Um governo que nasce velho

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 16/10/2019)

Daniel Oliveira

Há apenas uma coisa surpreendente neste governo: não ter nenhuma novidade relevante. Poderão dizer que em equipa que ganha não se mexe. Acontece que há vários ministérios perdedores. E não mexer quer dizer que ou António Costa não se apercebeu do que não correu bem, o que é preocupante, ou não está a trabalhar para quatro anos, o que é ainda mais preocupante. Ou não quer mudanças antes da presidência portuguesa, para ter todos os ministros oleados nas suas pastas. Mesmo que fosse este o caso, há várias escolhas incompreensíveis. Seja como for, não estamos a falar de uma remodelação, estamos a falar de um novo governo, com outro arranjo político e, supostamente, outro programa. Perante isto, cinco novos ministros e apenas duas caras novas (Ricardo Serrão Santos e Ana Abrunhosa) é inesperado.

Há continuidades previsíveis. Claro que Augusto Santos Silva, Mariana Vieira da Silva e Pedro Siza Vieira teriam de ficar. Eles são o núcleo político de Costa. Claro que há ministros de peso que ficariam sempre: Pedro Nuno Santos, João Matos Fernandes, até Francisca Van Dunem e, claro, Mário Centeno. Apesar de estar nos antípodas de Matos Fernandes e Mário Centeno, que poderiam ser ministros de um governo do PSD moderado, e de me rever bastante mais nos perfis políticos de Pedro Nuno Santos e Francisca Van Dunem, são continuidades óbvias que só sairiam pelo seu pé, como aconteceu com Ana Paula Vitorino.

E há ministros que chegaram há pouco tempo e só uma calamidade os retiraria: Marta Temido, Eduardo Cabrita, João Gomes Cravinho e Graça Fonseca. Uns deixaram uma primeira boa impressão, outros pelo contrário. Mas é cedo. Talvez só mesmo na Cultura, onde se pode dizer que Costa devolveu o Ministério mas não há maneira de arranjar um ministro ou uma ministra.

Há apenas uma coisa surpreendente neste governo: não ter nenhuma novidade relevante. Poderão dizer que em equipa que ganha não se mexe. Acontece que há ministérios perdedores. Será que Costa acredita que ficou tudo na mesma? Ou será que tem medo de ter más surpresas? Ao país, deu uma: é como se não tivesse havido eleições

Mas há pelo menos três continuidades assombrosas, que ou resultam de teimosia ou de alienação. O primeiro é Tiago Brandão Rodrigues, um verbo de encher que podia ter sido substituído por um boneco insuflável e ninguém daria pela diferença. Ainda por cima, qualquer um dos seus secretários de Estado da área da educação – João Costa ou a promovida Alexandra Leitão – eram excelentes para o lugar. É um daqueles casos onde só o chefe é que estraga a equipa. E o chefe, que até parece ser um tipo porreiro, fica. O outro caso é numa área próxima e igualmente estratégica: a da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. Neste caso, não se pode dizer que tenha sido um verbo de encher. Foram quatro anos essenciais atirados para o lixo por um ministro que no Ensino Superior se limitou a ser um delegado dos reitores e que na ciência se limitou a piorar o que já estava mal. Pelo menos Nuno Crato estava-se nas tintas para esta parte do seu Ministério e deixava que o presidente da FCT mandasse. Como é que estes dois mortos-vivos ficam no governo é um mistério difícil de responder.

Quanto às promoções, há duas que esperava mas me surpreendem pela pasta escolhida. De uma já falei: Alexandra Leitão. Como dei como certo o fim de uma curta e irrelevante carreira política de Tiago Brandão Rodrigues, pensei que seria ela a ocupar o seu lugar. Uma excelente escolha, até porque ela esteve, com João Costa, por trás de tudo o que de relevante se fez por ali, seja a duríssima guerra em torno dos contratos de associação, sejam os manuais escolares. A agenda que o ministro teve nas mãos, se o podemos dizer, foram os professores. Ia fazendo cair o governo. Talvez tenha ficado por isso mesmo: Costa achou que a sua saída poderia ser lida como uma vitória da Mário Nogueira. Se foi o caso, é só infantil. A outra possibilidade para Alexandra Leitão, afastada que estava a Justiça, era o Ensino Superior. Posso estar a ver mal, mas ou Costa está a pensar fazer uma revolução na modernização do Estado ou está a desperdiçar um ativo político. Uma das poucas revelações políticas neste governo.

O outro caso é Ana Mendes Godinho, que conheço há muitos anos e tenho como competente. Terá feito um bom trabalho no Turismo, mas não atinjo o seu peso político para substituir José António Vieira da Silva. A sua relação com a área será a de ter uma carreira na Inspeção do Trabalho. Não tem qualquer relação próxima com os sindicatos, num governo que já não conta com uma aliança com o PCP. E não se relaciona com a segurança social, onde o PS tem imensos quadros políticos com excelente preparação técnica. Será dos sindicatos politicamente mais difíceis deste mandato e, por mais competente que seja, falta peso político a Ana Mendes Godinho. Foi o mesmo problema, desde a primeira hora, de Tiago Brandão Rodrigues. É, por razões inversas, um desperdício político.

Sobre Ana Abrunhosa, Maria do Céu Albuquerque e Ricardo Serrão Santos nada tenho a dizer porque, com toda a sinceridade, sei muito pouco sobre eles. Apenas me chegam referências sobre a carreira de cacique local e o mau trabalho na reconstrução depois dos incêndios de Abrunhosa, o que é pouco animador para quem fica com muitos milhões para a coesão. Mas pode ser injusto.

Por fim, este é um governo em que, COMO EXPLICA DAVID DINIS, os ministros de Estado são centristas e a pasta da coordenação com o Parlamento perde importância. António Costa explica-nos que, ao contrário do que diz, sabe que a “geringonça” acabou. É mesmo o único sinal de que Costa percebeu que mudou alguma coisa. Pedro Nuno Santos mantém tudo o que tinha mas perde poder relativo. Costa pode achar que o diminuiu, mas pode bem estar a soltá-lo. Não me parece que o futuro do PS venha a passar por delfins de Costa. Estar solto, com algumas coisas que se adivinham neste governo, pode ser uma vantagem futura.

Como primeira análise deste novo governo, diria que é velho. Velhíssimo. Tão velho que se esqueceu de remover móveis inúteis como Tiago Brandão Rodrigues e Manuel Heitor. Há material de qualidade que, independentemente da proximidade ou distância política que tenha deles, se manteria sempre. Há outros que ficaram porque vêm de remodelações recentes.

E há promoções justas, como Alexandra Leitão e Ana Mendes Godinho, que parecem ter ido parar aos lugares errados. Num caso foi de menos, no outro parece de mais. Não há uma adaptação ao novo ciclo político. Será que Costa acredita mesmo que ficou tudo na mesma? Ou será que tem medo de ter más surpresas? Ao país, deu uma: é como se não tivesse havido eleições.


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8 pensamentos sobre “Um governo que nasce velho

  1. […]

    … «são continuidades óbvias que só sairiam pelo seu pé, como aconteceu com Ana Paula Vitorino.», hum.

    Nota. Não me parece que tenha saído a bem, o maridinho Eduardo Cabrita anda na merda do FB a soltar a franga contra o António Costa… Mas, como é habitual para desesperança d’A Estátua de Sal, o tiro mais certinho é o que fez o Francisco Assis. Vem tudo no DN online, pás, a cena do casal e das pantufas, e aquilo ali em baixo do Xico que sintetiza bem o papel histórico do António Costa durante estes tempos politica- e literariamente sombrios.

    […]

    “Quando se diz que este é um Governo ‘muito do Partido Socialista’, tenho alguma discordância. Este é um Governo ‘muito António Costa’, com pessoas muito próximas do primeiro-ministro. Basta ter como número dois uma pessoa que nunca teve qualquer vida pública, no sentido de intervenção política, como o ministro da Economia. Causa-me também estranheza que Mariana Vieira da SIlva assuma funções, de repente, de ministra de Estado, sendo uma pessoa que não tem um percurso político, que se lhe conheça um pensamento, uma linha de orientação, uma causa, uma luta, uma disputa, qualquer coisa. É uma pessoa muito próxima [de Costa], cuja competência não discuto pela circunstância de que não conheço nem desconheço. Nunca vi nem nunca tive oportunidade [de ver]. É uma pessoa que cresce ali na redoma do Governo e de repente é ministra da Estado.”

    Dito de outra forma: “É um Governo de pessoas muito próximas, numa lógica de grande proximidade à figura do primeiro-ministro. É quase um executivo de gabinete. Julgo que se o Governo não reunisse e os ministros fossem apenas a despacho junto do primeiro-ministro, a diferença não seria muito grande.”

    Para Assis, não há que ter ilusões: “a geringonça acabou” e ainda para mais “de maneira absolutamente abrupta”. E isto prova que aquele modelo, “apresentado ao país à Europa e ao mundo como uma coisa extraordinária que configurava uma rutura fundamental na vida política portuguesa”, não passou afinal de “um expediente que a direção do PS recorreu há quatro anos para superar uma derrota eleitoral em termos relativos e para garantir apoio parlamentar”.

    https://www.dn.pt/edicao-do-dia/17-out-2019/novo-governo-cabrita-partilha-critica-ao-afastamento-da-mulher-11414237.html

    • Adenda. Ah, o Grande Vasco, o Pulido que é Valente, tirou o mesmo retrato ao António Costa há dias. Ei-lo, click!

      […]

      11 de Outubro

      Reuniões, conversas, tretas: @antoniocostapm
      vai fazer o que quiser. A única maneira de
      o incomodar, para não dizer travar, é uma
      aliança entre o PSD e o Bloco, coisa que
      excede a imaginação. Costa sempre foi um
      apparatchik, hoje promovido a
      director-geral: toma medidas, inventa
      programas, discute prioridades. Com um
      pequeno empurrão aqui e um jeitinho ali,
      lá se irá aguentando até o bom povo se
      fartar dele.
      Mas como diziam dantes os capitães de
      Abril: “O povo aguenta tudo.”
      – Vasco Pulido Valente, hoje.

      Fonte: P., 12.10.2019, p. 9.

      • Pois, mas é dos que não anda a dormir…

        🙂

        Nota. Já viste isto, entretanto, e diz-me lá se não é de fugir? Há um gajo que se deu ao trabalho de comentar tal objecto artístico, digamos, e está cheio de razão (na linha do que dizem o Vasco e o Assis: vê lá se não confirmariam o que ele diz?). Dura quase meia-hora o happening e foi deitar dinheiro à rua, típico dos gajos do PS.

      • Adenda, fui qu’este gajo também a sabe toda.… 🙂

        […]

        Sendo inteiramente justo, três notas: 1. Parece-me confrangedor que alguém do PS, nomeadamente o António Costa, tenha/m permitido a realização de um exercício de culto da personalidade deste nível (que nada adiantou eleitoralmente, aliás, é dar uma olhadela para o número residual das visualizações no Youtube). 2. Todos os intervenientes sem excepção (Mário Centeno, Augusto Santos Silva, Ana Catarina Mendes, o impagável Carlos César, Fernando Medina e Mariana Vieira da Silva) terão sido, in- ou voluntariamente?, votados ao ingrato papel de actores secundários a quem parece que foram atribuídos meia-dúzia de discursos um pouco mais do que vazios (não se pediriam jóias de oratória como aos estadistas mas, ainda assim, exigir-se-ia um pouco mais de azul… as culpas poderão ser distribuídas pelos/as próprios/as e pelos crânios que assim definiram o spin do PS, provavelmente). 3. E a legendagem é do pior que tenho visto, por fim, tantas são as vírgulas fora de sítio tornando algumas das frases (já de si trôpegas) incompreensíveis.

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