O TOQUE DE FINADOS DA EUROPA

(Clara Ferreira Alves, Expresso, 16/05/2015)

Clara Ferreira Alves

                      Clara Ferreira Alves

A União Europeia teria tido um dos ciclos históricos mais curtos da História da democracia liberal

E pensava a Europa que tinha problemas com a Grécia. Sentado numa maioria e mandatado para referendar a presença e manutenção do Reino Unido na União Europeia, David Cameron sente-se com vontade de antecipar a data. Em vez de 2017 seria no final de 2016.

A alteração é insignificante porque ou a Europa muda até lá, e mudam as políticas europeias, ou o Reino Unido sairá da União, contando com a hipótese de o próprio Reino Unido, sujeito aos arroubos do nacionalismo escocês, deixar de ser tão unido. Os pais-fundadores da Europa dão uma volta na tumba. Tudo o que parecia adquirido deixou de estar. Cameron e o seu Governo preparam-se para chantagear Bruxelas e, de caminho, os donos da União Europeia, a Alemanha. Ou Bruxelas obedece e desconta nos “impostos” europeus dos ingleses, diminuindo as contribuições, aumentando a participação na decisão política (que só se fará em detrimento das hegemonias de Berlim e Paris) e aceitando a exclusão de normas da União (incluindo a receção de migrantes) ou Cameron testará a temperatura das águas do Canal da Mancha e aproveitará o fracasso das negociações para dizer que fez os possíveis. Isento da responsabilidade política de ter contribuído para o fim da União Europeia, responsabilidade que ninguém quer, incluindo os alemães que menos que todos querem ser acusados de destruição do bloco europeu, Cameron ficará com as mãos livres para promover uma política nacionalista e insular, reforçando a ligação umbilical aos americanos e à sua economia saudável, e mantendo Londres como a capital financeira da Europa. Porque, se houver uma derrocada europeia, Londres e a libra beneficiarão.

Nunca estivemos tão perto do fim, e o fim viria sob forma referendária. O primeiro referendo desencadeará os outros e os tratados terão de ser reescritos ou destruídos. Jean-Claude Juncker, um velho e avisado político europeu, um homem dentro da burocracia de Bruxelas e que sabe o peso e a importância dessa construção burocrática para a manutenção da classe política que neste momento (e desde sempre) reina na Europa desde que a Europa resolveu unir-se, sabe reconhecer um toque de finados. E avisou que os “anglo-saxónicos”, um termo curioso, querem dar cabo da Europa. Ou, pelo menos, desta Europa.

As cicatrizes da História têm importância. A Grã-Bretanha detesta a Alemanha e não aprecia a política alemã nem o diktat de Berlim, venha ele de um partido da direita ou da esquerda. Basta abrir um tabloide britânico para perceber que os boches não são populares e que os “frogs”, os franceses, também não. Os alemães são autoritários e os franceses são colaboracionistas. Qualquer conversa que se tenha num salão de Londres sobre política europeia descamba nesta apreciação vista à luz do churchillianismo que nunca abandonou a visão geoestratégica inglesa. Não existe confiança na Alemanha nem na França. Apesar dos pronunciamentos do “Financial Times” e da “Economist” sobre os pecados gregos e a necessidade da punição desses pecados, o povo britânico olha para a telenovela grega, e para a portuguesa e a irlandesa, como um processo de humilhações e de perda de soberania. E olha para essas economias como subprodutos de uma cultura política europeia dominada pelo despesismo e o aumento da dívida. Foi a Alemanha a primeira a inaugurar a violação da regra dos 3% a seguir à reunificação (quando o défice de Berlim aumentou brutalmente) e foram as potências europeias que viraram a cabeça para o lado quando a Grécia, e a Itália, e Portugal, e a Espanha, e a Irlanda, começaram a usar a liquidez e o excesso de crédito barato para gastos sumptuários e desperdício ilimitado. Ninguém pediu reformas, na altura. Bruxelas falhou na supervisão e não só falhou como construiu para si um Estado dentro do Estado, um gracioso Vaticano onde os seus membros têm regalias e mordomias, salários, pensões, reformas, ajudas de custo, viagens, gabinetes, e milhares de organismos e penduricalhos inúteis destinados a manter a oligarquia burocrática, que nenhum dos Estados membros tem. Nenhum político nacional recebe uma remuneração remotamente parecida com a de um deputado ou apparatchik europeu. Que este escândalo se tenha mantido anos a fio, com o silêncio, a indiferença e a ignorância dos povos europeus, percebe-se. O dinheiro escorria como água na areia. O dinheiro acabou e muitos não verão no desejo de Bruxelas de manter-se como regulador da União mais do que o instinto de sobrevivência dessa burocracia. Se a Grécia sair, o que o sr. Schäuble sugeriu, estará a assinar a certidão de óbito da Europa. Escrevi, quando a crise da dívida soberana começou em 2011, que tudo poderia terminar em referendos nacionais à UE. A União Europeia teria tido um dos ciclos históricos mais curtos da história da democracia liberal.

Um pensamento sobre “O TOQUE DE FINADOS DA EUROPA

  1. Lembram-se dos tigres asiáticos e do tombo que levaram quando as respectivas moedas começaram a valorizar a sério? Ainda hoje não levantaram o nariz. Também o Euro engordou e cresceu,a ponto de ensombrar antigos bonzos. Agora que outros melhoram e crescem,a moeda europeia patina e deprecia-se. A Comunidade perturba os gangsters que tudo pensam comandar.Que não se veja quem tudo isto orquestra e comanda, entende-se: o meretrício deita-se em muitas camas. Se pensam que a cegueira é completa e geral,desenganem-se. A História não é um script de um blockbuster idiota.

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