O mundo mudou

( Clara Ferreira Alves, in Expresso, 21/02/2015)

Clara Ferreira Alves

Clara Ferreira Alves

O mundo mudou. Só uma coisa permanece única e misteriosa e proibida, apesar da pornografia diária que invade os nossos ecrãs. É o sexo

Três damas de Glasgow foram ao cinema ver “As Cinquenta Sombras de Grey”. Um tipo de Glasgow mandou-as calar com a rudeza dos escoceses. Presume-se. O que se sabe é que levou o chamado enxerto de porrada aplicado pelas três e aquilo acabou na esquadra. E pensar que esta assistência seleta estava a ver um filme sobre o prazer que as damas têm em levar porrada dos tipos. Inverteu-se a premissa e o sexo fraco deu porrada no sexo forte. E nem se deu ao trabalho de lhe vendar os olhos.

As mulheres já não são o que eram ou, pelo menos, o que deviam ser. O mundo mudou. Só uma coisa permanece única e misteriosa e proibida, apesar da pornografia diária que invade os nossos ecrãs. É o sexo.

Qualquer coisinha que tenha a ver com sexo, que se desvie um pouco do sexo consentido pelas religiões e a moral e costumes vigentes, atrai público e consumo em percentagens superiores ao uso de cannabis e comprimidos. Ao fim destes séculos todos, atendendo a que o Homo Sapiens já nos deixou há uns bons milhares de anos e o Homo Erectus (não é o que estão a pensar) era um hominídeo do Baixo Pleistoceno, o que leva os inteligentes bípedes atuais a excitar-se tanto com um fenómeno mais natural do que o ar que respiramos? Dito de outro modo, o que leva uns milhões de mulheres e alguns homens a transformar uma escriba medíocre na autora mais vendida do século XXI? O Potter a gente percebia, mas o Grey? A sério? O Grey e a pequena dele, a jovem estudante que trabalha numa loja de ferragens (a plausibilidade nunca foi o forte de E.L. James)? Podemos concluir que os bípedes, sobretudo os bípedes dotados de aparelho reprodutor essencial à espécie, se excitam com pouco. O que não abona a favor das doutrinas do casamento monogâmico como o derradeiro ato romântico da vida de uma mulher. E reforçaria as doutrinas de que as mulheres “gostam de apanhar”. Em bom português: quanto mais me bates mais gosto de ti. Uma doutrina que, levada à letra, provoca mais ou menos uma centena de mulheres assassinadas por ano no nosso querido e cordato país de homens rijos.

Eu disse reforçaria, no condicional. O problema do gosto pelo Grey é que o mais importante do livro não é a porrada. Aliás, num arroubo moralista, a autora decreta que a pequena da loja de ferragens afinal não gosta de levar porrada e vai pôr o Christian Grey a andar quando percebe que não há um casamento branco, reino de Oz, no fim do caminho, embora haja um Quarto de Dor e eventualmente uns sapatos vermelhos se forem do Christian Louboutin que é Christian, é gay e não é Grey. Ora, os gays são os melhores amigos dos fracos bípedes femininos. E porquê? Porque não lhes dão porrada. Nem prometem dar. Nem as violam. Nem as agridem ou ameaçam. Mas então, perguntarão os doutos amantes de Grey e da sua autora, as mulheres não gostam de levar porrada? Não. Mas… gostam de sapatos vermelhos. E do Louboutin. E aqui está a explicação da coisa. Sem o condomínio com vista de Seattle, sem o jatinho privado, sem o descapotável, sem os vestidos de alta costura, sem as prendas, o dinheirinho, the money, sem o simples facto de que o Grey é um milionário com bons fatos e a versão contemporânea do príncipe encantado, por causa, justamente, de ser um milionário, é que a pancada se aguenta. Se o Grey fosse empregado numa garagem e levasse a pequena para um esconso a cheirar a couves e óleo de motor e lhe desse a beber uma cerveja em vez de champanhe, se a levasse a ver futebol e se arrotasse, não havia pequena nem havia prazer aveludado. O romance seria um arremedo do Zola e discutir-se-ia a alvorada do socialismo operário.

E.L. James vivia com um exemplar parecido, aborrecido, e estava a engordar e a beber gin perigosamente barato quando fantasiou um homem a partir de uma história de vampiros. Nem precisou de se esforçar muito, limitou-se a fantasiar um multimilionário dos anúncios de after-shave. O homem rico e bonito, primeiro rico e depois bonito, é uma constante na literatura cor-de-rosa desde a primeira Barbara Cartland ou a primeira Corín Tellado. Esta era uma senhora espanhola que escrevia assim: “ela recostou-se no seu peito peludo e forte”. O dele. Tellado escrevia sempre a partir da supremacia da personagem masculina sobre a feminina. E.L. James é a descendente disto, apurada na internet e na cultura de massas do século XXI. E quando digo massas estou-me a referir não às massas populares mas à grana, o pilim, a pecúnia, a prata, a guita, o cascalho, etc. Tiram a massa ao Grey e a pequena retira a venda dos olhos e apanha o táxi para casa. É isto. As mulheres não gostam de levar porrada, embora possam gostar de dar porrada, como se vê pelo exemplo de Glasgow. Talvez esteja na altura de mudar de enredo. E deixem o Sade em paz que não sabia o que era um par de Louboutins.

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2 pensamentos sobre “O mundo mudou

  1. Esperava outra coisa. Que desconsolo! Este artigo é quase uma “patetice”. Assinado por si, não se percebe.
    Então as mulheres não se importam de levar “porrada” desde que amaciada por muito dinheiro? Não as tinha nessa conta. As Mulheres não são assim

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    • Eu acho que a autora não defende esse cliché. Acho que ela defende que a credibilidade do argumento, só é sustentada na ótica de que o dinheiro “faz a felicidade”, e que acaba por comprar todos os sacrifícios, incluindo a “porrada”. Na verdade, as “mulheres não assim”, mas há mulheres assim. A questão é saber o que é a regra, e o que é a exceção. Não acho que a autora diga que tal situação é a regra. A refletir.

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