A dor de perder de um filho é “a maior dor do mundo”- para sempre

(Marco Paulino, in Expresso Diário, 07/12/2020)

Na noite de sábado 5 de dezembro fomos invadidos pela ideia de quão vulnerável e efémera pode ser a vida. Não é que muitos de nós já não o soubéssemos, mas existem momentos em que a vida nos abana veementemente e mostra que tudo pode mudar num minuto, num segundo. Sara Carreira, de 21 anos, filha do cantor Tony Carreira e Fernanda Antunes, morreu num acidente entre vários automóveis na A1, em Santarém, junto à saída do Cartaxo. Rapidamente, a informação se difundiu, desde os meios televisivos às redes sociais.

É certo que todos os dias morrem várias pessoas, algumas das quais da mesma idade, ou até mais novas; em condições tão ou mais trágicas do que estas. Porém, Sara Carreira é uma figura pública, filha de uma celebridade que Portugal conhece, seja porque adora, seja porque odeia. Obviamente que isto não quer dizer que por ser uma cara conhecida seja mais importante do que qualquer cidadão anónimo, sobretudo para os respetivos entes queridos.

O que este enquadramento mediático nos dá, como facilmente se percebe pelos milhares de comentários que surgiram nas redes socias, é uma noção de proximidade da pessoa que partiu, daquela família enlutada, que gera sentimentos de compaixão, de comoção. É o que em Psicologia se tem chamado relações parassociais, enquanto relações de proximidade emocional potenciadas pela exposição repetida à vida da figura pública mediante as facilidades criadas pelos media, especialmente as redes sociais como o Instagram, e que quebra a barreira entre espectador e celebridade.

Esta espécie de conexão emocional gera inevitavelmente um abalo, que pode resultar, inclusive, no que tem sido denominado luto coletivo (collective grief), também designado por “luto público” (public grief) e que diz respeito ao processo de luto que é originado pela morte de uma figura pública. Para além deste luto, existe um processo de luto a realizar pelos pais, pelos irmãos, pelos amigos mais próximos.

A este propósito, uma pesquisa sobre luto, em particular pais em luto, mostra-nos que a perda contranatura de um filho, enquanto experiência traumática, tende a ser descrita como a perda mais dolorosa que qualquer ser humano pode vivenciar. Os pais em luto descrevem o sofrimento gerado por esta perda como “a maior dor do mundo”.

É sabido que a morte de um filho envolve inúmeras outras perdas consideradas secundárias, como a perda das expectativas para o futuro, a perda do papel parental na sua forma tradicional e a perda da própria identidade. Dada a importância da parentalidade para a identidade, os pais sentem-se destruídos, enquanto figuras parentais e pessoas. Por isso, veem-se invadidos por questões várias, como “quem sou eu agora?”, ou se continuam a ser reconhecidos como pais pela sociedade, na eventualidade de se tratar de um filho único.

As principais emoções presentes neste processo de luto são a culpa e a zanga, destacando-se o vazio como a principal sensação referenciada pelos pais em luto. A crença errónea de que os pais têm a capacidade de proteger incondicionalmente os filhos potencia que sejam vivenciados sentimentos de culpa e de falha, enquanto figuras parentais. Ainda que irracionais, estes pensamentos de autorresponsabilização são comuns e geram um sofrimento atroz.

Por sua vez, a zanga é facilitada, exatamente pela sensação de impotência e de injustiça pela perda da pessoa mais importante para a vida dos pais.

As investigações acerca do luto parental referem que a complexidade desta perda é também resultado das tarefas que são exigidas aos pais, tais como a necessidade de reorganizar as dinâmicas familiares e maritais, a inevitabilidade de comunicar a perda e com todo o sofrimento associado, num contexto em que o suporte social é reduzido, ainda para mais nesta fase pandémica em que somos recordados diariamente da necessidade de distanciamento.

No contexto das relações humanas, a perda de um filho tem vindo a ser reconhecida como a perda mais severa, duradoura e debilitante. Quanto ao casal, as investigações apresentam resultados distintos relativamente às mudanças originadas pela perda nas dinâmicas familiares. Enquanto algumas relações terminam, outras são fortalecidas pelo sofrimento, dada a necessidade de apoio mútuo constante.

Segundo uma investigação publicada em 2017 e intitulada “Parental bereavement: looking beyond grief”, esta coesão tende a ser resultado de um maior entendimento do casal acerca da discrepância das suas respostas, ou necessidades individuais. Isto é, quando os membros do casal reconhecem que têm reações e necessidades diferentes no seu processo de luto, é facilitada a compreensão das atitudes do outro e proporcionado o apoio recíproco.

Pelo contrário, na ausência destas pontes de comunicação e compreensão, as tendenciais dificuldades associadas à gestão das diferenças na reação à perda dificultam a coesão entre o casal e potenciam o risco de divórcio dos pais. Na maioria das vezes, os homens optam por evitar o diálogo e mostram-se emocionalmente menos expressivos, atitude que pode ser percecionada pelas mulheres em luto como um sinal de desvalorização da perda ou esquecimento do filho perdido. Todavia, a investigação mostra que esta atitude visa, comummente, na ótica do pai em luto, passar uma imagem de força e proteger a mulher do sofrimento. Daqui se percebe um benefício claro, entre os vários possíveis, da intervenção psicológica especializada no luto.

Por acréscimo, destaca-se o relato dos irmãos em luto, os quais acentuam que não só perderam um irmão ou irmã, mas também os próprios pais, que “nunca mais voltaram a ser os mesmos”. É assim vivenciada uma dupla perda.

Perante o partilhado, percebe-se o facto de este processo de luto apresentar um maior risco de complicações e obstáculos à integração da perda na identidade. Os fatores de risco para complicações são, exatamente, a idade reduzida do descendente aquando da sua morte, a natureza repentina e consequente ausência de preparação para gerir a dor e a existência de uma relação de dependência.

No que diz respeito à variável idade, sabe-se, por exemplo, que uma das principais causas de morte na infância é a Síndrome de Morte Súbita Infantil, morte inesperada, que é frequentemente associada a sentimentos de impotência e falha no papel parental. Numa outra fase, se a perda de um filho acontece numa fase tardia da vida, pode ser sentida como mais dolorosa, pois acontece num contexto de múltiplas perdas sociais e interpessoais.

Para além do risco de complicações no luto, destaca-se o risco de perturbações mentais, como depressão, perturbação do stress pós-traumático e ideação suicida; e, inclusive, de patologia física, como o cancro e patologias cardíacas.

O processo de reconstrução da identidade é inegavelmente doloroso, mas, quando conseguido, permite alcançar maior estabilidade do que aquela que existiria na ausência de qualquer intervenção especializada, ainda que seja impossível regressar integralmente ao funcionamento anterior à perda. Numa relevante investigação de Paige Toller, da Univerisdade do Nebraska-Omaha, em 2008, denominada “Bereaved Parents’ Negotiation of Identity Following the Death of a Child”, foi evidenciado que a nova identidade é reconstruída em função do sofrimento da perda, com novos objetivos, princípios e crenças baseados na experiência traumática. No fundo, a irreversibilidade destas mudanças é resultado do abrupto surgimento do evento traumático na identidade.

Sabe-se que as memórias traumáticas são rapidamente evocadas e, por isso, estabelecem relações imediatas com a autobiografia da pessoa em luto, levando a que o trauma seja transformado num inevitável ponto de referência da história de vida da pessoa. Perante uma fase de marcada desorganização e luto intenso causado pela morte de um filho, o psicólogo detém um papel preponderante para facilitar o envolvimento em rituais funcionais e promover o trabalho terapêutico das emoções, pensamentos e comportamentos.

Este não é, e jamais poderia ser, um texto sobre o luto da família Carreira; é um texto sobre aspetos gerais que a ciência psicológica nos disponibiliza nos dias de hoje sobre o luto, em concreto sobre pais em luto; é a insignificante oportunidade de manifestar os meus sinceros sentimentos aos pais, aos irmãos e amigos mais próximos da Sara Carreira; é também a insignificante oportunidade de expressar os meus sinceros sentimentos a qualquer pai e mãe em luto.


Um pensamento sobre “A dor de perder de um filho é “a maior dor do mundo”- para sempre

  1. Esta família atravessa um período de profunda tristeza com realce para os pais que não encontro em ninguém nem em nada um único consolo. Uma dor imensa sem fim à vista. Para eles a nossa solidariedade e a força que necessitam para ultrapassar.

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