5 de setembro de 2019 – 40.º aniversário do SNS

(Carlos Esperança, 15/09/2019)

(Bem pode o Rui Rio e a Cristas virem agora fazer profissão de fé no SNS que tal nunca apagará a nódoa enorme que mancha o currículo político dos seus partidos. Sim, os partidos da direita votaram contra a criação do SNS, logo por vontade deles o SNS nunca teria existido. Foi há quarenta anos mas tal labéu não deve ser esquecido e deve ser propalado às gerações mais novas. Para que saibam quem eles são, o que lá no fundo defendem e o que combatem, independentemente da sua retórica cristã ou social-democrata de circunstância.

Comentário da Estátua, 15/09/2019)


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Quando em 1961 me tornei servidor do Estado, designação habitual de um funcionário público, fui obrigado a declarar que estava «(…) integrado na ordem social estabelecida pela Constituição da República Portuguesa, com ativo repúdio do comunismo e de todas as ideias subversivas», sem direito a assistência médica ou medicamentosa.

No quinto ano de professor, terceiro de delegado escolar, continuava sem qualquer tipo de assistência, tal como os meus pais, um funcionário de finanças e uma professora, mãe de quatro filhos nascidos em casa, em aldeias por onde passou, com uma vizinha analfabeta a escutar-lhe os gemidos dos partos, sem o marido por perto.

Fui o primeiro elemento da família a gozar de assistência médica e medicamentosa, por incorporação no SMO, depois de interrompido o adiamento, como represália de ter sido delegado de Salgado Zenha (CDE), na Lourinhã, nas frustradas eleições de 1965.

Quatro anos e quatro dias depois de ter calçado umas botas n.º 43, 3 números acima do meu pé, já não havia outras, regressei à docência e, pela primeira vez, recebi um cartão que me conferia direito à ADSE. Nunca o usei, nos escassos dois anos que ainda exerci a docência em Lisboa para deixar definitivamente a profissão de que gostava e ganhar o triplo na atividade privada.

Em 15 de setembro de 1979 nasceu a rede de cuidados de saúde universal e gratuita. Faz hoje 40 anos. A justiça social é compatível com a solidariedade, com impostos de todos os cidadãos.

Passámos dos piores índices de mortalidade infantil e materno-fetal para integrar os 20 países com melhores índices a nível mundial, e vimos aumentar em 15 anos a esperança de vida dos portugueses.

É com saudade que recordo António Arnaut e Mário Mendes, com gratidão que recordo os partidos que viabilizaram o SNS e com mágoa que vejo adversários, os mesmos que o degradaram e procuraram entregar aos privados, com exigências, ainda que justas, que jamais satisfariam.

Pelos canais televisivos desfilam hoje os adversários. Não sei o que dizem nem se é por penitência. São velhos devotos e eternos velhacos cuja saúde reprodutiva da mulher lhes era indiferente, esplêndidos cirurgiões que espumaram de raiva contra as ecografias e a IVG, que os impediram de ter recém-nascidos com malformações que eram exímios a operar.

O SNS é património de todos os portugueses, mas não nos iludamos, não é politicamente neutro e a sua defesa cabe a quem assume a herança dos que o tornaram possível.

9 pensamentos sobre “5 de setembro de 2019 – 40.º aniversário do SNS

  1. O cinismo do CDS e do PSD, agora a “defenderem” as virtudes do SNS e a denunciarem as suas actuais desgraças, fazem-me lembrar às fracas memórias, que a páfia parida por aqueles dois partidos com o aldrabão-mór coelho e o portas submarinista, no afã de privatizarem o Serviço Nacional de Saúde, tentaram primeiro destrui-lo, começando por diminuir-lhe funções e capacidades, despedindo profissionais, enfermeiros, médicos, auxiliares, retirando-lhe as dotações financeiras necessárias aos seu funcionamento pleno, dificultando a compra de, por exemplo, material de higiene e assepsia, a provisão das farmácias hospitalares, até pijamas e roupa de cama, etc. etc.

    Agora, hipocritamente, choram lágrimas de crocodilo pela falta de profissionais especializados, que foram, aos milhares, obrigados à emigração forçada, provocando o caos no SNS, que levou ao redobrado esforço até à exaustão e ao desespero até às lágrimas, de médicos , enfermeiros e auxiliares que permaneceram, e se viram impotentes para atender doentes que, sobretudo idosos, alguns morreram nos hospitais SEM A DIGNIDADE QUE MERECIAM, não por culpa desses abnegados profissionais, mas por falta de assistência adequada e atempada.

    A Reportagem TVI transmitida a 2 de Abril de 2015 “O Caos nos Serviços de Urgência-1 hora e 35 minutos”, percorreu durante vários dias, hospitais de Norte a Sul do País, revelando o estado “de saúde”, em que a páfia” do aldrabão e do submarinista, tinham deixado durante 4 anos e meio o SNS a apodrecer…

    Repito : 2 de Abril de 2015, era ministro da Saúde, PAULO MACEDO, agora administrador da Caixa Geral de Depósitos ! Vejam AQUI, a reportagem TVI :

        • t1.
          … «aldrabão-mór coelho e o portas submarinista»,parecem as cenas do José Neves mas é divertido e eu gosto!

          2.
          … «obrigados à emigração forçada, provocando o caos no SNS, que levou ao redobrado esforço até à exaustão e ao desespero até às lágrimas, de médicos , enfermeiros e auxiliares que permaneceram, e se viram impotentes para atender doentes que, sobretudo idosos, alguns morreram nos hospitais SEM A DIGNIDADE QUE MERECIAM», estou num pranto com esta cena neo-realista, Pernalta, tanto-tanto qu’acho que até fazia arrebitar o Álvaro Cunhal!

          3.
          … «pijamas e roupa de cama», pázinho?! Mas eram mesmo pijamas, esqueceste-te dos robes?

          4.
          A Reportagem TVI transmitida a 2 de Abril de 2015 “O Caos nos Serviços de Urgência-1 hora e 35 minutos”, epá, desculpa, mas hoje não vai dar! 1 hora e 35 minutos é bué, ainda se fossem apenas 94 minutos seguia a tua simpática sugestão, Pernalta, e via tal “apodrecimento” [glup!] todinho.

          Ah| E coninua a enviar postais, que eu já te atendo.

          LOLOL

          • Nota. Adelininho, mentiroso é quem te fez as orelhas e mais o José Sócrates cujas mwntiras papavas caninamente assim como as tangas do Valulupi.

  2. Correto
    Porém, mesmo entre quem votou a favor do SNS – o PS – logo se tornou defensor de parcerias com os privados e de fórmulas de o financiar, ao mesmo tempo que se “poupava” em infraestruturas, valências disponíveis, etc
    Quando o regime criou (creio que o PSD/CDS) as USF, criou dois modelos, o A e o B, sendo um deles preparado para a privatização, com salários mais elevados.
    Porque abundam em todas as esquinas locais privados de recolha de elementos para análise… prescritos por médicos de família e que não pode ser efetuada nos Centros de Saúde ou nas USF ?
    O local onde moro, tem umas 25000 pessoas e, ficam convidados a uma visita turística, a pé, para visitarem (pelo menos) seis instalações clínicas de recolha e também algumas especialidades. E há um Centro de Saúde.
    Há abundância de cartões de saúde emanados das seguradoras que, naturalmente, têm contratos com instâncias privadas e com esquemas burocráticos que partilham com o SNS e a ADSE
    Quem for a uma consulta num hospital privado, se tiver ADSE paga 3.99 euros; se a consulta for num Centro de Saúde paga 4.5 euros (embora haja outras tarifas). Antes pagava 5 euros mas, a gestão Costa promoveu um desconto de 10%, ahahah
    Por rotina recolho sangue para análise num hospital público, umas duas vezes por ano. Encontram-se por ali, de manhã cedo, umas 100 pessoas para esse efeito, com lugares sentados para umas 30, estando os restantes de pé, apinhados no centro da sala à espera de vez, com um pregoeiro a gritar sucessivamente os nomes de quem está na calha. Em conversa particular com funcionários sobre aquela bandalheira, dizem-me que os tipos da direção do hospital só lá vão, por vezes… da parte da tarde

  3. Também deviam esfregar isto na barbas do Pacheco Pereira, para ele nos explicar como tem a lata de nos garantir que o PSD alguma vez foi social democrata.

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