O Grande Israel e o Mashiach vitorioso

(Por Alexandre Duguine, in Reseau International, 25/12/2024, Trad. Estátua de Sal)


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Uma mudança fundamental está a ocorrer em todo o mundo na imagem de Israel e, talvez também, entre os próprios judeus. Os judeus da Europa despertaram sentimentos de piedade, simpatia e compaixão após a catástrofe que experimentaram sob Hitler durante a Segunda Guerra Mundial. Foi isto que tornou possível a criação do Estado de Israel. O Holocausto ou shoah, isto é, os horrores e as perseguições sofridas pelos judeus, tornou-se a base do acordo unânime: depois de tanto sofrimento, os judeus simplesmente tinham o direito de criar o seu próprio Estado. Este tornou-se o capital moral dos judeus e definiu uma atitude sagrada em relação ao Holocausto.

Os filósofos da Escola de Frankfurt proclamaram que devemos agora pensar a partir de Auschwitz. Isto significa que a filosofia, a política e a moralidade devem agora ter em conta a escala dos crimes cometidos pelos Europeus (principalmente os Alemães) contra os Judeus e que o Ocidente, e portanto toda a humanidade, deve arrepender-se.

A imagem dos judeus como vítimas é a sua pedra angular. Eleva os judeus à categoria de povo santo: todos os outros povos são convidados a arrepender-se e a nunca esquecer a sua culpa. Agora, qualquer alusão ao antissemitismo, e muito menos tentativas diretas de revisão do estatuto sagrado dos judeus e da metafísica do Holocausto, é punível.

Mas pouco a pouco, porém, a política cada vez mais dura de Israel para com os palestinianos e os países muçulmanos vizinhos começou a desfocar esta imagem, pelo menos aos olhos das populações do Médio Oriente que, lembremo-nos, nada têm a ver com os crimes dos nazis europeus. Além disso, a atitude violenta dos sionistas para com a população local levou a protestos diretos e, na sua forma mais extrema, à Intifada anti-sionistas.

A identidade dos israelitas e judeus que permanecem na diáspora mudou gradualmente. Há uma ênfase crescente na sua demonstração de força e poder, bem como na aspiração de criar um Grande Israel. Ao mesmo tempo, intensificaram-se as ideias messiânicas: expectativa da chegada iminente do Mashiach, início da construção do terceiro templo (o que exigiria a dinamitação do santuário islâmico da mesquita de al-Aqsa), aumento acentuado de áreas sob controlo israelita (de costa a costa) e resolução definitiva da questão palestiniana (pedidos diretos à deportação e ao genocídio dos palestinianos).

Estas ideias são apoiadas por Benjamin Netanyahu e vários dos seus colaboradores, os ministros Ben Gvir, Bezalel Smotrich, etc. Este programa é refletido abertamente na “Torá Real” de Yitzhak Shapira, nos sermões dos Rabinos Kook, Meyer Kahane e Dov Lior. Do ponto de vista estratégico, foi descrito em 1980 num artigo do conselheiro de Sharon, General Oded Yinon. O plano de Yinon era derrubar todos os regimes árabes baseados na ideologia nacionalista Baath, a fim de mergulhar o mundo árabe num caos sangrento e criar um Grande Israel.

Hoje, dez anos depois da Primavera Árabe, e especialmente depois do ataque terrorista do Hamas a Israel em Outubro de 2023, vemos estes planos a ser concretizados a um ritmo acelerado. Netanyahu destruiu Gaza, massacrando impiedosamente centenas de milhares de civis. Atacou o Líbano, matando todos os líderes do Hezbollah. O que se seguiu foi uma troca de disparos de foguetes com o Irão e preparativos ativos para a guerra contra aquele país, incluindo ataques a instalações nucleares. Tudo isto foi seguido pela invasão do que restou das Colinas de Golã e ataques à Síria. Um mês antes, Bezalel Smotrich tinha proclamado que Damasco faria parte de Israel e Ben Gvir tinha aludido diretamente à destruição de al-Aqsa.

A queda de Bashar al-Assad marca o fim do último regime Baathista. O mundo árabe está de facto mergulhado no caos. O Grande Israel e o extermínio dos palestinianos estão a tornar-se uma realidade diante dos nossos olhos.

Este último ponto é importante: os políticos sionistas de direita estão a abandonar a referência ao Holocausto. O capital moral das suas vítimas está agora completamente esgotado. Israel mostra o seu atual poder, grandeza e crueldade, quase como se tivéssemos regressado ao Antigo Testamento.

 Hoje, os judeus não são mais dignos de pena, mas sim temidos, odiados, odiados ou admirados e, em todos os casos, considerados uma força poderosa e implacável.

A identidade judaica mudou. Já não é símbolo de humilhação e sofrimento, mas sinónimo de dominação e triunfo. Não é mais necessário pensar desde Auschwitz. Devemos agora pensar a partir de Gaza.

A própria tradição judaica fala de dois Mashiach, aquele que sofre (Ben Yusef) e aquele que é vitorioso (Ben David). Após o holocausto europeu, o foco estava no sofrimento de Mashiach, a vítima. Hoje, esta Gestalt é substituída pelo vitorioso Mashiach, aquele que ataca, aquele que triunfa. Isto é particularmente evidente no próprio Israel. Mas é claro que não vai parar por aí. Há uma mudança de arquétipo messiânico entre todos os judeus do mundo.

É precisamente neste contexto que Donald Trump, um firme apoiante do sionismo de direita e de Netanyahu, chega ao poder nos Estados Unidos. Uma parte significativa da comitiva de Trump é composta por sionistas cristãos, que estão prontos a dar o seu total apoio a Israel. Mais uma vez, a capital da compaixão torna-se a capital da agressão. Isto é muito, muito sério e em breve irá piorar.

Por outro lado, não devemos tirar conclusões, julgamentos ou avaliações precipitadas. Você deve primeiro analisar cuidadosamente a situação e reunir os numerosos fatos, eventos e incidentes para ter uma imagem coerente dos acontecimentos.


NOTA DO TRADUTOR

A palavra Mashiach significa “ungido”. Antigamente, quando um rei subia ao trono, ele era ungido com óleo. Assim também, haverá um tempo no futuro em que um judeu que seja instruído e descendente do Rei David será ungido como rei e construirá um Templo em Jerusalém, e reunirá todos os judeus em Israel. Este Rei é Mashiach.

Nos dias de Mashiach, não haverá guerras nem fome, e todos terão tudo que desejam. Os judeus poderão sentar-se e estudar a Torá em paz e o mundo inteiro estará repleto do conhecimento de Deus. A geração em que estamos vivendo é a geração anterior à chegada de Mashiach, e esperamos ansiosamente sua chegada todos os dias.

Fonte aqui.

Como matar as memórias?

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 02/06/2024)


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Fui educado a respeitar o sofrimento dos judeus ao longo da história. Repugnou-me o que li sobre a Inquisição Santa, as imagens das torturas, desprezei as figuras dos torturadores de homens e mulheres amarrados e sem defesa.

Enquanto fui cristão vi Cristo como um judeu que foi crucificado por romanos invasores (os mesmos romanos que haviam invadido a Península Ibérica), apenas porque queria manter-se com direitos na sua terra.

A questão judaica não é uma questão de humanidade, não é uma questão de religião, é unicamente uma questão de higiene política, escreveu Paul Carrel, um alemão recuperado após o final da guerra pelos americanos (desnazificado), quando ainda se chamava Paul Carl Schmidt e publicava textos sob a tutela de Ribbentrop, ministro de Hitler.

Troquem questão judaica por questão palestiniana e a frase pode sair da boca de qualquer dos atuais funcionários do governo de Netanyahu de Israel.

Li As Benevolentes, o romance de Jonatthan Littel sobre episódios verídicos da II Guerra Mundial, da invasão da Polónia e da Ucrânia ma marcha dos exércitos de Hitler para a União Soviética:

«A aldeia, já não me lembro do seu nome. Quando chegámos dei com as levas já organizadas. «É ali que a coisa se passa.» Na praça central os nossos soldados reuniam os judeus, homens de idade madura, adolescentes, traziam-nos em pequenos grupos, por vezes batiam-lhes, depois forçavam-nos a acocorar-se. Chicoteavam-nos com um pingalim para os fazer avançar, mas excetuando os gritos tudo parecia relativamente calmo, ordenado, de vez em quando uma criança aparecia a uma esquina e escapava-se. Os guardas fizeram os judeus subir para camiões entre gritos e chibatadas. Dois guardas arrastavam um velho judeu com uma perna de pau, a prótese soltou-se e eles atiraram-no sem mais para dentro do camião. Em cada camião acumulavam-se cerca de 30 judeus. Quando os camiões ficaram cheios puseram-se a caminho do bosque e aí chegados Nagel deu ordem para que fossem escolhidos os judeus que iriam escavar as valas. Olhei para os judeus mais próximos de mim, pareciam pálidos mas calmos. Nagel aproximou-se e apostrofou-me vivamente: «É necessário, está a entender? Em tudo isto, o sofrimento humano não deve ser tido em conta seja como for!»

Substituam judeus por palestinianos e Nagel, o ogre, por Netanyahu e toda a cena passada numa aldeia da Ucrânia na II Guerra Mundial continua a fazer sentido na Palestina, em Gaza.

Eu tinha esta memória dos judeus. Netanyahu apagou-a. Eu tinha a esperança de que existisse uma memória judaica, verifico que a perversidade e a bestialidade a apagou. Eu acreditava que um povo que reivindica ser eleito de um Deus tivesse uma memória da violência e da dignidade do ser humano, segundo eles criatura de seu Deus: os judeus de Netanyahu destruíram essa minha crença.

O capítulo 15 de Hitler, uma biografa — de Ian Kershaw, edição portuguesa da D. Quixote, tem por título: As Marcas de Uma Mentalidade Genocida. Contem um excerto de uma proclamação de Himmler, o responsável pelos campos de extermínio, às SS, em 1938, antes da orgia de violência primitiva contra s judeus que ficou conhecida como Progrom da noite de 9 de Novembro: «O judeu não pode manter-se na Alemanha. Esta é uma questão que perdura há anos. Temos de correr com eles daqui para fora com uma impiedade sem precedentes…»

Em 1938 a Alemanha era um Estado com instituições democráticas. Em 2021, Israel de Netanyahu também é um estado com instituições democráticas, mas, tal como a Alemanha, tal como a África do Sul do apartheid, a democracia e os direitos apenas se aplicam aos da “raça” dominante: alemães arianos, brancos e judeus.

É neste ponto da história, de nova versão da inquisição, do nazismo, do apartheid que nos encontramos perante o Estado de Israel.

As “orgias de violência” são recorrentes na história da humanidade, mas a orgia de violência do Estado de Israel tem caraterísticas de maldade acrescida. Mesmo os céticos como eu, os que tomam como certa a definição de Plauto na sua obra Asinaria, Lupus est homo homini lupus a expressão latina que significa “o homem é o lobo do próprio homem”, popularizada por Thomas Hobbes, se devem interrogar e temer pelas suas vidas quando descobrem que os mais fortes e mais constantes motivos para a ação dos humanos são o ódio e a vingança.

Que a nossa civilização, dita judaico-cristã mantem como marca identificadora o direito da besta mais forte e o domínio dos predadores. Ao aceitar esta direito imposto pelo Estado de Israel aceitamos que ele é o nosso espelho.