O Deputado de Aveiro

(Virgínia da Silva Veiga, 17/01/2019)

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Há um pormenor que me não canso de lembrar: Luís Montenegro, esse todo, é o nosso deputado por Aveiro. O PSD foi o partido mais votado nas últimas legislativas neste distrito e o cabeça de lista foi exactamente este mesmo indivíduo.

Daqui se deveriam tirar duas simples conclusões. A primeira delas é que nada tendo feito por Aveiro nada se esperava fizesse pelo País. Mas. é conclusão demasiado simplista, porque pelo país fez: ajudou a vender a pataco os nossos sectores estratégicos enquanto aumentava a dívida pública e permanecíamos devedores ao FMI. Lá se foi a nossa esperança de independência energética, os nossos lucrativos CTT, o nosso emblemático, e igualmente lucrativo, Oceanário, concessionado, e até a desgraçada TAP ia indo pelo cano da falta de visão estratégica, para não lhe chamar outros nomes.

A segunda conclusão, mais fácil, tira-se das afirmações que então fez, quando assumiu esse papel de liderar Aveiro: a nova direcção do PSD de então varreu 40% dos antigos militantes das listas para deputados e instalou os que se viram de que ele próprio é exemplo. Gabou-se então disso. Pode ouvir-se ainda, numa simples pesquisa na net.

Aí têm o retrato do nosso deputado que hoje se apresenta a instalar a confusão na política nacional e, logo, na estabilidade que nos tem feito ser emblema internacional.

Montenegro, o nosso deputado, o que os aveirenses escolheram como melhor de todos, tem o comportamento das aves de rapina que sobrevoam os céus em voo onde os distraídos não notam a postura de ataque. A qualquer momento, descem em voo picado e cravam garras em presa a abater. Alimentam-se dos incautos que quando se apercebem já estão esventrados.

O deputado aveirense teve ocasião de se candidatar a líder do PSD. Não se candidatou. Nas conjecturas possíveis de quem assiste ao que vê, tudo aponta para um cenário com tanto de plausível como de conjectura: sabedor de que a geringonça pusera a nu a espoliação feita aos portugueses e a Portugal, sem disso haver necessidade, como a prática demonstrou, do alto do tal voo planado, caladas as gargalhadas sobre Centeno, percebeu que talvez pudesse concorrer contra Rio mas nunca ganharia eleições nacionais.

Seria um líder a prazo. Foi então que surgiu Santana, vindo do que, a léguas, cheirou a acordo entre ambos. Santana ganharia a Rio, protagonizava os desastres eleitorais que as sondagens apontavam, Montenegro viria depois como salvador. Combinação perfeita.

Deram com presa velha. Apesar do sotaque e o estilo pouco dado a favorecer os media, Rio venceu. Caldo entornado.

Montenegro tinha agora que esperar as derrotas eleitorais que as sondagens fazem crer. E foi aí que entrou um factor com o qual não contava: Santana, ao tempo que cerrava as fileiras contra Rio, foi-se apercebendo de não precisar de Montenegro para nada. Formou um partido.

E agora, Luís? Agora o mal até nem seria por aí além. Santana ajudaria a diminuir ainda mais os resultados de Rio, do PSD. Nem era pior. E eis que os estudos revelam outra surpresa: apesar do homem do Norte não enfileirar por estilos liberais, o PSD resulta na última sondagem, isolado do CDS, com um número que, somado ao atribuído ao partido de Santana, num cenário em todo favorável ao PS, resultava, afinal em qualquer coisa entre os 28 e os 30%. Porque é esse o resultado da última sondagem, se bem lido e melhor analisado.

Afinal, fala-se tanto em saber quem são os deputados da nossa terra, aí têm um. Rio, ainda sem ir a debates eleitorais nem mostrar os candidatos, afinal não estava a deixar o PSD moribundo. Era, portanto, necessário sair rapidamente à ribalta com um discurso que minimizasse o líder.

Estávamos nesta parte do filme quando surge no horizonte outra ave de arribação com a qual Montenegro já não contava: Pedro Passos Coelho disposto a recandidatar-se. Montenegro vê esvairem-se todas as tão bem pensadas estratégias, não tem outro remédio senão avançar imediatamente, ainda que em plena pré-campanha para as europeias. Um aborrecimento.

E aí está ele no ponto de onde nunca saiu: tentar conquistar o PSD e transformá-lo ao gosto liberal dos seus apoiantes Hugo Soares, Paula Teixeira da Cruz, Maria Luís Albuquerque. Na ribalta da penumbra, Marco António Costa e Miguel Relvas. Montenegro é um estratega, um calculista. Rio – aí é que está – não é um menino de coro. O PS do Porto que o diga.

Não incomodou a Rio a purga de Santana, até agradeceu, porque viu à légua que o PSD tinha um palácio construído e andavam a decorá-lo com janelas de alumínio, nada a condizer com o ancestral tom da casa. Liberais para um lado, sociais-democratas para o outro e siga que o caminho sempre se fez caminhando, foi a estratégia adoptada por um Rui Rio – ele o disse – mais favorável em fazer entrar mais militantes do que incomodar-se com os que saiam por se não reverem na linha fundacional.

E é a isto que os portugueses hoje vão começar a assistir e que se resume a uma simples pergunta: o PSD vai regressar à linha de origem, a que lhe deu vitórias, ou será um dos cinco partidos liberais que se vão candidatar às próximas legislativas?

Aguarda-se para ver. Como o candidato aveirense ajudou a desgraçar a classe média e ameaça voltar a mais do mesmo, escuso de dizer o que penso. É um colega. Não esqueço isso como nada esqueço sobre o ex-presidente da Câmara do Porto.

Lê-se por aí ter sido o escritório do deputado aveirense favorecido por ajustes directos envolvendo milhares de euros de proveitos em casos nunca explicados. Deve ser mentira. Como é meu deputado, gostava de lhe ouvir uma explicação sobre tais boatos. Só para que nesse aspecto também sobre ele não pairasse também esta outra sorte de desconfianças.

Fala-se tanto da necessidade de se saber quem são os nossos deputados, e como pode a nossa terra contribuir para o país, pois aí têm o meu contributo para conhecermos o mais votado dos nossos. Não por mim, isso sabe-se.

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12 pensamentos sobre “O Deputado de Aveiro

    • Montenegro cuja verborreia e mediocridade conhecemos pela irrelevância de diplomas apresentados na Assembleia da República.
      Alguém se lembra de algo de importante que ele tenha apresentado na casa da democracia?

  1. O PSD não foi o partido mais votado nas últimas legislativas, não se sabe. Foi a PAF a coligação mais votada. Este engano repetido até pela esquerda entregou os votos na PAF ao PSD como se o CDS não existisse e esta falácia alimenta-lhes o discurso.

  2. Da série “Sugestões de leitura para a gente da Província…”

    Nota, sobre o Pensamento Político Contemporâneo ou sobre a falta que ele faz. «Daqui se deveriam tirar duas simples conclusões. A primeira delas é que nada tendo feito por Aveiro nada se esperava fizesse pelo País.», hum?!

    […]

    «Por força dessas circunstancias, o acto eleitoral assumiu um dramatismo inusitado. O confronto polarizou-se em torno de duas personalidades: o conselheiro Manuel Berardo, proprietário da Quinta do Mosteiro, descendente de uma família da burguesia agrária compradora de «bens nacionais» e principal notável local, que há longos anos exercia o mandato de deputado; e Eusébio Seabra, um antigo emigrante que acumulara uma vasta fortuna no Brasil, orgulhoso do seu sucesso material e ávido de promoção social, que procurava disputar a primazia ao primeiro. O conselheiro — que, apesar de ser então conotado com a oposição, mantinha relações de cumplicidade com a parcialidade no poder, reivindicando por isso a paternidade dos melhoramentos locais — renovava, uma vez mais, a sua candidatura pelo circulo natal; o «brasileiro», cujos horizontes políticos eram mais estreitos, não estando interessado numa carreira parlamentar, promovia o apoio ao candidato entretanto indicado pelo governo, um obscuro funcionário público lisboeta.

    A motivação real da contenda eleitoral era essencialmente de natureza pessoal, ainda que, por extensão, envolvesse interesses de grupo; o que estava em jogo era uma disputa de poder entre dois influentes locais, em torno de quem se definiam as fidelidades individuais e se organizavam as facções rivais* na expectativa de colherem os benefícios do triunfo do seu chefe e protector* A questão do cemitério e da estrada, sendo uma fome potencial de conflito* servira sobretudo como um pretexto oportuno para desencadear as hostilidades e capitalizar descontentamentos, tendo sido, por isso, empolada pelas hostes do «brasileiro»* Do mesmo modo, o alinhamento dos bandos rivais no eixo governamentais/oposicionistas era uma mera referência topológica de circunstância, não traduzindo quaisquer clivagens políticas definidas, nem mesmo tendo, aqui, reflexos decisivos no equilíbrio de forças: o contexto de isolamento, a par das reconhecidas insuficiências estruturais do Estado na época, limitava a capacidade de penetração do centro na periferia , tornando os jogos de influência locais menos permeáveis aos influxos governamentais.»

    Fonte: ALMEIDA, Pedro Tavares de, Eleições e Caciquismo no Portugal Oitocentista (1868-1890), Lisboa, Difel, 1991, pp. 100-101.

    https://i1.rgstatic.net/publication/267693881_Eleicoes_e_Caciquismo_no_Portugal_Oitocentista/links/584ea40c08aed95c250970f6/largepreview.png

    • Idem, ibidem mas entretanto.

      – Opá, fica quieto e não gastes mais o teu Latim!
      – Não, achas? Tu achas mesmo, pá?
      – Sim, então tu não viste a bio do tipo de Ligarelhos* ou lá o que é, ontem na SIC?
      – ?
      – Pois é, pá, o novo inquilino d’Évora. Aquilo é tudo tão mauzinho que até meteu um canudo dado à pressão pela Universidade Independente, imagina..Lembras-te?
      – Ui, vou já vestir a batina e vou mas é catequisar o Portugal Profundo.

      Asterisco, nota um. É de Vinhais, Vilar de Ossos, Lagarelhos, o tipo.

      […]

      «A preparação das eleições, como era habitual, iniciou-se cerca de um mês antes da data oficial para a ida às urnas. Ambas as facções empenharam-se energicamente na conquista de adesões e na mobilização dos eleitores. Os meios de persuasão eram basicamente idênticos: promessas de empregos, resgate de hipotecas, perdão de dívidas,
      subornos, coacção psicológica, ameaças físicas. Apesar da intensa actívídade desenvolvida e da prodigalidade dos favores distribuídos, as hipóteses de reeleição do conselheiro pareciam, todavia, seriamente comprometidas; a polémica e as movimentações a propósito do cemitério e da estrada tinham-lhe sido prejudiciais, denegrindo a
      sua imagem de prestígio e alienando-lhe o apoio decisivo de alguns mandões eleitorais — como era, sobretudo, o caso de Joaozinho das Perdizes, arquétipo do morgado decadente e paternalista, que conservava uma autoridade incontestada junto dos eleitores da sua freguesia, os quais cumpriam disdplinadamente as suas instruções de voto.
      Tudo se conjugava, enfim, para que o resultado do escrutínio viesse confirmar a irresistível ascensão política de Eusébio Seabra e a vitória do seu candidato.

      A semelhança do que muitas vezes sucedia na realidade, mercê da inconsistência e volubilidade das alianças eleitorais, o dia do sufrágio seria, no entanto, cenário de uma reviravolta espectacular, aqui motivada pela intervenção inesperada e in extremis de uma figura carismática da aldeia, o velho ervanário, em prol do conselheiro, perdoando-lhe recentes agravos de que fora vítima. Esse gesto magnânimo, que exaltava o valor simbólico das amigas solidariedades e amizades pessoais — então abaladas por divergências mesquinhas — , reavivou o
      sentimento de honra de Joãozinho das Perdizes, tanto mais que aquela era a sua derradeira oportunidade para resgatar uma velha divida de gratidão que tinha para com o moribundo ancião. Num ápice, a prévia orientação de voto transmitida aos «seus* eleitores foi inflectida e, contrariando os prognósticos iniciais, Manuel Berardo
      triunfou com uma vantagem de 135 votos. Resolvida a contenda eleitoral, restabelecidas as hierarquias de poder, os ânimos serenaram e o espírito de reconciliação sobrepôs-se às hostilidades e ressentimentos. A tranquilidade reinstalou-se na aldeia.»

      Nota. dois e ainda, O cenário de uma reviravolta espectacular, aqui motivada pela intervenção inesperada e in extremis de uma figura carismática da aldeia, o velho ervanário?! Epá, sempre o carisma, onde é que já ouvi isto?

  3. … “apesar do sotaque”. Apreciei a “reflexão” Portugal é realmente um país pequeno, onde uns poucos de idiotas ainda o encurtam mais!

    • Caro Carlos, não sou de comentários aos meus próprios textos, meras publicações de Facebook, que Estátua de Sal faz, por vezes, a delicadeza de aqui trazer. Mas, confesso, o seu é interessantíssimo e fez-me sorrir. O “ apesar do sotaque” não é o que pensa. Sabemos – sei que sabe – que nos media lisboetas não é fonte de mais-valia. Era só essa constatação a que fiz. Quanto a mim, recordo o grande Roby Amorim, infelizmente já falecido, jornalista, outrora meu Colega de trabalho em Lisboa, que um dia me disse: “Ó Birgínia Beiga, nunca deixes que ninguém te estrague a pronúncia” e discorreu sobre o assunto. Aí tem. Obrigada pelo inteligente comentário.

  4. Um artigo coerente. Rui Rio é um Homem inteligente e, sobretudo, defende a social democracia. Outros apenas querem alimentar o seu ego exacerbado e transformar o PSD num partido liberal, destruindo um Estado social de bem-estar, o qual demorou décadas a implementar

  5. Montenegro cuja verborreia e mediocridade conhecemos pela irrelevância de diplomas apresentados na Assembleia da República.
    Alguém se lembra de algo de importante que ele tenha apresentado na casa da democracia?

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