De como Natália previu a ida de Marcelo ao bairro da Jamaica

(Por Carlos Esperança, 10/02/2019)

natalia

Com um quarto de século de defunção, ressoam ainda os versos iconoclastas, de rara beleza, que fizeram da lutadora pelos direitos humanos e a igualdade da mulher uma personalidade singular e escritora de exceção.

Houve sempre, em Natália, demolidora de mitos, que rasgou convenções, a paixão desmedida, o desassombro e a verrina. Era uma mulher que enchia os espaços por onde circulava, abalroava o moralismo e reduzia à insignificância os moralistas e trogloditas que se julgavam referências éticas e sociais.

O deputado João Morgado, luminária do CDS vinda de Lamego para comunicar ao País que o ato sexual só era legítimo para fazer filhos, sentiu que o humor inteligente derruba a hipocrisia e põe a nu a superficialidade de um catequista paroquial.

Nos seus versos repentistas, pôs o Paramento a rir e o CDS envergonhado:

Já que o coito – diz Morgado –
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou – parca ração! –
uma vez. E se a função
faz o órgão – diz o ditado –
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.

(Natália Correia – 3 de Abril de 1982 )

A coruscante inteligência e o repentismo do estro fizeram desta mulher, intelectual e humanista, um risco para os visados no temível sarcasmo dos seus versos.

E quem imaginaria que, há 30 anos, Natália previu a ida de Marcelo ao Bairro da Jamaica? (Ver a 4.ª quadra).

 

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