A minha primeira análise das Eleições Autárquicas 2021

(Fernando Rodrigues, 27/09/2021)

O PS continua a ser o maior partido autárquico com grande distância para os outros todos, no entanto…. Teve derrotas importantes contra algumas coligações, que servem de alerta para o que se vai seguir a nível nacional e que talvez sirvam para o PS descer à terra e colocar de lado um dos seus grandes defeitos: a arrogância quando pensa que tem o poder absoluto. E isso é bom para o País.

PSD só ganhou algumas poucas Câmaras porque concorreu coligado com outras forças Políticas, exemplos concretos Lisboa e Coimbra onde muito dificilmente ganharia ou não ganharia mesmo se estivesse sozinho na corrida e mais ainda …. Por exemplo em Lisboa maioria dos eleitos não é dessa coligação, PSD 7, PS 7, CDU 2, BE 1, por isso cuidadinho com essas análises senhores pseudo jornalistas e pseudo especialistas comentadores da treta, quem ganhou as Eleições em Lisboa e Coimbra não foi um Partido, foi uma Coligação de vários partidos.

De salientar ainda e com grande destaque a estrondosa e enorme derrota da coligação PSD na Amadora, uma das maiores derrotas senão a maior da direita e da Extrema Direita, no País (pois a candidata tem muito que ver com extrema Direita, esta também uma grande derrota para o Chega).

CDU que teve um bom resultado em Lisboa e isso é importante, perdeu algumas Câmaras e não conquistou outras que tinha como objetivo conquistar, no global foi um mau resultado.

O BE teve um bom resultado no Porto, conseguindo tirar a maioria à coligação de Direita Liberal de Rui Moreira disfarçado de Independente o que é um feito assinalável e manteve o vereador em Lisboa, aumentando o número de votos. Continua o seu caminho de implementação a nível local em termos nacionais que já devia ser mais elevada. Resumindo no global um mau resultado.

Listas pseudo independentes: um bom resultado global, ganhando algumas Câmaras.

IL/chega/CDS. O IL conseguiu ganhar a batalha de influência nos votantes do PSD/CDS e abstencionistas substituindo o CDS, que só continua a existir porque interessa ao PSD que exista. IL o vencedor da luta fratricida entre os 3 pequenos e micro partidos de Direita e Extrema-direita.

André Ventura e o Chega tiveram algumas derrotas importantes. Não conseguiu ganhar Moura, uma grande derrota para André Ventura sem dúvida. Não conseguiu outro grande objetivo – captar em força os abstencionistas; não consegui outro objetivo – eleger 2 vereadores em Lisboa. Não teve grandes resultados em lugar nenhum. Não conseguiu ficar em terceiro a nível nacional, ficando em sexto lugar e teve resultados fraquíssimos noutros.

Resumindo a primeira grande derrota de André Ventura e do Chega. Outras se seguirão.


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Diálogo sobre o dia em que não se pode dizer

(José Pacheco Pereira, in Público, 25/09/2021)

Pacheco Pereira

Simplício, Sagredo e Salviati encontram-se junto ao rio. Está escuro, está de tempestade.

Sagredo – Já é tempo.

Salviati – Os rios são mais bonitos em dias de tempestade. O sol desmerece-os. A água fica melhor com a água. Os gregos sabiam disso. O de Éfeso gostava das correntes, dos caudais. Os de Eleia, não.

Sagredo – Sim, é melhor falarmos sobre as águas, porque hoje não se pode falar de mais nada.

Simplício – Eu acho bem. É preciso ordem, silêncio, dar descanso à exaltação.

Salviati – Mas qual exaltação? Não há, nunca houve nestes dias qualquer espécie de exaltação…

Sagredo – … nas ruas sim, esteve tudo sem ânimo. Mas nas rádios, jornais, televisões havia muita excitação…

Salviati – … por surtos. Faz parte da função, sem excitação, nada se vende.

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Simplício – Para mim está bem, paz nas ruas, ruído nas telas, nos papéis, nas ondas. O mundo assim fica bem ordenado. Hoje há paz por todo o lado. É um mau dia para os excitados.

Salviati – Bom, a coisa não é perfeita. Sempre temos as figuras de retórica para obscurecer o discurso e podermos falar do que não podemos falar. Por exemplo, como se vê, usar o paradoxo.

Sagredo – Poder, podes. Mas nestes meses tens boa companhia. Hipérboles há muitas. Amanhã “o sistema vai tremer”…

Simplício – … por causa do vulcão espanhol? Não chega cá.

Sagredo – Chega, chega.

Simplício – Não podes usar essa palavra.

Sagredo – Uso outra. Escorre para cá. Vem do Vox. Para falar da lava é um pouco um disfemismo, tratar uma coisa poderosa como sendo uma escorrência do domínio dos pântanos e dos esgotos.

Salviati – Eu gosto de vulcões, mas vocês estão a falar da Solfatara, e o vulcão espanhol não é dessa categoria.

Sagredo – Vulcões há muitos, fiquemos pois com os de cá. Fora dos Açores, só enxofre e águas minerais. Afinal falar de águas ajuda a não falarmos do que interessa.

Simplício – Não percebo nada.

Sagredo – Amanhã vai haver quem vá pagar o preço de usar só metáforas mortas, porque está com uma linguagem cansada, quase só metonímias. Na verdade, eles falam e nós nem abrimos as orelhas para ouvir.

Simplício – E eles não dão por ela?

Salviati – Não sei. Isto das orelhas é uma alegoria, mas se calhar nem eles mesmos ouvem, recitam. Nem é tanto pela razão do que dizem. É uma espécie de encantação para os fiéis e como cada vez há menos fiéis, menos resultados tem. A “lei da vida”, como um deles dizia há uns anos, acaba por fazer muitos estragos.

Simplício – Quando se desce, todos batem.

Sagredo – E os vivíssimos, que estão a substituir os ex-vivíssimos? Os do Adam Smith, que agora andam todos de ténis, saltam muito e fazem startups?

Salviati – O mestre deles disse: “Vindo da Cidade do Cepticismo, tive de passar pelo Vale da Ambiguidade.” Viram a entronização de Jaime Neves entre os heróis da Liberdade? Eles estão no Vale da Ambiguidade, mas faz-lhes falta a Cidade do Cepticismo.

Simplício – E os ex-vivíssimos? Estão um pouco para o triste, parece-me.

Sagredo – Tens razão, depois de se passar os 15 minutos da fama, o mundo deve parecer cinzento e nem a estrelinha brilha.

Salviati – A maldição das metáforas mortas também já chegou lá.

Sagredo – E os grandes como estão?

Simplício – Até eu, que sou o mais reaccionário e formalista de todos nós, percebo que estão mal…

Sagredo – … mas com males de diferente natureza. Um sofre do mal das grandezas, o outro da escassez de bens. Um tem demasiados “amigos” para alimentar, o outro tem demasiados abutres à espera do corpo.

Salviati – O mal das grandezas gera quedas maiores. A gravidade é uma fdp…

Simplício – Não podes dizer asneiras num jornal sério. Só se fores artista ou escritor de vanguarda e só no Ipsilon.

Salviati – Mas é mesmo. Os que sobem tem tendência para não perceberem que quanto mais alto estão, maior é a queda. E quase sempre caem ou por soberba ou por criarem mais problemas do que os que podem resolver. O dinheiro é bom tê-lo, serve para muita coisa, mas nunca é unívoco. Tem sempre um preço.

Sagredo – E estar atrás de uma bazuca queima. Os gases da propulsão do projéctil matam.

Simplício – E o outro?

Salviati – O outro é vítima de si próprio em muita coisa, mas é difícil andar na rua e ter uma árvore cheias de abutres a passear atrás dele…

Simplício – … as árvores não andam…

Salviati –… isso é o que tu pensas, homem simples. Andam, andam, com o combustível apropriado e esse combustível não falta.

Sagredo – “Sarcasmo”, diria Sheldon Cooper.

Salviati – Vê lá como estamos, começamos com os gregos a acabamos no Big Bang.  O mundo já não é o que era…

Historiador


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A iconografia política

(António Guerreiro, in Público, 24/09/2021)

António Guerreiro

Quem, por estes dias, circulou um pouco pelo país e observou os cartazes da campanha para as eleições autárquicas terá certamente reparado que as “visibilidades políticas”, como se diz num jargão a imitar a linguagem dos conceitos, são pouco estimulantes e, muitas vezes, até suscitam alguma repulsa de ordem estética que contamina a ressonância que tem em nós a política, na sua dimensão mais imediata e pragmática. De um modo geral, os cartazes são graficamente desastrosos, as fotografias dos candidatos são autênticos “cromos” e as formações discursivas que os acompanham raramente são mais elaboradas.

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Quem for dado ao cinismo e à caricatura tem aqui material abundante para se entreter e regozijar. No entanto, sabemos bem que as exigências estéticas não têm nada de democrático e não há nada mais perigoso do que a estetização da política: na sua forma totalitária, ela converge para um ideal sinistro, que é o da política como obra de arte total. A iconografia política produzida nas campanhas eleitorais, na sua indigência, até pode ser vista como um sinal do fortalecimento democrático, de uma abertura popular (não confundir com populista) do espaço político. Mas se a excessiva incidência nos critérios estéticos das imagens tende a torná-las actos fúteis (sim, a imagem é um acto) e a despolitizar a própria iconografia política, também é verdade que a política não pode prescindir, nos seus rituais, nas suas convenções e na suas práticas, de um suplemento estético. Estética a mais anula-a; ausência de investimento estético torna-a aberrante e apta a provocar repulsa.

Tornou-se um lugar-comum dizer que há uma crise da representação e que esse mal constitui actualmente o perigo maior para as democracias. Representar — não podemos esquecer — é mostrar, intensificar, redobrar uma presença. Assim definida, fica bem claro que a representação articula estreitamente acepções políticas e estéticas que não podem nunca ser totalmente dissociadas. As práticas políticas encarnam hoje, como sempre aconteceu, lutas de representação sob formas visuais singulares cuja análise requer utensílios conceptuais e metodológicos da iconografia (ou da iconologia?) política, que é uma “disciplina” que, por cá, nunca suscitou grande atenção. O arquivo da Ephemera, criado por José Pacheco Pereira, solicita essa abordagem teórica e morfológica da iconografia política, sem a qual o estudo histórico se torna um pouco cego.

Importa repetir: a imagem é um acto e, nessa medida, tem um papel activo na fábrica da política. E é evidente que a penetração das imagens na política tem hoje uma forte influência da televisão e é determinada pelo fenómeno da pessoalização. Uma e outra, a televisão e a pessoalização, são os recursos mais comuns, estereotipados, da retórica visual da democracia. Por isso é que, quando se trata de cartazes da campanha para as eleições autárquicas, que é a mais pessoalizada de todas, os sinais de identificação partidária ficam quase apagados pelas caras. A identidade gráfica não existe e os cartazes não dizem nada a não ser “aqui estou eu!”. É evidente que esta apresentação ostensiva é necessária, mas feita com a rudeza dos cartões de identidade civil adquire uma dimensão quase obscena e os cidadãos acabam por ver apenas uma guerra das caras. Sem um mínimo de densidade estética, a iconografia eleitoral é vazia, sem ressonância e sem defesas contra a caricatura fácil.

Em tempos, os partidos tinham os seus artistas ou, pelo menos, conselheiros nas questões estéticas do material gráfico. Depois, as campanhas ficaram entregues aos publicitários que, muitas vezes, até têm o condão de degradar ou mesmo aniquilar o cliente partidário que os contratou. Deu-se aí um ponto de viragem e, actualmente, até a iconografia política mais amadora parece querer imitar os cartazes dos supermercados.

Esta é a situação com que estamos confrontados. Se, como alguém famoso diagnosticou, há um mal estar na visibilidade que assombra as nossas sociedades chamada, então as “visibilidades políticas”, não apenas as que a iconografia eleitoral exibe, são uma manifestação dessa doença. E assim os cidadãos vêem cada vez mais a política com uma grande indiferença. Alienação, desencantamento, reificação, absurdo: destes nomes, que exprimiram com grande sucesso estados materiais e de espírito colectivos, algum deles serve para designar a pobreza da experiência política de onde emergem as campanhas eleitorais?



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