Da euforia à depressão

(Por Estátua de Sal, 30/06/2018)

ronaldoy

Era um sonho lindo a caminho do estrelato maior. A Europa, já não nos chegava. Queríamos abraçar o Mundo e subir ao pico mais alto- De Campeões Europeus a Campeões do Mundo. Sim, porque a Europa está meia moribunda e já não é o que já foi, o centro do Mundo, e já não nos bastava.

Em tempos abraçámos o Mundo e chegámos aos confins. Lá chegámos à custa de muita lágrima, destemor, e a nossa arma era a caravela. Agora, queríamos lá chegar e repetir o feito à custa da trivela. Em tempos foram os Gamas, os Cabrais, os Albuquerques. Agora seriam os Patrícios, os Quaresmas, os Silvas, os Carvalhos e os Ronaldos os grandes conquistadores. Mais plebeus, menos brasonados, com menos fidalguia, mas ainda assim com a mesma têmpera.

Enchemos as praças, e demos as mãos para criar um arco voltaico de energia que fosse de Sagres até Moscovo, ou melhor ainda, até às praias do Mar Negro, até Sochi. As cartomantes deitaram as cartas e leram nas estrelas que iríamos ser grandes de novo. Na ponta das chuteiras, os deuses protectores do nosso destino, iriam levar-nos outra vez para além da Taprobana, e suplantar essa apagada e vil tristeza, que tão bem cantou o nosso poeta maior.

Mas não foi assim. O Diabo era azul e cavou o nosso sonho numa sepultura de desilusão. Cavou, ou melhor, cavaniou, a nossa quimera e mandou-nos regressar mais cedo a Lisboa do que a nossas esperanças e fé ditavam. Lisboa onde o Velho do Restelo já tinha alertado para as fraquezas da nossa armada de conquistadores e proclamado que, desta vez, de Montevidéu não sopravam ventos favoráveis e que se insistíssemos em navegar à bolina, o naufrágio seria certo.

Agora, as praças estão vazias. Afogamos as mágoas na consolação de que, ainda assim, somos os melhores e que os nossos santos, anjos e arcanjos, não cumpriram a sua parte. Estamos estupefactos porque não sabemos bem porque o fizeram, nós o povo dessa terra de Santa Maria que sempre pagou as suas promessas e sempre evitou ofender as divindades.

E com a tristeza vem a dúvida. Se calhar somos menos capazes do que julgávamos. É a nossa ancestral bipolaridade lusitana. Choramos. Choramos menos de raiva do que de impotência e incredulidade. Quando a realidade nos derruba, as nossas quedas causam sempre fracturas graves porque caímos sempre das altitudes da montanha, lá onde os nossos sonhos teimam em morar.

Choramos, e os jogadores choram. Já não vão ser recebidos como heróis, e aclamados como deuses, mas sim como simples mortais que não conseguiram da lei da morte libertar-se. Sim, é Camões, de novo o nosso poeta maior. Nem ele lhes valeu e lhes transmitiu a gesta necessária da Nação na hora do remate. Nem ele nem os nossos santos milagreiros, à excepção de um, São Marcelo. Ele sim, ele lá estava na hora do consolo e no tempo de afogar as mágoas.

Mas não chegou. Selfies e beijos não marcam golos nem impedem que as tormentas do desânimo nos assaltem. Amanhã é outro dia e vamos ter dificuldade em acordar com o choque da realidade a pesar-nos nos ombros. Já não vamos ser Campeões do Mundo, de novo conquistadores do mundo. Estamos outra vez reduzidos ao nosso cantinho, barões assinalados nesta ocidental praia lusitana…

 

Trivela, a obra de uma vida inteira

(Vítor Matos, in Expresso Diário, 26/06/2018)

quaresma

Bom dia!

Aquele golo bastava-nos. A tabelinha, tic-tac, a finta, e depois o remate inesperado com a parte de fora do pé, e o efeito fatal ao ângulo. Experimente rematar uma bola assim para ver onde ela vai parar, diz-se uma “trivela“, direitinha às redes, não se quer acreditar, se fosse escrever aqui um lugar-comum diria que foi uma obra de arte, mas aquilo foi sobretudo um trabalho profissional, daqueles que se concretizam quando alguém consegue pôr num gesto tudo aquilo que sabe de um ofício que aperfeiçoou ao longo de uma vida inteira.

 Quaresma bastou-nos ontem à noite, encheu-nos de futebol, para dormimos descansados depois do sofrimento final contra o Irão. Desta vez, Ronaldo falhou-nos. Acontece.

Os melhores profissionais têm destas coisas, tanto acertam que um dia também falham, só que quando se é o melhor do mundo não há desculpa possível, já tinha quatro golos marcados, este seria o quinto, podia ver-se a angústia do avançado perante o guarda-redes enorme dentro da pequena baliza antes do penálti. Como consolo, sirva-nos a estatística, ninguém marca sempre, imaginem um jogador que concretiza 100% de penalidades, nem o Maradona nem o Baggio nem o Platini, esses falharam penaltis inesquecíveis em mundiais, pois os génios também erram, e serve-nos de consolo, humaniza quem olha para o Cristiano como um super-homem. O problema é que um penálti falhado é um golo a favor da equipa adversária e assim foi, parecia impensável que os iranianos marcassem, mas marcaram, a bola é redonda e o VAR é retangular, por mais que veja as imagens não vejo ali nada, nem mão nem coisa nenhuma, mas é que uma pessoa perde o discernimento com os nervos e decerto perdi também algumas faculdades momentâneas de visão acompanhadas de palavreado pouco apropriado. Mas parece que o Alan Shearer é da mesma opinião, ou tem os mesmos defeitos oculares para não ver ali a penalidade, diz que é uma “farsa” valha-nos isso, que o homem é inglês e deve ser mais imparcial do que nós.

Aquele tempo extra foi uma coisa terrível, com os espanhóis a marcarem aos marroquinos no outro estádio, a malta a começar a fazer contas no sofá e os iranianos a pressionarem, um país inteiro nisto – aliás, duas velhíssimas nações inteiras nisto, persas e portugueses -, mas afinal o apito final chegou. Apanhamos o Uruguai nos oitavos, talvez seja melhor do que defrontar os russos todos acesos em casa e em Moscovo, agora venha quem vier temos pelo menos mais 90 minutos de sofrimento garantido. E talvez o público russo saia a nosso favor, a pedir ao altíssimo para golearmos o Uruguai, como vingança divina pela humilhação que infligiram à velha Rússia.

Houve outros sustos. Se o meu coração foi acelerando até aos 96 minutos, parou e congelou o da Lídia Paralta Gomes, enviada ao Mundial e que escreveu a crónica do jogo aqui na Tribuna Expresso. Parou quando viu a bola “lá dentro, a balançar na rede”, isto de quem torce por um país tem que se lhe diga, eu não vi a mão do Cédric, e a Lídia parecia-lhe que Taremi tinha metido a bola para lá de Patrício. Tremi, trememos todos, e depois passámos uns três minutos demasiado longos com o credo na boca, prova de que o tempo é uma coisa demasiado relativa.

Como nem só de golos se faz um jogo, houve um homem que fez mais ainda a diferença: Pepecomo nos conta aqui o Pedro Candeias, editor de Desporto do Expresso e da Tribuna, que o elegeu como o melhor em campo: “Nunca é tarde para agradecer a alguém que decidiu escolher Portugal ao Brasil, um ato de fé que é também uma extraordinária prova de amor a um país”. E se alguma vez viu “um beto substituir um cigano em funções consideradas vitais para um país e correr bem?”, então leia aqui análise jogador a jogador, do Vasco Mendonça (de Um Azar do Kralj). Ou outra análise pelo Diogo Faro, que começa assim: “Quando vierem 476 iranianos a correr com a bola, (…) gritemos: “Ó PEPE ANDA CÁ SALVAR ISTO, POR FAVOR!” Para desempatar, há uma perspectiva feminina, da Catarina Pereira, do Lá em Casa Mando Eu, a lembrar com ironia que “as mulheres iranianas já podem entrar nos estádios (viva!), mas os nossos médios mais ofensivos ainda não”.

Se não passou o serão de ontem a ver programas de comentário sobre as incidências do jogo, pode ler aqui que no fim da partida Quaresma ficou chateado porque “o treinador [do Irão], é português e deve respeitar mais os portugueses” e noutra peça, saber o que disse Carlos Queirós, que se queixou do video-árbitro sobre Ronaldo: “Não vou ser simpático com o que aconteceu”.. Ou perceber o alívio de Fernando Santos, que criticou William por andar “meio perdido, porque queria arrastar o 20 deles”. E ainda as declarações de João Mário sobre o VAR ou de Arien sobre a passagem aos oitavos.

É claro que o quadro não fica completo sem perceber o que aconteceu a Espanha, que apesar de tanta tabelinha, futebol curto, posse de bola e talento, chegou a estar em risco, quase derrotada por Marrocos. Mas não. Empatou quase no fim do jogo e agora defronta a Rússia em casa e em Moscovo. Era onde Portugal devia estar, mas ainda bem que não está. O Diogo Pombo escreveu a crónica do jogo na Tribuna: “A Espanha continua a ser a Espanha que faz 762 passes em hora e meia. Ainda é insuperável no centro do campo, mas também parece ser, cada vez mais e por força do contexto deixado por um treinador despedido, falível na própria área e ineficaz (e pouco esclarecedora) na área adversária.” Sábado há mais.

Mundial de futebol 2018

(Carlos Esperança, 19/06/2018)

forçap

Que na euforia do futebol e na loucura pelo ídolo nacional se esqueçam os pés de barro que abateram o colosso no campo da ética e do exemplo que devia ser, é a atitude que se compreende quando o coração manda mais do que o cérebro, e a virtude está nos pés.

Que o PR, que tudo comenta, não se comprometa com uma simples frase que pode pôr em risco a própria popularidade, laboriosamente construída, incêndio a incêndio, missa a missa, beijo a beijo, abraço a abraço, na explosão de afetos que prodigaliza, é natural. Há um segundo mandato à espera e o coração dos portugueses a pulsar ao mesmo ritmo, com extrassístoles sentimentais sincronizadas com as do PR dos afetos.

Que a beleza de um desporto e o sortilégio da sua execução nos arrebatem e transportem para a euforia, a que nem os mais calmos resistem, compreende-se. Perdoam-se pecados mortais no êxtase de irrepetíveis alegrias.

Difícil é entender que o virtuosismo dos pontapés na bola possa ser contaminado pelos pontapés na ortografia, num desvario que assusta os incautos e estarrece os humanistas.

Numa viagem por murais do Faceboock encontrei muitos amigos a arriscar o pescoço numa moldura que me levou a pensar no regresso da pena de morte, de cuja abolição Portugal foi pioneiro. Era o meu orgulho ferido, a deceção com excelentes amigos, uma angústia cuja relação com o desporto não compreendia.

Era apenas a falta da cedilha a transformar o ânimo que, no íntimo, se queria transmitir, num aparente apelo troglodita a um passado de barbárie.

Felizmente é ‘só’ uma prevaricação ortográfica em que até os mais zelosos se deixaram cair. Fiquei mais descansado.

Força, Portugal!