Morte às ficções!

(António Guerreiro, in Público, 31/08/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

À quinta-feira, dia de Júpiter, o Expresso serve “ficções tendencialmente inspiradas numa notícia”. O ofício ficcional de carácter pagão é ministrado por Bruno Vieira Amaral. A ficção, segundo uma tabela de classificações corrente que actualiza a Poética de Aristóteles, é o que fica excluído da não-ficção.

Aplicada a lei da reversibilidade, resulta como verdadeira a proposição simétrica: não-ficção é tudo aquilo que sobra da ficção. Mas não vale a pena determo-nos em classificações complexas, elaboradas por génios da teoria para ordenar e racionalizar a indústria e o comércio dos livros.

O que interessa é saber por que diabo fornece um jornal ficções aos seus leitores, no dia de Júpiter, tendo até contratado para isso um profissional do ofício, quando aquilo de que precisamos é de contra-ficções.

Ficções, há-as aos montes, o mundo está saturado delas, não há um segundo em que se faça silêncio neste débito ficcional imparável, engolimo-las em excesso, até chegar o momento de vomitá-las. Sem pudor nem delicadeza, vomitamo-las porque elas são indigestas e nauseabundas.

Estamos capturados por bem oleadas máquinas narrativas, as ficções são milícias da mobilização total, sejam elas completamente inventadas ou “tendencialmente inspiradas numa notícia”. Sim, inspiradas numa notícia, porque no mundo que os media imaginam e dão forma não há factos nem realidades, há apenas notícias. O mundo é feito para resultar numa notícia.

É isto a mediarquia (seja-me permitido pedir emprestado este neologismo). O suplemento ficcional do Expresso de quinta-feira, da festa pagã de Júpiter, é na verdade o que acontece todos os dias, nos jornais, nas televisões, nas ruas, nos conselhos de ministros. Todos os dias são dias de festa, a mediarquia não conhece interrupções.

As ficções são como a música melosa que passa, em looping nos supermercados, nos centros comerciais, nas salas de espera. O ludíbrio das ficções das quintas é o de querer parecer que se instaura aí um momento de interrupção, uma pausa para uma outra ordem do discurso, um silêncio para tornar audível um rumor literário. Nada disso, as ficções mediárquicas não têm nada ver com a literatura. São outra coisa, são uma continuação das histórias servidas diariamente por todos os meios, por todos os media.

Para o diabo as histórias! Estamos cheios delas até à medula. Aquilo de que precisamos é de descontinuidade, de contra-ficções, não dessa fábrica do contínuo que produz ficções, no dia da Lua, no dia do Sol, no dia de Júpiter, no dia de Vénus, todos os dias, até no Sabat.

Um suplemento de “imaginário”, como os médicos receitam suplementos vitamínicos, é o que a mediarquia acha por bem ministrar aos leitores, espectadores, ouvintes, com a mesma diligência com que os convida a ir ao cinema, ao teatro, aos concertos de música, ao recitais de poesia, a tudo aquilo que é “a não perder”.

Mas não é um suplemento, não é um complemento de imaginário (para o diabo, essa coisa do imaginário!), não é uma sobremesa exquise. Pelo contrário, é ainda um capítulo da grande bouffe mediárquica, um capítulo final quando acontece ser aí, e não antes ou depois, que sentimos vontade de ir ao vomitorium. Lembram-se de La littérature à l’estomac, de Juliem Gracq? Os estômagos já não são bem os mesmos, e estão empanturrados de ficções.

P.S. Ficções que são como contra-ficções, capazes de instaurar o Sabat, mesmo se lidas no dia de Júpiter, encontramo-las num pequeno livro precioso, assinado por um tal Esménio. Título: Cinquenta e seis. Vinte e Cinco da Terra e do Rio Trinta e Um do Mar e dos Viajantes  (edições Flop).

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