Três guerras e o futuro do planeta

(Boaventura Sousa Santos, In Outras Palavras, 08/04/2022)

Pensamos com o nosso saber e na nossa língua, mas também com o nosso corpo, a partir das nossas raízes, com as nossas emoções, no lugar e no tempo onde nos situamos. Também pensamos com a nossa ignorância desde que tenhamos consciência dela, com as nossas dúvidas desde que as não convertamos em cinismo, com as nossas ansiedades desde que não nos deixemos paralisar por elas. Pensar é, pois, difícil sempre que não se trate de repetir o que outros pensam ou que já está pensado. Há momentos na sociedade em que pensar se torna particularmente difícil. São os momentos de excessiva alegria triunfalista ou de excessiva angústia perante uma tragédia iminente, ou ainda de excessiva confusão perante acontecimentos com uma evidência tão ofuscante que produz cegueira. Nesses momentos, pensar refletidamente não é apenas pensar contra a corrente. É pensar contra a avalanche com o risco iminente de se ser arrastado por ela. Nos últimos dois anos, passamos por dois momentos deste tipo e é natural que a sociedade se sinta exausta e perplexa e quase a ponto de desistir de pensar. Os dois momentos são de natureza muito diferente, mas são igualmente avassaladores, pelo menos para quem vive na Europa. O primeiro momento foi protagonizado pela pandemia e traduziu-se num excesso de angústia ante uma tragédia iminente, a ameaça da morte própria ou de entes queridos, uma tragédia que surgiu na sociedade de surpresa e nos podia atingir pessoalmente a qualquer momento. O segundo momento é a guerra da Ucrânia em curso, um momento de tragédia para os que sofrem injustamente as consequências da guerra e de perplexidade ante o modo como um acontecimento certamente complexo tem sido analisado de modo tão grosseiramente simplista e com tanto unanimismo mediático. Não é de excluir que a sucessão tão próxima dos dois momentos contribua para o desarme intelectual e mesmo emocional que estamos a viver. Mas é importante não desistir de pensar, de pensar o impensado (porque ausente do que se ouve ou lê) e mesmo o impensável (porque conflituante com a obsessiva narrativa mediática). O meu exercício neste texto incide no segundo momento, a guerra da Ucrânia, até porque ao primeiro, a pandemia, já dediquei um livro (O Futuro Começa Agora. Da Pandemia à Utopia. Edições 70, 2020).

A narrativa única, bombardeada 24 horas por dia nos media do eixo do Atlântico Norte, em que devemos incluir o Brasil, a Austrália e o Japão, tem as seguintes características: a invasão não provocada de um país indefeso violadora do direito internacional e causada por um ditador sem escrúpulos; as graves consequências do regresso da guerra depois de quase oitenta anos de paz; um conflito em que a civilização se confronta com a barbárie, a democracia com a ditadura; o imperativo moral de tomar partido, não sendo admissíveis posições condicionais e muito menos neutras; trata-se de uma cruzada contra o mal e com o mal não se negoceia, elimina-se. Pensar no atual contexto é submeter ponto por ponto esta narrativa ao escrutínio da razão e da reflexão. Implica muitos riscos, nomeadamente o de ser considerado traidor, talvez ao serviço do inimigo. Certo destes riscos (aliás, já concretizados), atrevo-me a pensar. Mas, antes, quero referir os três mecanismos principais que são acionados para desacreditar a crítica à narrativa única.

São eles: contextualizar é relativizar; explicar é justificar; compreender é perdoar. O objetivo cumulativo dos três mecanismos não visa destruir os argumentos invocados contra a narrativa única, visa outrossim destruir ou neutralizar quem os invoca. Chama-se a isso na teoria da comunicação character assassination. Desacreditar ou demonizar o autor, em vez de refutar os argumentos. Este objetivo tem uma potencialidade expansiva enorme porque através dele se podem mobilizar muitos outros motivos, não relacionados com o tema, mas relacionados com o autor: ressentimentos ou vinganças pessoais, desacreditar as opções políticas (nomeadamente de esquerda) ou outras, veicular preconceitos étnico-raciais ou de gênero. Estes mecanismos são conhecidos, mas a sua eficácia é relativa. Tende a ser tanto maior quanto mais desestabilizadora seja a narrativa que eles procuram silenciar, ou seja, quanto maior seja a sua gravidade subjetiva. Por exemplo, a gravidade do número de mortos numa tragédia é mais ou menos intensa quanto mais próximos nos sentimos dos mortos ou quantos mais detalhes conhecemos sobre a sua morte. Ciente disto, o que pretendo analisar neste texto não visa relativizar, justificar ou perdoar a invasão ilegal da Ucrânia ou as suas trágicas consequências. Visa, pelo contrário, elucidar as razões que as tornam particularmente graves manifestações dos perigos que o mundo corre.

As várias guerras numa guerra. A guerra de agressão militar da Rússia contra a Ucrânia é a mais visível, mas não é única nem a mais grave para o futuro do mundo. São três as guerras em curso: a militar, a económica e a mediática. A guerra militar só formalmente é entre a Rússia e a Ucrânia. De fato, é uma guerra militar entre a Rússia e os EUA travada na Europa e usando a mártir Ucrânia como país de sacrifício para a proxy war entre as duas potências. A proxy war é a guerra em que os contendores usam países terceiros para que o confronto entre eles não seja direto. A Rússia está em guerra contra a presença da OTAN nas suas fronteiras e a OTAN é uma organização militar atualmente ao serviço dos interesses geopolíticos dos EUA. Basta recordar que o comandante supremo da OTAN para a Europa é “tradicionalmente um militar norte-americano”. É por pressão dos EUA que armas e combatentes estão sendo enviados à Ucrânia e todos os países europeus está elevando seus orçamentos militares. Esta guerra militar é um sinal da vida póstuma da Guerra Fria, pois, tal como esta, está dominada pela doutrina das zonas de influência. A Rússia continua a imaginar os países à sua volta (que pertenceram à União Soviética e, antes, ao Império russo) como países da sua zona de influência, tal como os EUA consideram a América Central e Latina como sua zona de influência, aliás, recentemente promovida de quintal de trás (backyard) a jardim em frente da casa (front yard). Oxalá esta promoção não seja um presente envenenado. Os dois contendores têm em comum uma visão muito relativa da autodeterminação dos povos. Apenas a promovem quando lhes convém. A gravidade desta dimensão da guerra militar reside em que, embora a Rússia (então URSS) tenha reconhecido em 1962 (a crise dos mísseis) a zona de influência dos EUA, estes não reconhecem a zona de influência russa. Assumem que o fim da União Soviética foi uma derrota da Rússia e uma vitória dos EUA, o que obviamente não foi o caso. Para os EUA, toda a Europa (que para eles não inclui a Rússia), e não apenas a antiga “Europa Ocidental”, é agora a sua zona de influência. O que o Presidente Biden pretende com o regime change na Rússia não é a democracia, é antes o reconhecimento desta zona de influência.

A segunda guerra em curso é a guerra econômica. Esta guerra é entre os EUA e a China. A Rússia é uma grande potência militar (maior número de ogivas nucleares), mas o seu PIB é inferior ao do Texas. Ao contrário, a China será no início da década de 2030 a maior economia do mundo e é já hoje a grande rival dos EUA, a “ameaça existencial” para este país. Pode-se mesmo dizer que nesta guerra talvez também haja uma proxy war, mas, neste caso, o país de sacrifício é a própria Rússia. A Rússia é o aliado mais importante da China e a via terrestre para a expansão da China em direção ao Ocidente. Vencer a Rússia é travar a China, tal como no golpe na Ucrânia em 2014, incentivado pelos EUA, tratou-se de travar a aproximação da Rússia. Aparentemente imparável, a expansão econômica da China é uma ameaça existencial para os EUA, no sentido mais literal do termo, porque pode constituir o fim do único fator que mantém a primazia dos EUA no mundo: o dólar como moeda de reserva internacional. Só isso explica que neste momento pelo menos 25 países sejam objeto de sanções econômicas dos EUA e que elas afetem mais ou menos gravemente a sua economia. As negociações em curso entre a China, a Rússia, a Arábia Saudita e o Irã, e entre a Índia e a Rússia, para utilizarem outras moedas nas suas transações constituem uma ameaça a este statu quo. Mas a guerra econômica em curso tem ainda outra dimensão: tornar a Europa mais dependente da economia dos EUA e aumentar os gastos militares que alimentam o atual boom do complexo industrial-militar dos EUA.

Finalmente, está em curso uma guerra mediática e é nesta guerra que a derrota da Rússia ocorre mais rápida e estrondosamente.

A guerra na Ucrânia é uma guerra ao vivo, incessantemente ao vivo. Em nenhuma guerra recente foi possível ver de tão perto o horrível sacrifício de quem é vítima dela. Muitas outras guerras estão em curso no nosso tempo dominado por tecnologias de informação e de comunicação, mas nunca antes foi possível ver ao vivo o horror da guerra como nesta guerra, sobretudo o horror dos civis, por definição, inocentes.

Nas guerras do Iraque, do Afeganistão, da Síria, da Líbia, do Iémen, da Palestina, da Somália, do Sahara Ocidental os repórteres (sobretudo ocidentais) apenas viram depois (quando viram) ou viram de longe. Havia muitas linhas vermelhas que a ética jornalística ou a segurança militar não permitiam ultrapassar. Muitas vezes, os jornalistas só foram autorizados a reportar junto ao exército aliado e a transmitir as imagens por este autorizadas (embedded journalists). Não vimos caras ensanguentadas nem corpos despedaçados, nem hospitais bombardeados, nem milhares de refugiados em fuga, nem tanta criança exangue a chorar, nem tanta boneca abandonada. Também nunca vimos repórteres incluir na informação relevante a cor dos olhos da entrevistada, “a menina de dezoito anos e de olhos azuis sentada na estação de”. Mesmo que a reportagem se destinasse a públicos onde os olhos azuis são raros. Mas, acima de tudo, não vimos o horror da guerra na própria Ucrânia, entre 2014 e 2022, na região de Donbass conduzida por milícias neo-Nazis contra civis com a mesma cor dos olhos; nem os mesmos hospitais com as mesmas cenas de sangue e de fuga de refugiados (ainda que noutra direção). Como disse e repito, para mim, a vida é um valor incondicional e perante ele o número de mortes é sempre relativo, mas, mesmo assim, na guerra civil da Ucrânia em Donbass morreram entre 10 mil e 14 mil civis, também ucranianos e provavelmente de olhos azuis. Até agora (28 de Março) na guerra com a Rússia morreram cerca de 1000 civis.

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A Europa e seus cem anos de solidão

(Boaventura Sousa Santos, in OutrasPalavras, 05/04/2022)

Curvado aos caprichos dos EUA e da OTAN, Velho Continente tornou-se pequeno e prepotente. Já não tem a influência geopolítica do passado – e guerra pode isolá-lo ainda mais. Mas mundo vai além daquele visto pelas lentes eurocêntricas…


Cem anos depois da Primeira Guerra Mundial os líderes europeus caminham sonâmbulos para uma nova guerra total. Tal como em 1914, pensam que a guerra da Ucrânia será limitada e de curta duração. Em 1914, dizia-se nos ministérios que a guerra duraria três semanas. Foram quatro anos e mais de 20 milhões de mortos. Tal como em 1918, domina hoje a posição de que é necessário punir exemplarmente a potência agressora de modo a deixá-la prostrada e humilhada por muito tempo.

Em 1918, a potência vencida foi a Alemanha (e também o Império Otomano). Houve vozes discordantes (John Maynard Keynes e outros) para quem a humilhação total da Alemanha seria desastrosa para a reconstrução da Europa e para a paz duradoura no continente e no mundo. Não foram ouvidas, e 21 anos depois a Europa estava de novo em guerra. Seguiram-se cinco anos de destruição e mais de 70 milhões de mortos. A história não se repete e aparentemente nada ensina. Mas serve para ilustrar e mostrar semelhanças e diferenças. Vejamos umas e outras à luz de duas ilustrações.

Em 1914, havia cem anos que a Europa vivia em relativa paz, com muitas guerras, mas circunscritas e de pouca duração. O segredo dessa paz fora a Conferência de Viena (1814-1815). Nessa conferência tratou-se de pôr fim ao ciclo de transformação, turbulência e guerra que começara com a Revolução Francesa e se agravara com as guerras napoleônicas. O pacto com que terminou a conferência foi assinado nove dias antes da derrota final de Napoleão em Waterloo.

Nessa conferência, dominaram as forças conservadoras e o período que se seguiu foi denominado Restauração (da velha ordem europeia). A reunião de Viena tem, no entanto, uma outra característica que nos faz recordá-la agora. Foi presidida por um grande estadista austríaco, Klemens von Metternich, que teve com principal preocupação incorporar todas as potências europeias, tanto as vencedoras como as vencidas, de modo a garantir uma paz duradoura. Claro que a potência perdedora (a França) teria de sofrer as consequências (perdas territoriais), mas o pacto foi firmado por ela e por todas as outras potências (Áustria, Inglaterra, Rússia e Prússia) e com condições impostas a todos de modo a garantir uma paz duradoura na Europa. E assim se cumpriu.

São muitas as diferenças em relação ao nosso tempo. A principal é que, desta vez, o teatro de guerra é a Europa, mas as partes em conflito são uma potência europeia (a Rússia) e uma potência não europeia (os EUA). A guerra tem todas as características de uma proxy war, uma guerra em que os contendores se aproveitam de outro país (a Ucrânia), o país do sacrifício, para realizar objetivos geoestratégicos que em muito transcendem os desse país e mesmo os da região em que se integra (a Europa).

Verdadeiramente, a Rússia só está em guerra com a Ucrânia porque está em guerra com a OTAN, uma organização cujo supremo comandante aliado para a Europa é “tradicionalmente um comandante norte-americano”. Uma organização que, sobretudo depois do fim da primeira Guerra Fria, tem servido os interesses geoestratégicos dos EUA. A Rússia sacrifica de modo ilegal e brutal os princípios da autodeterminação dos povos, de que já foi um importante arauto em contextos geopolíticos anteriores, para fazer valer as suas preocupações de segurança depois de as não ver reconhecidas por vias pacíficas e por um indisfarçável saudosismo imperial.

Por sua vez, os EUA estão apostados desde o final da primeira Guerra Fria em aprofundar a derrota da Rússia, uma derrota que foi talvez mais autoinfligida do que provocada pela superioridade do adversário. Por um breve período, a disputa diplomática em Washington foi entre a “parceria para a paz” e “a expansão da OTAN para garantir a segurança dos países emergentes do bloco soviético”. Com o presidente Bill Clinton foi esta última política que prevaleceu.

Por razões diferentes, também para os EUA, a Ucrânia é o país do sacrifício. A guerra da Ucrânia está sujeita ao objetivo de infligir uma derrota incondicional à Rússia que, de preferência, tem de durar até provocar o regime change em Moscou. A duração da guerra está sujeita a esse objetivo. Se o primeiro-ministro britânico se autoriza a afirmar que as sanções contra a Rússia continuarão qualquer que seja agora a posição da Rússia, qual é o incentivo desta para pôr fim à guerra? Afinal, basta que Vladimir Putin seja afastado (tal como aconteceu a Napoleão em 1815) ou é a Rússia que tem de ser afastada para travar a expansão da China? Também houve regime change na humilhada Alemanha em 1918, mas o seu decurso terminaria em Hitler e numa guerra ainda mais devastadora.

A grandeza política do presidente Volodymyr Zelenskii tanto poderia ser construída como o corajoso patriota que defende o seu país do invasor até à última gota de sangue, como a do corajoso patriota que, perante o perigo de tanta morte inocente e dada a assimetria de força militar, consegue, com o apoio dos seus aliados, uma negociação forte e uma paz digna. O fato de prevalecer hoje a primeira construção não decorre das inclinações pessoais do presidente Zelenskii.

A segunda ilustração para ver semelhanças e diferenças com o passado recente diz respeito à posição geopolítica da Europa. Durante as duas guerras mundiais do século XX, a Europa era o autoproclamado centro do mundo. Por essa razão é que as guerras foram mundiais. Cerca de 4 milhões das tropas “europeias” eram de fato africanas e asiáticas e muitos milhares de mortes de não europeus foram o preço do sacrifício por serem habitantes de colônias de países distantes envolvidos em guerra que não lhes diziam respeito.

Hoje, a Europa é um canto do mundo, e a guerra da Ucrânia torná-lo-á ainda mais pequeno. Durante séculos foi o extremo da Eurásia, essa grande massa de terra entre a China e a Península Ibérica, por onde circularam saberes, produtos, inovações científicas, culturas. Muito do que mais tarde foi atribuído ao excepcionalismo europeu (desde a revolução científica do século XVI até à revolução industrial de 1800) não se entende nem ocorreria sem essa circulação multissecular.

A guerra da Ucrânia, sobretudo se se prolongar, corre o risco, não só de amputar a Europa de uma das suas potências históricas (a Rússia), como de a isolar do resto do mundo e, muito especialmente, da China. O mundo é imensamente maior do que aquilo que se vê com óculos europeus. Vistos com estes óculos, os europeus nunca se sentiram tão fortes, tão unidos ao seu parceiro maior, tão confiantemente do lado certo da história, com o mundo da “ordem liberal” dominando o planeta e tão suficientemente forte para daqui a algum tempo se aventurar a conquistar ou, pelo menos, neutralizar a China, depois de ter arrasado o seu principal parceiro, a Rússia.

Vistos com óculos não europeus, a Europa e os EUA estão orgulhosamente quase sós, talvez capazes de ganhar uma batalha, mas certamente a caminho da derrota na guerra da história. Mais de metade da população do mundo vive em países que decidiram não aplicar sanções à Rússia. Muitos dos que votaram (e bem) na ONU contra a invasão ilegal da Ucrânia fizeram-no com justificações da sua experiência histórica, a qual não era a de serem invadidos pela Rússia, mas antes pelos EUA, pela Inglaterra, pela França, por Israel.

As suas decisões não foram resultado da ignorância, mas da precaução. Como podem eles confiar em países que, depois de terem criado um sistema de transferências financeiras (SWIFT) com o objetivo de defender as transações econômicas de interferências políticas, expulsam um país por razões políticas? Em países que se arrogam poder confiscar as reservas financeiras e de ouro de países soberanos como o Afeganistão, a Venezuela e agora a Rússia? Em países que proclamam a liberdade de expressão como um sacrossanto valor universal, mas recorrem à censura logo que se sentem desmascarados por ela? Em países supostamente amantes da democracia que não hesitam em provocar golpes sempre que os eleitos não convêm aos seus interesses? Em países para quem, segundo as conveniências do momento, o “ditador” Nicolas Maduro pode, de repente, virar parceiro comercial? O mundo perdeu a inocência, se é que alguma vez a teve.


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Resposta a Manuel Carvalho

(Boaventura Sousa Santos, in Público, 12/03/2022)

No dia anterior ao artigo mencionado por Manuel Carvalho, publicava o Jornal de Letras um artigo meu intitulado É ainda possível pensar com complexidade? A certa altura pode ler-se o seguinte: “No eixo Atlântico Norte, a polarização de opiniões é tal que deixou de ser possível introduzir complexidade na discussão, uma posição muito semelhante à que se viveu no imediato pós-11 de Setembro. Qualquer posição que contextualize ou problematize é considerada traição. Putin também tem seguidores igualmente primários. Alguns sectores da esquerda (por exemplo, no Brasil e em Portugal) recusaram-se a condenar a invasão da Ucrânia. Talvez por pensarem que Putin é um legítimo herdeiro da União Soviética? Não se terão dado conta de que Putin é um líder conservador próximo da extrema-direita europeia crítico de Lenine e com contactos privilegiados com Marine Le Pen e Donald Trump?

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Aliás, o apoio do partido comunista russo a Putin é comedido e alguns dos seus líderes não têm hesitado em distanciar-se dele. Em entrevista à BBC, em 28 de Fevereiro, o vice-presidente do Comité de Política Regional da Duma do Estado do Partido Comunista Russo, Mikhail Matveev declarou: ‘No meu entendimento, o potencial de reconhecer as repúblicas [Donetsk e Lugansk] e de lhes dar um novo estatuto mais protegido, como foi o caso da Abecásia e da Ossétia do Sul, não foi aproveitado. Aparentemente, o partido da guerra decidiu que não havia sequer necessidade de tentar construir uma nova relação entre a liderança da Ucrânia e essas repúblicas noutras realidades, sendo certo que o exército russo estacionado lá funciona como um escudo e garante que não haverá ataques às cidades de Donbass. Eles [Governo de Putin] nem tentaram. Na minha opinião, esta lógica agressiva está agora a levar a uma crescente exasperação. Quanto mais pessoas forem mortas de ambos os lados, mais difícil se torna parar a batalha… Este é um grave erro da liderança russa que não usou todas as possibilidades para uma solução pacífica do problema. Decidiram cortar imediatamente todas as perguntas acumuladas com um só golpe’”.

Sobre o que penso de Putin a da invasão da Ucrânia dispenso-me de maior especificação. Claro que não se exige que um director de jornal, que aliás muito aprecio, leia tudo o que se escreve sobre os temas da actualidade e não é por isso que lhe respondo. Aliás, é de saudar como um sinal da vitalidade da democracia em que vivemos que o PÚBLICO tenha publicado um artigo contra o qual se insurgiu em termos tão veementes o seu director. Não conheço muitos jornais no mundo onde isto seria possível. Parabéns ao PÚBLICO, pois. Respondo-lhe porque a precipitação e a linearidade da sua condenação do meu texto são reveladoras do tempo que vivemos e não desisto de ser sociólogo da minha circunstância.

Na minha longa vida passei já por três momentos em que não foi possível pensar com complexidade e contracorrente e em que paguei um preço por isso. O primeiro foi logo depois do 25 de Abril. Na altura houve uma viragem brusca e radical à esquerda e quem não estivesse connosco estava contra nós. Penso que fui na altura o único director de uma Faculdade de Economia que não era filiado no PCP ou num partido próximo. Fui publicamente acusado de ser um agente da CIA (talvez porque tinha acabado de terminar o meu doutoramento na Universidade de Yale). Valeram-me os estudantes ao eleger-me (não sabiam se eu era da CIA, mas pelo menos sabiam que eu fora o único professor a ensinar-lhes Karl Marx antes da revolução de Abril).

O segundo momento foi no 11 de Setembro de 2001. Estava nos EUA — sim, porque nos últimos 35 anos vivi quase metade de cada ano nos EUA, afiliado a uma universidade, e se pensasse deste país o que me é atribuído por M.C. este facto teria difícil explicação — e participava num debate na Universidade de Columbia (Nova Iorque) sobre direitos humanos. Porque na minha intervenção, e apesar de ter condenado veemente o ataque às Torres Gémeas, ousei falar da necessidade de respeitar os direitos humanos em todas as circunstâncias e não desistir de continuar o diálogo intercultural com o mundo islâmico, fui invetivado violentamente pelos meus colegas de Harvard que quase me consideraram filoterrorista. Nos anos seguintes, estes colegas viriam a justificar a tortura e outras coisas piores contra a Constituição dos EUA. Estamos num novo tempo de extrema polarização. Não a vi a na invasão e destruição do Iraque nem noutras (muitas) situações.

Para mantermos a capacidade de pensar mesmo nos momentos de perigo, como nos ensinou Walter Benjamin, não é nunca saudável que se atinja este nível de polarização. Tal como não é aceitável passar em silêncio a violência as atrocidades quando elas ocorrem mais longe de nós e não mobilizam a nossa comunicação social. A vida humana para mim tem um valor incondicional. É terrível o sofrimento dos ucranianos que queriam tão pouco a guerra quanto qualquer de nós. Mas dói-me igualmente as mortes injustas que ocorreram nos mesmos dias noutras guerras em outras regiões do mundo. Nenhuma morte injusta pode relativizar ou justificar qualquer outra morte injusta. Segundo uma conhecida organização que regista as mortes em guerra em todo o mundo, eis a estatística do período inicial da invasão da Ucrânia (20 de fevereiro-4 de Março): 114 (Ucrânia), 23 (Iraque), 511 Iémen, 187, Síria, 192, Mali, 527, Nigéria, 155 (República Democrática do Congo), 180 (Somália), 112 (Burkina Faso). O facto de nenhuma das outras tragédias ter merecido qualquer atenção dos meios de comunicação não tem para mim outro significado ou interesse senão o de me permitir conhecer os mecanismos sociológicos da formação do pânico moral e da indignação pública.

É típico das situações de extrema polarização que se atribuam intenções conspirativas ou ocultas à análise que se faz de uma da situação. É isso mesmo que faz M.C.. Tem obviamente uma leitura oposta à minha de tudo o que se passou depois de 2014. Mas nem por sombras me passa pela cabeça acusá-lo de ser um agente da CIA. É legítimo que pense diferente. O futuro acabará por esclarecer. Como foi o futuro quem esclareceu que afinal não havia armas de destruição massiva no Iraque, infelizmente só depois de muitos milhares de mortos e de um país destruído.

Há, no entanto, um tema que não convém passar em claro porque é de iminente relevância para a Europa. O neo-nazismo não é coisa de menos na Ucrânia. Este país é o único onde líderes neo-nazis foram condecorados pelo Presidente da República e onde as suas milícias (nomeadamente o Batalhão Azov) foram integradas no exército regular. Para não se pensar, mais uma vez, que é conspiração, remeto os leitores para think tank informal da NATO, o Atlantic Council.

Reconheceu em 2018 que a Ucrânia tinha um problema de extrema-direita, e em 24 de fevereiro de 2020 publicava um artigo intitulado Why Azov should not be designated a foreign terrorist organization. Uma leitura atenta do documento esclarece mais do que eu posso aqui fazer.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico


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