Só a pluralidade de informação pode prevenir a guerra

(Por Thierry Meyssan, in Rede Voltaire, 29/11/2022)

A percepção dos factos varia segundo os indivíduos. Aqui o mesmo símbolo é lido como « 6 » por um e como « 9 » pelo outro.

No mundo inteiro, observamos uma miríade de médias, mas sem nenhum pluralismo entre elas. Todos bebem das mesmas fontes que veiculam a mesma visão dos factos. Ora, todos sabemos que se os factos se passam de uma única forma, a maneira como os apreendemos é variada. Já na década de 80, a UNESCO havia posto em evidência o « imperialismo de informação »; essa maneira de impor uma única percepção e de negar todas as outras. Hoje, esta dominação manifesta-se com os News Checkers. O único meio de nos libertarmos deste sistema é, não o de criar novos média, mas novas agências de notícias.


Após a Segunda Guerra mundial, o Direito Internacional moderno foi estabelecido com a ideia de combater a « propaganda de guerra » (Resolução 110 da Assembleia Geral das Nações Unidas, de 3 de Novembro de 1947 [1] e Resolução 381 de 17 de Novembro de 1950 [2]). Rapidamente, os legisladores internacionais, quer dizer os Estados soberanos, acordaram que não se podia lutar contra a guerra senão velando pela « livre circulação das ideias » (Resolução 819 de 11 de Dezembro de 1954 [3]).

Ora, no decurso dos últimos anos, assistimos a um recuo extraordinário que nos priva do pensamento dos outros, nos expõe à propaganda de guerra e, por fim, nos precipita para um conflito mundial.

Este fenómeno começou com a censura privada nas redes sociais do Presidente em exercício dos Estados Unidos, depois continuou com a censura pública dos média (mídia-br) russos no Ocidente. Agora, o pensamento alheio já não é entendido como um instrumento de prevenção das guerras, mas como um veneno que nos ameaça.

Estados ocidentais dotam-se de instâncias encarregadas de « rectificar » as informações que eles dizem falsificadas (Fake News) [4]. A OTAN pensa na criação de uma unidade, baptizada Information Ramstein, encarregue de censurar já não mais as fontes de informação russas, mas as ideias russas no meio dos 30 Estados membros da Aliança Atlântica [5].

Trata-se de uma completa reviravolta de valores da Aliança Atlântica que foi baseada na continuação da Carta do Atlântico, a qual incorporava as « quatro liberdades » do Presidente Franklin Roosevelt. Sendo a liberdade de expressão a primeira delas.

Ora, antes da invenção da Internet, enquanto os Estados-Unidos e a União Soviética acabavam de garantir a « livre circulação de ideias » com os Acordos de Helsínquia, as Nações Unidas e sobretudo a sua agência na matéria, a UNESCO, inquietavam-se com um « imperialismo de informação ». A superioridade técnica dos Ocidentais permitia-lhes impor a sua visão dos factos nos países em vias de desenvolvimento.

Em 1976, durante a conferência de Nairóbi, a ONU levantou a questão do funcionamento dos média a respeito do « reforço da paz e da compreensão internacional, da promoção dos direitos do homem e da luta contra o racismo, o apartheid e a incitação à guerra ».

O antigo Ministro (Chanceler-br) dos Negócios Estrangeiros irlandês e vencedor do Prémio Nobel da Paz, Seán MacBride, criara uma comissão de 16 personalidades no seio da UNESCO. Ela incluía o Francês Hubert Beuve-Mery (fundador do Le Monde), o Colombiano Gabriel García Márquez (Prémio Nobel da Literatura) e o Canadiano Marshall McLuhan (teórico da comunicação). Os Estados Unidos estavam representados por Elie Abel, então reitor da escola de jornalismo da Universidade de Colúmbia, e a Rússia pelo director da agência Tass, Serguei Losev. Apenas a quinta e última parte do relatório (A comunicação do futuro) foi objecto de um debate geral. A comissão MacBride debateu o rascunho das outras partes, mas não pôde por em questão a sua redacção final. Fosse como fosse, o seu Relatório tornado público em 1978 parecia estabelecer um consenso.

Na realidade, ao sublinhar que os mesmos factos podem ser entendidos de forma diferente e ao elaborar sobre os meios dos média do Norte e os do Sul, ele abriu a caixa de Pandora. Concomitantemente, a UNESCO foi confrontada com a propaganda do regime sul-africano de apartheid e a de Israel, negacionista das culturas muçulmana e cristã. Por fim, os Estados Unidos e o Reino Unido encerraram o debate retirando-se da UNESCO. Sabemos hoje que o Império Britânico havia assegurado o seu domínio intelectual ao criar agências de notícias. O Information Research Department (IRD) foi encerrado por Whitehall (o Ministério dos Estrangeiros-ndT) precisamente antes da publicação do relatório MacBride [6]. Mas a guerra contra a Síria veio mostrar que tal dispositivo foi inteiramente reconstituído sob uma outra forma [7]. Os Ocidentais continuam a falsificar a informação logo na sua própria fonte.

Ao fim de quarenta anos, o panorama mediático transformou-se : apareceram televisões internacionais de informação contínua, sítios internet e redes sociais. Simultaneamente, assistimos a uma gigantesca concentração dos média nas mãos de um punhado de proprietários. No entanto, nenhum dos problemas listados em 1978 mudou. Pelo contrário, com o mundo unipolar eles pioraram.

A profissão jornalística consiste hoje em dia em redigir despachos de agências ou em contextualizar essas notícias para os média. As agências de notícias não têm fontes, são factuais, enquanto os média propõem comentários e análises referindo-se às agências de notícias. A contextualização requer muitos conhecimentos históricos, económicos, etc.. dos quais os actuais jornalistas são em grande parte desprovidos. O imediatismo nas rádios e nas televisões não lhes confere tempo para a leitura de livros e muito menos para a consulta de arquivos, salvo durante investigações de fundo. Assim, os comentários e as análises foram ficando consideravelmente empobrecidos.

A ideologia dominante no Ocidente, que tende a ser « global », tornou-se uma religião sem Deus. Só há dois campos: o do “Bem” e o dos “apóstatas”. A verdade é determinada por um consenso no seio das elites enquanto a população a rejeita. Toda a crítica é considerada blasfema. Já não há mais espaço para o debate e, portanto, para a democracia.

A imprensa alternativa tornou-se tanto mais pobre quanto ela se baseia nos mesmos dados que os média internacionais : os despachos das agências de notícias. Basta, com efeito, controlar a AFP, a AP e a Reuters para nos imporem uma visão dos factos. Pode-se condimentá-la segundo esta ou aquela tendência, republicana ou democrata, conservadora ou progressista, etc., mas acabará por dar sempre o mesmo prato.

Desde os atentados do 11-de-Setembro, os que contestam a versão oficial dos acontecimentos são qualificados de « conspiracionistas ». Desde a eleição de Donald Trump, os que contestam os dados das agências de notícias são acusados de deformar a realidade e de imaginar Fake News (notícias falsas-ndT). Os jornalistas, após se terem interdito de veicular o pensamento dos «conspiracionistas», quer dizer, dos dissidentes, tentam agora “corrigir” as Fake News com Check News.

Ora, no mesmo período, a crença nas versões dos grandes médias afundou. Nos Estados Unidos, o Instituto Gallup avalia a confiança na imprensa escrita desde 1973 e na imprensa audiovisual desde 1993. Assim, a dos jornais passou de 51% para 16% e a das rádios e das televisões passou de 46% para 11%. .

A única solução suporá que se multiplique as agências de notícias, quer dizer, as fontes de informação. Não que as tornemos inúmeras, mas antes diversas. Só então perceberemos que a forma como se relata um acontecimento determina a maneira como acabamos a pensar sobre ele.

Por exemplo, hoje em dia as três agências de notícias citadas acima apresentam o conflito na Ucrânia como uma « invasão russa ». Elas garantem que Moscovo não foi capaz de tomar Kiev e derrubar o Presidente Zelenky, mas que comete crimes de guerra todos os dias. É uma maneira de ver. Não temos os meios necessários para publicar despachos a todo o instante, no entanto editamos um boletim semanal idêntico [8]. O nosso critério é diferente. Baseamo-nos no «Direito Internacional» e não nas « regras » ocidentais. Descrevemos, pois, o mesmo conflito como a aplicação da Resolução 2202 do Conselho de Segurança e da « responsabilidade de proteger » as populações oprimidas desde 2014. Os acontecimentos são os mesmos, mas para alguns a forma como os relatam leva a pensar que os Russos estão errados, enquanto a nossa leva a pensar que a posição russa é legal. Verdadeiramente falando, há uma outra diferença : interpretamos os factos a longo prazo. Para nós e para o Conselho de Segurança, há uma guerra civil na Ucrânia desde há oito anos, a qual provocou 20. 000 mortos, e as três grandes agências fingem ignorá-la. Para nós os « nacionalistas integralistas » têm um longo historial criminoso, que custou a vida a 4 milhões dos seus concidadãos, e que as agências ocidentais também fingem ignorar [9].

Esta diferença pode ser aplicada a todos os assuntos. Por exemplo, as grandes agências de notícias explicam-nos que os Ocidentais lançaram sanções a fim de punir a Rússia por ter invadido a Ucrânia. Nós não lemos os acontecimentos dessa maneira. Mais uma vez, baseando-nos no « Direito Internacional » e não nas «regras» ocidentais, salientamos que as decisões dos Anglo-Saxónicos e da União Europeia violam a Carta das Nações Unidas. Não se trata de « sanções » uma vez que não houve julgamento, mas de armas de teor económico para fazer a guerra contra a Rússia, tal como no passado se sitiava castelos para matar à fome os que aí se tinham refugiado.

Cada diferença na interpretação dos acontecimentos provoca outra a propósito. Por exemplo, como tínhamos salientado que as pseudo-sanções ocidentais não tinham sido avalizadas pelo Conselho de Segurança, respondem-nos que isso é natural, uma vez que a Rússia dispõe de direito de veto no Conselho. O que é fingir esquecer por que é que a ONU foi organizada dessa maneira. O seu objectivo não é o de expressar o Bem, mas, sim evitar guerras. Foi precisamente o que permitiu ao Conselho adoptar a Resolução 2202 para resolver a guerra civil na Ucrânia. Ora, os Ocidentais, apesar do compromisso da Alemanha e da França (Acordos de Minsk-ndT), não a aplicaram, forçando a Rússia a intervir.

Poderíamos continuar esta dupla leitura até ao infinito. O importante é reter que a apresentação dos factos muda radicalmente a maneira como os entendemos. Para finalizar, convido-vos a fundar agências de notícias que descrevam os factos à sua maneira e não mais à dos nossos dirigentes. É desta forma e não glosando informações tendenciosas que recuperaremos a nossa lucidez.

Fonte aqui


[1] « Résolution 110 (II) de l’Assemblée générale des Nations Unies », Réseau Voltaire, 3 novembre 1947.

[2] « Résolution 381 (V) de l’Assemblée générale des Nations Unies », Réseau Voltaire, 17 novembre 1950.

[3] « Résolution 819 (IX) de l’Assemblée générale des Nations Unies », Réseau Voltaire, 14 décembre 1954.

[4] “O Ocidente renuncia à liberdade de expressão”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 10 de Novembro de 2022.

[5] «La OTAN prepara la creación de un “Ministerio de la Verdad”», Voltaire, Actualidad Internacional – N°16 – 25 de noviembre de 2022

[6] Britain’s secret propaganda war, Paul Lashmar e James Oliver, Sutton Publishing, 1998. documentos sobre as origem do IRD foram desclassificados : IRD. Origins and Establishment of the Foreign Office Information Research Department, 1946-48, Historians IRD, History Notes #9, August 1995.

[7] “A invenção do mito da «revolução síria» pelo Reino Unido”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 25 de Fevereiro de 2020.

[8Voltaire, actualité internationale é um boletim semanal publicado em seis línguas : alemão, inglês, espanhol, francês, italiano e neerlandês.

[9] “Quem são os nacionalistas integralistas ucranianos ?”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 17 de Novembro de 2022.


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Do perigo de pensar e de ler os tempos

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 121/11/2022)


Julgo que nós, os humanos, temos a convicção de que nos distinguimos das outras espécies e principalmente dos outros semelhantes porque pensamos. Não sei se essa convicção resiste a um pensamento mais frio. Pensamos individualmente, mas esse pensamento, que nos dota de individualidade, é fruto da necessidade de tratarmos da nossa vida, de sobrevivermos e está então mais próximo dos instintos básicos do que da racionalidade.

Contudo, desde muito cedo somos induzidos pelos que nos cercam a acreditar sem pensar, a acreditar que temos de pensar coletivamente porque nos unem referências e projetos de vida comum e a coesão da sociedade é essencial para a sua sobrevivência em competição com as outras. A convicção de que é natural numa dada sociedade todos partilharem no essencial dos mesmos pensamentos tem expressão em slogans muito difundidos, «a união faz a força», «e pluribus unum» (entre muitos, um), ou dos mosqueteiros: um por todos, todos por um e até o Deus, Pátria e Família.

No entanto, quando ouvimos líderes de grandes nações, personagens do tipo de Trump, ou de Bolsonaro, de certos bispos católicos, ou pregadores evangelistas, aytollahs e rabinos, de certos oligarcas como Elon Musk parece ser legítima a dúvida sobre a existência de um pensamento entre os humanos. Essas personagens comportam-se de acordo com um código próprio de outra espécie, das que se atiram a tudo o que brilha — caso dos espadartes — e a tudo o que mexe no seu raio de ação — caso dos toiros.

A existência dessas personagens e da multidão de fiéis e crentes que os seguem e se identificam com eles justifica que, enquanto céticos, nos interroguemos se será natural existir um pensamento coletivo em sociedades de estruturas complexas, hierarquizadas, social e politicamente desiguais. Ou será o pensamento coletivo uma construção artificial para facilitar o domínio de um ou de uns grupos sobre a sociedade, destinado a fazer parecer natural o que é uma ideologia de sujeição?

Camões, em “Os Lusíadas”, defende a existência de um pensamento identitário que unia toda a sociedade portuguesa dos séculos XV e XVI. Identifica os portugueses com um povo antigo, os Lusitanos, com uma civilização assente na pertença à mesma religião, o cristianismo, e a um espaço, o Ocidente: “Os Portugueses somos do Ocidente, imos buscando as terras do Oriente”. Existiria assim um pensamento comum aos portugueses que levaria cada um deles a sentir-se protagonista de uma epopeia, mas no “Auto da Índia” a epopeia de Camões é transformada numa farsa por Gil Vicente: Fomos ao rio de Meca, pelejámos e roubámos e muito risco passámos. O conflito entre o pensamento coletivo e o pensamento individual é comprovado com a fuga ao recrutamento obrigatório para as naus e às críticas dos regressados das campanhas na Ásia, às atividades de comércio de rapina e da guerra, com o enriquecimento dos nobres e das ordens religiosas à custa do sacrifício da maioria dos que embarcaram. Mas esse conflito ficou submerso pelo pensamento dominante, da epopeia coletiva!

Invocar o pensamento coletivo é um embuste recorrente dos poderosos ao longo da História, e revela-se com clareza que quando soberanos e sacerdotes, chefes de gangue e banqueiros enchem a boca falando de povo, se estão, de facto, a acolher debaixo desse grande barrete para levarem o povo a sacrificar-se por eles. O recurso ao pensamento coletivo, à missão coletiva, o apelo ao regionalismo, ao nacionalismo, ao heroísmo, ao clubismo, a invocação do desígnio que une ricos e pobres, homens e mulheres, a referência a um “povo eleito”, a uma “elite” militar e social são atos de demagogia e de racismo, na medida em que apelam à superioridade de casta. Utilizam os mesmos estímulos que servem para treinar os mastins de luta, os galos e os bois para combaterem entre si sendo iguais e não tendo qualquer motivo para o fazer.

Na atual prática da invocação da necessidade de um pensamento coletivo como defesa da ordem (a proclamação propagandística é a da defesa da liberdade e do “nosso modo de vida”) apenas existe a novidade da tecnologia disponível, que tem elevado a demagogia a patamares de manipulação do pensamento a inauditos níveis de intensidade. A ideologia que ainda há poucos anos era ´fornecida aos dias santos de cada religião nas suas celebrações rituais, para audiências restritas, está hoje à mercê de poderosos meios tecnológicos que permitem a difusão planetária quase instantânea de mensagens cientificamente construídas e orientadas. As ciências da biologia e dos comportamentos (individuais e coletivos) fornecem armas subtis e perversas de domínio do pensamento e por isso os poderosos se interessam tanto pelas indústrias das tecnologias da informação, da inteligência artificial, da química farmacêutica, dos satélites que permitem determinar os comportamentos.

Existe um pensamento humano? A resposta aos problemas que nos colocam a natureza e os nossos semelhantes justifica, ou permite que nos arroguemos o direito de afirmar que pensamos como seres de uma espécie? Pensamos verdadeiramente? Pensamos como um todo, como pensa um formigueiro, uma colmeia, uma matilha, um bando de aves? Pensamos em sobreviver enquanto espécie? O modo como os condutores de táxi de Nova Iorque, ou de Londres pensam o mundo tem alguma comparação com o modo como os camponeses da Somália, ou da Índia o pensam? Os banqueiros que dominam as bolsas de valores nas grandes capitais pensam o mundo como os caixas de supermercado, os barbeiros, os mecânicos, os camponeses, os pescadores, os pastores, os motoristas, os enfermeiros o pensam? O pensamento de um sem-abrigo que procura um lugar num vão de escada tem a mesma natureza do de um turista com um hotel à disposição? Um migrante subsariano que tenta passar uma fronteira a salto pensa no mesmo que um professor universitário em Berlim? A família real inglesa pensa sobre a ementa das refeições como uma mulher-a-dias filipina a quem estão destinadas as sobras dos patrões? O pensamento de um camponês africano que vê a terra seca e improdutiva é o mesmo de um cliente de hambúrgueres na Florida? O pensamento dos luzidios dirigentes dos vários grupos de dirigentes, do G-20, do G-7, do Clube de Bildberg é o mesmo dos chefes dos talibans, dos madeireiros da Amazónia, dos monges do Tibete?

O pensamento nasce e desenvolve-se como consequência de uma inquietação, de uma necessidade, de uma aspiração, de um sentimento, mas cada um de nós, individualmente e enquanto membro de uma sociedade, utiliza a palavra “pensamento” para designar fenómenos muito distintos, o transcendente e o modo de resolver problemas da nossa existência, um pensamento-ontológico e outro prático. A filosofia, entendida como a busca da sabedoria, resulta da procura de soluções para problemas práticos. Os primeiros que as encontraram foram os inventores dos criadores do universo e das religiões, que estabelecem hierarquias e deveres de obediência aos outros indivíduos, resolvendo os seus problemas de sobrevivência. Para a maioria dos seres humanos, tenham eles consciência do dilema, pensar é, em resumo, decidir ajoelhar-se perante o Criador (ou os seus agentes) ou enfrentá-lo e não lhe reconhecer a autoridade, nem a utilidade.

A ingénua frase de Descartes, penso logo existo, apesar das loas que há séculos lhe são tecidas é um embuste. Ela foi sempre negada pelos mais poderosos em cada nação, que condenaram e condenam os seres humanos que se arriscaram e arriscam a questionar a ordem imposta por eles. A frase deveria ser: «Penso, logo tenho a existência em perigo». Os exemplos são muitos, Sócrates, os cátaros, Giordano Bruno, John Hus, Galileu e tantos outros.

Os tempos de hoje continuam a ser de ameaça ao ato de pensar e ao ato de agir em conformidade. E a ameaça ao ato de pensar não se restringe a sociedades ditas suubdesenvolvidas, ou a regimes totalitários política e religiosamente. A ameaça está dentro da nossa casa comum de liberdades.

Vivemos no Ocidente tempos de censores, de impostores e de impositores de pensamento único. Pensar voltou a ser um perigo também na Europa e nas Américas, tanto ou quase quanto em África ou na Ásia, uma ameaça à ordem, uma heresia mesmo nas sociedades com regimes ditos democráticos. A atitude mais benigna da nova censura surge nas empresas que gerem as grandes redes sociais: “o seu pensar ofende os padrões da nossa comunidade”. É o início: censura.

Perante a amplitude e o vigor dos movimentos fundamentalistas que incluem o ocidental «Metoo», e os arábicos talibans, os neonazis e os evangelistas, hoje o simples ato de pensar implica correr perigo. Aos que pensam, os bem mandados, começam por atribuir um labéu: comunista foi o mais comum durante os anos da guerra fria, atualmente é o de putinista. Já foram hereges, protestantes, judeus, terroristas, livres-pensadores. Devidamente catalogados, passam à categoria de condenados e perseguidos. Nada de novo. Assim saibamos ler os tempos.


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O Pacto de Silêncio dos media mainstream vai rebentar quando?

(Por Elisabete Tavares e Pedro Almeida Vieira, in Página Um, 12/10/2022)

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Que existe um Pacto de Silêncio entre os grandes grupos de media nacionais e internacionais e as tecnológicas, que de forma dominadora e em oligopólio operam redes sociais, disso não há qualquer dúvida. Que esse Pacto de Silêncio é já óbvio para muitos, também não há dúvida.

Quanto tempo vai levar até que essa barragem de censura nacional e global rebente, é a dúvida que permanece.


Artigo completo aqui: O Pacto de Silêncio dos media mainstream vai rebentar quando? – Página Um


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