O terrorismo, esse pilar da democracia liberal

(Por José Goulão, in SCF, 06/06/2025, Revisão da Estátua)


Como é da praxe para quem tem sempre razão, os fins justificam os meios, sem dúvida um princípio fundador da democracia liberal.


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Primeiro Emmanuel Macron, agora Donald Trump. As duas vertentes transatlânticas da chamada “civilização ocidental”, ou “nossa civilização”, aparentemente tão desavindas nestes tempos, competem agora em Veneza ao chefe terrorista islâmico Abu-Muhammad al-Jolani, que sequestrou o poder em Damasco em 8 de Dezembro último.

Esqueçam todas as diferenças que se dizem existir entre a União Europeia e a administração Trump na Casa Branca. Nada disso é para levar a sério, muito menos as supostas críticas que as instituições federalistas e os chefes de governo da maioria dos 27 fazem ao desastrado indivíduo que governa os Estados Unidos da América. Quando se trata do chamado terrorismo islâmico e dos seus expoentes, seja a Al-Qaeda, o Isis ou o “Estado Islâmico” e a miríade de heterónimos com que se mimetizam, Washington e Bruxelas falam a uma só voz, a do apoio e da gratidão. Tem sido assim desde os anos 80 do século passado, mas a admiração e o afeto agora publicamente testemunhados pelo mercenário terrorista responsável pela carnificina da guerra contra a Síria fazem cair todas as máscaras, anulam quaisquer exercícios de hipocrisia.

Dr. Jekyll e Mr. Hyde

O culto da figura do carniceiro Abu Mohammad al-Jolani, agora conhecido como Ahmed al-Sharaa e vice-versa, é um tratado, ou poderá ser um estudo de caso sobre a “ordem internacional baseada em regras” pela qual se guia uma “civilização superior” como a ocidental, permanentemente envolvida no combate à “barbárie”.

Há um al-Jolani que foi alto conselheiro dos chefes da Al-Qaeda e do Isis, depois comandou a al-Nusra, uma designação adotada pela Al-Qaeda na Síria e a seguir alterada para Tharir al-Sham. Esta mobilidade semântica articulou-se de modo a tentar fazer crer ao mundo que a organização atuando no cenário sírio se divorciara do gangue fundado pela CIA e Bin-Laden e explica assim o seu lugar no núcleo dos terroristas “moderados” financiados pelo Ocidente. Mudaram os nomes mas a essência assassina manteve-se e a Al Qaeda continuou a ser o chapéu cobrindo toda a comunidade “moderada”. Nada a obstar. O então primeiro-ministro francês, o sionista Laurent Fabius, reuniu-se numa reunião da coligação internacional de apoio aos “moderados” que “a Al Qaeda está a fazer um bom trabalho” na Síria.

Al-Jolani, criminosos e mercenários que comandou alguns dos mais selváticos ataques contra civis praticados durante a guerra imposta à Síria, como que replicava o visual do seu ídolo bin-Laden: vestes tribais, cabelos em desalinho sob o turbante e barba longa e descuidada à “fundamentalista islâmica”. Numa palavra, Sr.

Ahmed al-Sharaa é visivelmente outra pessoa. Começou a apresentar-se ao mundo durante uma entrevista que lhe foi oferecida pela estação oficiosa da CIA, a Rádio Voz da América, e para a qual o equiparam à “ocidental”, um pouco apressadamente, há que dizê-lo. Nessa ocasião, o magarefe atualmente conhecido como “presidente interino” da Síria compôs desajeitadamente a figura de um “estadista” pronto para “a paz”, dispôs-se a defender uma sociedade democrática na qual seriam assegurados os direitos das minorias étnicas e religiosas, comunidades milenares que representam a própria essência nacional multifacetada do país. É no papel de al-Sharaa que al-Jolani caminha agora pelo exterior das fronteiras do seu país para receber as homenagens, os agradecimentos e as promessas de apoios generosos dos principais dirigentes mundiais, sempre obsessivamente empenhados na “guerra contra o terrorismo”. No encontro recente que teve com o presidente francês Emmanuel Macron, no Palácio do Eliseu, al-Sharaa discutiu até com o seu anfitrião uma plataforma de “coordenação na luta antiterrorista”. Nova palavra, Dr.

“Jovem, atraente e viril”

Fardando-se de al-Sharaa, enquanto os mercenários “islâmicos” comandados por al-Jolani prosseguem as operações de chacina contra as comunidades civis alauitas, drusas e cristãs – abandonadas que são pela “civilização cristã e ocidental” – o presidente “interino” lá foi até à Arábia Saudita, o seu berço na arte do terrorismo, ao encontro de Donald Trump. “Um tipo jovem, atraente e viril”, assim o retratou o presidente norte-americano, talvez embeiçado pelo fato Armani que ele envergava, em contraste com a camiseta cara, de marca e assinatura fascista mas de aspecto rasca que outro terrorista, Zelensky, apresentou na Casa Branca.

Tutor e protegido trocaram um caloroso abertura de mão em Riade na presença do verdadeiro chefe do regime sempre democrático saudita, Mohammed bin-Salman, o organizador do encontro. Para trás, como se percebe, ficaram as questões de alguns que Washington fez quando bin-Salman mandou sequestrar a Turquia e esquartejar em pedaços facilmente dispersáveis ​​o cidadão norte-americano e o jornalista Jamal Kashoggi, por sinal também agente da CIA. Tudo ficou esquecido e enterrado no passado, com os restos da pobre criatura.

Trump prometeu a al-Sharaa e ao seu regime golpista levantar todas as sanções económicas que os Estados Unidos impuseram ao governo de Bashar Assad, um executivo que estava legitimamente em funções segundo os mecanismos constitucionais e de acordo com eleições participadas em massa – porém manchadas com o pecado original de terem produzido resultados contrários aos “desejos”. Logo, por definição, as eleições foram uma burla; pelo contrário, o governo “interino” resultante de uma guerra terrorista imposta à Síria de fora para dentro é a garantia da restauração da democracia e da estabilidade no país, de acordo com os mais influentes dirigentes ocidentais. Este governo sim, deverá ficar isento de sanções para que seja possível “um novo começo”, declarou Trump na Arábia Saudita. Um “começo” que, no entanto, não deverá perturbar a continuidade de algumas actividades produtivas, como é o caso do roubo do petróleo do povo sírio pelos Estados Unidos da América.

“Ele é um verdadeiro líder, comandou uma experiência e é incrível”, testemunhou, rendido, o presidente norte-americano. “Tem possibilidade de fazer um bom trabalho e de manter a calma” na Síria. Calma é, certo, o atributo mais silencioso de al-Jolani.

Washington cancelou há algumas semanas a acusação de “terrorista” que pendia oficialmente sobre o presidente golpista sírio, embora a decisão seja omissa quanto à validade ou não da recompensa de 10 milhões de dólares prometidos a quem o capturar. Compreende-se que, apesar disto, Trump tenha selado com um aperto de mão o reconhecimento das funções políticas do seu interlocutor “atraente”. O mandado de captura foi emitido contra al-Jolani e não contra al-Sharaa, que não há mal-entendidos nem quaisquer insinuações mal intencionadas.

Estreia no Eliseu

Soube-se há poucos dias que al-Sharaa enviou uma carta a Trump pedindo-lhe que exercesse os seus bons ofícios para que fosse possível uma “normalização” das relações entre a Síria e Israel.

O assunto é música para os ouvidos do presidente norte-americano: remove mais um grande obstáculo à concretização do extermínio do povo palestino – a começar pela limpeza da “Riviera” de Gaza – abre caminho para transformação da Síria numa plataforma de ameaça constante, ou mesmo de guerra, contra o Irão e amplia o poder sionista, isto é imperial e do “mundo livre”, sobre a Ásia Ocidental. Um passo que facilita assim o entendimento tão desejado e estratégico entre não uma mas as “duas democracias” do Médio Oriente: Israel e Arábia Saudita.

Pelo que fica demonstrado o que são úteis e civilizadoras têm sido as organizações terroristas ditas “islâmicas”, designadamente a Al-Qaida e o Ísis, como instrumentos dos interesses ocidentais e braços armados da NATO.

Al-Sharaa tinha anteriormente levantado a questão da “normalização” das relações com Israel durante o encontro que o presidente francês lhe concedeu no Palácio do Eliseu, um acontecimento que parece ter embaraçado o aparelho de propaganda situacionista, uma vez que não beneficiou da merecida publicidade. Agora, com o aval do chefe do império, mesmo que seja Trump, tudo ficará claro e franco. Al-Sharaa tornou-se um dos “nossos”.

A visita ao Eliseu foi uma estreia , um verdadeiro teste de fogo para a transfiguração ocasional do terrorista al-Jolani no estadista e diplomata al-Sharaa.

Envergado o fato Armani e depois de uma passagem por Jean Louis David para aparar a barba e o cabelo no mais afamado coiffeur masculino de Paris, o presidente “interino” sírio arribou ao coração da V República Francesa onde foi recebido pelo pequeno grumete dos Rotschild’s. Macron apresentou-se com um fato do mesmo tom de azul e não disfarçou uma certa admiração ao mirar o homenzarrão árabe que tinha na frente. Evitou verbalizar o adjetivo “atraente” que Trump foi incapaz de conter; porém, somando o estilo de acolhimento aos frutos da conversa, percebe-se que o presidente francês ficou ali com um amigo para a vida. Dir-se-ia que al-Sharaa e al-Jolani, tirando a diferença de fardas, poderia ser uma e a mesma pessoa.

Emmanuel Macron manifestou ao visitante um certo receio pelo que julgava ser a contenção de Trump face à situação na Síria, uma vez que ainda não tinha reconhecido o novo regime. Preocupações infundadas, como se percebeu pouco depois através dos acontecimentos em Riade. O presidente francês prometeu a al-Sharaa envidar esforços, não só com a União Europeia mas também com os Estados Unidos, para conseguir um “levantamento gradual” das sanções e travar qualquer intenção de Washington de retirar as tropas de ocupação que mantém ilegalmente na Síria. Afinal, verifica-se que há uma harmonia total entre os dois lados do Atlântico, as sanções serão levantadas e as tropas ficarão.

Os formalistas poderão argumentar que Macron não representa a União Europeia porque talvez a desnorteada agremiação dos 27 ainda não tenha interiorizado completamente a muito favorável relação custo-benefício da estratégia golpista, terrorista e segregacionista montada para destruir Estados poderosos, como era o sírio.

As reservas formalistas, porém, não tiveram qualquer razão de existir porque a democracia liberal continua a fortalecer-se e a ampliar estrategicamente as capacidades para exercer um poder cada vez mais firme e discricionário através da integração dos conceitos de terrorismo, racismo e genocídio no seu património de valores. O resultado pode ser cada vez mais autoritário, mas nada que embacie o fulgor da democracia na qual nos debatemos.

Além disso, Bruxelas já deu sinais de ter aceitado sem constrangimentos a nova situação na Síria. Logo em Janeiro de 2025, um mês depois de consumado o assalto dos mercenários terroristas a Damasco, os ministros dos Negócios Estrangeiros de França e da Alemanha, depois Jean-Noel Barrot e Annalena Baerbock, viajaram até à capital síria em nome da União Europeia para se avistarem com o novíssimo presidente “interino”.

No Eliseu, al-Sharaa pediu que a França “garanta apoio à fragilidade da Síria” e “ajude a restaurar a ordem e a reconstruir um país devastado por 14 anos de guerra”, situação de que al-Jolani foi um dos grandes responsáveis ​​mas que também já ficou lá atrás, enterrado nos escombros e no passado, como centenas de milhares de seres humanos inocentes.

O visitante sírio acordou com Macron uma “coordenação antiterrorista” e espera-se que os alvos desta convergência operacional continuem a ser as comunidades civis alauítas, drusas e cristãs indefesas, vítimas de massacres cometidos sob o pretexto de combater os remanescentes do Exército Nacional Sírio.

Al-Sharaa também abordou em Paris o que parece ser o seu objetivo prioritário: a “normalização das relações” com Israel. É verdade que o aparelho militar sionista bombardeia diariamente o território sírio, incluindo Damasco, e ocupa vastas zonas do sul, muito para além dos montes Golã. E nós sabemos o que acontece quando o Estado sionista ocupa territórios vizinhos. Numa primeira fase, segundo declarações oficiais, Telavive exige que esses territórios sejam “desmilitarizados”.

Nada disto, porém, desencoraja o presidente “interino” da Síria: “há negociações indiretas com Israel através de mediadores para diminuir as indiretas e evitar a perda de controle”. Ao continuar a guerra diária de desgaste, Israel está apenas a fazer subir o preço de um próximo acordo, mas bem poderia poupar munições e vidas humanas, apesar de isso não representar qualquer lucro: o “governo” de al-Sharaa/al-Jolani não poderá vir a render-se ao sionismo mais do que já se rendeu.

Seguindo o fio da história recente, compreende-se a atitude até um pouco obsessiva do senhor de Damasco na direcção ao Estado sionista. Lá no fundo, afinal, ele é grato e não esquece quem sempre o ajudou. Nos picos das operações terroristas contra a Síria, Israel disse presente quando se tornou necessário evacuar mercenários “islâmicos” feridos para hospitais de campanha montados nos Montes Golã ocupados ou mesmo para hospitais no interior de Israel. Al-Jolani/al-Sharaa tem certamente na memória, como muitos de nós, as imagens registradas durante as solidárias e carinhosas visitas hospitalares do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu aos terroristas da Al-Qaeda e do Isis feridos. O comportamento suscitou algumas reservas tímidas nos Estados Unidos. O “Wall Street Journal” contactou uma “fonte militar israelita” sobre o assunto, que se explicou assim: “Não perguntamos quem os feridos são, não pesquisamos as suas origens; logo que têm alta mandamo-los para a fronteira para seguirem o seu caminho.” Menos pragmático foi outro “alto dirigente” político israelita denunciado pela imprensa norte-americana e que disse que “uma derrota da Al Qaeda” na Síria seria “um desastre” para Israel. Felizmente para o sionismo e para a “civilização ocidental”, a Al Qaeda não foi derrotada.

Numa perspetiva democrática, ocidental e civilizacional, pode dizer-se, em relação à Síria, que tudo está bem quando acaba bem. O mesmo deve ser lembrado em relação ao Afeganistão, ao Iraque, à Líbia, sem esquecer a Palestina. O recurso a grupos e regimes terroristas revelou-se um ovo de Colombo, uma estratégia vencedora nos objectivos inquestionáveis de consolidação da democracia liberal.

O massacre de milhões de seres humanos, seja na Síria, na Palestina, na Ucrânia e noutros países completamente devastados pela guerra, é um preço que vale a pena pagar, como disse a humaníssima Madeleine Albright a propósito do massacre de inocentes – 500 mil crianças – em resultado das sanções económicas contra o Iraque. Afinal, o que está em causa é a defesa da “nossa civilização” e dos “nossos valores”. Como é habitual para aqueles que têm sempre razão, os fins justificam os meios, sem dúvida um princípio fundador da democracia liberal.

Fonte aqui.

Francisco, a paz e a romaria dos hipócritas

(Por José Goulão, in SCF, 08/05/2025)


Francisco foi um irmão mais velho, sábio e presente para católicos, não católicos e não cristãos, religiosos, agnósticos e ateus.


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Começou a jorrar a pungente enxurrada de palavras laudatórias dos governantes deste mundo para expressar sentimentos que não existem, cumprir conveniências protocolares, identificar-se com tudo o que desprezam, exibir falsas comoções, tirar proveito de um acontecimento de que amanhã já não se lembrarão porque é fundamental regressar à vidinha reles e predadora do costume.

A morte do Papa Francisco é, inegavelmente, uma perda para o mundo. Não como chefe da Igreja Católica mas como homem universalista e humanista que soube evitar e contornar as questiúnculas vaticanas, velhas de séculos, para se dedicar a pensar e a agir sobre as coisas do mundo e da humanidade; as coisas que nos levam por caminhos transviados, quem sabe se fatais e que o Papa, não como santo mas como ser humano, tentou travar com a sua sensibilidade e espírito fraterno.

A comunidade dos hipócritas que dirige o mundo, conduzindo-nos para precipícios que Francisco identificou como facilmente evitáveis se os homens, e as mulheres, tivessem a boa vontade que extravasa, em muito, as palavras dos textos religiosos, não hesita agora em tirar proveito do seu falecimento com denodo vampiresco.

O Papa que agora nos deixa, chefe de uma instituição que dificilmente encontrará outro à sua altura, porque não saberá (nem quererá) navegar contra a corrente com a coragem e lucidez de Francisco, deixa órfãos os desprotegidos, os marginalizados, os pobres, os refugiados e migrantes, os povos das periferias, os que sofrem na carne os efeitos dos crimes ecológicos praticados pelos que enchem a boca com o combate (falso) às alterações climáticas, enfim os milhões de seres humanos que enfrentam os terrores das guerras gananciosas impostas pelos interesses de castas desumanizadas e as minorias do dinheiro.

A coragem e a lucidez de um pacifista

Francisco foi um homem corajoso e lúcido. Corajoso porque não teve de receio de usar a palavra contra os carrascos do ser humano que, tentando embalar-nos com conversas mansas das quais apenas sobra a mentira, não hesitam em criar infernos em vida e ameaçar as nossas existências. Lúcido, porque soube ler o mundo como poucos na comunidade internacional, traçando impiedosamente os retratos dos malfeitores e inconformando-se com os horrores das malfeitorias, apesar de os atingidos olharem sempre para o lado, fingindo que nada era com eles enquanto, cinicamente, lhe faziam os salamaleques da praxe.

O Papa que agora nos deixa extravasou em muito o catolicismo e o cristianismo. Mesmo no interior das instituições da sua fé e das comunidades dos crentes muitas vezes não foi bem aceite pelas correntes tradicionalistas, as mesmas que, simultaneamente, se acomodam, e até defendem o que de pior existe à face da Terra.

Francisco selou a sua presença na história do catolicismo mas, principalmente, da humanidade porque no seu tempo combateu sem hesitar os dois verdadeiros demónios que perseguem e abatem os seres humanos: o neoliberalismo e a guerra.

O sacerdote argentino que tanto sofria com o seu pobre povo cruelmente entregue ao estado mais extremo do neoliberalismo, nunca foi manso para com esta doutrina económica, social e política que despreza o ser humano em nome da liberdade, que o oprime mergulhando-o na pobreza como caminho para a sempre longínqua e assim inatingível abastança, que o mata garantindo-lhe independências e soberanias a que são intrinsecamente avessos. O desumano neoliberalismo globalista são a sua meta; a justiça social, o respeito pelo ser humano, a dignidade da vida, a paz e a convivência fraterna são as luzes pelas quais o falecido Papa se guiava.

Francisco foi, por tudo isto, um homem contra a corrente, na realidade um corpo estranho neste mundo e que não desistiu, até ao fim, de o tentar modificar, de o tornar um lugar adequado para o florescimento da dignidade do ser humano, de todos os seres humanos. Por isso, o Papa não se identificava, e nunca deixou de condenar, esta preciosidade ocidental de se comover, justamente, com o sofrimento e o drama dos ucranianos mas desprezar e ser até cúmplice da matança e do genocídio do povo palestiniano. O Papa jamais perdoou e seria capaz de perdoar e segregacionismo e a xenofobia que estão no ADN dos hipócritas. Ele amou especialmente todos os povos vítimas de guerras, e não apenas as terçadas com armas.

Neste domingo de Páscoa, nas suas derradeiras e esforçadas palavras, Francisco teve a energia sobre humana necessária para lembrar os pobres, os desprezados, as minorias perseguidas, os excluídos das periferias, as vítimas do racismo e da xenofobia, os refugiados e migrantes, solidarizando-se com estes como vítimas da ganância e das guerras impostas aos seus países. E não deixou de responsabilizar, mais uma vez, a doutrina que identificou explicitamente como responsável por essas expressões de miséria: o capitalismo e a sua versão extrema, o neoliberalismo.

Um combatente pelo desarmamento

E Francisco, horror dos horrores, defendeu a paz.

Não uma paz abstracta como apregoam os que a procuram e garantem estar no final das guerras. Mas sim a paz que desprezam e nos proíbem de invocar e defender sob pena de sermos considerados traidores e servidores dos inimigos que nos espreitam em cada canto. A paz que se encontra falando, compreendendo e negociando e não espalhando a pobreza e a morte porque são necessárias armas, mais armas, cada vez mais armas e mais sofisticadas, capazes de tornar sempre maiores as multidões de inocentes assassinados e fazer transbordar os cofres dos magnatas da morte.

É verdade, Francisco defendeu o desarmamento sem poupar a indústria armamentista e respectivos frequentadores como um dos grandes flagelos deste tempo. Guardou até para apelar ao desarmamento as suas derradeiras palavras proferidas, a custo, num Domingo de Páscoa. Adivinhem: os que agora dizem lamentar o seu desaparecimento nunca o escutaram, fingiram-se moucos. Para eles, o Papa era alguém que tentavam identificar com as suas desprezíveis imagens e semelhanças; não o Papa que jamais se esqueceu das verdadeiras vítimas desses hipócritas, refinados vendilhões do Templo.

Os chefes e as cliques governantes da União Europeia, de Marcelo e quejandos aos confins do Báltico proferem agora as palavras banais, protocolares e de circunstância, expressam sentimentos que não têm a não ser nas carteiras e contas bancárias, pronunciam, a contragosto, a palavra paz enquanto montam exércitos e atafulham o continente europeu de armas, vestem as suas mais caras e negras fatiotas para irem em romaria e alinharem-se, quiçá para a foto de família, nos tapetes do Vaticano. Francisco dispensaria a sua presença, mas eles acham-se sempre indispensáveis e bem vindos mesmo quando ninguém os convida. Lagarde, a senhora do dinheiro, a par de Van der Leyen, a senhora da guerra e Costa, servidor babado de tudo isto, não faltarão. Por aí se percebe o tipo de gente a quem estamos entregues e que o Papa argentino, perceptivelmente, não tinha em grande conta.

Francisco deixa muitas saudades e um vazio que provavelmente tão depressa não será preenchido. A hierarquia da Igreja Católica, que não a imensa multidão dos fiéis, tem grande habilidade para emendar os seus “erros” movendo-se e conspirando com uma experiência de dois milénios no silêncio dos corredores vaticanos. Como foi o caso de João Paulo I, prometedor homem de bem que não resistiu mais de 33 dias na cadeira de Pedro, o pescador, logo substituído por Wojtyla ou João Paulo II, o Papa do neoliberalismo, da unipolaridade imperial, arauto de um catolicismo com ressonâncias medievais.

Francisco foi um irmão mais velho, sábio e presente para católicos, não católicos e não cristãos, religiosos, agnósticos e ateus, muitos dos que, não comungando da sua doutrina e conceitos filosóficos, o admiraram como homem e humanista, certos de que nele podiam confiar.

Defendia conceitos de vida terrena pelos quais nos vale a pena lutar para retirar o mundo do pântano onde mulheres e homens degenerados pelo poder e o dinheiro o vão mergulhando. Estes são dias tristes e, ao mesmo tempo, dias que a cáfila dos hipócritas e fanáticos da guerra anseia para poder desfilar e brilhar.

Fonte aqui.