Todos ao aeroporto: vêm aí os nossos emigrantes!

(Nicolau Santos, Expresso Diário, 13/03/2015)

Nicolau Santos

Em 2011, vários membros do Governo disseram que as pessoas que não encontravam emprego em Portugal deveriam tentar encontrar uma alternativa no estrangeiro. E ou por obediência a Passos Coelho ou porque aqui no retângulo não dava mesmo para sobreviver, mais de 300 mil fizeram as malas e lançaram-se à aventura. Agora, o mesmo Governo que deu esse conselho anuncia um pacote de apoios a quem queira regressar. Parece um bocadinho contraditório, mas se calhar não é. O Governo tem razões que a razão do cidadão normal desconhece.

A primeira polémica aconteceu a 31 de Outubro de 2011, quando a Lusa emitiu uma notícia, citando o secretário de Estado do Desporto e da Juventude, Alexandre Mestre, dizendo que: «se estamos no desemprego, temos de sair da zona de conforto e ir para além das nossas fronteiras». Por sua vez, a 16 de Novembro do mesmo ano, o então ministro-adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, apostava no mesmo caminho: «Quem entende que tem condições para encontrar [oportunidades] fora do seu país, num prazo mais ou menos curto, sempre com a perspetiva de poder voltar, mas que pode fortalecer a sua formação, pode conhecer outras realidades culturais, [isso] é extraordinariamente positivo».

Em Dezembro, numa entrevista ao Correio da Manhã e em resposta è pergunta «Nos professores excedentários, o senhor primeiro-ministro aconselhá-los-ia a abandonar a sua zona de conforto e procurarem emprego noutros sítios?», disse o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho: «Angola, mas não só Angola, o Brasil também, tem uma grande necessidade ao nível do ensino básico e do ensino secundário de mão de obra qualificada e de professores. Sabemos que há muitos professores em Portugal que não têm nesta altura ocupação e o próprio sistema privado não consegue ter oferta para todos. Nos próximos anos haverá muita gente em Portugal que ou consegue nessa área fazer formação e estar disponível para outras áreas ou querendo-se manter, sobretudo como professores, podem olhar para todo o mercado de língua portuguesa e encontrar aí uma alternativa».

Em 2011, vários membros do Governo disseram que as pessoas que não encontravam emprego em Portugal deveriam tentar encontrar alternativa no estrangeiro. Agora, o mesmo Governo anuncia um pacote de apoios a quem queira regressar. O Governo tem razões que a razão do cidadão normal desconhece.

Em 17 de Janeiro de 2013, Passos Coelho virou o bico ao prego: «Ninguém aconselhou os portugueses a emigrarem», disse em França. Não?! Bom, toda a gente tinha percebido o contrário, mas, como se sabe, a língua portuguesa é muito traiçoeira.

Mas agora, estando mais de 300 mil almas lusitanas lá fora desde que a crise estalou, o Conselho de Ministros, reunido sob a presidência de Pedro Passos Coelho (não há notícia de que se tenha ausentado na altura da decisão), aprovou o Plano Estratégico para as Migrações até 2020 e que contempla medidas para incentivar, acompanhar e apoiar o regresso dos cidadãos nacionais emigrantes.

No entanto, Pedro Lomba, secretário de Estado Adjunto do Ministro Adjunto e do Desenvolvimento Regional, não revelou quais os montantes que serão canalizados para este objetivo nem quantos emigrantes espera o Governo que regressem perante este luzidio pacote de incentivos. «Estimar aqui números… as coisas também não se fazem assim», disse Lomba. Ah, pois não! Não se fazem assim, nem assado, nem vice-versa, nem antes pelo contrário. Ou como diria o preclaro Presidente da República, «já cheira a campanha eleitoral».

Posto isto, convém irmos todos ao aeroporto e montarmos tenda por lá. Prevê-se que assim que este magnífico pacote de incentivos lhes chegue aos ouvidos, emigrantes portugueses dos cinco continentes larguem tudo e se precipitem para comprar bilhetes de avião para o regresso, rapidamente e em força. E não vêm só os 300 mil que daqui saíram desde 2011: vêm esses, mais as mulheres, os maridos e os filhos que entretanto agregaram. Não haverá nada assim desde a ponte aérea de 1975. E tudo graças a uma medida tão simples e generosa do magnífico e coerente Governo de Portugal!

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10 pensamentos sobre “Todos ao aeroporto: vêm aí os nossos emigrantes!

    • Wembley, 14/03/2015, 08.17. Dois portugueses trocam cumprimentos e um pergunta: ja’ sabes da ultima sobre a ideia de ajudar os emigrantes a voltar ? –Ja’ ouvi, mas e’ tudo treta, talvez alguns dos membros das associacoes de emigrantes mamem algum, porque o emigrante comum nem o cheira.

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  1. O meu marido é um desses professores excedentários, também emigrou. Trabalha agora, muito honradamente, numa das muitas áreas da construção civil. Vive no Canadá, estamos separados pelo Atlântico e pelas políticas de caca dos sucessivos governos portugueses! Voltar?! Claro! Brevemente para o nascimento do filho e para um dia mais tarde nos levar também!!

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    • Teresa, apenas lhe desejo calma e paciencia. O seu marido trabalha e pagam-lhe bem. Um dia poderá mudar e profissão. O Canada e um belíssimo pais. Venham todos mas não transfiram fundos. O pais neste momento não merece nenhum sacrifício. Boa sorte, e por favor junte a família no Canada logo que possível. Eu já por aqui ando há 43 anos e sei do que falo. Também eu deixei o meu fato e gravata e deixei a contabilidade para ser funcionário de uma grande companhia de montagem de carros. Hoje estou reformado e estou calmo e tranquilo. Lembre-se Teresa, aqui estamos perto de Cuba, Rep Dominicana e México. De carro ate pode ir para as praias do Atlantico logo a seguir a New York. Faça isso, olhe pelos seus. Bem vinda ao Canada.

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  2. Tudo muito bem em chamar os portugueses de volta mas para que?
    Para serem pagos com amendoins como e o habitual neste pais .
    Se o ze povinho não ganhar não o pode gastar e isso foi sempre o que aconteceu esta a acontecer e sempre acontecerá. E pena pois Portugal tem tudo para ser um dos países mais ricos da europa

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  3. Como cidadão, contribuinte e pai assisto pasmado como estes senhores mudam estrategicamente de posição de acordo com a sua agenda eleitoral. Convidaram-nos a exportar a nossa maior riqueza ; o investimento em formação feita com esforço por todos nós contribuintes nesta geração.
    Assim os países ricos podem adquirir jovens graduados a custo zero.
    Como dita a nossa história nos tempos em que vendiamos as matérias primas a Inglaterra e depois adquirimos transformadas.Talvez estes cérebros devidamente aproveitados possam desenvolver lá fora patentes para mais tarde importamos.

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