Senhor Presidente, não havia necessidade

(Anselmo Crespo, TSF.PT, 07/01/2019)

marcelo cristina

Não havia necessidade mas ele está em todas – Imagem in BLOG 77 Colinas

Tenho o maior respeito por Marcelo Rebelo de Sousa. Pelo professor, pelo político, pelo comunicador, e, mais recentemente, pelo Presidente da República. Tenho elogiado várias vezes o papel importante que ele tem tido desde que chegou ao Palácio de Belém. Durante a tragédia dos incêndios em 2017, no caso do assalto a Tancos e na forma como tem exercido a sua magistratura de influência junto do Governo, da Assembleia da República e do País.

Nunca me juntei aos que o criticam pelo estilo mais popular – ou popularucho, conforme os casos. Pelo contrário. Acho que ele percebeu cedo que o país precisava de um Presidente diferente no conteúdo, mas, sobretudo, na forma. E ninguém melhor que Marcelo para interpretar e saber equilibrar-se nesse limbo da política, que tanto pode atirar para níveis de popularidade avassaladores como pode fazer cair no ridículo e no descrédito.

A popularidade tem sido, de resto, a principal arma política de Marcelo Rebelo de Sousa. Deu-lhe, até hoje, o crédito de que precisava para poder “demitir” uma ministra em direto na televisão. Para forçar o Governo a fazer o que não queria. Para evitar males maiores na manifestação dos coletes amarelos em Portugal. Isto só para citar alguns exemplos.

Admito que a omnipresença do Presidente primeiro estranha-se, depois entranha-se. Mas a verdade é que esta estratégia do Presidente da República tem produzido resultados positivos, para o país e, claro, também para ele. Aristóteles dizia que a função principal da política era atender aos interesses dos cidadãos e Marcelo – ainda que nem sempre isento de erros – tem-no feito.

Mas há um lado de superstar – que as suas participações televisivas terão exponenciado – que confesso que me faz alguma confusão. Não porque Marcelo Rebelo de Sousa não tenha todo o direito de o cultivar. Mas porque ao Presidente da República cabe também um papel institucional, que se perde de cada vez que o banaliza.

O telefonema para o programa de Cristina Ferreira, esta semana, está longe de ser uma coisa inédita. Em fevereiro de 2017, Marcelo já tinha pegado no telefone para dar os parabéns ao diretor da Rádio Comercial, em direto. Fátima Lopes agradeceu-lhe, também em direto, o telefonema que recebeu depois do divórcio. A diferença, desta vez, é o contexto e só por isso decidi escrever este texto. A chamada para Cristina Ferreira surge depois de o programa concorrente – apresentado por Manuel Luís Goucha – ter levado a estúdio um criminoso fascista chamado Mário Machado, provocando com isso uma polémica daquelas boas, que dão audiência. Falem bem ou falem mal, mas falem. E, sobretudo, vejam.

Ao tomar a iniciativa de ligar para Cristina Ferreira para lhe desejar boa sorte para o novo programa, o Presidente da República não só entrou nesta guerra de audiências, como permitiu que daqui se extraíssem conclusões – porventura erróneas – de que o mais alto magistrado da nação estaria, indiretamente, a tomar posição sobre o convite que a TVI fez a Mário Machado.

Marcelo veio, entretanto, explicar que quis compensar a apresentadora da SIC por não lhe ter dado uma entrevista, como havia feito com Manuel Luís Goucha há umas semanas. Mas a explicação é, em si mesma, a prova de que não devia ter feito aquela chamada. É, em primeiro lugar, a demonstração de que muita gente não compreende como é que um Presidente da República se presta a este papel. Em segundo lugar, porque o país e o Presidente têm assuntos muito mais importantes com se preocupar do que perder tempo com explicações sobre telefonemas para programas de entretenimento.

E, por fim, porque Marcelo Rebelo de Sousa pode e deve fazer as chamadas que quiser, dar os parabéns, desejar boa sorte, feliz Natal ou fazer votos de bom ano a quem quiser que ninguém tem nada a ver com isso. Mas sempre que opta por não o fazer em privado, mas em direto, é o Presidente da República que o está a fazer. Por muita popularidade que isso lhe granjeie, não havia necessidade.

Confesso que não consigo evitar algum sentimento de vergonha, que não alheia, ou não fosse Marcelo o Presidente de todos os portugueses.


Fonte aqui

Marcelo e a lei dos despejos

(Carlos Esperança, 04/08/2018)

marcelo_veto.PNG

Com o risco de errar, limito-me a manifestar perplexidade pelo teor da nota divulgada no site da Presidência, em que o PR devolve, sem promulgação, o diploma apresentado pelo Bloco de Esquerda ao parlamento, por “duas razões específicas”:

1 – O “facto de, tal como se encontra redigida [a lei], a preferência poder ser invocada não apenas pelos inquilinos para defenderem o seu direito à habitação, mas também por inquilinos com atividades de outra natureza, nomeadamente empresarial”.

2 – Não estarem indicados “os critérios de avaliação para o exercício do direito de preferência, que existia em versão anterior do diploma”.

Não é o facto de o projeto de lei ter os votos a favor do PS, BE, PCP, PEV e PAN ou os votos contra do PSD e CDS, que faz boa ou má a posição do PR. Aliás, se a votação se repetir, é obrigado a promulgar (se estou errado, haja um jurista que me corrija, e não é esse o ponto importante).

Entendo que os inquilinos de casa de habitação e empresários, devem ter sempre direito de preferência na compra, por exercerem importante vigilância sobre preços simulados. Protegem os interesses fiscais do Estado e evitam as numerosas burlas que o lesam.

Não sei que interesses defendia a direita e não compreendo a decisão do PR que parece exercer o exótico direito de pernada. Este é um caso em que a unanimidade se impunha, a menos que a direita quisesse defender os empresários, pois não acredito nos votos do PSD e CDS para defesa dos inquilinos nem nos da esquerda para os prejudicar.

O PR é impoluto e incapaz de cumplicidade em assuntos que lesem o Estado, mas, a ter sido assessorado pelo seu assessor jurídico Nogueira de Brito, sócio de firma que presta serviços a fundos imobiliários (MLGTS), que tem clientes com interesses no setor, pode ter tomado uma opção infeliz ( Ver aqui)

A ser verdade o que li, não duvidarei da honestidade do PR, mas da parcialidade do seu assessor.

Marcelo Rebelo de Sousa, crente

(In Blog O Jumento, 26/12/2017)

marcelo_reza

Começa a ser cansativo e até mesmo enjoativo ter de assistir às homilias de Marcelo Rebelo de Sousa sempre que decide que o país deve acompanhar as suas celebrações eucarísticas, como se o proselitismo tivesse acampado em Belém, exercendo agora a Presidência o seu papel numa visão evangélica da sua missão.

Mas ver um Presidente da República, à saída de mais uma das suas muitas missas a que gosta de ir e levar o país através das televisões país, citar a homilia do bispo que se este fosse um guia espiritual do país, devendo ser ouvido, seguido e citado por um Presidente da República começa a ser exagero. Como também é um exagero o Presidente apelar a uma espécie de peregrinação nacional a Pedrógão para ajudar a região, inventando uma nova modalidade de turismo, o turismo caridoso, onde se mistura a solidariedade com o voyeurismo social, com muita gente caridosa a ir a Pedrógão manifestar a sua pena aos indígenas promovidos a vítimas.

O Presidente teve uma ideia brilhante, depois do turismo das praias, da gastronomia, das aves e da cultura teremos o turismo das vítimas, como o país está na moda podemos vender itinerários a estrangeiros como “viste o Portugal ardido”, “Visite as estradas onde se morre” ou “venha conhecer a rota dos AVC”.


«À saída da missa que se celebrou na Igreja Matriz de Pedrógão Grande, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, falou com os jornalistas, num dia de Natal em que o chefe das Forças Armadas passa em regiões afetadas pelos fogos deste ano. Em declarações, o Presidente afirmou: “Acho que as pessoas não podem nunca esquecer, e não esquecer é estar presente”.

Após a celebração eucarística que começou às 11h30, o Presidente da República disse, quanto aos esforços para a recuperação dos danos causados pelos incêndios, que “as pessoas arregaçaram as mangas e recomeçaram as suas vidas”. O chefe de Estado disse ainda que as pessoas “começaram a partir para um futuro diferente e felizmente houve um grande apoio por todo o país”. Marcelo Rebelo de Sousa mencionou ainda que é necessária a presença de todos, ressalvando a importância de “autarcas, instituições e da Igreja” para as recuperação dos danos dos incêndios.» [Observador]