(Djamel Labidi, in Resistir, 08/05/2022)

Os Estados Unidos convocaram para a sua base militar de Ramstein na Alemanha, 40 Estados, 40 países ocidentais. Foi todo o ocidente que lá compareceu para fornecer cada vez mais armas à Ucrânia. A História pode vir a lembrar esta data, 26 de abril, como o início da Terceira Guerra Mundial, se tal acontecer e se a humanidade lhe sobreviver.
Podemos de facto falar de não-beligerância, mostrando hipocrisia, quando vemos o esforço de guerra dos EUA – 30 mil milhões de dólares previstos – e que envolvem cada vez mais os Estados ocidentais, assim como o tipo de armas fornecidas, cada vez mais pesadas, cada vez mais sofisticadas.
O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Lloyd Austin, usando uma frase do presidente Roosevelt em vésperas da entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial, chamou a aquele enorme esforço militar: “ajudar a fortalecer o arsenal da democracia ucraniana”. Mas ele revela, ao mesmo tempo, sem qualquer outra precaução, que o objetivo deste encontro, assim como o da guerra, é “enfraquecer” a Rússia de forma duradoura. Na mesma linha, e desde o início da guerra, aliás, em 24 de fevereiro, o presidente Joe Biden anunciou “sanções devastadoras” contra a Rússia e em 7 de abril prometeu que “essas sanções apagariam quinze anos de progresso económico da Rússia”. Em suma, constata-se com efeito que desde o início, os EUA encaram a guerra na Ucrânia como uma guerra contra a Rússia.
Uma viragem perigosa
Com esta reunião, uma viragem perigosa para todos é tomada resolutamente pelos Estados Unidos, que se encaminham para uma guerra por procuração de 40 Estados, todo o Ocidente, contra a Rússia. Os EUA ainda especificam que esses 40 Estados manterão contacto e se reunirão regularmente para avaliar a situação militar. Ao fazê-lo, os Estados Unidos têm consciência que, deste modo, dão de facto à guerra da Ucrânia o contorno de uma confrontação mundial.
Já em 18 de janeiro de 2017, no Fórum Económico Mundial de Davos, Joe Biden, então vice-presidente dos EUA, acusava Putin de “ameaçar a ordem económica liberal internacional”, isto é, a ordem dos Estados Unidos, o domínio até ao presente sem partilha dos EUA sobre o mundo.
Atualmente, um pouco por toda parte, nos media ocidentais, vozes autoritárias especificam que a derrota da Ucrânia seria a derrota da hegemonia ocidental. Notemos de passagem que as expressões enganosas, de apenas alguns meses atrás, “comunidade internacional” desapareceram do vocabulário ocidental para dar lugar à palavra “ocidente”.
Pelo seu lado, a Rússia, ela também, designa claramente o que está em jogo nesta guerra, quando fala em pôr em questão a hegemonia ocidental. Fê-lo mesmo antes dos EUA, ao dizer desde o início que os EUA não se preocupam com a Ucrânia nem com a “da defesa do direito internacional que não cessaram de violar”, mas que o seu objetivo era uma guerra contra a Rússia por procuração.
A história ensina-nos que, até agora, quando duas grandes potências se enfrentaram, uma delas foi destruída ou ambas foram destruídas, com poucas exceções. Isso tem sido verdade desde a Guerra do Peloponeso entre Esparta e Atenas até às duas guerras mundiais. Mas desta vez, na era nuclear, é o mundo que será destruído, a humanidade que provavelmente desaparecerá. Esparta dominou o então mundo civilizado conhecido por cem anos. Atenas surgiu e, uma vez que se tornou uma potência em todos os níveis, económico, cultural, militar, pediu mais espaço, o lugar que agora era seu lugar de direito. A guerra era inevitável.
Uma engrenagem mortal
A história também nos ensina que quando uma potência domina o mundo por muito tempo, como é o caso dos Estados Unidos, mas por mais tempo ainda, o ocidente como potência global, ela experimenta o desafio, a contestação ao seu domínio, a possibilidade do seu declínio, como uma agressão insuportável. Ela sente-o de maneira dolorosa, agonizante, também com o sentimento da ingratidão das potências ascendentes, num mundo que estão convencidos de terem construído, moldado, de lhe terem dado tudo: sua tecnologia, sua cultura e até seus valores.
Isto fecha a sua perceção às novas realidades, pior torna-se praticamente impossível para eles aceitarem essas realidades. A mudança, a convulsão da ordem estabelecida é vivenciada como uma ameaça existencial. O seu domínio é percebido como uma condição da sua própria sobrevivência. Daí o caráter extremo, tanto verbal quanto material, que pode ter o confronto com os poderes ascendentes, aqueles que os contestam, a total impossibilidade de levar em conta o ponto de vista do outro, porque tudo o que é dito pelo outro, tudo o que ele faz, parece ser uma ameaça.
A vontade de compromisso não existe. Necessita-se vencer. Existe o mecanismo de uma escalada contínua, o da escalada atual entre os EUA e a Rússia. Qualquer recuo do outro é interpretado como uma fraqueza e, portanto, um incentivo à escalada, ao mesmo tempo que qualquer sucesso do outro é percebido como um perigo e, portanto, um motivo para ir ainda mais longe na escalada. Uma engrenagem mortal.
Do lado da Rússia o mesmo mecanismo é posto em prática, mesmo que por razões diferentes. A obsessão hegemónica dos EUA desde o fim da Guerra Fria, com a NATO a cercá-la nas suas fronteiras, depois a estabelecer-se diretamente na Ucrânia, levou a Rússia a ter, também, mas por um outro processo, a sensação de que a sua própria existência estava ameaçada. Ela também vê o conflito atual como uma questão de sobrevivência. Isso é repetido uma e outra vez Vladimir Putin.
Todos os ingredientes juntam-se para uma explosão que só pode ser grande e afetar a própria existência do outro. Os Estados Unidos não precisam, pelo menos atualmente, de recorrer a armas nucleares, pois têm outras armas de destruição em massa, principalmente económicas, e que, acima de tudo, podem fazer os ucranianos travar uma guerra por procuração, que estão determinados a manter, a alimentar financeira e militarmente para que dure. É este o cálculo.
Mas nunca se joga completamente sós. A Rússia não pode aceitar essa diferença inteiramente teórica e cada vez mais formal entre beligerância e não beligerância, especialmente porque o objetivo da guerra e o inimigo estão claramente definidos pelos EUA: a Rússia. Os EUA dizem que não fazem a guerra contra a Rússia na Ucrânia. Mas é uma questão de palavras. O que é certo é que para a Rússia, ela não faz a guerra na Ucrânia contra os EUA, mas que os EUA fazem-na quase diretamente na Ucrânia contra a Rússia. Aliás proclamam-no. As situações são aliás totalmente diferentes: se os EUA podem fazer a guerra contra a Rússia por procuração, a Rússia não o pode fazer.
Não tem outra solução senão fazê-lo diretamente nos Estados Unidos, se a ação dos Estados Unidos provar constituir para eles uma ameaça direta, estratégica e existencial. É isso que torna a situação repleta de perigos terríveis para o mundo.
“Vamos usá-los se necessário”
Ao designarem, na reunião de Ramstein, aos 40 países ocidentais a Rússia como o inimigo, como o objetivo desta guerra na Ucrânia, os EUA mudaram o seu significado, inclusive aos olhos de alguns países europeus. Eles impuseram ao conflito a sua visão, a sua direção e o agora provável risco de um confronto direto.
A reação de Putin, no dia 27 de abril, perante a Duma, em São Petersburgo, quis ter em conta este risco claramente. Ele declarou que se houver a interferência de um “elemento externo”, e que a Rússia se sinta ameaçada de maneira vital, a sua resposta será “rápida e fulminante”. Mais uma vez apontou que a Rússia tem armas estratégicas que os Estados Unidos não têm: “Nós temos todos os instrumentos para isso. Daquelas que ninguém pode gabar-se de possuir. E, acima de tudo, sobre essas, armas ele especifica: “Não nos contentamos apenas em nos vangloriar, vamos utiliza-las se tal se tornar necessário”, acrescentando: “Todas as decisões sobre isso já foram tomadas”.
A gravidade da situação está nestas palavras “vamos usá-las”. Até agora, a regra implícita para todos foi que a dissuasão nuclear, ou seja, o princípio estratégico de que as armas nucleares não podem ser usadas, daí o termo “dissuasão”, porque o seu uso significaria aniquilação mútua. Agora estamos a passar para outra situação, para algo diferente do que o mundo experimentou até agora, o risco, não mais teórico, mas real, de uma guerra nuclear. De teórico, o risco de uma guerra nuclear tornou-se real. Isso foi resumido num comunicado em 25 de abril do ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Serguei Lavrov.
À gravidade da situação, os americanos respondem com casualidade, ironia e até escárnio. Para o presidente Joe Biden, em declarações em 28 de abril “é uma reação de desespero da Rússia diante do seu fracasso na Ucrânia”. Para os media dos Estados Unidos, o risco de guerra nuclear é desde o início apenas “propaganda”, “bluf”, tentativas de assustar o ocidente, de intimidá-lo. O tom é assim dado a todos os meios de comunicação ocidentais que vão na mesma direção numa quase total unanimidade.
Pelo contrário, nos media russos o tom é diferente, grave. Em 30 de abril, no canal “Rússia 1”, a gravidade da situação não é negada ou subestimada. A possibilidade de uma guerra nuclear é considerada real. As pessoas falam sobre isso com seriedade, e até com uma espécie de fatalismo, como se quisessem preparar a opinião pública para essa situação.
Em 28 de abril, no canal Rússia 1, Margarita Simonyan, a diretora do canal de informação Russia Today, afirma: “A ideia de que tudo terminará com um ataque nuclear parece-me mais provável do que qualquer outro cenário”. Entrando nos detalhes, o discurso é concreto: explica a vantagem que a Rússia tem atualmente em termos de tecnologia militar e armas nucleares, com seus mísseis hipersónicos que chegam invisíveis ao inimigo, e com o enorme míssil balístico Sarmat, também invisível, que pode destruir sozinho um país inteiro. A sua velocidade é de “relâmpago”: 106 segundos para chegar a Berlim, 200 a Paris, 206 segundos a Londres, o que não permite que o adversário reaja. “Ninguém sobreviveria a isso”, diz um participante do programa, “Ninguém em todo o planeta”, precisa o apresentador do Programa. O diálogo é alucinante.
As imagens deste diálogo num programa da TV russa são transmitidas, coisa rara, na TV francesa. Os animadores franceses riem-se disto. Eles competem pela zombaria em relação aos russos. A atmosfera é surreal. Num programa da TV francesa, uma jovem ucraniana, que faz a guerra em Paris, quase acusa os franceses de serem covardes e “de terem medo de Putin” e da guerra nuclear. Um velho general aposentado diz que a velocidade dos mísseis russos não deve impressionar, e que um míssil a mais ou a menos não muda o assunto, já que cada lado tem meios para aniquilar o outro. Todos veem neste diálogo na TV russa a prova da loucura russa.
Mas, para mim, lembra-me a história de um louco que sobe ao muro do seu hospital para ver o lado de fora e vê um homem passando na rua. Ele então grita para o transeunte: “Quantos de vocês estão aí?”
Onde estão os pacifistas?
O que é terrivelmente preocupante, mais do que tudo, é a forma como os Estados Unidos, e por trás deles os canais de opinião ocidental, minimizam ou querem minimizar a extrema gravidade da situação, esta escalada que nos arrasta irremediavelmente para uma terceira guerra mundial, rumo a uma guerra nuclear. É a cegueira como é o caso dos impérios, especialmente os que estão em declínio, quando sentem o seu domínio desafiado, como a Rússia está a fazer atualmente ao declarar sem rodeios que quer desafiar a ordem mundial existente.
A reação dos Estados Unidos não tem nuances. O desafiante da ordem reinante é desprezado e subestimado. Sobre o perigo nuclear, pode-se notar que a atitude russa é diferente da dos Estados Unidos. Enquanto a Rússia informa a sua opinião pública com franqueza, os EUA negam o perigo.
Trata-se então de negar, de subestimar a situação ou é uma vontade deliberada de querer anestesiar a opinião pública, de querer impedir a sua intervenção, numa palavra de mantê-la alheia à situação real, a esta escalada sem sentido a que os EUA arrastam os países ocidentais. Desde a invenção das armas nucleares, independentemente das crises que o mundo experimentou durante a Guerra Fria, a situação nunca foi tão grave. E já não existem, ao que parece, as forças populares que antes eram um obstáculo à guerra e ao armamento nuclear, tanto no Ocidente como no resto do mundo.
Nos anos 70 e 80 houve um poderoso movimento de paz. As pessoas mobilizavam-se, aos milhões, contra a implantação de mísseis na Europa, formavam cadeias humanas de várias centenas de quilómetros entre os países europeus para se oporem à guerra. As elites intelectuais e científicas, os estudiosos, os artistas publicaram declarações contra a guerra. Titulares do Prémio Nobel formaram grupos para analisar as consequências de um holocausto nuclear e descrever o seu horror. A opinião pública foi regularmente informada. Não é mais o caso. Onde estão os pacifistas do passado, dos tempos da Guerra Fria?
Estamos à beira de uma guerra nuclear, e parece que ninguém se importa! A razão, as razões? No ocidente, as pessoas parecem estar sujeitas a uma propaganda de guerra impressionante e paralisante. Noutras partes do mundo, acredita-se que seja uma guerra limitada à Europa e aos Estados Unidos.
“Os mísseis podem chegar até nós?”, alguém inocentemente me perguntou. Não entendem as consequências globais de uma guerra nuclear, mesmo limitada a uma parte do mundo. Poucos sabem que o inverno nuclear se espalhará por toda parte, que a guerra nuclear é, por definição, total, que pode significar o fim do mundo, o fim da humanidade. Nenhum jornal, nenhum canal, nenhum site fala sobre isto, diz ou descreve os horrores da guerra nuclear.
Quem será capaz de acordar a opinião pública mundial? O que fazer ? Quem dará o alerta? Quem pode parar esta engrenagem mortal? Que personalidades, que homens de boa vontade, que partidos, que governos, que Estados? Temos que parar com isso! É necessário que “o povo”, que os povos “se movam”.
Ver também:
NATO leaders ignoring nuclear war risks
O original encontra-se em www.legrandsoir.info/on-est-au-bord-de-la-guerre-nucleaire-et-tout-le-monde-s-en-fiche.html
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Há ainda outro elemento que não está a ser considerado no artigo e que, na minha opinião, será determinante no desfecho desta história. Tratam-se das eleições americanas já em Novembro deste ano e as próximas presidências em 2024. Há uma forte possibilidade que Biden, que está politicamente enfraquecido graças à sua inépcia política em enfrentar a maioria conservadora quer no senado, quer na casa dos representantes (que inclui muito membro do seu próprio partido, como os pseudo democratas Sinema e Manchin que insistem em manter o filibuster vivo e com isso minam constantemente a agenda do seu próprio presidente) esteja a apostar numa 3ª Guerra Mundial como última tentativa desesperada de se manter no poder e evitar mais 4 anos de vergonha vindos do próximo palhaço que o partido Republicano decida parir. Basta olhar para a sequência do Inferno em Nixon, Reagan, Bush, Bush Jr e Trump para perceber que o próximo nesta linha pode perfeitamente ser o último presidente que os americanos têm oportunidade de eleger.
Tenho medo que Biden esteja a olhar para este conflito como a sua última jogada política antes de se tornar irrelevante, assim como todo o seu partido Democrata, claramente incapaz de impedir o partido Republicano de manipular as eleições, como tem vindo a fazer à décadas, cada vez mais radicalmente e de forma descarada.
Todos sabem bem a injecção de popularidade que guiar o país por uma guerra condiciona. Duvido que haja um democrata do establishment nos EUA que não tenha pensado nisto ao ver a taxa de aprovação abismal que Biden mantém, mesmo depois de suceder ao presidente mais inútil e odiado da história daquele país.
Tenho medo que este esteja a dar ouvidos a muito consultor, tão ou mais desesperado que este em se manter na luz da ribalta, para quem o sacrifício de todo o território Europeu e Asiático seja perfeitamente aceitável como forma de manter no poder um tipo que está constantemente a uma caixa de comprimidos perdida da completa senilidade.
Podemos ir todos pagar pela falta de inteligência e espinha do partido Democrata americano que, por via da sua própria mediocridade, se deixou colocar numa posição em que uma guerra nuclear mundial é uma peça legítima no tabuleiro das próximas eleições americanas. Há pouca coisa mais triste que isto…
Raramente concordo ou me revejo nos artigos que aqui publicam. Ainda bem que publicaram este. Para mim esta é de longe a perspetiva mais relevante para enquadrar o conflito e para contribuir a formar opinioes.