Coisas, 18/11/2024)

(Entre os latidos dos caniches e o crocitar dos falcões, é raro ouvirmos algum arrulhar de pomba. Mas sucede neste texto. O embaixador ainda não ensandeceu e é dos poucos que, na frente ocidental, não foi vacinado contra o bom-senso.
Estátua de Sal, 18/11/2024)
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1. As palavras têm um peso, mas as mesmas palavras não querem dizer exatamente o mesmo. Biden defendeu hoje a independência da Ucrânia. Putin também podia dizer isso, mas querendo significar que gostaria de transformar a Ucrânia num país tão “independente” como é a Bielorrússia.
2. A Ucrânia, nos dias de hoje, só formalmente é um país independente. Um Estado que necessita da ajuda de outros para existir, é um país altamente dependente, qualquer que seja a razão por que isso acontece – neste caso, porque está a ser invadido por outro.
3. Não há uma forma apenas da Ucrânia ser independente. Aquela que o governo de Kiev desejaria é, muito provavelmente, inviável: ser simultaneamente membro da NATO e da UE. Mas não está provado que seja impossível, por exemplo, preservar a independência de uma Ucrânia neutral.
4. Uma Ucrânia neutral seria uma solução injusta, na perspetiva de Kiev. De facto, a neutralidade não faria jus à luta de quem, desde há mais de uma década, perdeu muita gente na batalha por outro modelo. E teria o “defeito” de agradar a Moscovo. Só que, às vezes, a vida é o que é.
5. Se a Ucrânia, em 1991, tivesse mostrado vontade constitucional para acomodar a minoria russa, tudo teria sido diferente? Ou se, mais tarde, tivesse aceitado Minsk II? Ou a tentação de Moscovo, em 2014, já com a Crimeia “no bolso” e a humilhação de Maiden, seria intravável?
6. Quem não deseja uma Ucrânia neutral é também a Europa. A Ucrânia, para além dos sentimentos e da retórica, é vista por muitos na UE/NATO como uma conveniente “almofada” de proteção face aos humores futuros da Rússia autocrática de Putin ou de quem lhe suceder no mesmo registo.
7. Para essa Europa, alguma russófoba, uma Ucrânia sob a proteção do “artigo 5°” seria o cenário ideal, na presunção de que os “donos” da NATO, isto é, os EUA, mantivessem as suas garantias, o que hoje está longe de estar assegurado. Trump não durará sempre, mas ainda pode vir pior.
8. A Europa evita falar do assunto, mas talvez não seja por acaso que não se ouve uma única palavra sobre a hipótese da Áustria entrar para a NATO. É que, ao contrário da Suécia e Finlândia, a neutralidade de Viena ficou gravada na sua constituição. É oportuno agora recordar isto.
9. Os dias estão e, por algum tempo, vão continuar tensos entre Moscovo e o lado de cá. Mas lembraria o óbvio: a Rússia vai ficar sempre por ali e, como se sabe, com os vizinhos, por mais desagradáveis que eles sejam, há que saber encontrar um “modus vivendi”.
10. Se um poder “absoluto” como o de Trump tivesse alguma racionalidade, para além da desbragada afirmação egoísta dos interesses americanos, esta seria uma oportunidade de ouro para pilotar uma nova arquitetura de segurança europeia – com UE, NATO, Ucrânia e Rússia. Mas não tem.
11. Não sendo expectável que sejam os EUA a empenharem-se numa nova “détente”, neste caso no (eventual) termo de uma Guerra Quente, restará à Europa fazer pela vida, se, como tudo o indica, Trump lhe impuser uma solução desagradável, à custa da soberania ucraniana.
12. Mas, na narrativa eufórica e jingoísta, a Europa “va-t-en guerre”. Pois isso! A Europa não é um país, são 27 vontades, umas raivosas, outras cansadas, outras declaratórias, como a senhora Von der Lyen, armada de balas de papel e de papel para comprar balas para outros dispararem.
13. Quando o telefone toca no Kremlin e é de Berlim, Putin deve ter achado graça. Scholz telefonou para dizer nada. Macron atrasou-se e vai agora inventar qualquer coisa para lembrar a sua “force de frappe”. Até na coreografia díspar a Europa mostra que não sabe o que há-de fazer.
14. Surgem as armas de longo alcance. O estertor das presidências americanas é mau conselheiro. Em 2008, Saakashvili caiu num engodo saído de Washington e foi o que se viu na Geórgia. Veremos se Zelensky tem uma noção minimamente realista das coisas. O seu país tem já muitos mortos.
15. Há muito que os dias não estavam tão perigosos. Este é o tempo dos líderes serem responsáveis, talvez mais do que as suas opiniões públicas, prenhes de emoções e de “dever ser”. Recorda-se por aí o início da Segunda Guerra. Tenham juízo! Nessa altura ainda não havia bomba atómica.
Assim pensava o Francisco em 2015, nove anos atrás… antes de formar «par» com a Soller na CNN para «jogar» contra o Major-General Agostinho Costa às quintas-feiras no respeitante à guerra na Ucrânia, promovendo um Zelensky/Ucrânia e diabolizando um Putin/Rússia, sem preocupações de contextualização da dita guerra, esquecendo o que outrora denunciava!
Para os que acham que mudei de opinião, aconselho a leitura disto: https://duas-ou-tres.blogspot.com/2015/02/jogos-de-guerra-ou-brincar-com-o-fogo.html
Ok. Esclarecimento oportuno. 🙂
Já agora, quinze notas deve ser o que os propagandistas convictos recebem cada vez que vão à TV regurgitar as cartilhas do militarismo e do belicismo como perspectiva de futuro para o(s) povo(s)… o equivalente pós-moderno aos 30 dinheiros de Judas…
Torno a subscrever!!!!
Os WarMongas contra-atacam… é o último estertor de uma administração corrupta, inábil e decrépita.
Penso que não figurará nos pontos altos (“highlights”) da (curta mas rica) história americana… nem deixará muitas saudades à maioria dos americanos (como se viu pelos resultados das últimas eleições), nem mesmo aos seus apaniguados e fiéis escudeiros, papagaios e idiotas úteis europeus, que ficarão divididos quanto à memória destes tempos e ao saldo destas políticas armamentistas e belicistas (que já se tornou o modus operandi das administrações do partido democrata e sequazes europeias).
Não que a próxima administração inspire confiança, o show de vaidades será igual ou maior, a irracionalidade e o chauvinismo mantêm-se, a prepotência e o show-off provavelmente não disparar, talvez se arrepie caminho e a russofobia (nas suas várias formas, políticas, sancionatórias, propagandísticas, militaristas) decresça, a sinofobia e o anti-semistismo (contra os povos semitas do médio oriente) vão galopar, enfim… vamos esperar para ver o que vai mudar e o que vai ficar (praticamente) na mesma.
Já agora, aquelas escolhas para o Departamento de Justiça (DoJ) da administração Trump metem medo ao susto. Penso que vai haver circo e do bom nos tribunais americanos, e aquela procuradoria vai ser um fartote de perseguições, caças às bruxas, justiça selectiva e direccionada, escândalos e confusões várias… tudo isto com implicações políticas e sociais a nível interno, sobretudo. Ainda bem que não vivo nos EUA, e sei bem o que é a justiça em Portugal (ou melhor, o que não é)…
O Kennedy Jr. não me aquece nem arrefece, se colocar as farmacêuticas em sentido já não se perderá tudo, e a política externa precisa mesmo de levar uma vassourada, mas infelizmente está contaminada à partida com a ideologia xenófoba e supremacista da alt-right.
Os direitos das minorias e das populações das primeiras-nações vão também andar na corda bamba… para o Trampas é tudo bandidagem sub-humana… como os chineses, os palestinos e todos os que não andem a toque de caixa…
Este comentário refere-se ao artigo anterior, “Nas mãos de psicopatas a caminho do abismo”, mas por lapso ficou aqui.
Quanto a este senhor embaixador, faz-me lembrar aqueles pandilheiros que vão por arrasto dos cabecilhas, aquilo não é bem a onda deles, mas sabem que se não alinharem ficam marcados e depois não há mais borlas, viagens de borla e cambalachos para aproveitar e gozar.
Ou seja, não é claramente um WarMonga, tem um discurso mais lúcido e prudente, mas está sempre a justificar as WarMonguices e até os seus pontos de vista estão em linha com a forma de pensar da pandilha a que, no fundo, pertence.
Ele vai dentro da carrinha com eles, no banco de trás, sempre desconfiado e de olho no caminho, não vá ser preciso abrir a porta e saltar em andamento quando o embate violento com a realidade e o despiste forem vislumbrado. Nestas alturas dá jeito uma joelheiras e umas cotoveleiras, e umas luvas, para melhor amparar a queda.
O capacete estou a ver que já colocou…
Subscreve-se!
🙂
*a prepotência e o show-off provavelmente vão disparar
Corrijo: “Entulho ao Vento”
Whale Project: «Um arrulhar de pomba que, mais uma vez, dá uma no cravo e duas na ferradura»
👏👏👏
À atenção da Estátua: Rui Pereira: “Entulho Intelectual” https://www.facebook.com/share/p/guXgSECz4RJcvWDq/
Obrigado. Bom texto, sim.
Um arrulhar de pomba que mais uma vez dá uma no cravo e duas na ferradura.
Para o artista e perfeitamente normal que a Europa Ocidental não queira que a Ucrânia não seja neutral para servir de “almofada” contra os maus humores do malandro do Putin.
Valha lhe um burro aos coices porque mais uma vez esta a ver o filme ao contrário.
E a Europa Ocidental que precisa dos recursos da Rússia e não o contrario. Foi a Europa Ocidental que ao longo da história foi tentando invadir a Rússia via suecos, polacos, franceses e alemães e não o contrario. E sempre foi derrotada.
Foi a Europa Ocidental que sempre considerou os russos sub humanos a ponto de comprar escravos aos tártaros.
Agora o sujeito acha normal que a Ucrânia seja parte de uma aliança agressiva useira e vezeira em invadir e destruir países para lhes sacar recursos em nome da liberdade e acha que a Rússia deveria acatar isso de boa vontade.
Acha mesmo que a Rússia deveria arriscar o destino de Iraque e Libia só para citar alguns.
A Ucrânia sempre foi a porta de entrada das nossas invasões.
Mas para este distinto senhor a Rússia devia aceitar que um regime onde pontificam nazis a moda antiga se armasse ate aos dentes, tivesse armas nucleares lá estacionadas e entrasse na NATO para que estivéssemos protegidos de um país que precisa tanto de nós como uma viola e precisa num enterro.
Va ver se o mar da choco.