KARDASHIANISMO

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 06/06/2015)

Clara Ferreira Alves

                    Clara Ferreira Alves

A literatura tem resistido, pela sua indigência comparativa, a esta estupidificação, mas os escritores são hoje, mais do que a obra, o centro das atenções.

Tentei escapar à Catalina. Não consegui. A CNN deu-me uma dose matinal de Caitlyn, call me Caitlyn, presumindo o meu interesse em saber da novidade do clã Kardashian: a mudança de sexo, de homem para mulher, do pater famílias e ex-altleta olímpico Bruce Jenner. A CNN elaborou sobre a coragem do dito em fotografar-se na capa da “Vanity Fair” vestido de mulher fatal da primeira metade do século. Caitlyn destronou todos os recordes de seguidores do Twitter. Entalada entre a perna acidentada de John Kerry e as putrefações de Blatter, Caitlyn tornou-se a única notícia. Abri o computador e Caitlyn apareceu-me em todos os sites da internet, clandestinamente, ostensivamente, como notícia ou como anúncio. Uma das características da web é o bombardeamento maciço de irrelevâncias a que somos sujeitos, os links, a publicidade escondida, a janela que não quer fechar, etc. Depois fui ler o “NY Times” e lá estava ela, em frente às lentes de Annie Leibovitz com a cara injetada de botox, os ombros de decatlo, os lábios de silicone, as cirurgias, a maquilhagem e o vestido da Rita Hayworth no filme “Gilda” (em que Rita leva uma bofetada de um homem). Se isto é uma mulher…

Na televisão, na internet, na imprensa escrita, na online, e em todos os outlets de notícias e de mexericos, fiquei a saber, inevitavelmente, que o ex-atleta olímpico Bruce Jenner era a vedeta do Twitter e tinha dado cabo das mulheres Kardashian e seus recordes. Era imperioso que nós, sujeitos passivos, soubéssemos disto. Para esconder o voyeurismo e a operação de marketing encoberta, Jenner vai estrear show e precisa sobressair, a notícia transformou-se, pela mão dos respeitáveis jornalistas, numa afirmação dos direitos civis dos transgender, dos homens que gostam de se vestir de mulher, dos travestis, dos homossexuais, das mulheres e de tudo o que veio a jeito para transformar a mixórdia num assunto. Caitlyn foi investida da tremenda responsabilidade de representar todos os géneros e transgéneros, incluindo o meu. Bruce Jenner é o representante do “feminino” (com aqueles ombros e dois metros de altura), o tal que dizem eterno.

Fiquei a saber que o jornalista que escreveu o artigo da “Vanity Fair” passou centenas de horas com a Caitlyn nos dois formatos, homem e mulher, assistiu às doses hormonais, e, por fim, através de confissão empática, que o jornalista himself, um robusto rapaz de meia idade que se chama Buzz Bissinger (buzz…), também gosta de usar o seu soutien de rendas ou calcinha. Eis a informação que me faltava.

Nos dias seguintes, o bombardeamento continuou, o Bissinger foi entrevistado em horário nobre e, claro, ficámos a saber que os filhos de Jenner apoiavam o pai e que a mulher de Jenner, a formidável mãe Kardashian, também apoiava. Imagino que ser casado com esta matrona só pode dar em crossdressing. O problema é que antes de Jenner sair da penumbra onde criteriosamente tinha sido colocado, já tinha sido bombardeada com as vidas Kardashian. Através da publicidade insinuante, é impossível escapar a esta tribo americana. Estou sempre à espera de, como nos filmes de terror, abrir a porta do meu guarda-fatos e sair-me de lá a Kim agarrada ao Kanye.

Se alguma dúvida restasse sobre a estupidificação progressiva do jornalismo, apanhado no túnel de vento das redes sociais e da entronização do narcisismo vácuo como sentimento social dominante, a história de Jenner prova que a Lady Di e os seus amores comparada com isto era uma princesa. A cultura de massas e a lumpenização do jornalismo encontraram-se finalmente e deram o nó. O nó da corda com que o jornalismo se enforca. Os americanos chamam a isto dumbing down, não apenas a estupidificação como o abaixamento da coisa. A tecnologia trouxe-nos muitas vantagens e trouxe uma desvantagem brutal, a negação da cultura, da arte da inteligência. O cinema está a desaparecer, o que se nota quando um filme nulo como “Mad Max” é entronizado em Cannes como se fosse um Bergman, e as cerimónias e festivais cinematográficos foram engolidos pela indústria da moda chamada passadeira vermelha. A única notícia de Cannes foi a dos sapatos rasos. A literatura tem resistido, pela sua indigência comparativa, a esta estupidificação e trivialização, mas os escritores são hoje, mais do que a obra, o centro das atenções e a sua “persona” literária é construída como a de uma personagem de um teatro comunicacional.

Ninguém lê os livros mas toda a gente sabe quem os escreveu. As artes plásticas há muito desapareceram na voracidade do mercado, massacradas nos altares do capitalismo financeiro. Arte é investimento e moda. E o seu génio é Jeff Koons. Resta a música dita clássica. Dizem-na condenada, sem audiências, quase extinta. Daqui a 50 anos, nem a memória da cultura nos restará. Soterrados em kardashianismo, soltos na selva das selfies, e sem filósofos parisienses que nos expliquem o que se passa.

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