Gás e petróleo: a face energética do genocídio palestiniano

(Misión Verdad, In Diálogos do Sul, 21-10-2024)


Jazidas de petróleo e gás próximas à Faixa de Gaza tem valor estratégico para Netanyahu, que utiliza descobertas como pretexto para intensificar agressão contra os palestinianos.


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escalada genocida na Palestina, além de obedecer a uma estratégia de expulsão e massacre da população, também está relacionada ao controle dos recursos energéticos da região. Em 2010, o geólogo israelense Eitan Aizenberg confirmou a descoberta da jazida de gás Leviatã, um extenso reservatório que abriga cerca de 1,7 bilhão de barris de petróleo recuperáveis e uma média de 122 trilhões de pés cúbicos de gás que, em perspectiva, são suficientes para cobrir o consumo energético de Israel durante décadas e colocaria o Estado sionista como um ator chave no mercado de hidrocarbonetos.

A partir de então, de costas ao Direito Internacional, a administração de Benjamin Netanyahu dedicou-se a convocar investidores e empresas transnacionais para iniciarem seus planos de exploração de gás nestes espaços marítimos. De acordo com as regras de usufruto mencionadas no artigo 55 do Regulamento de Haia, Israel está proibido de utilizar os limitados recursos não renováveis dos territórios ocupados para obter lucros comerciais e em benefício da potência ocupante.

De fato, em 2012 Netanyahu comentou com investidores australianos que o reservatório Leviatã era um “ativo estratégico para a economia de Israel”. E em 2015, junto ao consórcio Noble Energy e o Grupo Delek, afirmou: “Nos torna, se não uma superpotência energética, mas sem dúvida, uma potência internacional de grande relevância”.

Cabe destacar que o reservatório está situado na Bacia do Levante, uma extensa região do leito marinho que abrange cerca de 83 mil km², desde o Chipre até a Síria, passando pelo Líbano e incluindo a península do Sinai. Nesse mesmo espaço se encontra o campo de gás Tamar, que contém aproximadamente 8,7 trilhões de pés cúbicos de hidrocarbonetos.

Desta maneira, as jazidas próximas à Faixa de Gaza adquiriram um valor estratégico para a administração de Netanyahu, que utilizou estas descobertas como parte de sua agenda para intensificar a agressão contra o povo palestino e, agora, contra os libaneses.

Assim, a exploração de hidrocarbonetos se entrelaça com a política de genocídio e colonização, que busca sufocar qualquer resistência com vistas a apoderar-se tanto de suas terras como dos valiosos reservatórios energéticos.

Corredor económico na mira de Netanyahu

O controle destes recursos também está estreitamente relacionado ao desenvolvimento de iniciativas mais amplas, como o corredor econômico Índia-Oriente Médio-Europa (IMEC). Em seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas em 2023, Netanyahu ressaltou a importância do projeto, uma iniciativa de infraestrutura que busca conectar a Ásia Ocidental e o Mediterrâneo:

“Na Conferência do G20, o presidente Biden, o primeiro-ministro Modi e os líderes europeus e árabes anunciaram planos para um corredor visionário que se estenderá ao longo da península arábica e de Israel. Enlaçará a Índia e a Europa mediante conexões marítimas, ferroviárias, gasodutos energéticos e cabos de fibra ótica”, reiterou Netanyahu naquele momento.

Este projeto, impulsionado por membros do G20, propõe estabelecer rotas terrestres que conectem os países produtores de energia e os mercados europeus. Suas implicações são profundas, não só em termos de comércio e economia como também para a geopolítica energética da região.

Do ponto de vista econômico, o IMEC promete reduzir os custos de transporte e os tempos de entrega entre a Índia e a Europa, o que é especialmente atraente para a mobilidade de produtos de alta demanda como maquinaria, tecnologia, têxteis e, mais crucial, hidrocarbonetos. Além disso, teoricamente proporcionará mais segurança por ser uma alternativa em meio às ameaças de interrupções derivadas de tensões no Golfo Pérsico ou no Estreito de Ormuz.

Da ótica geopolítica, o mencionado corredor conta com o apoio dos Estados Unidos, que busca confrontar a influência da China nos projetos de infraestrutura global, como a Iniciativa do Cinturão e Rota, com o Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul (INSTC), o qual aparece como uma alternativa ao tradicional canal de Suez

Apesar dos benefícios que expõem as partes interessadas, é provável que o IMEC não consiga materializar-se como um projeto comercial sólido porque, precisamente, compete com os megaprojetos de integração comercial liderados pela China. Estes contam com contratos substanciais no desenvolvimento de infraestrutura ferroviária na Arábia Saudita, além de uma concessão de 35 anos para a gestão de um terminal de contêineres no porto de Khalifa, o que deixa pouca margem para a intervenção do IMEC neste ecossistema comercial.

E ainda não existe uma rota de intercâmbio na região que supere as vantagens do canal de Suez para o mercado do Mediterrâneo porque, em termos de eficiência, os tempos de envio pelo IMEC se estenderiam até a um mês por rotas multimodais, enquanto, utilizando o referido canal, o mesmo trajeto comercial poderia ser realizado em poucas semanas.

As vastas jazidas de hidrocarbonetos e o corredor IMEC são elementos-chave nos interesses de Netanyahu sobre a Palestina. A escalada de agressão aponta para um conflito prolongado que definirá o controle de recursos vitais e das futuras rotas de comércio global.

Israel, como posto estratégico do avanço dos Estados Unidos na Ásia Ocidental, transformou o genocídio na Palestina em uma ferramenta para controlar, também, recursos energéticos de grande importância nesta região.

Fonte aqui.

O que Vladimir Putin não se atreveria a dizer

(Phil Butler, in geopol.pt, 18/11/2023)

Ninguém que eu conheça nos meios de comunicação social ou nos grupos de reflexão se atreve a insinuar que as elites sionistas estão por detrás de grande parte dos conflitos e dos actos ilícitos que ocorrem no mundo de hoje.


Poucos se apercebem, mas o jogo de propaganda das elites ocidentais tornou-se uma arma de choque. Desde os títulos dos artigos de jornal até aos títulos apelativos que vemos no Google News, a classe controladora do mundo ocidental está a martelar a maior mentira da história nos cérebros das pessoas comuns do mundo. O último esmagamento subtil do crânio vem de ninguém menos que a revista Foreign Policy. “The Israel-Hamas War’s New Phase” (A nova fase da guerra entre Israel e o Hamas), de que fui informado através da minha caixa de correio eletrónico, é o exemplo perfeito. É tempo de examinar quem controla exatamente a máquina de guerra americana e quais são os seus objectivos finais.

No artigo acima, os editores da F.P. conseguem limpar os milhares de litros de sangue que escorrem por baixo dos escombros de Gaza, separando Israel e o Hamas das operações que assassinam inocentes. Para aqueles que não conseguem ver, esta guerra está agora a desenvolver as suas próprias estratégias, ataques mortais, e as fases de cada um, de acordo com os pensadores de Washington. É uma entidade viva. É como se o extermínio de palestinianos para chegar a um número relativamente pequeno de assassinos do Hamas fosse da responsabilidade, não de Bibi Netanyahu ou de Ismail Abdel Salam Ahmed Haniyeh, mas de uma força milagrosa invisível. Está a ver agora, não está?

Entretanto, o presidente russo Vladimir Putin diz que a América e o resto do Ocidente estão por detrás da maior calamidade do Médio Oriente desde a primavera Árabe. No entanto, por uma vez, parece que o Sr. Putin pode estar a esconder quem são os verdadeiros perpetradores. O presidente russo disse a uma audiência televisiva na Rússia que as “elites dominantes dos EUA” e os seus “satélites” estão por detrás da morte dos palestinianos de Gaza e dos conflitos na Ucrânia, Afeganistão, Iraque e Síria”. A maioria dos analistas interpreta erradamente os comentários de Putin como significando que Washington está por detrás de toda esta confusão sangrenta.

Putin está correto na sua avaliação, mas não são os “think tanks” de Washington e os tecnocratas de Menlo Park que dirigem este novo tipo de fascismo. Os “EUA apoiam a nova fase de matança de Israel” na história da F.P., mas os Estados Unidos não estão a dirigir nada no Médio Oriente. São os sionistas de todo o mundo. Claro que os Estados Unidos e os seus aliados estão à espera que as tropas de Bibi entrem na prisão ao ar livre de Gaza. O ministro da Defesa israelita, Yoav Gallant, o antigo chefe do Comando Central dos EUA, general Joseph L. Votel, lamentam o trabalho “sangrento” de escavar o Hamas para fora da rede de túneis sob Gaza. As “elites” de que o presidente Putin está a falar não são magnatas de empresas de informática de pele clara.

É tempo de o mundo deixar de andar em bicos de pés à volta dos factos. Até Putin dá voltas ao nomear a classe dirigente de Israel e a rede de sionistas em todo o mundo pela destruição maciça e pelas mortes a que temos assistido em todo o Médio Oriente e pelos “esforços de crescimento” na Europa, Ásia, África e América Latina. O presidente Biden tomou uma decisão histórica de criar a Estratégia Nacional de Combate ao Antissemitismo. (Anúncio da Casa Branca)

Agora, pensem nisto por um momento. Quem é que tem o tipo de influência necessária para forçar os presidentes dos EUA a categorizar a opinião, o pensamento e a expressão? Curiosamente, o antigo presidente Donald Trump emitiu uma ordem executiva que contornava o Título VI da Lei dos Direitos Civis de 1964. Nessa ordem, a administração Trump tentou definir o pensamento e o discurso contra as ideologias e acções do judaísmo sionista como parte da lei dos EUA destinada a impedir a discriminação com base na raça, cor ou origem nacional de uma pessoa. A relação do Sr. Trump com a hierarquia de Israel e as suas acções em relação aos aparentes inimigos dos sionistas provam uma influência indevida de Israel sobre a política americana. Ao usar o nome “Israel”, não me refiro ao povo judeu. E agora, Israel avançou para a aniquilação dos palestinianos em Gaza. Esta passagem da nova estratégia de Biden deve servir:

«Cada agência está hoje a clarificar as formas como o Título VI cobre a discriminação com base na ancestralidade partilhada ou características étnicas, incluindo certas formas de antissemitismo, islamofobia e formas relacionadas de preconceito e discriminação».

Não foram muitos os especialistas que tomaram nota deste ponto de transição. Ninguém que eu conheça nos meios de comunicação social ou nos grupos de reflexão se atreve a insinuar que as elites sionistas estão por detrás de grande parte dos conflitos e dos actos ilícitos que ocorrem no mundo de hoje. Mas o proverbial gato está fora do saco. Quando Joe Biden se encontrou com Benjamin Netanyahu e o seu gabinete de guerra, durante a sua visita a Israel, o trémulo líder norte-americano assegurou-lhes: “Não acredito que seja preciso ser judeu para ser sionista, e eu sou sionista”. Repita isso na sua cabeça várias vezes. Depois, volte ao sionista convertido Louis Brandies, que se tornou juiz do Supremo Tribunal dos EUA em 1916. (S. Hassan — 2016) Desde os anos Wilson, e sobretudo após a Segunda Guerra Mundial, uma aliança imperialista tripartida entre a Grã-Bretanha, os EUA e o sionismo mundial. Em última análise, este triângulo do mal obrigou-os a acordos mútuos e a abusos do direito internacional relativamente à Palestina. (Rateb Sweiti – 2008) Em 1996, o Washington Post publicou um capítulo do livro de J.J. Goldberg “Jewish Power: Inside the American Jewish Establishment”. O capítulo resume o que os sionistas americanos representavam há três décadas.

«Do Vaticano ao Kremlin, da Casa Branca ao Capitólio, os impulsionadores e agitadores do mundo vêem o judaísmo americano como uma força a ser reconhecida.»

Poucos dos que estão a ler este relatório se lembrarão da emenda Jackson-Vanik, aprovada pelo Congresso em 1974. A lei deu ao lobby judaico nos Estados Unidos um poder de veto virtual sobre as relações comerciais entre os EUA e a URSS. A lei manteve-se em vigor mesmo após a queda do muro. O tratamento soviético/russo dos judeus dentro das suas fronteiras fazia parte do acordo. Na altura, e ainda hoje, qualquer pessoa que mencionasse o poder judaico na América era (é) considerada antissemita. Que inacreditável muro de proteção. E agora, todos os principais meios de comunicação social, muitos bancos importantes, Wall Street e os mercados de Antuérpia à Austrália são propriedade ou profundamente influenciados por estas “elites” sionistas, sobre as quais o Sr. Putin é reticente em falar livremente.

«Vocês sabem muito bem, e os estúpidos americanos sabem igualmente bem, que nós controlamos o vosso governo, independentemente de quem se sente na Casa Branca. Como vêem, eu sei e vocês sabem, nenhum presidente americano pode estar em posição de nos desafiar, mesmo que façamos o impensável. O que é que eles (os americanos) nos podem fazer? Nós controlamos o Congresso, controlamos os meios de comunicação social, controlamos o mundo do espetáculo e controlamos tudo na América. Na América, pode-se criticar Deus, mas não se pode criticar Israel».

Em 2009, seis empresas de propriedade judaica controlavam 96% dos meios de comunicação social mundiais. A declaração acima retirada do livro “Kosovo Knot” de Petar V. Grujić apoia as minhas conclusões aqui. Tal mentalidade, vinda de um porta-voz israelita, independentemente de quão isolada, ilustra a existência de um controlo sionista indevido nos corredores do poder e dos negócios na América. Para aprofundar o postulado que aqui escrevi, estudem uma empresa chamada Zapata Petroleum Corporation, o antigo presidente George H. W. Bush, um bilionário judeu chamado Avram Glazer e os acordos entre a CIA e os negócios. Para os verdadeiramente ambiciosos, procurem os sionistas mais influentes em todos os sectores. Um atalho para descobrir as autênticas “elites” de Putin está disponível através da Wikipédia e dos movimentos e agitadores judeus nas finanças.

Sei que algumas pessoas que estão a ler isto vão gritar “antissemita” à medida que o peso das minhas afirmações se instala. Só espero que todos possamos compreender que o antissemitismo é a hostilidade ou a discriminação contra os judeus enquanto grupo religioso ou racial. Não é uma compreensão clara e uma revelação do poder indevido e muitas vezes diabólico que um segmento do grupo exerce sobre um grupo muito, muito maior — a humanidade.

Uma pequena fração, dentro de um pequeno grupo religioso/societal, dirige os Estados Unidos. E estão atualmente a arrasá-los. A nível pessoal, não reconheço os judeus como uma raça separada e acredito que o seu Deus, o Deus de outras religiões, é o mesmo Deus que eu conheço.

Peça traduzida do inglês para GeoPol desde New Eastern Outlook


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As danças de Israel com o Hamas (II)

(José Goulão, in AbrilAbril, 19/10/2023)

Como é que organizações de espionagem como as sionistas, que certamente dispõem de milhares de informadores numa população tão densa e caótica como a de Gaza, não tinham sequer uma luzinha sobre o que o Hamas estava a preparar?


A inteligência e a «falha»

No momento em que o Hamas lançou a operação «Dilúvio sobre al Aqsa», no passado dia 7 de Outubro, expondo uma «falha de inteligência de Israel» que os peritos de inteligência consideram pouco provável, ou mesmo impossível, o governo de Ramallah revelou-se absolutamente ineficaz para encabeçar a resistência palestiniana na Cisjordânia num momento de tantas incertezas, perigos e, certamente, traições. Um governo inerte, corrupto, desligado das realidades e do povo, além de acomodado.

Ao longo de mais de 15 anos, a Autoridade Palestiniana pouco fez perante o avanço da colonização, um processo gradual de anexação de território até que chegue o momento – eventualmente já atingido – em que não existirão condições para instaurar um Estado Palestiniano independente e viável.

Em contraste, através do impacto emocional, e até místico dos seus métodos, junto da resistência palestiniana em geral, e dos mundos árabe e islâmico, o Hamas procura estender a base de apoio entre as populações árabes da Palestina e da diáspora. O Hamas, porém, não tem grande apreço pela criação de um Estado independente e por negociações: afirma que defende o fim de Israel; e as forças nacionais que apostaram no «processo de paz», e claramente num Estado independente ao lado de Israel, estão neutralizadas. O que reflecte o carácter sombrio e intrigante das relações dos islamitas com Israel. 

Uma das características das agressões israelitas contra Gaza, que alternam com períodos de acalmia aproveitados pelo aparelho sionista para reforçar os mecanismos de controlo sobre Ramallah, é o seu reduzido e controlável impacto sobre o aparelho militar e as estruturas de apoio do Hamas. A sensação que prevalece é a de que os danos não impedem o seu contínuo desenvolvimento.

Passaram as operações arrasadoras de 2008, 2014 e chega-se a 2023 com um Hamas forte como nunca em equipamento militar, em termos quantitativos e qualitativos, e capacidade operacional.

Em todos os períodos de agressão israelita mais intensa contra Gaza as principais vítimas foram as populações e não as estruturas do Hamas. Milhares e milhares de palestinianos de Gaza, na verdade refugiados das limpezas étnicas praticadas em outras regiões da Palestina ao longo de 75 anos, ficaram pelo caminho durante essas agressões.

Agora, numa proporção directa da envergadura da operação desencadeada pelo Hamas, entrou na ordem do dia, do lado de Israel, a «transferência» da população de Gaza, começando pela «limpeza» do norte do território. 

A punição colectiva é evidente e intencional. Como explica o presidente israelita, Isaac Herzog, «uma nação inteira é responsável» pela violência, isto é, não há inocentes na população de Gaza. Amir ou Amina, nascidos há poucos dias, já chegaram a este mundo como «terroristas». Ou «animais humanos», citando o ministro da Defesa de Israel, Yoav Gallant, extremoso defensor dos «nossos valores».

Por outro lado, as acções de violência contra civis, não distinguindo entre os cidadãos comuns e os militares, praticadas pelas hostes do Hamas, não servem nem poderiam servir a causa palestiniana. Não é por replicar os métodos do ocupante que os ocupados conseguem ganhar vantagem e projectar a sua razão. O massacre no kibutz de Kfar Aza, por exemplo, é um acto indigno de uma resistência popular e também faz jorrar a propaganda assente nas lágrimas de crocodilo de todos os fariseus que, na verdade, não querem saber das pessoas nem das populações sob ocupação.

Nesta matéria, porém, há que partir do princípio de que nem tudo o que parece é. O Estado de Israel funciona como um dos mais credenciados centros de propaganda, embora nem sempre tenha em conta certa o estado real de estupidificação da opinião pública ocidental. A história dos 40 bebés decapitados pelo Hamas só convenceu alguns «jornalistas» mais zelosos, que rapidamente tiveram de voltar com a palavra atrás depois de até o governo israelita confessar que não confirmava o crime. Foi um caso de falta de imaginação ou facilitismo: muita gente ainda se lembra do descrédito em que caiu a história dos bebés do Koweit roubados de incubadoras pelos soldados iraquianos de Saddam Hussein, no início dos anos noventa. 

Além disso, a inspiração na «matança dos inocentes», ordenada pelo rei Herodes, pretende explorar sub-repticiamente um mero episódio bíblico fora de prazo, ocorrido há exactamente 2023 anos.  

Num quadro factualmente objectivo, porém, o Hamas partiu para a operação militar parecendo não ter em conta (ou se o teve é porque está deliberadamente a usar o seu povo como carne para canhão) a enorme desproporção de forças militares e militarizadas no terreno. Deste modo, descontadas as primeiras vantagens decorrentes do «factor surpresa», as acções islamitas acabaram por dar oportunidades de ouro aos sectores dominantes israelitas que defendem a violência arrasadora capaz de proporcionar uma alteração qualitativa da situação no terreno e, eventualmente, matar de vez as possibilidades de criar o Estado Palestiniano inscrito há 75 anos no direito internacional. 

Perante as condições proporcionadas, Israel não hesita em provocar uma vaga de terror e desespero na martirizada população de Gaza, capaz de a fazer aceitar qualquer solução que não seja a morte, destino a que parece cada vez mais condenada; além disso, para tornarem mais credível a ideia de que não hesitarão numa solução final, os militares sionistas dedicam-se à matança de palestinianos em massa numa amplitude poucas vezes ou mesmo nunca conhecida em sete décadas e meia. 

A limpeza étnica surge mais uma vez, aos olhos dos condenados, como um mal menor que já está em andamento. Como revela o ex-ministro israelita dos Negócios Estrangeiros, Danny Ayalon, o plano é «forçar os palestinianos a entrar no espaço quase infinito do Sinai», onde podem «viver em cidades de tendas». Enquanto os políticos ocidentais, tomados pela histeria, se embrulham em bandeiras sionistas, felizes e emocionados com o genocídio.

A ideia do «esvaziamento» da Faixa de Gaza não é um objectivo novo do sionismo. Há muito tempo que se fala do projecto de «transferir» a população do território para a Península e deserto do Sinai, uma região aliás já anteriormente ocupada por Israel e devolvida ao Egipto na sequência dos acordos de Camp David. O mar de Gaza tem petróleo e gás natural; as costas mediterrânicas de Gaza prometem resorts paradisíacos para as oligarquias judaicas e afins.

Na verdade, é difícil acreditar que o mais monstruoso aparelho mundial de espionagem e informações, exportando até gadgets inovadores para regimes autoritários assumidos ou maquilhados de «democratas», estivesse distraído perante os laboriosos preparativos de invasão por parte do Hamas.

Como é que organizações de espionagem como as sionistas, que certamente dispõem de milhares de informadores numa população tão densa e caótica como a de Gaza, não tinham sequer uma luzinha sobre o que o Hamas estava a preparar e que não pode ter nascido de uma noite para o dia? E que dizer dos avisos que o Egipto – e parecem não ter sido os únicos – fez chegar a Israel prevenindo de que alguma coisa estava para acontecer a partir de Gaza. Distracção? Incompetência? Sonolência? Seria difícil acreditar em tantas falhas de segurança em cadeia mesmo que se tratasse de uma estrutura de amadores, quanto mais dos serviços de espionagem e informações que são habitualmente apresentados como os mais aptos do mundo.

Efrat Fenigsen, ex-oficial de inteligência das tropas israelitas, escreveu em 7 de Outubro: «Servi na inteligência das FDI (Forças de Defesa de Israel) durante 25 anos. Não há possibilidade de Israel não saber o que estava para acontecer. Até um gato movendo-se na cerca accionaria todas as forças, quanto mais isto…». Fenigsen acrescenta: «esta cadeia de acontecimentos é muito incomum e não é típica do sistema israelita de defesa.»

A coisa dá que pensar. A oportunidade para a operação foi oferecida de bandeja ao Hamas: nem faltou a provocação de uma multidão de colonos contra a mesquita de Al Aqsa, em Jerusalém, uma «linha vermelha» para qualquer instituição muçulmana. 

Mas existe ainda uma pergunta por fazer: confirmando-se a impossibilidade de Israel desconhecer previamente o ataque do Hamas, o governo e as forças armadas do país aceitaram sacrificar mais de um milhar de compatriotas a um objectivo que consideram mais importante do que as suas vidas?

Não adivinhamos, não conhecemos, nunca conheceremos os meandros desta conjugação de acontecimentos. Nem se a criatura escapou ao criador. Sabemos, isso sim, que está uma alteração qualitativa em andamento no processo israelo-palestiniano, que põe objectivamente em causa a instauração de um Estado Palestiniano independente e viável. É a primeira transformação de fundo, e em sentido contrário, súbita e não gradual, desde as medidas autonómicas incompletas decorrentes do «processo de paz». Está em curso uma nova etapa da Nakba (a catástrofe), a limpeza étnica dos palestinianos da Palestina iniciada em 1948; e com a cumplicidade do «mundo civilizado», aceitando placidamente o diktat sionista.


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