Os infortúnios da poesia

(António Guerreiro, in Público, 16/08/2019)

António Guerreiro

 Há dias, recebi por correio electrónico uma newsletter – uma “Folha”, como vinha intitulada – da Companhia das Ilhas, uma editora muito activa e de muito mérito, criada e dirigida pelo poeta Carlos Alberto Machado, sediada na Ilha do Pico. Começava a “Folha” com um lamento: “Talvez um dia se faça uma lista de livros silenciados pelo jornalismo cultural e pela crítica literária no Portugal democrático. O nosso O Nome do Mundo 1969-2019, de José Amaro Dionísio (Junho de 2019) será um desses livros”.

A formulação encerra um pequeno equívoco, ao sugerir que há uma vontade programada de silenciar alguns livros, muito especialmente os de poesia. Ora, esse silenciamento activo até pode existir em certos casos (tendo então o valor de um gesto crítico), mas nem sequer chega a produzir qualquer efeito porque não se distingue de um silêncio muito maior, involuntário, acrítico, coercivo e anónimo: é o silêncio passivo e tão naturalizado que já ninguém dá por ele, a não ser uma pequeníssima minoria, a que está sujeita grande parte da produção literária (e também ensaística), sendo a poesia a principal vítima. 

Tirando este pormenor, não tão pequeno como isso, estou inteiramente de acordo com a abertura desta newsletter: é lamentável e preocupante que um livro, que reúne a obra (já anteriormente reunida, mas agora acrescentada com mais material) de um grande escritor como é José Amaro Dionísio não se dê por ele, nem sequer nas livrarias. Se me é permitido prolongar de maneira muito imediata este lamento da Companhia das Ilhas, escolheria ainda outro exemplo, um livro de poesia também recente, de um poeta estreante, que não deveria jamais ficar submerso no silêncio. Refiro-me a Spinalonga, de Amândio Reis (Língua Morta).

Todos aqueles que de uma maneira ou de outra prestam atenção às coisas da literatura sabem bem como, desde há alguns anos, está a ser recitada no debate público uma oração fúnebre pela morte da crítica literária – uma morte ao retardador, um último sopro que nunca chega verdadeiramente ao fim e tem assim um aspecto fantasmático. Por isso é que dá origem à melancolia e não ao trabalho de luto.

Na perspectiva de uma teoria crítica da história, as coisas são muito mais complicadas e não podem ser vistas apenas à luz das circunstâncias do nosso tempo. Essa perspectiva, encontramo-la num ensaio de um obscuro romântico alemão, chamado Carl Gustav Jochmann, intitulado Os Retrocessos da Poesia, que quase ninguém conheceria hoje se Walter Benjamin não o tivesse desenterrado num artigo que foi publicado em 1939 na Revista de Investigação Social, o órgão da chamada Escola de Frankfurt. Segundo Benjamin, Jochmann, no seu ensaio, abrange “a história da humanidade, dos tempos primitivos até um futuro longínquo. Neste lapso de tempo, a poesia nasce e perece”. Mas o que significa exactamente este declínio?

A tese de Jochmann é a de que nos povos primitivos a poesia tem um valor, uma função e uma influência que se perdem à medida que a totalidade das crenças e do saber de um povo, de que ela é depositária, dá lugar a uma racionalidade que separa o saber em muitos ramos especializados. Este ponto de vista ajuda-nos a perceber que os declínios e silêncios da poesia, em particular, e da literatura, em geral, precisam de ser compreendidos não apenas pelas contingências históricas de curto prazo (as circunstâncias do presente), mas por um movimento histórico-cultural de longo prazo.

Baudelaire foi o poeta moderno que mais profundamente interrogou as novas condições a que a poesia está sujeita, tanto do lado da produção como da recepção. Devemos lê-lo para perceber que as sombras não surgiram recentemente e é preciso que os balanços e diagnósticos desencantados do nosso tempo, quanto à situação nada próspera das coisas da poesia, sem anular as responsabilidades do presente, saibam perscrutar um horizonte muito mais longínquo. 


Livro de Recitações

“O poder é logístico. Bloqueemos tudo!”
Frase de origem anónima, que não foi pronunciada pelos sindicato dos motoristas de matérias perigosas, mas poderia ter sido.

Esta frase, grafitada nas ruas de Turim e fonte de inspiração de movimentos de insurreição recentes, serviu de título a um capítulo do livro À nos amis (2014), do auto-intitulado “Comité Invisible”. A ideia de que o verdadeiro poder não está nas instituições, mas nas infra-estruturas, na organização material – e também imaterial, cibernética – cada vez mais vulnerável da nossa vida quotidiana, pode ser facilmente verificada na greve dos motoristas de matérias perigosas. Estes homens perceberam isso muito bem e puseram em acção esse poder que não é uma força de classe, mas um poder estratégico. Não é um poder revolucionário, mas muito mais de tipo insurrecional. Contra ele, o fraco poder governamental reduz-se a nada, a não ser chamando o exército e a polícia, instaurando o estado de excepção militar que se chama, eufemisticamente, “requisição civil”. A diferença entre o que é da ordem da política e o que é da ordem da polícia, já de si tão ténue no nosso tempo, anula-se agora completamente e a sede do governo torna-se um quartel-general da cúpula governamental-policial.

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