Urge lembrar o Massacre de Batepá (do português coloquial “Bate-Pá!”) atrocidade das tropas coloniais em S. Tomé e Príncipe, a 3 de fevereiro de 1953, em que foram fuzilados talvez mais de mil homens, mulheres e crianças, por motivos laborais e mera crueldade; o de Pidjiguiti, cerca de 50 mortos e 100 feridos, que deu início à luta de libertação da Guiné–Bissau, também por motivos laborais; o de Wiriyamu, na guerra colonial, a 16 de dezembro de 1972, com pelo menos 385 mortos da população civil.
Recordar o que foram as mortes em plena rua das cargas da GNR e da polícia de choque da PSP, é uma obrigação cívica, ainda que os requintes de crueldade e sadismo fossem atingidos pela PIDE nos interrogatórios e nas masmorras, e nos assassínios arbitrários.
Mas hoje é dia de recordar o Tarrafal, esse campo da morte e da tortura onde a brandura dos costumes, alegada pelo ditador vitalício, era a imagem do regime beato e amoral. Para recordar as vítimas do Tarrafal, deixo abaixo um texto já antes publicado.
Tarrafal – o Campo da Morte Lenta (89.º aniversário)
Há 89 anos, outubro era mês e 29 o dia em que, ao Campo de Concentração do Tarrafal, chegaram 152 presos políticos, onde era mais doce a morte do que o Inferno da vida que os torturadores lhes reservavam.
Foram 11 dias de viagem, de Lisboa ao Tarrafal, que a primeira leva de vítimas levou a chegar, grevistas do 18 de janeiro de 1934, na Marinha Grande, e marinheiros dos que participaram na Revolta dos Marinheiros de 8 de setembro desse ano.
O Tarrafal foi demasiado grande no campo da infâmia e do sofrimento para caber num museu. Salazar teve aí, no degredo da ilha de Santiago, Cabo Verde, o seu Auschwitz, à sua dimensão paroquial, ao seu jeito de tartufo e de fascista.
Ali morreram 37 presos políticos desterrados, na «frigideira» ou privados de assistência médica, água, alimentos, e elementares direitos humanos, alvos de sevícias, exumados e trasladados depois do 25 de Abril.
Edmundo Pedro, o último sobrevivente, chegou ali, com 17 anos, na companhia do pai. Como foi possível, tanto sofrimento no silêncio imposto pela ditadura?
E como é possível o esquecimento da democracia? Dói muito, dói pelo sofrimento dos que lutaram contra o fascismo e pelo esquecimento a que os votam os que receberam a democracia numa manhã de Abril com cravos a florirem nos canos das espingardas do MFA.
Nos anos de maior pujança socialista, o PSD agarrava-se à reserva moral de Cavaco Silva, o algarvio apreciador de bolos que, durante 30 anos, ocupou os maiores cargos públicos da nação, mas insistia que não era um político profissional, antes um professor de economia.
O homem das maiorias e dos rios de fundos comunitários, despejados em estradas, era o D. Sebastião laranja nos anos de Sócrates e no período áureo da geringonça.
O país mudou, um pouco a reboque da Europa, e o Aníbal, já mais mumificado, deixou de servir como referência. Deu o seu lugar a Pedro Passos Coelho, o homem providencial que foi apeado do poder por uma geringonça, apesar de ter vencido as eleições.
Nos anos seguintes passou pela oposição até se afastar, definitivamente, depois de perder copiosamente as autárquicas de 2017, dando início ao reinado de Rui Rio.
Passos Coelho foi o pior primeiro-ministro de que me lembro na idade adulta e aquele que, provavelmente, mais impacto teve na minha geração. Não negando a fase difícil em que pegou no país (numas eleições forçadas pelo PSD, convém lembrar), mais do que gerir as exigências da troika, Passos Coelho destacou-se por ir além das exigências de bancos e seguradoras, numa constante tentativa de se mostrar um bom aluno aos olhos de Angela Merkel.
Fez o que ninguém lhe exigiu e, nesse caminho, congelou as carreiras públicas, condenando professores e demais trabalhadores a um empobrecimento garantido durante uma década. Disse, em altura de plena convulsão social, que os trabalhadores não podiam ser piegas e que as fronteiras da UE estavam abertas. A emigração como consequência do governo de Passos Coelho só tem comparação com a que aconteceu na década de 60, na fuga à guerra colonial.
Passos Coelho era um jotinha com um currículo absolutamente miserável que, perto dos 40 anos, resolveu concluir um curso numa privada qualquer, para não andar nos bastidores da política com o 12.º ano e uma vida a abanar bandeirinhas. Fez o percurso clássico desde as jotas: parlamento, oposição, liderança do partido e acesso ao poder. Um percurso sem estudo ou entrevistas de trabalho, mas carregado de bastidores e amizades nos sítios certos.
Quando a geringonça de António Costa deixou Passos Coelho fora da cadeira do poder, ainda ali existia um político moderado de direita que, mesmo depois de abandonar a política ativa e ir dar aulas, não sei bem de quê, parecia estar em paz com a vida. Admito, de antemão, que a forma como a geringonça o atropelou possa ter causado um trauma que, à primeira vista não era óbvio. Pelo menos para mim.
Montenegro tratou de acabar com as linhas vermelhas e dedicou estes primeiros meses do mandato às políticas do Chega.
Rui Rio pegou no PSD e viu o crescimento da extrema-direita, traçando e respeitando sempre as linhas vermelhas no contacto com o partido fascista. Montenegro, quando sucedeu a Rio, ainda manteve o discurso do cordão sanitário ao Chega, numa altura em que vozes no PSD já defendiam o contrário.
Foi aqui que Passos Coelho começou a escolher os momentos para aparecer e deixar linhas orientadoras para o futuro, transformando-se no novo D. Sebastião laranja. Lembram-se, nos governos de António Costa, de que ex-vergonha laranja, entretanto recuperado pela CNN como senador, ia defendendo que o cordão sanitário não fazia sentido e que era necessário falar com o Chega? Miguel Relvas, o companheiro de Passos Coelho, mestre das equivalências e camarada da Tecnoforma.
O próprio Passos Coelho, nas raras aparições, reforçava essa ideia, dando a entender que o futuro, como ele o via, não incluía o combate ao fascismo, mas sim um abraço de consensos. Embora tenha achado Passos Coelho um péssimo primeiro-ministro, em 2017, quando ele se afastou, não era esta a ideia que tinha dele. De um pequeno ditador escondido no armário.
Não sei se o azedume da geringonça durante estes anos ou, eventualmente, a morte da mulher, transformaram o homem e, por arrasto, o político, mas o que vejo, sempre que Passos aparece nos dias de hoje, é um parceiro de jogo perfeito para Ventura.
A reserva moral do PSD, que já foi um partido com gente decente, é alguém que diz que por este andar, qualquer dia os Portugueses sentem-se imigrantes no seu próprio país. Ele, logo ele, que nos incentivou a fazer as malas e aliviar o erário público. É preciso ter uma lata fenomenal ou estar a dormir, todas as noites, com pijamas banhados a ódio e formol.
Montenegro, que apesar de rural (como diz o nosso Marcelo), não é propriamente estúpido, tratou de acabar com as linhas vermelhas e dedicou estes primeiros meses do mandato às políticas do Chega. O objetivo, assumo, é esvaziar, em simultâneo, o saco de Ventura e Passos Coelho.
De repente, é curioso constatar, nesta ânsia de ultrapassar o discurso de ódio de Ventura, a direita deixou-se enredar numa teia de saudosistas de Salazar. E é indiferente o alcance da nossa observação. Chega, IL, CDS e PSD estão embrulhados num discurso que, além da naftalina, já não é original. E se algo falhar, ficamos todos com a sensação de que Passos está ao virar da esquina para ajustar contas com o passado e partir o pouco que estes ainda não conseguiram.
Nunca a esquerda foi tão necessária e, ao mesmo tempo, quase inexistente. Tem de ser o povo, novamente, a ir para a rua.
Conhecido o desfecho das eleições no Benfica e vencida a ansiedade sobre o nome do presidente, o orgulho no record mundial de votantes fez esquecer o drama da falta de boletins e o gozo do fracasso das sondagens.
Podemos agora aguardar noticiários diversificados e passar a outros assuntos. A segunda volta ficou decidida com a enorme diferença que separa os dois candidatos mais votados na longa noite a que foi acrescentada uma hora.
Até passou despercebido o regresso de Marcelo, cuja ausência de Belém fora ignorada e o mau tempo impediu a visita à ilha do Corvo. É sina dos presidentes da direita, quando o país se cansa deles, empreender uma visita às mais pequenas parcelas lusas.
E ambos se esqueceram do Principado da Pontinha, junto ao Funchal onde, nos seus 178 metros quadrados, mal cabem os luzidios séquitos que os acompanham, sem contar com os numerosos jornalistas que Marcelo não dispensa. No fundo, é um Principado exíguo para tão excelso Príncipe.
São episódios notáveis que a História registará: a Marcelo, o mau tempo a recusar-lhe a deslocação ao Corvo, e a Cavaco, a agitação marítima normal a obrigar o Comandante Supremo a regressar dos Ilhéus das Formigas ao colo de um grumete.
É agora altura de apreciar o mérito do Governo que se apoderou da Pátria, que Marcelo transferiu ao Luís, e das suas vitórias retumbantes com tão parco reconhecimento para tamanho mérito. Só falta o reforço de Marques Mendes como notário em Belém, para a Revolução que promete.
O Governo começou a revolução com a mudança do logótipo da República e a ministra da Saúde continuou-a para resolver os problemas do SNS. Depois de gastar no INEM 4 presidentes, tomou uma decisão corajosa, alterou-lhe o nome para ANEM. O Governo começou com a revolução estética e prossegue agora com a revolução semântica.
Com a privatização das empresas que restam ao Estado, a Saúde a caminho de privados e das Misericórdias, a Segurança Social a adaptar-se ao mercado de capitais, torna-se urgente privatizar os Tribunais para julgar Galamba e arquivar rapidamente o problema da Spinumviva.