A Pide e o ridículo

(Carlos Esperança, 04/06/2018)

Há ainda muito por saber sobre a sinistra polícia salazarista. As vítimas foram morrendo e escasseiam testemunhos; documentos sobre os seus crimes acabaram incinerados no tempo que ainda tiveram os esbirros da Rua António Maria Cardoso, e foram desviados outros, que o MFA não pôde preservar; a história do fascismo, apesar da exumação feita por excelentes historiadores, tem ainda pontos obscuros e o futuro muito para revelar. E o julgamento da PIDE, dos pides, dos bufos e rebufos, nunca foi feito.

Há, no entanto, uma faceta que, correndo o risco de menosprezar a violência da ditadura e a crueldade da sua polícia política, não deve deixar de ser divulgada – o ridículo.

A apreensão das obras de Racine que um emigrante suspeito trazia de França, deixando-lhe as de Corneille e Molière, porque Racine… Racine, Lenine, Estaline…, era dos três dramaturgos o de apelido mais comprometedor, revela bem o critério a que a intuição e a cultura dos esbirros podia chegar.

A alegada apreensão de um livro de engenharia «O Betão Armado», por suspeita de que se destinasse ao ensino do fabrico de engenhos explosivos, só tem rival na apreensão do livro que um fascista da Legião escreveu sob o título «Subversão sim, evangelho não». Era um vómito impresso de contestação ao livro «Subversão ou evangelho?», do padre Mário de Oliveira, pároco da Lixa, perseguido pela Pide. No quiosque do Café Nova York, em Lisboa, local que frequentei no início da década de 70 do século passado, foi-me exibido com imenso gozo o auto de apreensão de três exemplares do referido vómito em forma de livro, escrito por um fascista, Amadeu C. de Vasconcelos.

A recordar desvarios broncos fui ao meu processo da Pide, ao que dele existe na Torre do Tombo, e fui encontrar, entre outros, um documento que, por vergonha, nunca publiquei. Torna-me suspeito pelos elogios de um esbirro. Aqui fica, para gáudio dos leitores.

PIDE

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2 pensamentos sobre “A Pide e o ridículo

  1. Cumpri o meu Serviço Militar Obrigatório (SMO) no 2.º Tribunal Militar Territorial de Lisboa. Ali, fui Meirinho no chamado Julgamento Humberto Delgado, contra os Inspectores Pereira de Carvalho e Agostinho Tienza.
    Um dia, trabalhando no arquivo do Tribunal, caiu-me nas mãos algo que me deixou siderado. O arquivo dos processos da PVDE, PIDE, DGS e PIDE/DGS.
    Ali li a primeira vez que o jovem de 16 anos, chamado Edmundo Pedro foi detido, por ter na sua posse o Jornal Bandeira Vermelha e uma pistola Star.
    Claro que nem a edição do Jornal tinha número, e muito menos a pistola Star o tinha.
    É que em todos os processos, invariavelmente a posse do Jornal Bandeira Vermelha e de uma pistola Star constituíam o Libelo Acusatório.
    Também em todos, a primeira condenação correspondia a 5 anos de privação de direitos (como se existissem alguns), correspondendo uma segunda a uma visita ao Forte de Peniche, ou mesmo a uma estadia no Tarrafal.
    Ali, alguém do PS visitava o Tribunal e recolhia elementos para um livro que creio chegou a publicar-se sob o nome “O Livro Negro do Fascismo”..
    O Juiz Auditor do Processo Humberto Delgado foi Rui Gonçalves Pereira, irmão de André Gonçalves Pereira.
    Em 1981 findei o SMO, pelo que desconheço se o referido arquivo ainda ali está. Mas no seu conjunto, é uma peça de grande valia para historiar o fascismo e a sua política política.
    E sim, também li inúmeros episódios ridículos e de notório analfabetismo da PIDE.
    Passados que estão 44 anos, será que ainda existe quem queira fazer essa história e lançar-se à aventura?
    Como memória colectiva de um povo, julgo que era importante que a história fosse tratada, analisada e publicada. O que li, merece que seja público, quanto mais não seja em honra daqueles que foram tombando pelo caminho.
    Quem tem coragem para se lançar à aventura?

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