Kaputt

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 10/04/2022)

(Começo por dar os meus rasgados elogios ao Carlos Matos Gomes. Pelas lúcidas análises que tem produzido sobre a guerra na Ucrânia e que aqui temos publicado. Ainda há quem consiga sair do Matrix em que está transformado o espaço da opinião pública e publicada. A turba quer calar as vozes que discordam da narrativa dominante. A fé inquisitorial quer queimar os heterodoxos. Bem haja, Carlos Matos Gomes.

Estátua de Sal, 09/04/2022)


Kaputt é uma palavra alemã que significa acabado, destroçado. Kaputt foi o título escolhido por Curzio Malaparte, o pseudónimo de um italiano filho de uma italiana e de um alemão, para uma das suas obras. Nela o jornalista escritor descreve a sua passagem pelos campos de batalha da II Guerra Mundial e transmite o estado geral de uma Europa em guerra e em ruínas materiais e de valores.

Porque julgo estarem os dirigentes europeus a chamar por uma terceira, interessei-me por revisitar essa memória escrita das atrocidades então cometidas.

Parece-me que os dirigentes europeus e uma parte significativa dos que aqui vivem esqueceram ou ignoram, ou desprezam esses horrores e estão esgazeados e eufóricos a promover a sua repetição. Entendo que devemos lembrar esse período em que a Europa também passava por uma crise de enormes proporções.

O livro Kaputt expressa, entre várias abordagens, uma forma de relatar um conflito. Como é apresentado um conflito aos leitores, aos espetadores, aos cidadãos?

Ao contrário da abordagem dos atuais repórteres, centrados na criação de emoções e engajados numa dada catequização, em Kaputt não encontramos uma descrição exaustiva dos acontecimentos bélicos, o que hoje um vulgar videojogo faz com mais realismo do que uma reportagem.

Mais do que dar a conhecer o campo de batalha, o cenário, Curzio Malaparte tem como principal propósito dar a conhecer o comportamento dos envolvidos direta ou indiretamente no conflito, políticos, militares, prisioneiros, as suas motivações, o que se encontra a montante das paisagens devastadas e dos rostos dos sofredores.

Em Kaputt o campo de batalha funcionava como um tabuleiro de xadrez onde as peças se movimentavam. Eram esses movimentos que interessavam a Malaparte perceber e transmitir e não o de provocar adesões a uma narrativa. Nas narrativas de hoje, nas televisões, o campo de batalha é apresentado como um gerador de reações descontextualizadas: Vítimas e carrascos. Bons e Maus.

Curzio Malaparte abre a obra contextualizando-a no espaço e no tempo. Em 1941, quando se iniciou a ofensiva alemã contra as tropas ucranianas, Malaparte foi enviado para a frente ucraniana como correspondente de guerra do jornal italiano Corriere della Sera. É neste ambiente que Curzio Malaparte vai iniciar a escrita de Il Volga nasce in Europa. Hoje os manipuladores falsificam a geografia: a Ucrânia é Europa, a Rússia não!

Nas palavras da escritora canadiana Margareth Atwood, Kaputt trás à superfície “manifestações de fanatismo ideológico, racismo e de ódio à vida. Valores distorcidos, mascarados de pureza espiritual nos seus aspetos mais íntimos e vergonhosos.”

Hoje a guerra está de novo na mesma região da Europa, com os seus atores praticando as mesmas atrocidades, numa disputa por espaço e poder económico e apresentando o fanatismo ideológico, o racismo como valores defensáveis, porque são os dos “nossos servos”, os do regime de Zelenski.

O que está a acontecer na Ucrânia já não é, se alguma vez foi, uma guerra entre russos e ucranianos, como pretendem os manipuladores de opiniões que nós, os clientes da sua informação, acreditemos, mas um confronto maior entre a Grande Rússia e a aliança EUA/NATO .

Infelizmente, em minha opinião, não existe hoje nenhum escritor ou jornalista ocidental que ouse sair das verdades oficiais: uma invasão da pacífica Ucrânia, súbita, sem causa nem razão da Rússia e a defesa tenaz de um regime democrático, de liberdade e respeito pelos direitos humanos chefiado pelo heroico Zelenski!

Não haverá um Curzio Malaparte que escreva um Kaputt desta guerra para expor as raízes do Mal.

Hoje Curzio Malaparte seria acusado hoje de comunista, agente da KGB e, no mínimo, de contaminado pelas ideias de Marx e Lenin. Seria nazi, putinista, ou comunista. Palavras vazias hoje usadas para desqualificar quem não defenda que a Ucrânia de Zelenski deve ser livre de servir de base nuclear contra a Rússia, de eliminar as minorias russas e de os seus oligarcas substituírem os oligarcas russos e fazerem os negócios com os oligarcas americanos.

Acreditei que relendo Kaputt poderia compreender o intencional caos que foi promovido no Leste europeu, apesar de o mundo ser outro. Análises e diatribes proliferam nas redes sociais, alimentadas pela volumosa e desproporcional cobertura dos jornais e Tvs, que ampliam e distorcem os fatos de acordo com a verdade oficial. Sabemos que a primeira-dama Olena Zelenska ofereceu um chá a Ursula Van Den Leyen após esta ter visitado os massacres de Bucha., mas não sabemos quem provocou o massacre de Bucha, nem se ele ocorreu, nem em que circunstâncias.

A cobertura dos jornalistas de hoje, funcionários das máquinas de produção ideológica, tornou-se cansativamente alarmista, provinciana e tendenciosa. Tudo são «Breaking News». Em Portugal recebemos formatação da CNN de Queluz e da Sky News de Paço de Arcos. Os novos Curzio Malaparte indígenas são o Milhazes e o Rogeiro, o Portas, uns e umas doutorados/as avulso!

A informação é naturalmente tendenciosa, dentro do padrão estabelecido desde a guerra fria que dividiu o planeta numa parte ocidental, cristã e democrática, agora com a cooptação da Ucrânia e numa parte oriental, formada por países comunistas, ateus e ditatoriais, onde se encontra a Rússia, e China. Bons e Maus.

Em Kaputt há o desfile de um verdadeiro museu de horrores, mas Curzio Malaparte não só testemunhou os escombros e os destroços, “com nuvens de moscas gordas e preguiçosas, de asas douradas, zunindo sobre cadáveres e ruínas”, ele seguiu os tanques através da Polônia, Romênia, Finlândia, Alemanha, a antiga Iugoslávia, Rússia e Ucrânia e assistiu às execuções. Estas não lhe foram apresentadas com os mortos já prontos a serem fotografados.

Quando Malaparte se encontrava na Ucrânia assistiu a uma execução de prisioneiros pelos soldados alemães. Descreveu-a: «Quando os Judeus começaram a rarear, começaram a enforcar os camponeses. Penduravam-nos pelo pescoço ou pelos pés nos ramos das árvores, nas pracetas das aldeias, em redor do pedestal vazio onde, alguns dias antes, se elevava a estátua de gesso de Lenine ou de Estaline, penduravam-nos ao lado dos corpos dos judeus desbotados pela chuva, os quais oscilavam no céu negro há dias e dias, perto dos cães dos judeus pendurados no mesmo ramo dos donos. — Ah, cães judeus! Die judischen Hunde! — diziam, ao passar, os soldados alemães.» (p.255)

«Em seguida voltou-se para o grupo da direita, o dos aprovados, olhando para os camaradas com ar trocista, voltou a contá-los rapidamente, disse “trinta e um”, fez sinal com a mão ao pelotão de SS que esperava ao fundo do pátio e depois ordenou: — Meia volta, em frente, marche! — Os prisioneiros deram meia volta e puseram-se em marcha batendo com os pés na lama: quando ficaram de face voltada para o muro de vedação do pátio, o Feldwebel ordenou: — Halt! — E, voltando-se para os SS, mandou: Fogo!»

A atmosfera carregada de atrocidades, sangue e morte acompanha passo a passo o leitor. Diferente do que ocorre hoje nas ruas das cidades ucranianas invadidas pelos russos, onde os dirigentes ucranianos, após as retiradas, servem os massacres já prontos a serem filmados aos jornalistas amigos.

Curzio Malaparte transitou entre as tropas germânicas e russas, cobriu batalhas, frequentou salões burgueses onde oficiais nazis, diplomatas e altos funcionários se embebedavam juntos com colaboracionistas, na comemoração das suas vitórias. Passou por cidades e vilas arrasadas, presenciou a fome, o terror e a degradação da população. O seu biógrafo definiu-o como um “anarquista de direita, ou anarco-fascista”. Podia ser qualquer coisa, menos um homem de esquerda, mas deixou a lição da dúvida sobre as realidades montadas na guerra e não se resignou a ser um mero propagandista de uma das partes.

Esta guerra não terá como memória o seu Kaputt. Talvez um videojogo com a vitória garantida do vendedor da consola.


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Ética e guerra

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 09/04/2022)

Mudam-se os tempos mudam-se as bondades da UE — O sócio Zelenski vem atrasado

A presidente da Comissão Europeia foi de Bruxelas a Kiev entregar uma proposta de sócio da União Europeia ao regime da Ucrânia representado por Zelenski. Vem atrasado, segundo se conclui.

Há cerca de dois meses a União Europeia ameaçava de expulsão dois Estados, a Hungria e a Polónia, por não cumprirem os critérios mínimos de transparência económica, independência do poder judicial, corrupção, perseguição de minorias.

A hipótese da Ucrânia cumprir os critérios de adesão motivava há dois meses risada geral na União Europeia, de tal modo o regime da oligarquia local estava muitos furos abaixo deles, com violência sobre minorias, desrespeito pelos valores elementares de um Estado de Direito.

Há dois meses a Ucrânia de Zelenski era um Estado mais mafioso do que a Polónia e a Hungria e do que os Estados Bálticos. Um Estado na categoria de iliberal, em que uma democracia formal justificava o poder de uma minoria oligarca. Era uma Rússia em ponto mais pequeno.

Ocorre a invasão russa e por milagre, e desfaçatez, tudo muda em Bruxelas. A Ucrânia, que se dispunha a servir de base americana junto à fronteira russa e a eliminar as populações de origem russa no Leste, para facilitar a instalação de meios de ameaça ao vizinho, passa a ser o nec plus ultra da democracia, da transparência, as suas forças armadas dominadas por forças paramilitares de cariz nazi (o dito Batalhão Azov) passam a ser heroicas defensoras da democracia e do Direito! Zelenski celebra missas em todos os parlamentos, da ONU à Austrália. Falará, em breve, presumo, no Speaker’s Corner, no Hyde Park de Londres, ao lado desse exemplar de senso e respeitabilidade que é Boris Johnson. Irá a um party em Downing Street! Porventura comprará o iate do Abramovitch (a quem a UE atribuiu uma nacionalidade, através do governo português)!

Com a invasão, a Polónia, uma teocracia reacionária gerida por um gnomo antidemocrático — iliberal como se designam agora os neofascistas — passa a ser milagrosamente um exemplo, porque acolhe refugiados, recebe os gigantescos fundos da União Europeia (os nossos impostos) e autoriza bases americanas, logísticas e operacionais para atacar a Rússia, incluindo bases de misseis balísticos com ogivas nucleares! Um aliado abençoado!

Ao lado da Polónia, um regime igualmente oligarca e corrupto, o de Orbán, na Hungria, que fez outra análise dos seus interesses, concluindo (para já) pela conveniência de não se meter debaixo do guarda-chuva americano (aumentando o seu valor no mercado das alianças, porventura) e de lhe servir de albergue, passou a ser execrável, anti-democrata, putinista. Pelo menos por enquanto.

Estamos assim conversados quanto à seriedade política da União Europeia, quanto à invocação da ética e dos princípios por parte dos dirigentes da UE. Gente que disfarça o mau cheiro com desodorizantes!

Há muitas pessoas respeitáveis que defendem esta utilização da ética em Roll-on ou em spray e dos princípios à la carte, segundo as conveniências. Uma ética tipo concertina que estica e encolhe!

Acompanho-os nesse pragmatismo, devedor de Kant, para quem a ética é uma disciplina ligada a um uso prático da razão, isto é, voltada para a ação e para a obtenção de vantagens, que ele designou como o “viver bem”.

Todos pretendem viver bem. O problema é que todos vivemos em conflito com os interesses dos outros. Para alguns, como eu, a paz resulta da conveniência de não fazer a guerra. Para outros, mais decididos, a guerra é um jogo de tudo ou nada: obriga-se o inimigo a jogar todo o seu dinheiro (encavar, no póquer) e aguarda-se que o resultado seja vitorioso. Vitória ou morte!

O pensamento de Kant é, aliás, o orientador dos belicistas que defendem que à invasão da Rússia se reponde acentuando o confronto, aumentando a violência, elevando os patamares de destruição, alimentando as capacidades destruidoras das armas até a um conflito final, que hipocritamente nunca referem como sendo a defesa de utilização de armas decisivas, nucleares. Kant contestou o pensamento de Platão e de Aristóteles, que assentaram as bases do pensamento ético na busca da razoabilidade das ações morais e na sua inteligibilidade. Está na moda.

Estamos hoje no mundo dos defensores dos princípios da ética assentes na emoção que esconde, ou serve o interesse de alguém. Numa situação típica das religiões, que transformaram a ética em fé, e das igrejas, em que a bondade e os princípios dos fiéis servem os interesses dos sacerdotes e das cúrias. As cruzadas são um exemplo deste aproveitamento da ética para fins materiais e de apropriação do poder.

Adiante-se que esta guerra está a servir para consolidar o poder da oligarquia ucraniana, que era execrada há menos de dois meses pelos “democratas humanistas” de Bruxelas! (Mudam-se os tempos…)

Pelo que se vê claramente na mudança da atitude e de julgamento da União Europeia relativamente ao regime ucraniano após 24 de Fevereiro de 2022, não existe para sua defesa nenhum argumento de ordem moral — defesa do Bem, pois o regime não mudou de essência nem de tripulação — nem nenhuma inteligibilidade, a não ser a do seguidismo da estratégia dos Estados Unidos.

Não se tendo alterado a natureza do regime de Kiev, porque não recebeu a UE Zelenski em Bruxelas logo após a passagem do ano, evitando estes incómodos e emoções à senhora Van Der Leyen e ao senhor Borrel?

A invocação da virtude como valor ético (Tomás de Aquino) não faz qualquer sentido nesta disputa entre os belicistas invocadores do princípio de que, sendo a sua guerra (a da Ucrânia e Estados Unidos) uma guerra justa, ela deve ser travada a todo o custo, até à vitória final, a destruição do inimigo; e os que entendem que, não havendo guerras justas, nem razões absolutas, todos os poderes exteriores deviam contribuir para uma paz que evitasse ou prevenisse a continuação da barbárie.

Ou é esta continuação de realidades exploradas à exaustão e com claros intuitos de servirem de alimento à guerra o que pretendem?


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E o mundo transforma-se, apesar do militarismo

(José Goulão, in AbrilAbril, 07/04/2022)

A realidade do mundo está a mudar e a unipolaridade assente numa mentalidade de subjugação colonial e imperial – em vez de cooperação multilateral com vantagens mútuas – perde terreno a olhos vistos.


O que era esperado confirma-se, porém a uma velocidade que começa a ser surpreendente. A ordem mundial unipolar nascida há 30 anos com o fim da guerra fria está a esvair-se na sequência da recente agudização da situação criada em 2014 na Ucrânia; com a particularidade insólita de isso acontecer devido ao comportamento errático e até desesperado dos seus principais agentes, neste caso a administração Biden nos Estados Unidos e os actuais dirigentes da União Europeia.

Para quem esteja particularmente atento ao mundo que existe para além da tragédia da Ucrânia, mesmo que em correlação com esta, não há dúvidas de que começa a afirmar-se uma nova ordem internacional, de carácter multipolar, melhor dizendo multilateral, na qual 13% do mundo vai deixar de mandar em 87% e os acontecimentos internacionais não estarão mais à mercê dos interesses, das arbitrariedades, das punições e da extorsão praticadas por um único país com uma série de satélites em órbita.

É o fim da chamada «ordem internacional baseada em regras» – ditadas estas em Washington para se sobreporem ao direito internacional e à Carta das Nações Unidas; e também do globalismo, o sistema de mundialização das actividades do planeta no interesse dos grandes conglomerados económicos, financeiros e tecnológicos que não reconhecem fronteiras e não respeitam o ser humano, transformado cada vez mais num instrumento robotizado e vigiado ao seu serviço.

Esta viragem, já previsível segundo tendências que se vinham afirmando de maneira um pouco dispersa e desintegrada, acelerou-se e organiza-se agora, paradoxalmente, em consequência das próprias respostas dos poderes dominantes à operação militar lançada pela Rússia na Ucrânia. As sanções impostas a Moscovo quase em exclusivo pelos Estados Unidos e a União Europeia têm retornos de que se desconhece ainda a amplitude dos resultados, embora as consequências comecem a notar-se de maneira muito pesada, sobretudo para os estratos mais desfavorecidos das populações; e como a precipitação no lançamento de cada vez mais sanções reflecte uma insanidade e um afã propagandístico próprios de dirigentes desligados da vida real e dos interesses dos seus povos, abundam os sinais de que isto vai correr muito mal para o chamado «mundo ocidental».

Acresce que só agora começaram a definir-se algumas das respostas russas às torrentes de sanções impostas de modo avulso, ditadas em grande parte pelas necessidades de uma asfixiante propaganda de guerra. As acções de Moscovo irão doer no imediato, mas não representam o essencial das transformações que já estão em curso. Essas não envolvem somente a Rússia e irão definir um princípio de realinhamento totalmente novo das relações internacionais e do modo como funcionam. Trata-se de perspectivas a médio e longo prazo que, envolvendo a esmagadora maioria da população mundial, irá deslocar inelutavelmente o fiel da economia e do desenvolvimento do Ocidente para Oriente.

Não estamos perante um conflito de ideologias, um confronto entre «democracia» e «autoritarismo» – conhecemos muito bem como o mundo «civilizado» leva a democracia até aos domínios dos gentios bárbaros – um frente-a-frente entre bons e maus. Nada disso conta, são apenas artifícios para alimentar uma narrativa que pouco tem a ver com a realidade. O problema ocidental, nos Estados Unidos mas, sobretudo, na União Europeia, é a tendência para os dirigentes acreditarem nas próprias versões artificiais que fabricaram para manterem os seus súbditos em estado catatónico.

As realidades irão destruir a ficção, mas não é certo que isso chegue até às populações incautas, as que frequentam apenas os meios de informação corporativos, nos quais se incluem os que se diz terem estatutos «públicos». A historieta ridícula de que as tropas ucranianas expulsaram as russas do cordão em redor de Kiev quando se tratou de uma manobra de guerra que deixa a elite militar ucraniana num cerco sem saída no Leste do país, é um exemplo de como a propaganda espezinha completamente os relatos factuais e o direito de cada cidadão à informação.

Mitterrand e o definhamento europeu

François Mitterrand, presidente socialista francês entre 1981 e 1985, pronunciou as seguintes palavras pouco antes de falecer, em 1996:

«A França não sabe mas está em guerra com a América. Uma guerra económica permanente, vital e apenas aparentemente sem vítimas. Sim, os americanos são inexoráveis, são vorazes, querem o poder indiviso sobre o mundo (…) É uma guerra desconhecida, uma guerra permanente, uma guerra sem mortes aparentes e também uma guerra até à morte».

Vamos acreditar que Mitterrand sabia do que falava, a sua vida foi passada nos círculos mais elevados da vida política e militar europeia e mundial. E na altura em que traçou este quadro já existia a União Europeia, constituída segundo o modelo da «ordem internacional baseada em regras», uma expressão do poder neoliberal transnacional e da sua cartilha instaladora, o Consenso de Washington de 1989.

Nesses anos afirmava-se em Washington a chamada «doutrina Wolfowitz», elaborada pelo secretário adjunto da Defesa Paul Wolfowitz e segundo a qual os Estados Unidos não deveriam permitir a ascensão de qualquer outra potência até se tornar um rival. Na ausência da União Soviética, com a Rússia entregue ao colaboracionista Ieltsin e a China ainda longe do seu poder actual, a mensagem do dirigente norte-americano tinha como alvo os «aliados» da União Europeia.

Não havia, afinal, razão para preocupações por esse lado. A União Europeia sempre funcionou como um instrumento dócil do poder norte-americano, mas sem chegar nunca ao ponto de seguidismo humilhante em que se encontra.

Nos dias que correm os países da União Europeia têm necessidade de mostrar a Washington que são ainda mais capazes de impor sanções à Rússia nem que se apaguem completamente como nações soberanas e deixem de ter interesses próprios.

Este rincão domesticado e carente de dignidade que se chama Portugal decidiu num ápice expulsar diplomatas russos não se interrogando sequer sobre as contradições que põem flagrantemente em causa a autenticidade do chamado «massacre de Bucha», pelo menos na versão exposta pelas autoridades nazis ucranianas. O próprio Pentágono, sendo o que é, declarou à agência Reuters que não se sente em condições de confirmar ou desmentir, de forma independente, a versão ucraniana sobre o que supostamente se passou naquela localidade próxima de Kiev.

Sabemos que o «massacre de Timisoara» na Roménia foi uma encenação, mas continua a ser o «massacre de Timisoara». O mesmo aconteceu com o «massacre de Srebrenica», na Bósnia-Herzegovina, o que não o impede de continuar a ser citado como uma realidade histórica. Ou com o «massacre de Racak», no Kosovo, uma falsidade que serviu de pretexto para quase 80 dias de bombardeamento da NATO contra a Jugoslávia. Ignora-se a verdade sobre o suposto «massacre de Bucha» mas os governos da União Europeia já sabem tudo sem ter investigado nada, dando crédito automático à propaganda nazi de Kiev elaborada por aproximadamente 150 agências de comunicação transnacionais pagas a peso de ouro. É o nível zero da credibilidade, da seriedade, da soberania, daquilo a que gostam de chamar «governança».

O guião tem pelo menos três anos

Apesar de tudo, a União Europeia tinha a obrigação de estar bem preparada para reagir à invasão russa da Ucrânia de uma maneira que não sacrificasse as populações. Bastava que um burocrata bem colocado na hierarquia da Comissão tivesse lido o relatório «Overextending and Unbalancing Russia», elaborado em 2019 pela Rand Corporation, o mais influente think tank de Washington, juntamente com o Conselho de Relações Externas, intimamente associado ao Pentágono. A Rand foi fundada ainda em 1946, na génese das géneses da guerra fria; do núcleo original fez parte, por exemplo, o general Curtis Le May que, no filme Doctor Strangelove de Stanley Kubrick, terá inspirado a figura do militar que no final cavalga em êxtase uma bomba atómica em direcção ao alvo uivando e agitando um chapéu de cowboy.

Nesse relatório da Rand Corporation, elaborado a partir da situação criada pelo golpe norte-americano e europeu de 2014 na Ucrânia, está escrito o guião de grande parte daquilo a que vamos assistindo.

«Os Estados Unidos devem manter uma estratégia a longo prazo para tirar proveito das vulnerabilidades da Rússia», aconselha a Rand. «A principal vulnerabilidade», acrescenta, «é a excessiva dependência da sua economia da exportação de petróleo e gás».

A três anos de distância da actual situação na Ucrânia, a Rand recomendava um aumento do peso das sanções contra a Rússia para redução das receitas do país e aumentar as exportações energéticas dos Estados Unidos; armar a Ucrânia de modo a explorar o ponto de maior vulnerabilidade externa de Moscovo; encorajar a instabilidade interna e desacreditar a imagem da Rússia excluindo o país da organização de reuniões internacionais e boicotando a participação em acontecimentos desportivos. Conhecemos isto de qualquer lado.

Apesar de se tratar de um pequeno resumo do relatório conspirativo é inegável que temos vindo a assistir à execução desse roteiro, pelo que não é difícil retirar a conclusão de que as sanções seriam aplicadas houvesse ou não acção militar directa russa em território ucraniano.

Funciona assim a ordem internacional baseada em regras, percebendo-se também que o mote de cercar a Rússia e explorar as suas vulnerabilidades respeita cem por cento a doutrina Wolfowitz de evitar o aparecimento de outra potência capaz de rivalizar com os Estados Unidos. Fácil será concluir ainda que, como já abundam os indícios, a ofensiva seguinte, eventualmente ainda simultânea, será contra a China.

Trata-se, olhando para o comportamento ocidental imposto pela administração Biden, de tentar a todo o custo evitar a emergência de uma ordem internacional diferente, multilateral e que não deixe todos os Estados do mundo à mercê dos mecanismos imperiais vigentes. Daí o desespero assinalável em Washington e capitais satélites perante as dificuldades encontradas na aplicação permanente da sua estratégia monolítica, realidade que transparece do teor intimidatório e simultaneamente irracional da campanha de propaganda e de lavagem cerebral de que somos vítimas.

E no entanto ela avança

Consultando o relatório da Rand Corporation confirma-se que o agravamento das sanções contra a Rússia, realidade que presenciamos agora, está em agenda há mais de três anos.

Pelo que é surpreendente o carácter errático e autodestrutivo do tipo de punições assumido principalmente pela União Europeia – que teve tempo para se preparar sem sofrer tantos danos. É certo que, segundo a ordem internacional baseada em regras, vale tudo para quem as estipula, incluindo a extorsão, uma espécie de gestão dos assuntos internacionais através da cleptomania. Ao «congelamento» – mais um eufemismo coxo para roubo – das reservas cambiais do Afeganistão sucede-se agora o da Rússia, na ordem dos 300 mil milhões de dólares, somando-se ao sequestro do ouro e das contas bancárias da Venezuela. Uma pequena nota para registar que o governo português se associa a estes assaltos ilegais de bens alheios, arrastando o povo para as eventuais consequência das reacções dos atingidos. A impunidade ocidental começa a sofrer os seus rombos e para os quais o único antídoto existente parece ser o recurso às armas nucleares. Nesse caso não haverá espaço para qualquer nova ordem internacional, nova ou velha, porque não sobrará ninguém para a estabelecer.

Não há agora quaisquer dúvidas de que as sanções ocidentais funcionam como pau de dois bicos para quem as impõe, mesmo antes de a Rússia recorrer, longe disso, a todo o arsenal das suas disponibilidades.

Retirando questões pontuais, como a exigência dos pagamentos do fornecimento de gás natural através de contas abertas em bancos da Rússia – uma vez que as contas em bancos ocidentais são alvos de extorsão – Moscovo tem reagido privilegiando objectivos mais amplos e integrados, acelerando formas de cooperação viradas para o Oriente, desde o Médio ao Extremo, confirmando-se que volta cada vez mais as costas à Europa. O que não joga a favor da Europa, carente de recursos naturais, energéticos, alimentares e tecnológicos.

São conhecidas as formas de integração de índole euroasiática como a União Económica da Eurásia, a Organização de Cooperação de Xangai, a Iniciativa Cintura e Estrada ou Nova Rota da Seda, de origem chinesa mas que toca cerca de 150 países e abre novas vias de comunicação e cooperação entre quase todos os continentes; e também a recente Parceria Económica Regional Ampla (RCEP), a maior associação mundial de comércio livre integrando os 15 principais países asiáticos, designadamente China, Japão e Coreia do Sul. Todas estas entidades – a RCEP em menor grau – têm vindo a integrar-se entre si de maneira cada vez mais operativa com base num eixo formado pela Rússia, Irão e China integrando várias ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central e que envolve ainda, em variados sectores e de maneira cada vez mais dinâmica, países como a Índia, o Paquistão e o Afeganistão.

Em alguns casos a cooperação estende-se igualmente a áreas militares, além do caso do eixo Rússia, China e Irão, já bastante activo. Tropas russas e paquistanesas fizeram recentemente os seus primeiros exercícios militares conjuntos, que praticamente coincidiram com uma tentativa de golpe de Estado de origem norte-americana em Islamabad, bastante idêntico ao ocorrido há poucos anos no Paraguai: compra de deputados para alterar a maioria presidencial e governamental. A tentativa falhou, tal como a «revolução colorida» recentemente tentada no Casaquistão, mas ambos os casos revelam o tipo de resistência da ordem imperial aos movimentos na Eurásia.

Apear disso, todas estas realidades bem dinâmicas são ainda muito ignoradas ou desvalorizadas no Ocidente tanto ao nível dos governos como da grande comunicação corporativa, incapazes de perceber que o centro do mundo está a deslocar-se num movimento que toca muito mais de metade da população global – a mais jovem, criativa, com níveis de formação a evoluir de maneira vertiginosa em territórios onde existe a esmagadora maioria dos recursos naturais e dotados de um desenvolvimento tecnológico de vanguarda.

O dólar é que sofre

A par da situação na Ucrânia e do agravamento de sanções à Rússia, que se estendem já à China por não aderir à vaga punitiva para «obrigar Moscovo a sentir os seus efeitos», há iniciativas de cooperação que estão a evoluir rapidamente e das quais a principal vítima será o poder mundial do dólar.

Uma acção que afectará, como poucas, o domínio mundial dos Estados Unidos, que mantêm as suas reservas monetárias internacionais na forma de Títulos do Tesouro norte-americanos.

Abundam as opiniões e os artigos divulgados nos Estados Unidos segundo os quais, paradoxalmente, Washington tem contribuído para a erosão do domínio do dólar devido ao afã de lançar sanções internacionais em todas as direcções que estão a revelar-se cada vez mais contraproducentes. Isto é, instigando a procura de vias alternativas.

Durante as últimas semanas surgiram notícias de que a China e a Arábia Saudita, o maior produtor mundial de petróleo, passam a desenvolver as suas transacções energéticas em yuan, a moeda chinesa. Adeus petrodólar numa das operações petrolíferas de maior volume em todo o mundo. A China e a Rússia continuam a afinar o funcionamento mútuo dos sectores financeiros, energético e de comércio segundo um sistema integrando as duas moedas nacionais, além do aperfeiçoamento de mecanismos próprios de mensagens financeiras para contornar as sanções sobre a utilização do Swift. A Rússia e a Índia vão utilizar apenas rublos e rupias nos seus negócios mútuos, que incluem a aquisição por Nova Delhi de uma das mais recentes gerações de sistemas russos de defesa antiaérea.

Dentro de pouco tempo será divulgado o relatório em elaboração por uma comissão euroasiática sobre a eventual criação de uma nova moeda internacional baseada em produtos tangíveis, ao contrário do dólar. Assentará na média ponderada de uma cesta de moedas nacionais adicionada de cotações em bolsa de vários recursos (commodities): ouro, petróleo, metais, trigo e água e funcionará também em sistema de blockchain digital.

A comissão é dirigida por Serguei Glazyev, ex-ministro das Finanças russo – afastado por Putin por não ser neoliberal – e os resultados do seu funcionamento podem abrir as portas a uma nova ordem económica internacional, segundo peritos internacionais independentes. Zoltan Pozsar, ex-membro da Reserva Federal (FED) de Nova York, consultor do Tesouro dos Estados Unidos e estratego do Crédit Suisse, divulgou um relatório de investigação segundo o qual «o mundo está a caminhar para um sistema monetário em que as moedas são apoiadas por commodities em vez de serem apoiadas por “confiança e crédito” num emissor soberano» – o dólar, que não é garantido por qualquer coisa tangível.

A realidade do mundo está a mudar e a unipolaridade assente numa mentalidade de subjugação colonial e imperial – em vez de cooperação multilateral com vantagens mútuas – perde terreno a olhos vistos apostando ainda e sempre na militarização e no funcionamento de medidas punitivas nas relações entre países.

A União Europeia já demonstrou – e o mais recente comportamento é penoso – que não consegue desligar-se de uma fantasiosa superioridade moral, civilizacional e cultural, reflectida em relacionamentos internacionais de índole colonial atrelados de maneira humilhante ao poder imperial, às «regras» da ordem imposta por Washington com desprezo absoluto pelo Direito Internacional. Não importa que os «americanos sejam inexoráveis e vorazes», capazes de «estar em guerra até à morte» com os próprios países europeus, como advertiu Mitterrand apenas há um quarto de século. Washington continua a ser o farol condutor da União Europeia para o que der e vier.

Ao invés, os partidários de uma nova ordem, as potências emergentes, afirmam defender o primado do Direito Internacional e a cooperação genuína, mutuamente vantajosa, entre Estados iguais e soberanos. São palavras, é certo, mas há factos que já podem ser avaliados no terreno. Nada disto tem a ver, repete-se, com ideologias, direitos humanos, democracia ou autoritarismo. Prevalecem essencialmente os interesses próprios a altos níveis em todo o mundo; no entanto, devido a uma maior concorrência, o que parece estar no horizonte é a criação de mecanismos e condições para uma distribuição mais equitativa dos recursos planetários eventualmente com maior benefício de grandes massas de populações até agora desprezadas. E também, por força das circunstâncias, um espaço mais restringido para o funcionamento da anarquia neoliberal, o que já não seria pouco.

Quer isto dizer que o Grande Reinício (Great Reset), a mirabolante manobra de reforço do neoliberalismo programada pelos oligarcas e os grandes conglomerados transnacionais através do Fórum Económico Mundial (de Davos), perde peso uma vez que potências emergentes como a China e a Rússia, até agora participantes activos, tendem a desligar-se devido às circunstâncias punitivas e discriminatórias decorrentes principalmente da situação na Ucrânia. Talvez os senhores de Davos encontrem agora concorrência num outro grande reinício noutras latitudes.

A União Europeia, envolvida de maneira descontrolada e autodestrutiva numa estratégia de mais guerra e aniquilação na Ucrânia, inclusivamente no apoio às manobras norte-americanas para impedir o regime de Kiev de aceitar uma solução pacífica, abdicou de uma existência autónoma com espaço e ideias próprias.

De Bruxelas não se ouve uma palavra de paz, de incentivo ao silenciamento das armas e ao primado das negociações por uma saída honrosa capaz de conter a tragédia ucraniana. A deriva de guerra entranhou-se em todas as instituições europeias, permeáveis como nunca ao militarismo, às soluções punitivas e violentas, seja qual for o preço a pagar pelos povos europeus em consequência dessas opções. A União Europeia aceitou transformar-se num órgão político sem poder dentro da NATO, organização que oferece o continente como refém de uma estratégia de continuação da guerra, pelos vistos até às últimas consequências, tão imprevisíveis que nela parece caber a própria tentação nuclear. Sem que os dirigentes dêem indícios de se conter nessa irresponsável caminhada para o abismo.

Opondo-se desesperadamente a uma ordem mundial multilateral, alheando-se das transformações dinâmicas em curso do outro lado da grande massa continental euroasiática, a União Europeia condena-se ao definhamento enredada em sanções, no controlo das mentes e opiniões dos cidadãos, na gestão austeritária e crescentemente autoritária sobre os povos.

Ao serviço dos interesses oligárquicos globalistas, condenada a ser uma península da Eurásia à mercê dos americanos «inexoráveis e vorazes» e vivendo das memórias de uma grandeza assente em práticas bem pouco recomendáveis. A que chamou «civilização».

Dir-se-á que é o princípio do fim. O que não seria má ideia.


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