No primeiro round a Grécia ganhou tempo

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 23/02/2015)

         Daniel Oliveira

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Poucas semanas depois de chegar ao poder e a uns dias de ficar sem financiamento, o Governo do Syriza só podia aspirar a não ter uma derrota política e, ainda assim, ganhar tempo. E uma derrota era uma extensão do programa de resgate, com novas medidas de austeridade impostas pelos tecnocratas enviados pela troika. E ter de responder a isto com uma submissão total ou uma ruptura para a qual nunca estaria preparada. Por isso, o que Tsipras e Varoufakis queriam era ganhar tempo. Ganharam quatro meses, menos dois do que desejavam. E esse tempo não podia ter como contrapartida uma aceitação na validade do memorando que enfraqueceria um Governo que precisa de acumular forças internas e externas para a guerra que o espera em junho. Veremos o que o dia de hoje nos reserva.

Seria absurdo dizer que o gregos tiveram, na sexta-feira, uma vitória. É verdade que a Grécia não poderá suspender unilateralmente as medidas do memorando que ainda estão em vigor. Mas com a extensão não vieram novas. E, mais importante, o plano para o futuro, mesmo negociado, começará por vir dos gregos. Ou seja, estamos, pela primeira vez, perante uma co-autoria neste processo. Nas negociações de hoje veremos se ela é real ou imaginária. Por outro lado, Varoufakis conseguiu uma vitória: mais flexibilidade no excedente orçamental que lhe é exigido, o que lhe permite não fazer mais cortes nas pensões e não aumentar o IVA.

Wolfgang Schäuble foi claro, no fim das negociações de sexta-feira, quanto aos seus objetivos: “os gregos vao ter dificuldade em explicar este acordo aos seus eleitores”. Fragilizar politicamente o Governo grego para que a Grécia não sirva de exemplo de coragem aos outros povos das periferias é a única coisa que está em causa para a Alemanha. Até porque já ninguém leva realmente a sério qualquer argumento em defesa do caminho da austeridade. Aliás, os líderes das três partes da troika (Lagarde, Juncker e Draghi) já confessaram, à vez, o falhanço das políticas que as instituições que representam impuseram a vários países europeus.

A POLÍTICA REGRESSOU À EUROPA E AS COISAS VOLTARAM A SER DISCUTIDAS ENTRE REPRESENTANTES DOS POVOS, EM VEZ DE SEREM IMPOSTAS POR BUROCRATAS

Desesperados, os governos português e espanhol foram, na semana passada, mais alemães do que os alemães. É natural. Para Passos Coelho, melhores condições para o Governo grego representarão um esvaziamento do seu discurso político, que sempre se baseou na famosa T.I.N.A. (“There Is No Alternative” – “Não Há Alternativa”). Pior: a própria ideia sugerida por Juncker de que o comportamento da troika teria atingido a dignidade de Portugal e da Grécia é uma acusação a um Governo que, tendo assumido como seu o programa de outros, pôs em causa a dignidade do Estado e do país. Para Mariano Rajoy e para o seu ministro da Lehman Brothers, a coisa é ainda mais dramática. Qualquer conquista do Syriza representaria mais umas centenas de milhares de votos para o Podemos. Para Passos e para Rajoy é o seu futuro político – e não o futuro de Portugal, da Grécia ou da Europa – que está em causa.

Quando escrevo, não sei como correram as coisas no segundo round. Mas houve duas coisas que mudaram na sexta-feira. A primeira: deixaram de ser burocratas a dar ordens a eleitos. A política regressou à Europa e as coisas voltaram a ser discutidas entre representantes dos povos. A segunda: tenha conquistado muito ou pouco, a Grécia não só não ficou pior do que estava como, pelo menos até hoje, tinha conquistado financiamento, mais flexibilidade e mais poder de decisão. Tudo porque decidiu deixar de se comportar como uma vítima passiva e passou a ser um ator na Europa. As duas coisas mudam radicalmente a forma como tudo se passará até agora.

A vitória eleitoral do Syriza começou a mudar o clima de fatalismo e de asfixia da democracia na Europa. De Portugal ficará para a História, se a História ligar a personagens menores, a deprimente imagem que a nossa ministra das Finanças deu do país. Por pouco que a Grécia consiga, cada conquista sua deixará o Governo português mais isolado. A negociação política a que assistimos deixa Passos Coelho como o fanático que impõe ao seu próprio país um sofrimento desmedido em nome de uma receita na qual já quase ninguém acredita na Europa. Fossem os portugueses e os espanhóis representados por quem defendesse os nossos interesses e seguramente a Grécia teria estado menos isolada e teria conquistado mais.

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