Podemos dar água a um cavalo, mas não podemos obrigá-lo a beber

(Frederico Lourenço, in Facebook, 27/10/2024)


Interregno. Exercício dominical para desanuviar as meninges. Estátua de Sal, 27/10/2024


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Podemos dar água a um cavalo, mas não podemos obrigá-lo a beber. Este conhecido ditado inglês (“you can lead a horse to water, but you can’t make it drink”) conheceu uma divertida versão alternativa pela mão da impagável Dorothy Parker: “you can lead a whore to culture but you can’t make her think”. Subindo rapidamente o nível, uma carta de Bertrand Russell a Lady Ottoline Morrell atribui a Wittgenstein posição análoga: “ele diz que uns querem filosofia; outros não: assunto encerrado”.

Mas voltando ao cavalo. O problema de querer dar cultura a beber a outrem, para depois ser-se confrontado com recusas de toda a espécie, é a história de vida de todos os professores universitários.

Ao mesmo tempo, a universidade – com a oportunidade que nos oferece de contactarmos com as gerações mais novas para lhes dar a conhecer o que foi importante para as gerações de séculos anteriores – é motivante espaço de aprendizagem também para nós, os professores, porque temos de aprender a tornar relevante para as gerações de hoje a cultura ancestral que é nossa função transmitir. E isso – quer se queira, quer não – só se aprende com as gerações de hoje, todos os anos, a partir da estaca zero.

É difícil ser apóstolo da “Hochkultur”? A estaca zero acima mencionada é difícil. Perceber o que NÃO posso pressupor em termos de conhecimentos anteriores dos estudantes é todos os anos um desafio enorme. Há vinte anos os alunos ter-se-iam desmanchado a rir, pensando que eu estaria a brincar com eles, se lhes tivesse perguntado se já tinham ouvido falar na Revolução Francesa. Hoje, é mais prudente NÃO pressupor que alguém saiba o que foi tal coisa. Há sempre surpresas. Um powerpoint mostrado a estudantes de 1º ano em que ocorria uma fotografia da celebremente inclinada Torre de Pisa ocasionou a seguinte resposta, da parte do único aluno na turma que se sentiu capaz de identificar o monumento: “não tenho a certeza, mas acho que é o Mosteiro dos Jerónimos”.

O melhor é mesmo não pressupor nada.

É mau chegar à universidade neste estado de tábua rasa? Não tenho uma resposta unívoca. A minha educação de “geniozinho” foi melhor? De facto, a minha irmã e eu crescemos sem televisão, sem rádio, sem futebol e sem banda desenhada (“gibis”, no Brasil), num universo cultural que era mais ou menos o do século XVIII, com deuses como Shakespeare que no século XVIII já eram velhos. A realidade mais moderna da nossa infância chamava-se Beethoven. Esta axiologia era perfeitamente normal para nós. Era o que conhecíamos. Era o que os nossos pais achavam normal. O que não era normal (mas sim muito injusto) foi que tenham dado esse tipo de educação à minha irmã e a mim e que depois se tenham espantado com as dificuldades colossais de integração que sentíamos relativamente às crianças da nossa idade.

O que me leva a esta outra pergunta. A alta cultura faz-nos felizes? Sempre achei que sim. Mas no fundo, se olhar bem para a minha vida, se calhar teria sido mais feliz com futebol em vez de Bach – não sei. Esta consciência bateu-me forte, vários anos atrás, quando um episódio sentimental malogrado ocasionou discussões estranhas que me fizeram ter de engolir frases como: “não consigo namorar com uma pessoa cuja ideia de espairecer é ler Schiller em alemão”. Acho que foi aí que comecei a perceber que o apostolado da alta cultura, que sempre me encheu o espírito de fervor – fervor esse que, imagino, fará de mim (para alguns alunos) um bom professor universitário – foi ao mesmo tempo um dom cuja fatura tive de pagar em termos de vida privada. Talvez. Ou talvez não. Ainda não tenho a certeza.

Ser, de alma e coração, apóstolo da alta cultura trouxe-me uma enorme riqueza: uma riqueza que tem mais valor para mim do que tantas outras coisas a que outros legitimamente dão valor. É um apostolado que não me põe acima dos outros – nunca pensei nem pensarei isso. Põe-me longe dos outros. Faz de mim um chato, eu sei, e um “pedante” (ai, se eu tivesse um euro por cada vez que me chamaram pedante!). Claro que ser chato afugenta os outros tanto ou mais que a halitose. Na verdade, em termos da procura de uma vida feliz na companhia de outrem, ser apóstolo da “Hochkultur” pode ser um bocado como sofrer de mau hálito e, muito embora hoje eu tenha a bênção de ser feliz a dois, felizmente nasci com (ou desenvolvi ao longo dos anos) jeito para ser feliz sozinho.

Também é certo que a obra completa de Schiller sempre me faz ótima companhia.

9 pensamentos sobre “Podemos dar água a um cavalo, mas não podemos obrigá-lo a beber

  1. Frederico Lourenço, intelectual sério (e nem todos o são), não precisa que eu diga isto, mas…
    Tenho a maior consideração pelo tradutor de obras magníficas para Português (as quais, já agora o digo, adquiri). O seu professorado, infelizmente para mim, não me beneficiou, não o conheço mas não tenho qualquer dúvida da sua excelência.
    Tentei escrever esta nota para o seu email, mas não consegui, portanto se a Direcção da Estátua de Sal, cuja actividade aqui elogio e saúdo, tiver a gentileza de lhe fazer chegar estas minhas palavras, agradeço.
    Algumas observações:
    O cavalo – um dos animais ao qual o homem deve a sua subsistência na terra – se tiver água ao pé e sede, não precisa que o homem lha dê. Os ditados e ditos de humor britânicos são sempre ou quase muito clarividentes, mas não este, que não tem graça nenhuma.
    Sobre animais, lembro sempre Lee Berger, o grande antropólogo, que afirma ser o Homem o mais perigoso animal de que há registo.
    Quanto a Dorothy Parker, espero que tenha sido tão competente enquanto fêmea como muitas putas, aptidão que não é de desprezar. Também afirmo que muitas putas (tendencialmente todas) são tão aptas a ler textos de Filosofia como qualquer outro letrado. Depende de quem têm ao lado.
    E, lembrei-me agora: há uns bons anos, um “scholar” (fica bem dizer assim, em terra de emproados), do qual não recordo o nome, dizia que a Filosofia devia ser ensinada a partir da primeira escolaridade. Concordo com ele e sigo adiante.
    Agora sobre Schiller. Os meus dois modestos anos de Alemão (com a mais elevada nota, lembro com alguma alegria, mas nunca liguei muito a classificações escolares) levaram-me a sentir um pouco, poucochinho, o rigor desta língua, das suas regras. Portanto, percebo a sua observação, mas não é precisa, para viver, a obra toda do autor da Ode à Liberdade, que, na conhecida obra de Beethoven, teve de ser mudada para Ode à Alegria, por causa da Censura, que se sabia existir.
    Wittgenstein, o tal que mereceu a vénia intelectual de Bertrand Russel, disse coisas bem mais acertadas do que a por si lembrada, e por isso recordei a observação que acima deixei sobre o ensino da Filosofia.
    Saudações gratas pela sua obra do
    Maximiano Gonçalves

  2. Pois, il Duce disse muitas asneiras mas essa realmente não disse.
    Ao que parece essa pérola foi dura numa peça de teatro de um autor fascista mas parece que o grunho que se matou num bunker assassinando também os filhos todos também não a disse.
    Mas que essa malta não gosta de cultura, não gosta, ou defende a sua difusão apenas por uma elite.

  3. Temos 50 deles a grunhir na Assembleia da República.
    E não há dúvida que cultura por lá não há muita.
    Conseguem a proeza de dar um erro ortográfico num texto de 10 linhas.
    No meu caso, não tenho nada contra a cultura embora ela não impeça ninguém de ser um grunho.
    Não era certamente de falta de cultura que sofria o professor universitário do Porto que defendia que recebessemos os barcos de refugiados a tiro de metralhadora ou o inesquecível juiz Neto da Moura.
    Mas quanto menos cultura houver mais depressa cairemos no discurso de gente que teve acesso a cultura, que não e parvo nenhum mas se faz grunho como o nosso Ventura ou o bandalho que acabou pendurado numa árvore que lançou essa pérola.
    Saber não ocupa espaço nem lugar.
    E pode abrir os olhos, abrir horizontes.
    Por isso os fascistas teem tanto horror a difusão da cultura.
    Para Salazar bastava aprender a ler, escrever e contar e isto diz muito da relação dos fascistas com a cultura.

  4. Deixou muitos discípulos e admiradores, o piedoso coprólito humanista que perorou:

    “Quando ouço falar em cultura, puxo logo pela pistola!”

  5. Já agora, também para desanuviar um pouco:
    Sabiam que um manual de matemática se suicidou por ter muitos problemas? 🥸

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