Armando Vara e as algemas

(Por Carlos Esperança, 05/02/2019)

algemas

Estou tão habituado, desde sempre, a ser minoritário nas posições que tomo e princípios que defendo, que me surpreendo quando encontro unanimidade nas opiniões que emito.

A prisão de Armando Vara, condenado a cinco anos de prisão efetiva, não me admirou, tal como não me admiraria se fosse o dobro ou metade. Penso que os juízes, salvo raras exceções, são competentes e aplicam penas adequadas. Tenho, aliás, boa impressão dos magistrados portugueses, que nunca confundi com os sindicalistas que os representam, de quem tenho opinião inversa.

Armando Vara é, felizmente, para poder condenar as algemas com que as televisões se deleitaram, uma pessoa que me é completamente indiferente, e as algemas um ato que pode ser legal, mas, na minha opinião e sensibilidade, manifestamente indigno.

Desconheço a legislação e quero escrever este texto sem ser influenciado pela lei. O que me repugna é a humilhação gratuita de um ser humano. Os crimes económicos não são menos reprováveis do que os crimes de violência física ou mesmo de homicídio, mas a perigosidade dos autores, para os guardas e transeuntes, em termos de integridade física, é substancialmente diferente da dos assassinos.

Recordo-me dos castigos medievais e sei que o nosso Código Penal não admite a tortura e outras formas de violência física sobre os presos. Sei também que as polícias devem usar a força adequada às necessidades e, jamais, agredir um indivíduo depois de preso.

Armando Vara pode ser o mais execrável dos criminosos, mas não teria medo de passar por ele, durante a noite, numa rua escura. Ricardo Salgado é provavelmente, se vierem a provar-se os crimes de que é suspeito, o maior dos criminosos, e não gostarei de o saber algemado a caminho da prisão, com fotos nos jornais e filmagens para as televisões.

Um preso não pode ser espoliado de todos os direitos humanos nem ser amarrado a um pelourinho. Repugna-me mais a exibição gratuita de uma humilhação do que a incúria que tem poupado à prisão os autores de delitos fiscais e económicos.

Se há alguma lei que exija algemas aos presos, nas suas deslocações, sem uma entidade que previamente verifique a perigosidade e perigo de fuga do delinquente, é uma lei que envergonha um país civilizado. A pena é a restrição da liberdade, não é a humilhação pública. Se há lei que o permite discricionariamente ou por sistema, deve ser revogada.

Penso que a alegria dos que se regozijam com a humilhação alheia, que não se confunde com a pena para punir o crime, por mais hediondo que seja, é porque certamente já foi vítima de humilhações.

As fotografias na imprensa são a obscenidade feita informação. Qualquer dia os presos são apresentados ao juiz acorrentados, algemados e amordaçados.

Voltamos à Idade Média.

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8 pensamentos sobre “Armando Vara e as algemas

  1. Não consigo ser tão boazinha como o Carlos e postagens de desagrado pelo tema, de boas pessoas, no FB . É humilhante par qualquer ser humano , ser algemado . Só a não sente quem é ausente de sentimentos de culpa, ética e afins . Os frios.
    Não sei se é de norma ou não ser algemado para entrar na prisão. Mas vigaro, é vigaro. Vara e outros quer hão de vir, roubaram-nos o sono , o dinheiro, a alegria de viver de uma outra forma . Tem sido uma enorme violência .
    Não nos sentimos maltratados quando o ouvimos declarar a sua inocência em público, em vez de um pedido de desculpas e o assumir de culpas como o fez hoje ? Um homem que se serve da filha e uma filha maior que se deixa servir ?
    Estamos a viver momentos muito tristes . Pela dimensão do país , estamos ao nivel do Brasil . Corrupção e usurpação de dinheiro ao Estado como nunca se viu . Porque o português é mesquinho de pensamento , “ladrão que rouba a ladrão, tem cem anos de perdão “.

  2. Concordo plenamente com o post,mas há uma situação o Salgado jamais vai ser condenado pode é ser condecorado. há demasiados políticos com rabos de palha,campanhas eleitorais pagas ,subornos e que mais?
    desde Presidentes da Republica a Ministros ,por isso o BES foi o régabofe que foi e continuará a ser ,em que os prejudicados foram os que tinham poupanças e trabalharam para as ter!

  3. As algemas a Armando Vara:

    Não compreendo como foi preciso algemar Armando Vara para o fazer presente a um Tribunal. Armando Vara apresentou-se voluntariamente para cumprir a pena a que foi condenado. Sendo assim Armando Vara não obstaculizava a custódia. Para mim ou há sarcasmo por parte da Chefia da Guarda do Estabelecimento Prisional de Évora ou dos Guardas que fizeram a custódia.

    Os arguidos que se apresentam voluntariamente, os que beneficiam da flexibilidade da pena, tais como, Saídas Precárias Prolongadas, Regime Aberto Voltado para o Interior ou Exterior, em saídas quer aos Hospitais, tribunais e outras, que perigosidade dão a quem os custodia? Nenhuma! Porque se tivessem intenções de fuga não se apresentavam voluntariamente para cumprir pena de prisão, ou nas Saídas Precárias quer Prolongadas quer de Curta duração. Para mim vejo uma questão: protagonismo.

    Mais a mais que só vai algemado da saída da viatura celular até ao Tribunal e do Tribunal para a viatura celular. O itinerário é feito sem as algemas e a presença ao Juiz também.

  4. […]

    Armando Vara pode ser o mais execrável dos criminosos, mas não teria medo de passar por ele, durante a noite, numa rua escura. Ricardo Salgado é provavelmente, se vierem a provar-se os crimes de que é suspeito, o maior dos criminosos,», ui?

    Nota. Ó Carlinhos andas ainda mais desorientado do que eu pensava, tens de pedir a alguém que saiba ler direito e que consiga manter-te acordado para que te decifre a acusação do MP. Depois disso, pensas o tempo que precisares, pedes para repetir um ou outro parágrafo, e experimentas googlar no computador por “poder político” + “poder económico” + sequestro e, provavelmente, um dos resultados que encontrarás dir-te-á a palavrinha-mágica: corrupção. Voltas, então, até à casa de partida e, no pior dos cenários, ficarás em paranoicamente em pânico se encontrares o Armando Vara numa rua clara ou escura (e não, nunca será o Ricardo Salgado nem o Joaquim Barroca nem o tal holandês do pilim, duh!). É simples, isto (tens de organizar a cabeça).

    https://assets.saatchiart.com/saatchi/1044766/art/4141957/3211808-PFWEBPXP-7.jpg

    Jack the Ripper Painting by David Krolikowski

    Painting: Oil on Canvas.

    The painting depicts infamous serial killer “Jack the Ripper”. The mood of the painting is isolated and somber. “Jack” is conveyed with his back turned towards the viewer walking away. The viewer never engages with the central figure of the painting. Instead, the viewer can only catch a vague glimpse as the shrouded figure moves secretly from victim to victim.

    • Adenda, em tempo.

      Um milhão, depositado pelo Joaquim Barroca na tal offshore da filha Bárbara. Como foi lá parar, isso interessa? Sim, é esse o ponto importante da acusação. [Primeira parte.] Dinheiro ganho como consultor, quase todo limpinho (e só não o é porque foi recebido em notas, claro, sem rasto documental como diria a outra!, e sem pagar… impostos). Impostos, isso interessa? Népia, e qu’é isso de um ministro e administrador da CGD e do BCP assumir mais estas medalhas no cadastro? Que tal? E provas, entregou-as? Não, já disse, quais papéis ou qual caraças! Três horas a enterrar-se perante o juiz, segue-se o intervalo. Farnel para o almocinho, pizza ou marmita? {Segunda parte.] É a vez do MP, o titular do processo para lealmente fazer o contraditório. Ah, eu com esses tipos não falo… e ficou-se em silêncio! Calou-se, um tipo que foi ministro do PS?! Que caraças, nada tens a dizer, não criticas isto ó Carlinhos Esperança? [Mudança de cenário, terceira parte.] Mas quais foram os trabalhos, afinal?, perguntam os jornalistas. Muitos, não vou estar para aqui a-a-a-a especificar… responde o advogado. E provas, entregou-as? Zzzzzzzzz, advogado. E conclui: acreditem se quiserem! Do melhor.

      O antigo ministro socialista Armando
      Vara admitiu ontem ter recebido elevadas
      quantias em dinheiro vivo enquanto era
      director na Caixa Geral de Depósitos. As declarações
      foram feitas perante o juiz Ivo Rosa, que dirige a
      instrução na Operação Marquês. Armando Vara,
      que não pagou assim quaisquer impostos por esse
      dinheiro que disse ter sido resultado de serviços
      de consultadoria a empresas não especificadas,
      reconheceu o “ilícito fiscal”. (Pág. 17) H.P

      No P. em papel, hoje.

  5. ‘Preocupação’ NOJENTA. ‘Sensibilidade’ … NOJENTA…
    Enfim, se estivesse a ver uma telenovela.. faria melhor uso ao ‘ser’

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