Avulsos recolhidos algures num Centro de Saúde..

(Por Mário José Ferreira Pinto, in Facebook, 07/11/2017)

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6h00m da manhã. O Sol já aparecia lindo sobre o azul celeste.
À porta do Centro de Saúde, um pequeno grupo de utentes organizava-se para a marcação da consulta “à vaga”.
A maioria já se conhece. Afinal todos são já bem experimentados nesta forma bem própria de utilização da consulta.
Aliás, o Director do Centro de Saúde até mandou instalar uns banquinhos de jardim no local, para tornar a espera mais atractiva.
É uma excelente oportunidade para trocar experiências e conhecimentos, que todos vão acumulando ao longo do seu percurso de contactos com os médicos e hospitais.
A Maria do Céu vai à consulta do “Parlamento”, a Dona Gertrudes vai à consulta da “Monopausa” e a Rita é que as corrige informando-as que aquela consulta chama-se de Planeamento Familiar.
Uma tem um “biombo” no “úbero” e leva os resultados duma “fotografia”, outra está preocupada com comichões na “serventia” do marido, até porque ele, havia poucos dias, tinha já sido consultado pelo médico por estar com os “alforges” todos inflamados. Alguém logo ali diagnosticou um problema na “aprosta” do marido.
Mais à distância desta conversa, um grupo de senhoras falavam dos métodos contraceptivos e, uma delas, peremptória, afirmava que nunca aceitaria porem-lhe uma “fateixa” dentro da barriga!
Uma outra discordava, e lá lhe foi dizendo que, por causa disso, é que teve tantos filhos, felizmente todos de parto normal, só o último foi de “açoreana”, mas aquele que lhe dava mais problemas era o mais velho que já era “toxico-correspondente”!
Noutro local, um grupo de homens mais idosos ia falando da relação entre o “castrol” e a “atenção”.
Às tantas um deles começa a explicação cuidada dum acidente que tivera. Por isso é que tinha a vacina contra o “tecto” em dia, mas o acidente estragou-lhe a “tibiotísica” e causou-lhe uma hérnia “fiscal”, pelo que tinha ido fazer uma “fotocópia” e um “traque”.
Outro referiu que nunca teve problemas de ossos, o seu problema era uma grande “espirrogueira na peitogueira”.
Uma senhora, atraída pela conversa, queixava-se de entupimento no “curso” com dores “alucinantes” quando se “abaixava”. Além disso cobria-se de suores e “gómitos”, ficava “almariada” e tudo acabava com uma forte “encacheca”, ficando cerca de 3 dias com cara de “caveira misteriosa”. Alguém lhe falou nuns supositórios que a poderiam ajudar mas ela já os conhecia, aparentemente tinham sido muito difíceis de engolir, pelo que o melhor ainda era o “clistério”.
Finalmente, uma outra senhora queixava-se da “úrsula” no “estambo”, pelo que vinha mostrar o resultado duma “endocuspia” e ainda algumas análises especiais, como a Proteína C “Reaccionária”.
8h30m da manhã. Ainda havia muito para conversar mas a Inês, jovem funcionária administrativa do Centro de Saúde, obviamente tarefeira, acaba de chegar. Os funcionários administrativos não podem chegar atrasados, caso contrário, confundir-se-iam com os doutores.
– Quem é o primeiro, se faz favor? Ora diga lá o seu nome?
– Josefina Trindade.
– Idade?
– 67 anos.
– Estado?
– Constipada, muito constipada!
9h00m da manhã. Aparece a enfermeira Freitas que grita para a pequena multidão barulhenta que cerca a Inês:
– Quem está para medir as tensões? É você? Então entre e diga-me qual é o seu problema?
– Sabe, senhora enfermeira, o meu problema é ter uma doença “arrendatária” que “arrendei” do meu pai e já me levou uma vez aos cuidados “utensílios” do hospital. Afecta-me as “cruzes renais” e por isso dá-me muita “humidade à volta do coração”. Aliás, o doutor pediu-me uma “pilografia” e um “aerograma” que aqui trago e recomendou-me beber pouca água.
Finalmente, chega o médico, que logo dá início às consultas:
– Então de que se queixa?
– De uma angina de peito, senhor doutor. Tudo começou há uma semana quando fui às urgências. O médico disse-me que era uma angina na garganta, mas a angina começou a descer e agora apanha-me o peito todo!
Aos poucos, os utentes iam entrando e saindo, com melhor ou pior cara.
Alguns perguntavam à Inês onde era o “pechiché da retrosaria” para pagarem a taxa moderadora.

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9 pensamentos sobre “Avulsos recolhidos algures num Centro de Saúde..

  1. Caro “estatuadesal” qual a graça e utilidade de transcrever este arrasoado elitista-pró-parvo? Que tipo de mensagem ou lição ou, sobretudo, de educação ou elucidação crítica se pode retirar deste palavreado virado única e exclusivamente para a intenção de ridicularizar e achincalhar pessoas que, por qualquer azar de suas vidas, caíram num analfabetismo mesmo ou funcional.
    Terá o autor consciência que se tais pessoas tivessem as suas condições para ir estudar e educar-se não seriam mais capazes de inteligência, de saber, de pensar, de raciocinar, de argumentar e de falar que qualquer um inclusive o autor brincalhão-impúdico?
    Claro, tais indecorosas prosas só podem dar aso a outros dixotes avulsos ainda mais indecorosos como o acima do db.
    Aconselhava o autor de tão desgraçada ilustre prosa a ler o poeta Aleixo, talvez aprenda a ser mais modesto e menos pedante.

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    • Caro Neves. Indo pelo lado do “politicamente correcto”, é óbvio que tem razão. Mas podemos sempre fazer outras leituras. Pela sua tese o neo-realismo poderia ter sido evitado, o Soeiro não deveria ter escrito os Esteiros e por aí adiante. Percebo o seu ponto de vista. Mas refectir – depois de sorrir -, com estes apontamentos do quotidiano e questionar porque existem estas pessoas e porque assim se quedaram também pode ser uma alavanca positiva para mudar o status quo. Um abraço.

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  2. Caro “estatuadesal”,
    Não há nada politicamente correto no meu comentário e muito menos qualquer neo-realismo presente na direta e obstrusa gosação que o autor faz dos deserdados de cultura que escutou e, sobretudo, gosou tanto a situação que não resistiu a revelar o caso revendo-se novamente no gozo que tal revelação irá provocar noutros tais como o db acima.
    Onde está, no texto, o mínimo enquadramento social ou contextual que integre tal peça descabelada segundo uma crítica do neo-realismo? E quem escreve hoje textos de tempo neo-realista pós guerra 39-45, se nem os italianos já fazem filmes sobre neo-realismo? A mim parece, pela unicidade de gozo puro revelada no texto face à desgraça cultural de gente simples, que nem o autor conhece o neo-realismo ou o Soeiro Pereira Gomes quanto mais considerar tal como peça neo-realista.
    Um verdadeiro neo-realista contaria a história-causa que levou tais pessoas atais consequências e nunca ridicularizaria tais pessoas.
    E, creia caro “estatuadesal” este é o meu sentimento moral e a minha posição intelectual fora e longe de qualquer pensamento pliticamente correto.

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