A corporação

(Daniel Oliveira, in Expresso, 26/10/2019)

Daniel Oliveira

O nascimento de uma criança “sem rosto” seria, pelo horror e pela impotência, assunto para tabloides. Porque se nada se pudesse ter feito nada haveria para dizer e se fosse apenas um caso de negligência médica seria à justiça que caberia agir e a nós esperar. Só que a história do obstetra de Setúbal não é de ontem. Houve muitas queixas gravíssimas à Ordem dos Médicos e até houve um processo que chegou a tribunal. Sim, tudo foi arquivado ou continua pendente. Sucessivamente arquivado, eternamente pendente. A imprensa traz relatos de mães e o padrão é sempre o mesmo: desleixo e trabalho feito à pressa. Não é um médico qualquer, desses que ninguém imagina como acabou um curso onde tantos se esfalfam para uma vida que não é nem glamorosa nem fácil. Chegou a chefe de obstetrícia no Hospital de São Bernardo e era sócio de uma clínica a quem o Estado contratava exames. A rapidez garantia faturação. Artur Carvalho era conhecido no meio como o doutor 5 minutos.

Não é um caso para tabloides porque nos conta uma história para lá do choque e da indignação rápida e fácil. Por cada erro deste médico — e só conhecemos aqueles em que os pais tiveram forças e conhecimentos para apresentar queixa — houve outros médicos que acompanharam depois os casos. Que souberam e perceberam o que tinha falhado. Que talvez até o tenham reportado a superiores. E nem eles nem os superiores agiram perante a suspeita de tão criminosa negligência. Foram sempre os pais, suas vítimas arrasadas, que se mexeram. E tantas queixas não fizeram tocar uma campainha na Ordem dos Médicos, que burocraticamente foi arquivando, até chegar à imprensa. Aí sim, suspenderam o médico e foram tratar do que estava pendente. É revelador do poder da corporação a rapidez com que o spin da Ordem, que anda há mais de dez anos para criar uma certificação para realizar ecografias, conseguiu que os holofotes se virassem para a entidade reguladora do Estado, que tendo falhado grosseiramente na inspeção à clínica não tem a responsabilidade ou capacidade de regular as práticas médicas de Artur Carvalho.

O que falhou tem um nome: corporativismo. Está longe de ser um problema específico dos médicos. É de advogados, que tantas vezes convivem em silêncio com vendilhões que usam o estatuto para esconderem o que não deveria ser o seu ofício. É de polícias, que se calam perante os abusos dos que se esquecem que a sua função é defender a lei. É de jornalistas, que são coniventes com os atropelos quotidianos ao código deontológico em nome do negócio.

É de professores, que se recusam a agir quando são chamados a investigar condutas pouco profissionais de colegas seus. É o que levou militares a cometerem crimes contra o Estado para manter uma falsa imagem de dignidade da instituição. O corporativismo é um vírus contra a democracia. Especialmente presente em atividades com poder, protege os membros de um copo profissional do escrutínio público, da regulação ou até da lei, deixando os cidadãos vulneráveis. Quando os bons profissionais deixam os maus profissionais à solta são seus cúmplices. Foram cúmplices os médicos que souberam de Artur Carvalho e nada fizeram. Porque tinham os instrumentos e o saber que nos faltam para nos defender. Esta é a história do pacto de silêncio que atravessa tantas profissões. Uma mão lava a outra porque nunca se sabe o dia de amanhã.

6 pensamentos sobre “A corporação

  1. E o que fazem os vários órgãos de soberania perante estes factos que, não venham dizer a ninguém que são-lhes desconhecidos, serão aos milhares entre todas as corporações creditadas pelo Estado?!

    • A sobreposição entre corporações e órgãos de soberania é quase absoluta: os lugares de topo dos órgãos de soberania são preenchidos por pessoas oriundas das corporações, através do corrupio incessante das ditas “portas giratórias” ou “vazios/alçapões legais“; o seu desiderato é a constituição de um seguro profissional vitalício – não se pode esperar que algum destes actores venha abanar resolutamente o barco.
      A pergunta pertinente poderá então ser: o que é que a população sem interesse directo neste estado de coisas faz?
      O que dizem as famigeradas e fictícias “opinião pública” e “sociedade civil“?
      Queixam-se dos “outros“, como é evidente.

  2. Tudo isto é uma radiografia, perdão uma ecografia, de Portugal e dos Portugueses, onde ninguém se sente pessoalmente responsável pelo resultado do seu trabalho. Sem ética, as corporações em vez de serem os implacáveis policias do bom nome da classe tornaram-se numa trincheira defensiva onde esbarram as acusações, por muito graves que sejam os crimes denunciados. Isto evidentemente se não houver ganho politico na coisa. Então, como no caso de Tancos e Pedrogão, soltam-se as indignações, e as televisões acorrem solicitas para filmar as lágrimas das vitimas, supostas ou verdadeiras. No fim conclui-se tristemente que afinal a culpa é do “sistema”.

      • Tal é irrefutável. Só lamento a impossibilidade de coordenar algum do descontentamento de modo a deitar uma mancheia de gravilha no mecanismo da porta, quanto mais não fosse pelo supremo gozo de ver os seus usufruidores suar um pouco…

  3. Os “pactos de silencio” existem em todas as classes profissionais e é por isso que o país não avança como devia. Também existem nas famílias, nos casamentos, na política, em suma, são uma prática corrente na sociedade portuguesa, que funciona sempre pelo corporativismo e pelos interesses ocultos que cada um defende. É triste, mas somos uma sociedade muito doente, com valores metidos nu fundo das gavetas, quando o dinheiro fala mais alto…

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