A Universidade que (não) temos

(Joseph Praetorius, 15/07/2019)

Em Portugal – isto é evidentemente uma heresia, mas é assim – a feminilização da frequência dos cursos superiores costuma coincidir com a perda da sua relevância social. Ou seja, a Universidade é procurada não como lugar de conhecimento, mas como fonte de habilitação profissional e legitimação do estatuto social. Os homens procuram habilitações universitárias com as quais possam sustentar-se e sustentar uma família.

A quase nula vitalidade intelectual da sociedade portuguesa – à beira da indigência, neste plano como noutros – determinou, por exemplo, a desfocagem de quase todas as áreas das Humanidades, há décadas menosprezadas pela incapacidade de, nesta desgraçada terra, se conseguir aí gerar e manter qualquer sustento familiar pelo trabalho. O teatro é uma desgraça, o cinema também, a vida editorial é uma anedota, as artes plásticas dependem quase exclusivamentye das encomendas ministeriais ou municipais, o ensino um disparate, o jornalismo é uma rasquice pegada (as páginas culturais desapareceram como lugar de notícia e divulgação) e, portanto, só um louco procuraria aí uma habilitação profissional que haveria de o ser para a indigência.

O Direito, seguiu-se a estes domínios, depois de um interesse marcante da baixa classe média que queria dominar “as regras do jogo” e hoje se afasta da área porque é “para os que já lá estão”. As frequências dos cursos feminilizam-se em coincidência. Porque uma boa parte das mulheres jovens ainda procura casar e a habilitação universitária é uma afirmação de paridade e um bom amparo no divórcio, que continua a ser o destino mais frequente dos casamentos.

A femililização das ciências depois da chacina dos programas de investigação ciêntífica feita pelo semi-alfabetizado Coelho – hoje catedrático na Ajuda – e o seu governo de ressaibiados, opistas e imbecis, deixou multidões de investigadores em posição insustentável, gerou um fluxo migratório de portugueses qualificados em fuga, e, evidentemente, tocou na viabilidade dos diplomas respectivos do ponto de vista de um jovem de classe média – baixa, ou alta – que não tenha o negócio de família para o acolher no fim da formação universitária.

Olho, portanto, com preocupação para estes números.

Porque podem ser fado, justamente. E o fado não é a nossa música mas a nossa tara, como dizia o velho Ivo Cruz. O redactor do El País é que não conhece suficientemente bem a sociedade local (conhecimento aliás dispensável a quem possa viver e trabalhar noutro sítio, evidentemente).

Quanto ao menosprezo surpreendido que o texto revela pelo “país do fado” está perfeitamente justificado.

Ver o artigo do El País, referido acima, aqui

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4 pensamentos sobre “A Universidade que (não) temos

  1. Conclusão minha, nunca tivemos tantos analfabetos encartados “canudos” como agora, viva o medíocre nivelamento do intelecto e da cultura.

  2. O semi alfabetizado Coelho conseguiu reparar alguma da destruição macissa que o analfabetizado Socrates perpetrou e que a ultra analfabetizada geringonça recuperou. Diabólica cegueira ou santa ignorancia, destes adoradores de Estaline Mao e companhia.

  3. O mesmo acontece no Brasil, mas aqui esses sintomas são manifestações da nossa americanização passiva e uma ausência de projeto um projeto de estado na área cultural, dominada pelo identitárismo canalha que serve de zona de conforto para intelectuais medíocres.

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