O BCE, a inflação e o diabo nos detalhes

(Alexandre Abreu, in Expresso Diário, 12/07/2018)

abreu

(Excelente análise do papel do BCE na gestão macroeconómica da zona Euro, e dos seus limites, impostos pelos Tratados.

Com o prejuízo que tais limites causam aos países mais frágeis, como Portugal, fica a pergunta se os nossos dirigentes políticos que os assinaram o fizeram por ignorância total de conhecimentos básicos de macroeconomia ou porque Portugal, à época, já não era um país soberano e, qual analfabeto, só lhe restava assinar de cruz por não saber ler.

Comentário da Estátua, 12/11/2018)


O mandato do Banco Central Europeu, estabelecido no Artigo 127 do Tratado de Lisboa, consiste prioritariamente na manutenção da estabilidade de preços e, apenas secundariamente, na prossecução de um conjunto de outros objectivos em que se inclui o pleno emprego. Isto é em si mesmo ilustrativo do viés restritivo e conservador do Tratado de Lisboa, que atribui primazia à preservação do valor do dinheiro relativamente à promoção do emprego. Contrasta, aliás, com o chamado mandato ‘dual’ da Reserva Federal norte-americana, que atribui igual importância aos objectivos de promoção do emprego e controlo da inflação.

Este mandato do BCE tem como consequência que a adopção de medidas de estímulo macroeconómico por via monetária, incluindo através da compra de activos não-convencionais, o chamado Quantitative Easing, tem como limite o aparecimento de uma dinâmica inflacionária. A partir do momento em que esta surge, o BCE vê-se obrigado a carregar no travão, ou pelo menos a deixar de acelerar – independentemente dos níveis de desemprego e de crescimento económico ou, no caso do QE, da dependência da sustentabilidade da dívida soberana dos diferentes países relativamente à sua aquisição pelo banco central.

Tudo isto faz com que a definição de estabilidade de preços assuma grande importância. No caso do BCE, esta foi definida em 1998 pelo Conselho de Governadores como ‘um aumento homólogo do Índice Harmonizado de Preços no Consumidor (IHPC) para a zona euro abaixo de 2%’. Ou seja, o BCE guia-se pela chamada inflação global (‘headline inflation’) que, em Junho de 2018, atingiu precisamente o valor de 1,97% após um longo período bastante abaixo de 2%.

Sucede, porém, que, na zona euro, a chamada inflação ‘de base’ (ou ‘core inflation’, que retira à inflação global o efeito da variação dos preços da energia e dos alimentos, mais voláteis e sujeitos a choques independentes da dinâmica da economia) mantém-se em 0,96%, uma vez que a maior parte do aumento do IHPC no último ano é explicado pelo aumento homólogo de 8% do preço dos produtos energéticos, nomeadamente o aumento do preço do petróleo. Desde Janeiro deste ano, a inflação global subiu de 1,36% para 1,97%, mas a inflação de base até desceu, de 1,00% para 0,96%.

O BCE está assim prestes a embater no limite por si próprio imposto para a adopção de uma política monetária expansiva, o que não deixará de afectar a recompra dos activos abrangidos pelo QE à medida que estes forem vencendo. Seguramente, o argumento do IHPC nos 2% não deixará de ser mobilizado pelos ‘falcões’ dentro do BCE e na Alemanha para exigir uma orientação de política monetária mais restritiva e deflacionária.

Só que esta inflação de 2% não se deve à política monetária ter chegado a um ponto em que é completamente ineficaz e apenas gera aumento de preços; pelo contrário, o aumento de preços é fundamentalmente de origem externa e devido à evolução dos preços da energia.

Devido às minudências do mandato do BCE, o aumento do preço do petróleo acaba assim por desferir um duplo golpe: afecta directamente o poder de compra dos consumidores e a estrutura de custos das empresas, e indirectamente a actividade económica por via das restrições que impõe à política monetária. No caso de estados altamente endividados como o português, o golpe é triplo, pois por esta mesma via da inflação induzida e do mandato do BCE constrange ainda a aquisição por este último dos títulos de dívida pública no mercado secundário, pressionando em alta os juros no mercado primário.

Como dizem os ingleses, o diabo está nos detalhes.

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5 pensamentos sobre “O BCE, a inflação e o diabo nos detalhes

  1. «Só que esta inflação de 2% não se deve à política monetária ter chegado a um ponto em que é completamente ineficaz e apenas gera aumento de preços»
    Isto em termos clássicos, mas qualquer relação entre política monetária e inflação está longe de ser provada.

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    • Isso é mentira. A relação é factual. Experimente estar num país onde se imprime novo dinheiro sem parar, a ver se gosta do respetivo aumento da inflação para valores exorbitantes… é parte do que se passou na Venezuela recentemente (para além dos ataques externos, e dos mesmos erros de sempre, que vêm dos tempos muito antes da Constituição Bolivariana, vêm desde a 2ª Grande Guerra Mundial, que é a economia da Venezuela assentar num modelo mono-produtivo, ou seja, dependente do petróleo, e como tal, dos preços deste nos mercados Mundiais).

      Já ouviu falar da crise da hiper-inflação na República de Weimar, que foi por usa vez causada pela impressão de nova moeda pelo banco central da Alemanha, que por sua vez foi uma necessidade para pagar uma dívida (impagável) cuja reestruturação foi recusada pelos vencedores da 1ª Grande Guerra Mundial. O que se passou a seguir é história, levou o senhor do bigode ao poder, e ainda hoje os Alemães têm um medo de morte da inflação, que chega mesmo ao irracional de ser contra a inflação mesmoq uando ela é boa (ex: quando chega a 3% ou 4% justificada por uma política de pleno emprego).

      Se tem uma economia com uma maça produzida por dia que é vendida por 1$, e um banco central que coloca em circulação todos os dias novos $, passarão a haver na economia mais pessoas com $ para comprar a mesma maça, pelo que o vendedor aumenta o preço, pois os $ que recebe vão tendo também menos valor. É um ciclo vicioso.

      Foi isto que o BCE tentou fazer, quando após o excesso de austeridade (tirar dinheiro às pessoas e à economia, e colocar na banca) nos colocou em risco de deflação (oposto da inflação). O BCE começou então a imprimir mais e mais novos Euros.

      Porque é que não teve o efeito desejado nos preços? Porque a inflação também depende de outras coisas, como a evolução dos salários. Com a austeridade o ROUBO de direitos foi tal, que quando regressou o crescimento, os salários não acompanharam a subida, mantendo assim a inflação perto de zero. Também “ajudou” a isto que o dinheiro do BCE foi quase totalmente parar às mãos erradas, como banca e especulação, em vez de ir parar à economia real, pelo que se fala já há uns tempos da possível bolha de liquidez que poderá rebentar a qualquer momento.

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    • A prioridade da esquerda é o emprego e o salário, no fundo a distribuição da riqueza. Não esquecem o valor do dinheiro, mas não fazem disso uma prioridade. Poderiam muito bem viver continuadamente como nos anos 90, com escudo e inflação em volta dos 3%, 4% ou 5% ao ano.

      Isso vai contra os interesses do capital, que tem o dinheiro acumulado, e assim o veria desvalorizar mais depressa, caso não o distribuísse, investisse, ou gastasse.

      Já a prioridade do centro (PS) é obedecer à Europa (ao capital), cuja prioridade é o valor do dinheiro (inflação abaixo dos 2%), independentemente da quantidade de desemprego e da evolução dos salários.

      Foi para isto que foram criados os 3 pilares da Zona Euro: livre circulação de capitais, bens, e pessoas. O capital, ao circular, vai para onde rende mais e está mais protegido (centro), os bens vão de onde são produzidos (centro) para onde necessitam deles (periferia), e as pessoas fazem o percurso inverso, devido aos desequilíbrios económicos que isto cria.

      Quem nos meteu no Euro (PS e PSD, anos 90), ou era gente mesmo muito ignorante, ou muito mal intencionada (mais provável). Em público, só a esquerda alertou para isto no devido tempo. PS e PSD prometeram um referendo, mas como sabiam que o iam perder, colocaram Portugal no Euro sem perguntar nada a ninguém… típico de “Europeístas”, que 10 anos depois, perante a recusa do povo em aceitar a Constituição Europeia, repetiram referendos até dar o resultado pretendido, e depois acabaram por aprovar as leis às escondidas.

      Hoje queixam-se do Syriza ou do Podemos na esquerda populista, e da Frente Nacional, da AfD, da Lega, etc, na extrema-direita, mas a causa do problema é só uma: o radicalismo Europeísta que tem levado a N atropelos contra a democracia e contra as vontades dos diferentes povos.

      Há um projeto “En Marche”, mas mais depressa isto implode tudo, do que esse projeto chega ao fim. Porque já há 100 anos atrás, quando as elites de Moscovo mandaram espezinhar o povo, o povo revoltou-se. E já antes disso a mesmo coisa tinha acontecido em França, que passou da França das cortes, para a França da Democracia, num abrir e fechar de guilhotina! Agora não será diferente!

      A minha grande tristeza é que, como há 80 anos atrás, será preciso a extrema-direita destruir primeiro, para a esquerda-democrática e o centro-direita não elitista reconstruirem depois. Não aprendem…

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