Laicidade — Páscoa católica, Justiça e escolas públicas

(Carlos Esperança, 17/04/2019)

O país foi, este ano, assolado por um violento ataque de fé que levou às escolas públicas a liturgia e as orações.

A abertura do Ano Judicial foi, este ano, abrilhantado por um figurante de vestes talares, um cardeal objeto de saudações generalizadas, o que faz temer o regresso do direito canónico ao Código Penal, com punição exemplar para os casos de adultério feminino e homossexualidade, proibição do divórcio e penas severas para os pecados, talvez com a benevolente redução penal para a pedofilia e a violência doméstica.

A Universidade de Coimbra deu o exemplo ao introduzir a missa, pela primeira vez, na cerimónia de posse do reitor. Na próxima posse de um novo reitor será já uma tradição.

Nos Hospitais públicos, além dos nomes de santos com que são crismados, pululam nos corredores das enfermarias crucifixos e senhoras de Fátima onde se acoitam bactérias e fungos que a água benta e as orações não erradicam.

Em Vieira do Minho, a atividade pascal, da iniciativa dos pais dos alunos, levou a missa ao Agrupamento de Escolas Vieira de Araújo; em Famalicão, o compasso visitou as 27 escolas do Agrupamento D. Maria II; em Viana do Castelo, os alunos das escolas de Lanheses, Arcos de Valdevez e Ponte de Barca participaram em cerimónias religiosas; em Bragança a comunhão pascal foi facultativa no Agrupamento de Escolas Miguel Torga e nos restantes agrupamentos do concelho também se realizou; em Vila Real, a missa aconteceu no horário normal, mas o subdiretor de Escolas Diogo Cão ressalvou que “é uma atividade como outra qualquer”; e, em Vila do Conde, no Agrupamento de Escolas Dr. Carlos Pinto Ferreira, na Junqueira, no último dia de aulas, alunos, professores e funcionários da EB 2,3 foram em cortejo até à igreja do Mosteiro de S. Simão da Junqueira para assistir à missa. (Fonte deste §: JN de 10-04-2019).

O regresso ou reintrodução da evangelização romana foi facultativa, diferente da sharia, em “escolas com autonomia” como se o caráter laico do Estado e a CRP permitissem as manifestações contrárias ao espírito e letra da Constituição, como se o constrangimento social não violasse a liberdade religiosa que, sendo inviolável, não pode expor quem se sinta coagido ou se recuse.

A Igreja católica goza de privilégios incompatíveis com a laicidade a que o Estado está obrigado. O Estado português tem obrigação de defender a igualdade entre os cidadãos declarando-se incompetente em questões de fé, obrigando-se a promover a neutralidade religiosa. É um abuso de qualquer religião a interferência na esfera pública, tal como a ingerência do Estado nas religiões.

A autonomia das escolas não pode servir de alibi para ferir a legalidade democrática e constranger a liberdade religiosa. A separação do Estado e das Igrejas é uma conquista civilizacional e a única garantia para evitar exigências de outros credos e prevenir novas guerras religiosas, de que a Europa tem trágicas tradições.

Sobre a violação da laicidade pelas escolas vale a pena ler o que escreveu um respeitado constitucionalista, Vital Moreira.

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4 pensamentos sobre “Laicidade — Páscoa católica, Justiça e escolas públicas

  1. Bem visto.

    Tanta apetência pelas missas everywhere, levanta um problema que pode ser uma solução para o desemprego; uma avalancha de novos seminaristas, porque ao que sei não há padres inscritos nas listas do desemprego. Mas atenção porque a pedofilia anda muito mal vista…

    Num país putrefacto é natural que o Além seja considerado como um interventor saneador dos males terrenos dos (sobre)viventes na paróquia

    A rádio pública, Antena 1 é paga, compulsivamente, pelo menos em parte, pelos consumidores de eletricidade. Porém, transmite a missa dominical às 8 da manhã embora exista uma RR que é propriedade da Santa Madre Igreja.
    Na mesma estação, quarta-feira, à noite, três almas – um católico, outro islâmico e outro judaico – discutem os magnos problemas dos deuses; para haver pluralismo poderiam incluir um ateu para animar aquilo.
    E todos os dias também, pela noite, ficamos informados das peregrinações, com um paroquiano ou um padre a debitar qualquer coisa sobre a iluminação divina que lhe acende as lâmpadas; e no final uma tal Sónia Neves, simpaticamente deseja aos ouvintes uma vida feliz. Amen

    A ICAR, apertada pelos sincretismos e fascismos evangélicos na América do Sul, está na defensiva. Na Europa também não está de saúde. Mesmo que o Francisco abula aquela frase atribuída ao JC “Deixai vir a mim as criancinhas” uma vez que a frase foi interpretada de modo oportunista e criminoso por gerações de pedófilos. Parece que durante muito tempo qualquer pedófilo seguia a carreira eclesiástica para ter matéria-prima abundante para manusear e violar

    Recordo, há alguns anos o padre Frederico, animador de encontros “pastorais” na Ponta de S. Lourenço na Madeira – em cujo seguimento houve um assassínio – e que acusado de assassínio surgiu de surpresa em Copacabana, onde terá chegado, “obviamente” a nado. Quem terá ajudado a lançar o tipo à água?
    Divirtam-se
    VL

  2. Afinal tudo isto (toda esta miserável prática) é do conhecimento público!…logo sê-lo-á também do António Costa, primeiro ministro de um governo dito socialista, do ministro da educação e, obviamente, do ilustre quanto iminente ministro Augusto sempre tão diligente em defender os lusos interesses na Venezuela do “ditador” Maduro que deseja (ardentemente quanto democraticamente digo eu) ver substituído pelo fascistóide do gaidózeco [《”O Governo português, em linha com a posição da União Europeia (UE), apela à realização na Venezuela de eleições presidenciais livres, transparentes e credíveis, de acordo com as práticas democráticas internacionalmente aceites e no respeito da Constituição da Venezuela”, refere um comunicado do Ministério dos Negócios Estrangeiros português enviado às redações.
    Caso a convocação das eleições nos termos referidos não seja anunciada nos próximos dias, e o mais tardar daqui a oito dias, o Governo português tenciona reconhecer Juan Guaidó como Presidente interino da Venezuela, nos termos previstos pela Constituição da Venezuela, com a incumbência de convocar as eleições”,》como esclarece uma nota recentemente parida pelo ministério do dito cujo augusto ministro.] Vejamos o que, sobre a Venezuela disse Zapatero também recentemente: 《…é “insólita e irresponsável” a declaração do secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), José Almagro, sobre considerar uma intervenção militar na Venezuela. Tenho comunicação quase diária com N. Maduro e parte da oposição…., a resolução da crise venezuelana passa pela suspensão das sanções económicas e por uma participação mais activa e solidária de países da região, como Brasil e México!….》 e acrescento eu: em 20.05.2018 aconteceram eleições presidenciais na Venezuela; concorreram 3 candidatos; 6.245.862 votaram em Nicolás Maduro (menos cerca de 1.700.000 do que nas eleições de 2013 – o intencional desgaste imposto criminosamente pelo vampiresco imperialismo norte-americano ávido do petróleo do pré-sal brasileiro e venezuelano não perdoa, isto é, e traduzindo Zapatero: 《…a resolução da crise venezuelana passa pela suspensão das sanções económicas e por uma participação mais activa e solidária de países da região, como Brasil e México!….》-, e nos 19 anos últimos já se realizaram 20 actos eleitorais na Venezuela e em só 1 (um) deles os promotores do heróico Movimento Revolucionário Bolivariano não obtiveram a maioria dos votos!?!?!?….. E, pasme-se, já agora, na ONU o único governo reconhecido é o governo legítimo chefiado pelo velho operário metalúrgico Nicolás Maduro!?!?!?….
    Mas, voltando ao “fenómeno-social” relativo “ópio do povo” que teima em voltar a repovoar o “luso jardim à beira-mar plantado” com a “democrática” complacência desta canalha toda e aceitemos a verdade de que tudo isto (da dita cuja complacência) é premeditado por inspiração oculta (mas não divina) dos ditos “mercados”, ou seja, por inspiração e obediência aos ditames do CAPITALISMO (e lá tenho eu que repetir-me uma vez mais aqui na Estátua) esse hediondo sistema económico e social dominante desde há mais de 400 anos: invadiu (sob o pomposo manto dos “descobrimentos”); ocupou; abusou; desrespeitou; perseguiu; explorou; roubou; prendeu; escravizou; matou; deportou; dividiu países contra a vontade dos seus POVOS; fez duas guerras mundiais e tantas outras locais e provocou duas crises economico-sociais matando milhões de inocentes seres humanos militares e civis, empurrando para o desemprego, a pobreza, a miséria e a fome milhões de familias desprotegidas (hoje em dia, morrem de fome e subnutrição, em média, 17 crianças por minuto); produziu desigualdades sociais tais que já menos de 1% da população do planeta Terra detem tanta riqueza produzida pelo trabalho humano, quanta a detida pelos outros 99% (no Brasil apenas 5 pessoas controlam tanta riqueza quanta a controlada por cerca de 103 milhões); e, mais recentemente, vem produzindo situações terríveis em países como na Hungria, na Itália e agora também no Brasil, onde, e aqui está o busílis do tal “ópio do povo”, o lema da campanha eleitoral foi 《o brasil acima de tudo e Deus acima de todos 》!!….
    Pelo que, ó “vítimas da fome”, abram bem o olho pois o venturazeco “já anda por aí” não sob a capa da “esperança” mas com um lema que “chega” para ver onde os fascistas querem chegar também aqui neste vale de lágrimas abrilhantado por uma governança do partido dito socialista apoiado no parlamento por bloquistas e comunistas!?!?!?…..
    Portanto, não diligenciem para pôr FIM ao dito cujo, desobstruindo o normal percurso da História da humanidade, e depois queixem-se!….

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