Da arte da dramatização

(Daniel Oliveira, in Expresso, 04/10/2019)

Daniel Oliveira

Quase sempre que os partidos se queixam da injustiça das sondagens têm como exemplo estudos de opinião feitos a alguma distância das eleições. Sabendo-se que 20% dos eleitores decidem o seu voto uma semana antes de votar, pode bem não ser erro mas apenas o retrato daquele momento. As sondagens que são feitas próximas do ato eleitoral (geralmente as últimas e maiores) não costumam, em Portugal, falhar por muito. Pelo menos em eleições nacionais. Ainda assim, elas serão usadas, nestas últimas horas de campanha, para dramatizar e convencer os eleitores mais impressionáveis. Essa dramatização faz-se exagerando uma tendência para criar uma noção distorcida da realidade.

As sondagens grandes, que são aquelas que nos dão informação fidedigna, são relativamente consensuais e claras nos dados fundamentais: o PS vai ganhar folgadamente as eleições, a maioria absoluta é uma impossibilidade, o PSD recuperou mas está a léguas de ser um risco para Costa e tudo indica que o PS precisará do BE, do PCP ou dos dois para governar. À volta disto podem fazer-se muitas conjeturas, não se pode pôr tudo de pernas para o ar.

O PS vai dramatizar, aproveitando uma recuperação do PSD que não belisca nem por um segundo a sua vitória folgada, para ir buscar votos à sua esquerda. O PSD vai dramatizar, tentando usar essa recuperação como sinal de uma vitória que é inalcançável, quer pela distância que o separa do PS, quer pela abissal diferença entre o bloco de partidos de esquerda e o bloco de partidos de direita.

Os partidos à esquerda do PS, e em especial o Bloco, tentarão agitar o fantasma da maioria absoluta, muitíssimo improvável. E o CDS poderá apelar à guerra perdida da direita, que liberta o voto de simpatia. Mas não é muito mobilizador. É aquele que está numa situação tão dramática que não sei se tem por onde dramatizar.

A dramatização é um recurso de todas os partidos nos últimos dias de campanha. Depois de o Parlamento ter ganho nova centralidade e de os portugueses terem descoberto que o que conta são as maiorias que se formam, o voto tático ganhou mais importância.

E é a ele e à mobilização dos seus eleitores (Tancos serviu para isso, no caso do PSD) que os partidos se dedicarão neste último dia. Tratam de migalhas. O essencial está feito e todas as sondagens tornam forçados jogos dramáticos. Os dados estão lançados. Até domingo.

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